4) O amor do Pai pelo Seu povo é semelhante ao amor do Filho

 

O sacrifício de Cristo pelo Seu povo é a manifestação concreta e sensibilizante do amor de Deus: “Nisto conhecemos o amor (a)ga/ph): que Cristo deu a sua vida por nós….” (1Jo3.16).

O Pai deu o Filho e, ao mesmo tempo o Filho Se deu a Si mesmo pelo Seu povo.

 

O amor do Pai não é solitário, antes, encontra no Filho a mesma disposição de amor e de entrega. Creio que este ponto é fundamental para iluminar um pouco mais esta questão e nos encher de alegria e gratidão a Deus: O Amado compartilhou conosco do amor que recebe eternamente do Pai e do Seu próprio amor eterno. Ele mesmo diz aos Seus discípulos: Como o Pai me amou (a)gapa/w), também eu vos amei (a)gapa/w); permanecei no meu amor (a)ga/ph)(Jo 15.9). Em seguida, os instrui amparado na experiência vívida de seus discípulos: “O meu mandamento é este: que vos ameis (a)gapa/w) uns aos outros, assim como eu vos amei (a)gapa/w)” (Jo 15.12).

 

Paulo exorta a igreja a andar (peripate/w) em amor, tendo como padrão o amor de Cristo: “…. andai em amor (a)ga/ph), como também Cristo nos amou (a)gapa/w) e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef 5.2). (Gl 2.20; Ef 5.25).[1]

 

Agora podemos começar a entender alguns aspectos do amor sacrificial de Deus: A eleição eterna de Deus envolve o amor do Filho que se dispõe a concretizar histori-camente este projeto do Trino Deus. Por isso, a nossa eleição eterna encontra a sua realização na história por intermédio da obra de Cristo.

Pedro nos fala daquele que foi morto antes dos tempos eternos para salvar o Seu povo:

 

Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por [amor][2] de vós que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus (1Pe 1.18-21).

 

Paulo faz uma analogia para realçar a intensidade do amor de Deus por nós: “Dificilmente alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor (a)ga/ph) para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.7,8).

 

O amor de Deus é eterno, por isso Ele providenciou na eternidade a salvação do Seu povo. O amor de Deus “é um ato livre de Sua vontade, não uma emoção produzida nele por nosso estado miserável”, interpreta Owen (1616-1683).[3]

 

A vida eterna é para aqueles que o Pai lhes confiou. Jesus Cristo ora se reportando à eternidade, ao pacto firmado entre as Pessoas da Trindade: “Assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste” (Jo 17.2). “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra” (Jo 17.6).

 

Determinadas manifestações generosas e abnegadas realizadas em momentos de intensa emoção correm o risco de, em outras circunstâncias, depois de um exame criterioso, percebermos que estavam totalmente fora de propósito. Fortes emoções podem nos conduzir a atitudes precipitadas e, por isso mesmo, nem sempre coerentes e construtivas. No entanto, a doação de Deus para o Seu povo é diferente. Deus nos amou na eternidade e lá Ele já podia olhar para o Seu Filho e vê-lo como, o “Cordeiro que foi morto, desde a fundação do mundo” (Ap 13.8). Faz plenamente sentido a declaração de Deus a Israel: “Com amor eterno eu te amei” (Jr 31.3).

 

O amor de Deus não é impulsivo, nem meramente contemplativo e inerte; mas, é atuante e salvador. O seu amor objetiva e de fato concretiza-se nos conduzindo a Ele e, por fim, aos privilégios eternos na Sua presença. Somos tão amados por Deus que o Filho nos quer para Si mesmo, para que estejamos para sempre com Ele participando do amor Trinitário que os une (Jo 17.24-26).

 

A riqueza da graça de Deus se manifestou no sacrifício de Cristo. Deus não quebra a Sua justiça por amor; antes, cumpre a justiça em amor. Como temos insistido, a graça reina pela justiça (Rm 5.21).[4] “De fato a graça reina, mas uma graça reinante à parte da justiça não é apenas inverossímil, mas também inconcebível”, comenta Murray (1898-1975).[5]

 

Este tipo de raciocínio é-nos naturalmente estranho porque temos costumeiramente nossa hierarquia de valores com as suas prioridades próprias que tendem a ser voláteis conforme determinadas circunstâncias. Assim sendo, ao mesmo tempo em que sustentamos com razão a necessidade de justiça, em outras circunstâncias, quando, por exemplo, nosso filho ou amigo esteja envolvido, é possível, que com a mesma sinceridade anterior sustentemos a necessidade de sermos misericordiosos e acusarmos uma postura diferente de “legalista”.

 

Somos pecadores e finitos. A finitude não é pecado; toda criação é finita. A possível infinitude de algo está não em sua essência, mas, na preservação por parte de Deus, o único que é eterno e senhor da imortalidade (1Tm 6.16). No entanto, a finitude revela a nossa limitação como criaturas. Esta limitação agravada pelo nosso pecado se expressa em nossas contradições e incoerências. No entanto, somente Deus é perfeito e, por isso, o Seu agir se harmoniza essencialmente, não artificialmente, de forma perfeita com todos os Seus atributos. Deus é perfeito em suas perfeições não havendo hierarquia em Seu ser. Obviamente a compreensão adequada desta realidade escapa à nossa compreensão, no entanto, podemos ter a certeza de que Deus é perfeitamente santo e que a santidade permeia todas as suas ações e obras.

 

Deste modo, somente Jesus Cristo – o Deus encarnando –, por meio da Sua justiça obtida na Sua encarnação, morte e ressurreição, poderia satisfazer as exigências de Deus para a nossa salvação. Paulo escreve: “Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção (a)polu/trwsij) que há em Cristo Jesus” (Rm3.24).

 

Louvemos a Deus por isso. Por seu amor e graça.

 

Maringá, 11 de abril de 2019

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1] “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou (a)gapa/w) e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20).Maridos, amai (a)gapa/w) vossa mulher, como também Cristo amou (a)gapa/w) a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5.25).

[2]A expressão em colchetes não ocorre no original. Não se trata de variante textual, antes de uma interpretação que está de acordo com as Escrituras, contudo, aqui, apenas acrescentada. O texto original diz apenas “por vós”.

[3]John Owen, Por Quem Cristo Morreu?, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1986, p. 63.

[4] “A fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 5.21).

[5]John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 19.


3 comentários

Jamir Mendonça da Silva · 15 de abril de 2019 às 15:29

Ninguém ama com o amor de Deus, absoluto, mas imitá-lo já é alguma coisa.

Jamir Mendonça da Silva · 15 de abril de 2019 às 15:31

Ninguém ama com o amor de Deus, absoluto, mas imitá-lo já é um começo.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (19)por Hermisten Maia | CFNEWS · 17 de abril de 2019 às 07:44

[…] Paulo exorta a igreja a andar (peripate/w) em amor, tendo como padrão o amor de Cristo: “…. andai em amor (a)ga/ph), como também Cristo nos amou (a)gapa/w) e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef 5.2). (Gl 2.20; Ef 5.25).[1] […]

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