A Pessoa e Obra do Espírito Santo (128)

2) Liberdade Soberana de Deus

Deus é. Somente em Deus temos uma identidade inseparável entre essência e existência.[1] Em Deus tudo é essência. A sua essência é infinita e inacessível (Sl 145.3/Jó 11.7-9). Ele eternamente é o que é por si mesmo. Portanto, nele nada é acidente. Ele como “causa não causada”, ou ser sem precedente, nada o antecede ou acrescenta elementos a si mesmo, no entanto, tudo dele procede. Ele é o que é. Ou: Será o que será porque é o que será bem como é o que foi (Ex 3.14; Jó 36.22-23; 41.11; Is 40.13-14;  Rm 11.33-36; 1Co 2.16).

    A eternidade, a história e as circunstâncias nada acrescentam a Deus que, como ser absolutamente simples, necessário é completo[2] e, por isso mesmo perfeito. A partir da compreensão dessa condição absoluta, necessária e eterna, é que  toda a ontologia, epistemologia e ética tornam-se possíveis sem cairmos em relativismos ou subjetivismos absolutos. As implicações disso são importantíssimas, mas, não são o alvo desse texto.

    As pessoas e as coisas existem. Como criação do Deus absoluto, toda a natureza, luta contra a sua extinção. O seu existir, tem em si o senso, ainda que longínquo do absoluto que permanece. É um senso de autopreservação que lhe é inerente.[3] 

    O poder de Deus é soberanamente livre. Deus não tem primariamente compromissos com terceiros. Em outras palavras, Deus é soberano em si mesmo. A onipotência faz parte da sua essência, por isso para Ele não há impossíveis. Apesar de qualquer oposição, Ele executa o seu plano.[4]

    Todos os atributos de Deus são iguais, no sentido que são idênticos à perfeição de sua essência. Porém, nem um de seus atributos esgota a sua natureza perfeita.

Deus pode fazer tudo o que quer ou venha a querer, da forma, no tempo e com o propósito que determinar. (Mt 19.26; Jó 23.13[5]).[6] No entanto, Deus não precisa exercitar o seu poder para ser o que é. Não há em Deus um vácuo entre ato é potência. Ele pode fazer tudo o que desejar. Porém, Ele não deseja tudo o que poderia fazer se assim o determinasse. A sua ação é determinada por seus sábios e voluntários decretos.

Declarar a liberdade soberana de Deus é reconhecer que Deus é Deus, contemplando-o na real esfera de sua natureza e revelação.[7]

Ontologicamente Deus não precisa de nada fora de si mesmo. Ele se basta a si. Deus é. Ele é “independente e verdadeiramente autopoderoso”.[8] A criação nada lhe acrescenta ou diminui. Como vimos, nenhuma alteração ocorre no seu ser[9] que diminua ou aperfeiçoe a sua essência.

Deus se apresenta nas Escrituras como de fato é, o Deus Todo-Poderoso (Onipotente), com capacidade para fazer todas as coisas conforme a sua vontade (Sl 115.3; 135.6; Is 46.10; Dn 4.35; Ef 1.11);[10] entretanto, como deve ser óbvio, Deus se mostra coerente com as demais de suas perfeições; ou seja, Deus exercita o seu poder em harmonia com todas as perfeições de sua natureza (2Tm 2.13).[11]

A sua vontade é ética e santamente determinada. O poder de Deus se harmoniza perfeita e essencialmente com a sua vontade.[12] Em outras palavras: “A vontade de Deus é uma com seu ser, sua sabedoria, bondade e todas as suas outras perfeições”, comenta Bavinck.[13]

    Deus poderia, se quisesse e tivesse estabelecido, salvar a todos os homens independentemente da Palavra (Bíblia) e da fé em Cristo, entretanto, Ele assim não faz. Esta não é a sua forma ordinária de agir porque sábia e livremente estabeleceu o critério de salvação, que é pela graça, sempre pela graça, que opera mediante a fé por meio da Palavra (Rm 10.17; Ef 2.8).[14] Deus sempre age de forma compatível com a sua perfeita justiça.[15]

Bavinck (1854-1921), mais uma vez é-nos útil aqui ao escrever: “Sua vontade é idêntica ao seu ser, e a teoria do poder absoluto, que separa o poder de Deus de suas outras perfeições, é somente um abstração vazia e impermissível”.[16]

Deus é tão eterno quanto o seu poder. Conforme indicamos, Ele sempre foi e será o que é, independentemente de qualquer elemento externo a Ele. Deus existe eternamente de si e  por si próprio.[17] Por isso que a Bíblia não tenta explicar a existência de Deus; ela parte apenas do fato consumado de que Deus existe, manifestando o Seu poder em Seus atos criativos (Gn 1.1).

    Portanto, Ele não sofre influência de ninguém, de nenhuma causa externa. Ele faz tudo conforme o conselho da sua vontade. (Sl 106.8; Is 40.13-14; Dn 3.17-18; 4.35; Rm 9.15; 11.34-36; Ef 1.5,11).

                                           3) A existência de um plano divino

                                                                                         Deus nos elegeu com um propósito específico. Esta escolha, feita na eternidade, denota a existência de um plano, o qual Deus, como senhor da história, dirige com sabedoria e determinação para a execução da sua vontade.

