“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (33)

 Não há verdade fora de Deus

“Não há verdade no sentido bíblico do termo, isto é, verdade válida, fora de Deus. Toda verdade procede de Deus e é verdade porque está relacionada com Deus”, conclui Scott.[1]

Por Deus ser perfeito, todos os seus atributos revelam aspectos de sua essência. O salmista refere-se a Deus como“Senhor, Deus da verdade (tm,a/) (‘emeth) (Sl 31.5). A verdade de Deus não é simplesmente uma abstração ou, quem sabe, apenas uma premissa para ser admirada. Não. Deus começa a expressar a sua verdade a nós em sua comunicação. Deus é verdade. A sua palavra, portanto, como toda a sua comunicação conosco, fundamenta-se nesta realidade. O Deus da verdade se revela verdadeiramente tal como é em sua essência, se mostrando a nós, ainda que não exaustivamente, mas, proporcionalmente,[2] como de fato é.

          De modo semelhante, fala o profeta Jeremias: “Mas o SENHOR é verdadeiramente (tm,a/) (‘emeth) Deus; ele é o Deus vivo e o Rei eterno; do seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a sua indignação”(Jr 10.10).

Partindo desta certeza o salmista pôde afirmar:  

 “A tua justiça é justiça eterna, e a tua lei é a própria verdade (tm,a/) (‘emeth)(Sl 119.142). (Da mesma forma Sl 119.151,160).[3]

          “São verdadeiros (hn”Wma/) (‘emunah) (= fiéis, dignos de crédito)todos os teus mandamentos…”, reconhece o salmista (Sl 119.86).

          Em outro lugar: “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade (tm,a/) (‘emeth) para os que guardam a sua aliança e os seus testemunhos” (Sl 25.10).

A Palavra como base segura e confiável

Deste modo, a Palavra se constitui em base segura e confiável sobre a qual posso dirigir minha vida. Toda a Palavra do Senhor é igualmente verdadeira, não havendo contradição, sendo ela a própria verdade que permanece, não estando circunscrita a tempos e épocas.

          A Palavra de Deus não traz meias verdades. Ela é a verdade absoluta de Deus para o homem.

          É por meio dela que conhecemos o caminho de Deus. O salmista, alegando a sua integridade, ora: “Pois a tua benignidade, tenho-a perante os olhos e tenho andado na tua verdade (tm,a/) (‘emeth) (Sl 26.3).

          Devemos orar para que Deus nos guie, nos concedendo discernimento no caminho da verdade. É neste sentido que o salmista ora:

Ensina-me, SENHOR, o teu caminho, e andarei na tua verdade (tm,a/) (‘emeth); dispõe-me o coração para só temer o teu nome. (Sl 86.11/Sl 26.3).

Guia-me na tua verdade (tm,a/) (‘emeth) e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação, em quem eu espero todo o dia. (Sl 25.5).

          Instruído pelo Senhor, o salmista, por graça, escolheu o caminho proposto por Deus: “Escolhi o caminho da fidelidade (hn”Wma/) (‘emunah) e decidi-me pelos teus juízos” (Sl 119.30).

Deus nos guarda misericordiosamente por meio da verdade. Nesse sentido, suplica o salmista: “Não retenhas de mim, SENHOR, as tuas misericórdias; guardem-me sempre a tua graça e a tua verdade (tm,a/) (‘emeth) (Sl 40.11).

          A verdade de Deus é iluminadora, discernindo o caminho por onde devemos caminhar: “Envia a tua luz e a tua verdade (tm,a/) (‘emeth), para que me guiem e me levem ao teu santo monte e aos teus tabernáculos”(Sl 43.3).

          Deus tem prazer em nossa integridade; coração sincero e verdadeiro: “Eis que te comprazes na verdade (tm,a/) (‘emeth) no íntimo e no recôndito me fazes conhecer a sabedoria” (Sl 51.6).

          Deus deseja que nos relacionemos com ele com fidelidade do mesmo modo que Ele se relaciona conosco:  A nossa resposta deve ser condizente com a santidade e integridade de Deus (Lv 19.2).

