“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (32)


4.3. A Verdade objetiva de Deus   

Ainda que o mundo inteiro fosse incrédulo, a verdade de Deus permaneceria inabalável e intocável. – João Calvino.[1]

4.3.1. Verdade real

  A Filosofia de Platão (427-347 a.C.) dizia que o nosso mundo é uma aparência, não sendo real. Todavia, havia um modelo superior, imutável e eterno, do qual o nosso mundo é apenas uma cópia. Esta ideia permaneceu em Cícero (106-43 a.C.) e Fílon (c. 20 a.C. – c. 42 d.C.).[2]

          Jesus, no entanto, nos diz que a Palavra de Deus é a verdade = realidade. (Jo 17.17). O curioso é que a palavra que os gregos usavam para se referirem ao mundo real (a)lhqino/j), é da mesma raiz da palavra verdade (a)lh/qeia).[3]

          No Novo Testamento Jesus Cristo se autodesigna de verdadeiro pão do céu (Jo 6.32), videira verdadeira (Jo 15.1); sendo enviado pelo Deus verdadeiro (Jo 7.28; 1Ts 1.9/1Jo 5.20), que deve ser conhecido (Jo 17.3). No Apocalipse Jesus Cristo é identificado como o verdadeiro (Ap 3.7,15, 6.10), e as suas palavras e juízos fiéis e verdadeiros (Ap 15.3; 16.7; 19.2; 21.5; 22.6). O termo contrasta aquilo que é verdadeiro, genuíno, com o que é terreno (Hb 8.2; 9.24). Deus procura os verdadeiros adoradores (Jo 4.23/Hb 10.22).

          Assim, em sua oração, Jesus Cristo, em certo sentido, nos diz que a Palavra de Deus é real, não apenas aparentemente. Se me permitirem usar tal expressão, diria que a Palavra de Deus é a verdadeira verdade! De fato: Deus é o padrão absoluto e final para todas as afirmações que pretensamente se dizem verdadeiras. A sua Palavra é o padrão objetivo de avaliação de todas as coisas.[4] “As Escrituras não são apenas a verdade inteira, elas são também o mais elevado padrão de toda verdade – a regra pela qual todas as alegações de verdade devem ser medidas”, enfatiza MacArthur.[5]

          O nosso problema enquanto cristãos, é que muitas vezes vivemos como se a Palavra de Deus fosse apenas uma aparente verdade, ou uma verdade totalmente controlada, temporal e geograficamente, restrita ao culto público ou à leitura devocional que fazemos das Escrituras. Desse modo, essa “verdade” tem valor apenas naquele tempo e lugar. Como quando assistimos filmes românticos, tais como: Rambo, O Justiceiro, Comando para Matar, Velozes e Furiosos, Os Mercenários etc., onde a ficção encontra um tom de real durante aqueles 90 minutos.  Assim, passado o tempo, os espaços e valores são reconstruídos conforme a dura realidade cotidiana uma verdade distante e sem sentido para homens e mulheres de nosso tempo, tão cheio de transformações, onde os valores se transformam em algo gasoso, tudo se evapora e se perde em uma atmosfera sem significado absoluto.

Essa é uma atitude totalmente errada quando nos referimos à Palavra de Deus. Quando Jesus diz que a Palavra é a verdade, Ele de fato afirma que ela é a verdade para todas as esferas de nossa vida: casamento, vida profissional, educacional, vocacional, lazer, ética, espiritualidade.

          Às vezes, afirmamos crer na Bíblia como verdade, mas a negamos com o nosso comportamento. Não aplicamos os seus ensinamentos ao nosso viver cotidiano. A Palavra é a verdade de Deus para a totalidade de nossa existência, quer aqui, quer na eternidade. “A verdadeira espiritualidade abrange toda a realidade”, conclui Schaeffer.[6]

          Continuaremos no próximo post.

São Francisco do Sul/Maringá, 05 de março de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 2.2), p. 48-49.

[2] Veja-se: Platão, A República,7. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1993), 382e; 499c; 522a; Platão, Timeu, São Paulo: Hemus, (s.d.),22d.

[3] Veja-se: A.C. Thiselton, Verdade: In: Colin Brown, ed. ger. ONovo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 4, p. 708-711.

[4] “O relativismo é uma revolta contra a realidade objetiva de Deus. A existência de Deus cria a possibilidade da verdade. Deus é o padrão essencial e final para todas as afirmações da verdade. Quem Ele é, o que Ele quer, o que Ele diz é o padrão externo e objetivo para medirmos todas as coisas. Quando o relativismo diz que não há qualquer padrão de verdade válido universalmente, fala como um ateísta” (John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 150).

[5]John F. MacArthur, Jr., Princípios para uma Cosmovisão Bíblica: uma mensagem exclusivista para um mundo pluralista, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 49.

[6]Francis A. Schaeffer, Um Manifesto Cristão. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo:Cultura Cristã, 2010, p. 166. Em outro lugar: “A verdadeira espiritualidade significa o senhorio de Cristo sobre o homem todo” (Francis A. Schaeffer, A Arte e a Bíblia, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 17).

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