Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (39)

10.1.3. Longanimidade (Ef 4.2)

 

A palavra empregada por Paulo é makroqumi/a, formada por: Makro/j = (“longe”, “distante”) e qumo/j = (“ira”, “indignação”, “cólera”, “furor”). makroqumi/a significa, portanto, manter longe de nós a cólera e o furor, perseverando na paciência. Esta palavra enfatiza o contraste com a ira ou hostilidade.[1] Ela acentua aquele que mesmo podendo retribuir a maldade alheia de forma semelhante, suporta o sofrimento e manifesta-se com clemência, sem retaliação ou vingança. Esta palavra ressalta a paciência que devemos ter com as pessoas e, também, a perseverança que deve nos guiar no aguardo das promessas de Deus, ainda que as circunstâncias pareçam antagônicas.

 

Estudemos um pouco o que as Escrituras nos ensinam sobre a longanimidade:

 

1) A longanimidade de Deus

 

No Antigo Testamento[2] esta palavra era usada especialmente para Deus, referindo-se à Sua clemência a qual era objeto do clamor dos pecadores arrependidos, que buscavam o perdão de Deus. A longanimidade de Deus é ressaltada no fato Dele não manifestar a Sua ira de forma imediata. Deus é chamado de “longânimo”, “clemente”, “compassivo” (Ex 34.6; Ne 9.17; Sl 86.15; 103.9; 145.8; Jl 2.13; Jn 4.2; Na 1.3).[3]

 

A) A riqueza da longanimidade de Deus

 

As Escrituras nos ensinam que Deus é rico em sua longanimidade. Paulo usa este argumento para evidenciar o desejo de Deus de que os homens se arrependam de seus pecados e tornem-se para Ele. Indaga aos romanos: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade (makroqumi/a), ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” (Rm 2.4).

 

À frente o apóstolo demonstra que Deus na Sua soberania suportou com longanimidade os vasos de ira a fim de realçar a Sua glória por meio dos vasos de misericórdia: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade (makroqumi/a) os vasos de ira, preparados para a perdição” (Rm 9.22).

 

B) A paciência, arrependimento e perdão

Pedro nos diz que foi pela Sua paciência que Deus aguardou a construção da Arca de Noé, oferecendo oportunidade para que os homens se arrependessem de seus pecados: “Os quais, noutro tempo, foram desobedientes quando a longanimidade (makroqumi/a) de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvos, através da água” (1Pe 3.20).

 

Deus é longânimo conosco, visando à nossa salvação: Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo (makroqume/w) para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9,15/Rm 2.4). O objetivo de Deus em sua clemência é levar os homens ao arrependimento e conversão, tornando-se assim para Ele.

 

A longanimidade de Deus é perdoadora.  Vemos isto ilustrado na Parábola do Credor Incompassivo, na qual o servo suplica ao seu senhor pedindo-lhe “paciência”: “Então, o servo, prostrando-se reverente, rogou: “Sê paciente  (makroqume/w) comigo, e tudo te pagarei. E o senhor daquele servo, compadecendo-se (splagxni/zomai) (ter profunda compaixão), mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida” (Mt 18.26-27).[4] Este servo, ainda que bem intencionado, tinha uma falsa suposição de que poderia pagar a sua dívida. O Senhor, no entanto, rico em sua paciência, se compadeceu dele e o perdoou.

 

A longanimidade de Deus não é conivência ou ato de aprovação à prática pecaminosa.[5] Portanto, não devemos abusar da longanimidade de Deus. Como vimos, ela consiste na oportunidade que Deus concede para que nos arrependamos. No entanto, o juízo chegará (2Pe 3.9/Rm 2.4).

 

Calvino está correto ao declarar que “a pessoa que ora por perdão de uma forma meramente formal, prova ser ignorante do que realmente o pecado merece”.[6]   A compaixão de Deus se revela no tempo próprio.

 

Deus é sempre ativo em sua compaixão, manifestando-se de forma concreta no alívio de nossa dor nos socorrendo e recebendo para Si. A Parábola do Filho Pródigo, não isoladamente ilustra isto. Quando o pai, viu o seu filho voltando para casa… narra Lucas: Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido (splagxni/zomai) dele, correndo, o abraçou, e beijou” (Lc 15.20).

 

Notemos que a longanimidade de Deus não significa indecisão, antes, dentro do Seu propósito, ela é exercitada a fim de que todos aqueles que constituem o Seu povo escolhido, se arrependam de seus pecados e sejam salvos. Paulo dá o seu testemunho pessoal: “Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade (makroqumi/a), e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna” (1Tm 1.16).[7]

 

Do mesmo modo, Pedro escreve: “Tende por salvação a longanimidade (makroqumi/a) de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada” (2Pe 3.15).

 

Paradoxalmente, o fato é que às vezes os servos de Deus tinham dificuldade em aceitar a longanimidade de Deus demonstrada para com o outro: “Tu, ó SENHOR, o sabes; lembra-te de mim, ampara-me e vinga-me dos meus perseguidores; não me deixes ser arrebatado, por causa da tua longanimidade (makroqumi/a); sabe que por amor de ti tenho sofrido afrontas” (Jr 15.15).

 

O profeta Jonas com o seu nacionalismo exacerbado, reclama com Deus pelo fato deste ter perdoado os ninivitas. Assim descreve o texto:

 

E orou ao SENHOR e disse: Ah! SENHOR! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se (makroqu/moj), e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. (Jn 4.2).

 

A Longanimidade de Deus longe de estimular a nossa indiferença, deve nos conduzir ao arrependimento sincero e à súplica pelo Seu perdão. É sobre estas considerações que Joel conclama o povo ao arrependimento: “Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se (makro/qumoj), e grande em benignidade, e se arrepende do mal” (Jl 2.13).

 

 

Maringá, 02 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

*Leia esta série completa aqui.


[1]Cf. Russel Shedd, Andai Nele: Exposição Bíblica de Colossenses, São Paulo: ABU, 1979, p. 24.

[2] markoqumo/j *Ex 34.6; Nm 14.18; Ne 9.17; Sl 7.12; 86.15; 103.9; 145.8 (“tardio em irar-se”); Pv 14.29; 15.18; 16.32; 17.27; Ec 7.8; Jl 2.13; Jn 4.2 (“tardio em irar-se”); Na 1.3.

[3] E, passando o SENHOR por diante dele, clamou: SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade” (Ex 34.6). “Recusaram ouvir-te e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste; endureceram a sua cerviz e na sua rebelião levantaram um chefe, com o propósito de voltarem para a sua servidão no Egito. Porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em bondade, tu não os desamparaste” (Ne 9.17). “Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade” (Sl 86.15).

[4] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, O Pai Nosso, São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

[5] Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 7.11), p. 149.

[6]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 51.8-9), p. 436.

[7] “Paulo é um exemplo vivo da paciência divina, uma prova da misericórdia de Deus para com os pecadores” (U. Falkenroth; C. Brown, Paciência: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 376).

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