    A própria existência de um plano pressupõe naturalmente haver meta, alvo; um objetivo a ser alcançado. A palavra “plano” dentro do nosso estudo, tem o sentido de “processo ou empreendimento com fim determinado”.[18]         

    Pelo fato de Deus ser Todo-Poderoso, pode determinar livremente as suas ações, o que de fato faz, manifestando tal poder nos seus Decretos.[19] Deus eternamente tem diante de si uma infinidade de possibilidades de decisões sobre todas as coisas; entretanto, Ele “decidiu” fazer do modo que fez por seus próprios motivos, sem que haja a possibilidade de influência de ninguém; nem de anjos, nem de homens –, visto que nenhum deles fora ainda criado e, também, porque Deus não necessita de conselhos (Is 40.13,14; Rm 11.33-36).

    Hodge (1797-1878), diz corretamente, que um plano supõe:

    a)   A seleção de um fim definido ou objetivo a ser realizado;

    b)   A seleção de meios apropriados;

    c)   Finalmente, no caso de Deus, a aplicação efetiva e controle desses meios para a realização do fim projetado.[20]

    A sabedoria de Deus se revela na escolha dos melhores fins e na seleção dos meios eficazes para atingi-los (Sl 33.11; 139.16; Is 37.26; At 2.23; 4.28; Rm 8.28; Ef 1.4; Hb 1.1-4). Portanto, o plano de Deus é sempre o melhor, porque foi Ele quem sábia e livremente o escolheu e, Ele mesmo levará a cabo todo o Seu propósito. “Uma vez falou Deus, duas vezes ouvi isto: Que o poder pertence a Deus” (Sl. 62.11).

Maringá, 04 de março de 2021.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Logo, é impossível que, em Deus, a existência seja diferente da essência.  (…) A existência está para a essência, da qual difere, como o ato para a potência. Ora, Deus nada tendo de potencial, como demonstramos, resulta que a sua essência não difere da sua existência e, portanto, são idênticas.  (…) Deus é a sua essência.  (…) Deus é a sua existência e não somente, a sua essência” (Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2. ed. Caxias do Sul, RS.; Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes; Universidade de Caxias do Sul; Livraria Sulina Editora; GRAFOSUL, 1980, v. 1,  Primeira Parte, Questão 2, Artigo 4, Solução, p. 26-27).

[2] “A essência de Deus é perfeitamente simples e livre de toda e qualquer composição. (…) Toda composição infere em mutação, por meio da qual uma coisa se torna parte de um todo, o que ela não era antes” (François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 262,263).

[3] Veja-se: Herman, Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, 156.

[4] Ver: Herman Bavinck, Teologia Sistemática,Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 479-512.

[5] “Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19.26). “Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem o pode dissuadir? O que ele deseja, isso fará” (Jó 23.13).

[6] Stott coloca nestes termos: “A liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que Ele é livre para fazer absolutamente qualquer coisa que Ele queira”(John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo,São Paulo: ABU Editora, 1997, p. 58). Veja-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 326-327.

[7]Veja-se: A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: Editora Fiel, 1977, p. 19,21,138.

[8]François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 334. Do mesmo modo, veja-se também a p. 547. Veja-se o instrutivo e edificante capítulo de MacArthur: John F. MacArthur, Jr., Deus: face a face com Sua Majestade, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 91-107.

[9]Veja-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 550.

[10] “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl 115.3). “Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl 135.6). “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda da minha vontade” (Is 46.10). “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35). “Nele [Jesus Cristo], digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).

[11]“Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2.13).

[12] “Deus tem poder para fazer tudo quanto Ele queira; e com certeza a pessoa que tenta separar o poder de Deus de Sua vontade, ou retratá-lo como incapaz de fazer o que Ele queira, o que o tal faz é simplesmente tentar rasgá-lo em pedaços” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 78.18), p. 212). (Veja-se também: João Calvino, As Institutas, Campinas, SP.; São Paulo: Luz para o Caminho; Casa Editora Presbiteriana, 1985-1989, III.23.2). “Quanto a nós, basta-nos lembrar apenas duas coisas importantes: de um lado, o direito de Deus é supremo e absoluto, e acima do qual não podemos pensar nem falar, e Ele pode fazer com o que é seu tudo quanto lhe apraz; de outro, Ele é sempre santo e agradável à natureza perfeitíssima de Deus, de modo que em seu uso Ele nada faz em oposição à sua sabedoria, bondade e santidade” (François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 336). Do mesmo modo, veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 247.

[13]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 247.

[14]“E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8).

[15]Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 36.5), p. 128.

[16]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 254.

[17] Veja-se uma boa discussão sobre isso em R.C. Sproul, Razão para Crer, São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 80-83. Do mesmo modo, ver: Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98.

[18]Plano: In: Aurélio B. de H. Ferreira, Novo Dicionário da Língua Portuguesa,2. ed. rev. aumen. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, © 1986, p. 1344.

[19] Veja-se: Confissão de Westminster(1647), Capítulo III.

[20] Veja-se: Charles Hodge, Systematic Theology,v. 2, p. 313.

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