          Esta é a palavra de Josué ao povo de Israel: “Agora, pois, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com fidelidade (tm,a/) (‘emeth); deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao SENHOR” (Js 24.14).

          De modo semelhante Samuel instrui ao povo que o rejeitara:           “Tão-somente, pois, temei ao SENHOR e servi-o fielmente (tm,a/) (‘emeth) de todo o vosso coração; pois vede quão grandiosas coisas vos fez” (1Sm 12.24).

O Senhor em sua misericórdia, é sensível à oração dos fiéis: “Perto está o SENHOR de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade (tm,a/) (‘emeth) (Sl 145.18).

          Deus nos concedeu o conhecimento de sua verdade para nossa instrução e vida. Não para uma mera apreensão intelectual, mas, para que possamos conduzir a nossa vida dentro de seus sábios, santos e abençoadores preceitos.[4]

          A experiência de todo fiel, é que a nossa oração se ampara na fidelidade de Deus. Conhecemos o nosso Deus. Sabemos que Ele é verdadeiro em sua natureza e, por isso mesmo, em todos os seus atos e promessas. É nessa certeza que o salmista ora: “Quanto a mim, porém, SENHOR, faço a ti, em tempo favorável, a minha oração. Responde-me, ó Deus, pela riqueza da tua graça; pela tua fidelidade (tm,a/) (‘emeth)  em socorrer” (Sl 69.13).

          Enquanto aguardamos com perseverante fé a resposta de Deus, devemos nos alimentar da verdade, proclamando-a em nosso testemunho, palavra e louvor a Deus:

Confia no SENHOR e faze o bem; habita na terra e alimenta-te da verdade (hn”Wma/) (‘emunah). (Sl 37.3).
Não ocultei no coração a tua justiça; proclamei a tua fidelidade e a tua salvação; não escondi da grande congregação a tua graça e a tua verdade (tm,a/) (‘emeth). (Sl 40.10).
Eu também te louvo com a lira, celebro a tua verdade (tm,a/) (‘emeth), ó meu Deus; cantar-te-ei salmos na harpa, ó Santo de Israel. (Sl 71.22).

          Devemos magnificar a Deus considerando, inclusive, a sua verdade. Davi o fez com inteireza de coração diante dos “deuses” da terra. A nossa obediência a Deus tomando como princípio diretor a sua Palavra é um indicativo significativo de a quem de fato servimos e honramos. Testemunha o salmista:

1Render-te-ei graças, SENHOR, de todo o meu coração; na presença dos poderosos (~yhil{a/) te cantarei louvores. 2 Prostrar-me-ei para o teu santo templo e louvarei o teu nome, por causa da tua misericórdia e da tua verdade (tm,a/) (‘emeth), pois magnificaste acima de tudo o teu nome e a tua palavra. (Sl 138.1-2/Sl 119.46).

   São Francisco do Sul/Maringá, 05 de março de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Jack B. Scott, Aman: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 87.

[2]O conhecimento a respeito de Deus é um “conhecimento-de-servo” delimitado pelo próprio Senhor, considerando, inclusive, o pecado humano. (Veja-se: John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 56). O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa. Todo o nosso conhecimento é delimitado pela nossa condição de finitos. No caso da revelação de Deus, temos o limite estabelecido por Deus e a nossa condição de seres finitos. Por isso mesmo, a realidade sempre é mais importante e complexa do que a nossa experiência.

[3]“Tu estás perto, SENHOR, e todos os teus mandamentos são verdade (tm,a/) (‘emeth)” (Sl 119.151). “As tuas palavras são em tudo verdade (tm,a/) (‘emeth) desde o princípio, e cada um dos teus justos juízos dura para sempre” (Sl 119.160).

[4]“O fim para o qual Deus deu a Sua verdade não foi somente para a instrução de nossas mentes, mas muito mais para a transformação de nossas vidas” (Albert N. Martin, As Implicações Práticas do Calvinismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 9-10).

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