Pular para o conteúdo
Hermisten Maia

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (25)

Rev. Hermisten Maia10 min de leitura

8.3. Propósito salvador

“Cristo sofreu por nós, não porque somos dignos ou porque somos capazes de produzir alguma coisa que provoque a reação divina, mas porque esse foi o propósito de Deus”, esclarece Calvino.1

Deus nos escolheu e nos justificou (Rm 8.33) para a salvação eterna, a qual começa agora (Rm 11.7-11; 2Ts 2.13,14/1Ts 5.9; Jo 17.2/Mt 24.31; 2Tm 2.10). A salvação concedida por Deus, não é algo abstrato, antes tem implicações concretas em nossa cotidianidade como parte de Seu propósito histórico.

Na salvação entramos em nova relação com Deus. Antes estávamos distantes dele – o pecado faz separação –; agora estamos em Cristo Jesus, fomos reconciliados com Deus. Aqui está o fundamento de nossa nova vida (2Co 5.18,19). A nossa salvação, dentro do propósito de Deus, conforme vimos, envolve:

a) Adoção: (Ef 1.5) Fomos recebidos no número dos filhos de Deus, passando a ter direito a todos os privilégios dessa filiação;

b) Redenção: (Ef 1.7) Livrou-nos da condenação mediante o pagamento de nosso resgate pelo Seu sangue;

c) Fé: (Ef 1.13) Deus nos elegeu para que tivéssemos fé na verdade.

d) Selo e Penhor do Espírito: (Ef 1.13-14) Deus nos concede o Espírito que habita em nós sendo um atestando inviolável de nossa redenção.

8.4. Propósito glorificador

“Não há glória real senão em Deus”, exulta Calvino.2 O objetivo final da nossa eleição – bem como o de todas as coisas –, é a Glória de Deus (Ef 1.4-6,12-14; 2.6,7; Rm 9.23/Is 43.7).3 Aqui temos o nosso horizonte espiritual ampliado: “a coisa principal não é que os eleitos sejam salvos, mas que Deus seja justificado em todas as suas obras e glorificado no juízo”.4

A glória de Deus, que é a beleza harmoniosa de Suas perfeições, é realçada por intermédio da nossa salvação e santificação em Cristo Jesus. “A glória de Jesus é a salvação de seus seguidores”, escreve Hendriksen.5 E, “A glória do Pai lhe é invisível até que ela resplandeça em Cristo”6

Deus nos elegeu para sermos o instrumento de louvor da glória da Sua graça. A conclusão de nossa salvação revela a glória da graça salvadora de Deus (Ef 1.6,11,12,16).

Deus objetiva a Sua glória, porque não há nada maior do que Ela7 – e na nossa eleição resplandece a glória da graça de Deus em atos de bondade para conosco (Ef 1.6,13,14) –; portanto, não procurar a Sua Glória, significaria a autonegação de que Ele é o Senhor da Glória.

Deus criou todas as coisas, inclusive a Igreja, para a Sua Glória. A Glória de Deus é a “excelência manifestada. A excelência dos atributos de Deus é manifestada por sua operação”.8 Deus manifesta a Sua Glória por intermédio dos eleitos que compõem a Sua Igreja. Ele mesmo, “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado” (Ef 1.5-6).9 O Catecismo de Genebra (1541/2), escrito por Calvino, diz que Deus nos criou “e pôs neste mundo para ser glorificado em nós. E é coisa justa que nossa vida, da qual Ele é o começo, seja dedicada à Sua glória”.10 Em outro lugar, afirma: “A glória de Deus é a finalidade mais elevada, à qual a nossa santificação está subordinada”.11

Desta forma, o homem como criatura de Deus, só se realiza quando vive para a glória de Deus, que é também, o seu fim último (2Co 5.8; Gl 2.20; Fp 1.21,23). O Catecismo Menor de Westminster, à pergunta nº 1, “Qual é o fim principal do homem?”, responde: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.” (Ver: Is 43.7; 60.21; 61.3; Rm 11.36; 14.7-8; 1Co 10.31; Ef 1.5-6).

