2. A longanimidade dos filhos de Deus

 

As Escrituras apontam para o fato de que a longanimidade primeiramente beneficia quem a tem:[1] “O longânimo (makro/qumoj) é grande em entendimento, mas o de ânimo precipitado exalta a loucura” (Pv 14.29) e, também, àqueles que lhe estão próximo, promovendo a comunhão e a paz: “O homem iracundo suscita contendas, mas o longânimo (makro/qumoj) apazigua a luta” (Pv 15.18/Ec 7.8). “Longanimidade é a suavidade de mente, a qual nos dispõe a levar tudo com otimismo, não permitindo a suscetibilidade”, define Calvino (1509-1564).[2]

 

O longânimo é comparado a um herói de guerra, sendo considerado superior, certamente devido à dificuldade que o ser humano tem em controlar a sua ira: “Melhor é o longânimo (makro/qumoj) do que o herói da guerra, e o que domina o seu espírito, do que o que toma uma cidade” (Pv 16.32). “O homem que pode dominar a si mesmo é o homem que pode governar aos outros”, interpreta Barclay.[3]

 

Podemos ilustrar isso na vida de Saul, rei de Israel, que conseguiu grandes vitórias sobre seus inimigos, mas foi incapaz de controlar seu temperamento, agindo precipitadamente ao sabor das circunstâncias, desobedecendo a Deus, perdendo por isso o trono (1Sm 13.8-14).

 

O homem longânimo é considerado inteligente: “Quem retém as palavras possui o conhecimento, e o sereno de espírito (Makro/tumoj) é homem de inteligência” (Pv 17.27).

 

A longanimidade é um antídoto contra a arrogância, constituindo-se num estímulo à humildade: “Melhor é o fim das coisas do que o seu princípio; melhor é o paciente (marko/qumoj) do que o arrogante” (Ec 7.8).

 

A Longanimidade é uma obra do Espírito em nosso coração e atitude: “O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade (makroqumi/a)….” (Gl 5.22). Isto significa que a nossa comunhão com Deus e o enchimento do Espírito revelam-se em nossa longanimidade.

 

O amor, como fruto do Espírito, também é longânimo: “O amor é paciente (makroqume/w), é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece” (1Co 13.4/Gl 5.22).

 

A clemência que faz com que Deus nos perdoe, torna-nos também responsáveis por exercitar a nossa longanimidade de forma perdoadora para com o nosso próximo. Na já citada parábola do Credor Incompassivo, vemos que o Senhor que perdoou aquele servo que clamou por sua longanimidade, foi posteriormente recriminado justamente porque não atendeu igual clamor de um conservo, conforme relata o texto bíblico:

 

O reino dos céus é semelhante a um rei que resolveu ajustar contas com os seus servos. E, passando a fazê-lo, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo ele, porém, com que pagar, ordenou o senhor que fosse vendido ele, a mulher, os filhos e tudo quanto possuía e que a dívida fosse paga. Então, o servo, prostrando-se reverente, rogou: Sê paciente (makroqume/w) comigo, e tudo te pagarei. E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos que lhe devia cem denários;[4] e, agarrando-o, o sufocava, dizendo: Paga-me o que me deves. Então, o seu conservo, caindo-lhe aos pés, lhe implorava: Sê paciente (makroqume/w) comigo, e te pagarei. Ele, entretanto, não quis; antes, indo-se, o lançou na prisão, até que saldasse a dívida. Vendo os seus companheiros o que se havia passado, entristeceram-se muito e foram relatar ao seu senhor tudo que acontecera. Então, o seu senhor, chamando-o, lhe disse: Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti? E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida. Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão. (Mt 18.23-35/Pv 19.11).

 

 

Maringá, 02 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1] “Deve-se dizer que na Grécia antiga makrothymia se ocupa primariamente com a formação do caráter do próprio homem, não sendo uma virtude que se exerce para com o próximo” (U. Falkenroth e C. Brown, Paciência: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 374). Este mesmo sentido é encontrado na Literatura Sapiencial

[2]João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 5.21-23), p. 171.

[3] William Barclay, As Obras da Carne e o Fruto do Espírito, São Paulo: Vida Nova, 1985,  p. 90.

[4]Um talento equivalia a seis mil denários, que correspondia a um dia de trabalho (Mt 20.2,13). Portanto, a dívida perdoada de 10 mil talentos correspondia à quantia de 60 milhões de denários. O servo que recebeu este perdão não quis perdoar aquele que lhe devia o equivalente a 1/600 mil avos da dívida perdoada.


1 comentário

Jamir Mendonça da Silva · 8 de maio de 2019 às 17:47

Não creio que “longanimidade” é algo com que nascemos, mas, sim, que recebemos de Deus mediante à conversão à Cristo.

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