Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (2)

I – A IGREJA DO TRINO DEUS

1. A Igreja de Cristo: A rocha inabalável

 

A Igreja não recebeu essa Escritura de Deus para simplesmente repousar sobre ela, muito menos para enterrar esse tesouro na terra. Pelo contrário, a Igreja é chamada para preservar essa Palavra de Deus, explaná-la, pregá-la, aplicá-la, traduzi-la, difundi-la no estrangeiro, recomendá-la e defendê-la – em uma palavra, fazer com que os pensamentos de Deus, revelados na Escritura, triunfem em todos os lugares e em todas as épocas sobre o pensamento do homem. Toda a obra que a Igreja é chamada a fazer é de ministrar a Palavra de Deus. A Igreja ministra a Palavra de Deus quando ela é pregada na assembleia dos crentes, é interpretada e aplicada, quando é compartilhada nos sinais do pacto e quando a disciplina é mantida. Em um sentido mais amplo, o serviço da Palavra é muito mais abrangente. − Herman Bavinck (1854-1921).[1]

 

No capítulo primeiro de Efésios, o Apóstolo Paulo descreve de forma doxológica aspectos dos grandes feitos de Deus de eternidade à eternidade, tendo como ponto fundamental a Sua graça abençoadora que nos elege, redime, adota e sela (Ef 1.3-14). A manifestação da soberania de Deus culmina na ressurreição de Cristo, tornando público o seu poder e a glória do Filho acima de todos os poderes.

 

Demonstra então, que todas as criaturas estão subordinadas ao Filho por meio de quem todas as coisas foram criadas e são preservadas:

 

19E qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; 20 o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,  21acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro. (Ef 1.19-21).

 

Neste contexto, de modo surpreendente, Paulo introduz a Igreja, dizendo: “22E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, 23a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22-23).

 

Toda esta oração tem em vista a Igreja, o povo escolhido de Deus, o Corpo de Cristo. Ele deseja que a igreja tenha consciência dos altos privilégios dos quais ela é destinatária pela obra grandiosa de Cristo.

 

Analisemos biblicamente alguns aspectos da Igreja de Deus:

 

1.1. Está fundamentada em Cristo

 

Os papistas (…) agem de forma ridícula quando o põem em lugar de Cristo como o fundamento da Igreja, como se ele, também, não estivesse fundamentando em Cristo, como os demais. − João Calvino.[2]

 

Após a confissão de Pedro de que Jesus é o Cristo (Mt 16.16), o Senhor então lhe diz: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18).

 

O nome Pedro (pe/troj) significa “pedaço de rocha” (quebrado), “pedra”; “um pequeno deslocamento do maciço rochoso”. Entretanto, Jesus disse que sobre esta pedra (pe/tra), rocha, rochedo, “cadeia de montanhas rochosa”. Ele edificaria a Sua igreja.

 

Apesar de haver esta distinção nas palavras utilizadas, é necessário que se diga que na literatura clássica, a diferença entre os termos não é tão nítida, sendo as palavras usadas, por vezes, indistintamente.[3]

 

Todavia, comparando este texto com outros das Escrituras, podemos entender que aqui a pedra se refere a Cristo ou, como é muito comumente interpretado, à profissão de fé de Pedro como Jesus sendo o Cristo. Nesse caso, a afirmação é de que a Igreja é edificada sobre esta confissão.

 

Na parábola dos “lavradores maus”, Jesus cita o Salmo 118.22: “A pedra (li/qoj) que os construtores rejeitaram, esta veio a ser a principal pedra, angular” (Lc 20.17). Aqui o Senhor demonstra que Ele, somente Ele é o fundamento inabalável da Igreja. Os escribas e sacerdotes, mesmo não concordando com a interpretação, entenderam corretamente que Jesus referia-se a eles e a si mesmo (Lc 20.19).[4]

 

Sem Cristo não há igreja. Em outras palavras: Igreja sem Cristo é uma contradição não meramente de palavras, mas, de essência. Somente a igreja é constituída pelo povo chamado, reunido e congregado por Cristo para viver nele e para Ele.

 

Paulo assim se expressa combatendo o pueril sectarismo coríntio: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento (qeme/lioj), além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11/Rm 15.10).

 

O apóstolo referindo-se aos judeus, vale-se de figura semelhante: “E beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra (pe/tra) espiritual que os seguia. E a pedra (pe/tra) era Cristo” (1Co 10.4).

 

Novamente, o apóstolo afirma que todos estamos edificados em Cristo, a pedra angular: 20edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular (a)krogwniai=oj);[5] 21no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor” (Ef 2.20-21).

 

Portanto, o fundamento da Igreja não é o homem com as suas fraquezas e pecado, nem a sua vacilante confissão de fé; mas sim, o próprio Cristo, como rocha eterna e inabalável.

 

Maringá, 6 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse todos os textos dessa série aqui.


 

[1] Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 129.

[2] João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.42), p. 78.

[3] Cf. W. Mundle; C. Brown, Pedra: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 495,500.

[4] Naquela mesma hora, os escribas e os principais sacerdotes procuravam lançar-lhe as mãos, pois perceberam que, em referência a eles, dissera esta parábola; mas temiam o povo” (Lc 20.19).

[5] Is 28.16; 1Pe 2.6.

5 comentários em “Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (2)”

  1. É sempre esclarecedor e reforçante de nossas convicções sobre a centralidade de Cristo na obra da salvação e no embasamento da Igreja o estudar essa declaração de Pedro e seu significado. Até onde sei, é uma das passagens que fomentaram (até hoje?) polêmicas entre protestantes e romanistas. Tenho uns 3 livros que tratam disso. Filio-me integralmente à posição esposada pelo Sr., Dr. Hermisten, aqui. Essa visão da exclusiva posição de nosso Salvador como fundante e fundamento da Igreja tanto faz ruiz a ilusão papista sobre assunto, quanto deveria fulminar as tresloucadas pretensões de quem se considere relevante para a edificação dela, inclusos nós mesmos nesse risco vão.

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