Portanto, a nossa vida deve ter como propósito último, glorificar a Deus: “A glória de Deus deve resplandecer sempre e nitidamente em todos os dons com os quais porventura Deus se agrade em abençoar-nos e em adornar-nos. De sorte que podemos considerar-nos ricos e felizes nele, e em nenhuma outra fonte.”12

A felicidade do homem está condicionada ao seu genuíno conhecimento de Deus; ela está subordinada à Glória de Deus. Só conseguimos ter uma visão adequada dos objetivos secundários quando conseguimos enxergar corretamente o fim principal. O homem só descobre o sentido da vida e da eternidade, quando, pelo Espírito,13 consegue compreender que o fim principal de todas as coisas é a Glória de Deus e, então passa a viver para este fim (1Co 10.31; Cl 3.23).14 Calvino, então, aconselha: “Não busquemos nossos próprios interesses, mas antes aquilo que compraz ao Senhor e contribui para promover sua glória”, exorta-nos Calvino.15

Comentando o Salmo 69.9, o Reformador fala com a veemência própria de quem vivia este princípio:

A forma como ele [Davi] fazia isso, ele mostra que era através do zelo pela Igreja de Deus com que sua alma se inflamava. Não só assinalava a causa dos maus tratos que recebia – seu zelo pela casa de Deus -, mas também declara que, qualquer que fosse o tratamento de que imerecidamente fosse alvo, todavia, por assim dizer, esquecendo-se de si mesmo, ele arderia de santo zelo para manter a Igreja, e ao mesmo tempo a glória de Deus, com a qual vive em comunhão indestrutível. […]

Davi ignorou a si próprio, e que toda a tristeza que sentia era procedente do santo zelo com que ardia quando via o sacro nome de Deus insultado e ultrajado com horríveis blasfêmias. […]

Até que tenhamos aprendido a dar pouco valor a nossa reputação pessoal, jamais seremos inflamados com genuíno zelo em contender pela preservação e avanço dos interesses da glória divina […]

Visto que Cristo, em quem resplandece toda a majestade da Deidade, não hesitou a expor-se a todo gênero de afronta para a manutenção da glória de seu Pai, quão vil e ignominioso será se nos reduzirmos a semelhante sorte.16

Esse objetivo tem um sentido escatológico. A primeira vinda de Cristo foi em humildade. Ele fez-se pobre por nós, deixando a manifestação da Sua glória eterna para conviver conosco (Is 52.2-3; Jo 17.5; Fp 2.7-8; 2Co 8.9). Na segunda vez, Cristo virá em poder e glória, manifestando a todos a Sua vitória que foi adquirida para o Seu povo, sobre Satanás, a morte e o pecado. Ele virá em companhia de Seus anjos e das almas dos fiéis que já tiverem morrido (Mt 16.27; 1Ts 3.13; 4.14). As almas dos que morreram se juntarão aos seus corpos ressuscitados (1Co 15.52). A glória de Cristo será reconhecida por todos (Fp 2.11). A salvação da Sua Igreja será o troféu da Sua vitória (Jo 17.10/2Ts 1.10,12).

Paulo fala que a Igreja será glorificada em Cristo (2Ts 1.12/Rm 8.17/Cl 3.4), significando com isso, que a Igreja participará da Glória de Cristo. Calvino (1509-1564), interpretando o texto de 2Ts 1.12, diz: “São Paulo declara que nosso Senhor Jesus Cristo não virá para guardar a Sua glória para si mesmo, senão para que seja derramada sobre todos os membros de seu corpo”.17 Cristo virá como Rei dos reis, Senhor dos senhores (Vejam-se: Mt 19.28; 24.30; 25.31; Cl 3.4; Tt 2.13; 1Pe 4.13).18 A nossa salvação final será o triunfo da graça de Deus redundando em louvores por parte de todos os salvos. Glória ao Salvador!

Maringá, 18 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

*Leia esta série completa aqui.


O Espírito dirige a Igreja na glorificação de Cristo, ensinando-lhe a obediência: Foi justamente na obediência perfeita ao Pai, que o Filho o glorificou. “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer” (Jo 17.4). A obediência é fruto da genuína fé. Na obediência a Cristo, a Igreja O glorifica. O Espírito que cumpre Seu Ministério obedientemente (Jo 16.13-14), conduz a Igreja a ser a glorificação de Cristo em sua obediência (Jo 17.9,10).

A Igreja é a evidência concreta e real de que o Testemunho histórico do Espírito não foi em vão.

Footnotes

  1. João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, p. 28. ↩

  2. João Calvino, As Pastorais, (1Tm 1.17), p. 46. ↩

  3. Vejam-se: Catecismo de Genebra, Pergs. 1-2: In: Catecismos de la Iglesia Reformada, Buenos Aires: La Aurora, 1962, p. 29; Catecismo Menor de Westminster, Perguntas: 1,7,46,47,101; J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.23), p. 343-344; J. Calvino, As Institutas, III.23.8; III.24.14; Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A.A. Hodge, p. 96. Hodge: “A causa final de todos os propósitos de Deus é Sua própria glória” (Ap 4.11; Nm 14.21; Is 48.11; Ez 20.9). (Charles Hodge, Systematic Theology, v. 1, p. 535). ↩

  4. Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit, Chattanooga: AMG. Publishers, 1995, p. 10. ↩

  5. William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, (Jo 17.6), p. 758. ↩

  6. João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 1.3), p. 34. “O objetivo final da eleição não será atingido até que Deus, tendo operado a salvação dos eleitos – e tendo-os levado para a glória – seja, deste modo, glorificado plenamente em Si Mesmo” (Fred H. Klooster, A Doutrina da Predestinação em Calvino, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP., 1992, p. 29). ↩

  7. “Sendo Deus mesmo infinitamente mais digno do que a soma de todas as criaturas, segue-se que a manifestação da sua própria excelência é fim infinitamente mais digno e exaltado do que o seria a felicidade das criaturas; seria realmente o fim o mais exaltado e digno que nos é possível imaginar” (A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 223). ↩

  8. A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 223. ↩

  9. Vejam-se também: Confissão de Westminster, III.3,5,7; V.1; XXXIII.2; Catecismo Maior, Pergs. 12 e 18; Catecismo Menor, Perg. 7. ↩

  10. John Calvin, Catechism of the Church of Geneva, Pergunta 2. In: John Calvin, Tracts and Treatises on the Doctrine and Worship of the Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1958, v. 2, p. 37. ↩

  11. João Calvino, Efésios, (Ef 1.4), p. 25. ↩

  12. João Calvino, O Livro dos Salmos, (Sl 48.3), p. 356. ↩

  13. Este conhecimento é operado pelo Espírito no coração dos eleitos. Quando isto acontece, Cristo de fato é glorificado: O Espírito é o agente da glorificação de Cristo (Jo 16.13-14). Notemos que o testemunho do Espírito visa basicamente a glorificação de Cristo e, esta glorificação só se torna possível mediante a conhecimento da Pessoa de Cristo. A Igreja é constituída por aqueles que receberam o Testemunho do Espírito através da Palavra e o guardou, revelando-o na sua vida (Mt 5.14-16/Jo 17.6-8; Mt 28.20) e na sua proclamação (Mt 28.19-20/Jo 17.20; At 1.8/Jo 15.26-27). ↩

  14. Ver: Charles Hodge, Systematic Theology, v. 1, p. 535-537. ↩

  15. João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 30. De forma semelhante: “Não busquemos as cousas que são nossas, mas aquelas que não somente sejam da vontade do Senhor, como também contribuam para promover-lhe a glória” (João Calvino, As Institutas, III.7.2). ↩

  16. João Calvino, O Livro dos Salmos, (Sl 69.9), v. 3, p. 21-22. ↩

  17. Juan Calvino, Sermones Sobre La Obra Salvadora De Cristo, Jenison, Michigan: TELL., 1988, p. 225. ↩

  18. “Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19.28). “Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória” (Mt 24.30). “Quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então, se assentará no trono da sua glória” (Mt 25.31). “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, vós também sereis manifestados com ele, em glória” (Cl 3.4). “Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2.13). “Pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” (1Pe 4.13). ↩