A Pessoa e Obra do Espírito Santo (255)

6.4.3. As Marcas da Igreja

Sem as marcas, a missão é cega; sem a missão, as marcas estão mortas. ‒ Michael Horton.[1]

A Igreja não recebeu essa Escritura de Deus para simplesmente repousar sobre ela, muito menos para enterrar esse tesouro na terra. Pelo contrário, a Igreja é chamada para preservar essa Palavra de Deus, explaná-la, pregá-la, aplicá-la, traduzi-la, difundi-la no estrangeiro, recomendá-la e defendê-la – em uma palavra, fazer com que os pensamentos de Deus, revelados na Escritura, triunfem em todos os lugares e em todas as épocas sobre o pensamento do homem. Toda a obra que a Igreja é chamada a fazer é de ministrar a Palavra de Deus. A Igreja ministra a Palavra de Deus quando ela é pregada na assembleia dos crentes, é interpretada e aplicada, quando é compartilhada nos sinais do pacto e quando a disciplina é mantida. Em um sentido mais amplo, o serviço da Palavra é muito mais abrangente. − Herman Bavinck (1854-1921).[2]

De que adianta o aparente crescimento numérico dos evangélicos se muitos que se chamam por esse nome não creem mais naquilo que caracteriza a fé evangélica? ‒ Francis A. Schaeffer (1912-1984).[3]

 As heresias têm um valor social. Obviamente elas não são desejáveis. Contudo, por maiores que sejam os males que provocam na vida dos que a sustentam, bem como na vida da igreja,  o que não deve ser minimizado, contribuem para que as posições doutrinárias fiquem mais claras e delineadas,[4] evitando a confusão e a condição de indefinição, t­erritório onde muitos gostam de transitar em seu mimetismo teológico sobrevivente.

          Kuyper (1837-1920) pontua que “Deus permitiu aos heréticos fustigarem sua Igreja exatamente para despertar a mente pelo conflito e para levá-la a buscar a Palavra de Deus”.[5] Creio que ele tem razão.

          A designação de hereges não é uma exclusividade da teologia cristã. Ilustro.

          Já nos primeiros séculos da Era Cristã, surgiram diversas heresias concernentes à Pessoa de Cristo e à relação das suas duas Naturezas. Essas heresias ora negavam a divindade ora diminuíam a humanidade de Cristo.[6]

Alguns teólogos, no afã de combater alguma forma de erro, caíram com frequência em outro; passando a existir daí, não mais uma heresia, mas duas!.

Segundo Grudem, essas heresias surgiram da negação de um desses princípios fundamentais, a saber: a) Deus é três pessoas; b) Cada pessoa é plenamente Deus e, c) Só há um Deus.[7]

Notemos também, que nos primeiros séculos, a Igreja confessou direta e indiretamente a Santíssima Trindade, a divindade do Filho e do Espírito; isto estava implícito de várias formas: no batismo, na “bênção apostólica” e no recitar do Credo Apostólico.

O problema surge na elaboração desta verdade de modo compreensível. Na formulação da doutrina é que a Igreja se viu em sérias dificuldades: como tornar compreensível doutrinas entremeadas de mistérios? Este foi um dos problemas. Na tentativa da verbalização da doutrina é que muitas heresias surgiram…

          O designativo “Pais” foi aplicado aos bispos da Igreja no segundo século.

A obra anônima, O Martírio de Policarpo, escrita por uma testemunha ocular do ocorrido, por volta do ano 155 AD., relata que “a turba pagã e judia desejando matar Policarpo, por ser cristão, vociferou: ‘Eis o doutor da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor dos deuses, que com seu ensino, afasta os homens dos sacrifícios e da adoração’.”.[8] (Destaque meu). Isto indica que na época era comum referir-se aos bispos cristãos como “Pais” (no sentido acima descrito, tinha uma conotação pejorativa, como “pai de uma heresia” ou “pai dos hereges”).

O emprego dessa expressão disseminou-se positivamente na igreja. Isso, de tal forma que, no quarto século, todos os pastores e mestres que haviam participado do Concílio de Nicéia (325), eram chamados de “Pais da Igreja”.[9]

          Afinal, quem sãos os hereges? A heresia retrata uma posição discordante de um grupo de fé. Por vezes, as heresias são recuperadas, as tirando da marginalidade por serem consideradas injustiçadas em seu tempo. Deste modo, a heresia passa a ser a antiga ortodoxia, sendo tirada do exílio e recepcionada com aplausos, “salpicadas com pó de estrela”,[10] alguma criatividade e condescendência.

Por isso, as heresias por vezes entram na moda, como escreveu de forma perspicaz McGrath:

A reabilitação  das ideias heréticas é vista hoje como uma justa correção das injustiças do passado, permitindo o renascimento das versões suprimidas do cristianismo, mais sintonizadas com a cultura contemporânea do que a ortodoxia tradicional. A heresia agora é moda![11]

          Talvez Sproul tenha razão ao declarar que “não temos julgamentos por heresia hoje em dia porque, no relativismo, não existe tal coisa”.[12]  Analisando a cultura relativista na qual vivemos, Craig conclui que dentro deste contexto, “a verdade se tornou irrelevante”.[13]

          Se não irrelevante, pelo menos totalmente subjetiva, como interpretam criticamente Colson e Fickett: “A verdade se torna aquilo que uma pessoa crê. Assim, você tem a sua verdade e eu tenho a minha. Essa é a essência da era pós-moderna”.[14]

Na realidade, onde não há verdade, não pode haver heresia. Sem padrão de avaliação, como julgar o verdadeiro e o falso? Só permanece na condição de verdadeiro o que é verdade. A verdade, por proceder de Deus, é eterna.

          Calvino mesmo  nos orientando para que não consideremos qualquer posição contrária à nossa em determinado assunto como heresia,[15] e admitindo a necessidade de procurar trazer o herege de volta ao bom senso,[16] admite que a heresia é produzida pela ambição[17] e a “má consciência”.[18]

Maringá, 04 de agosto de 2021.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Michael Horton, Cristianismo sem Cristo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 166.

[2] Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 129.

[3]Francis A. Schaeffer, O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo:Cultura Cristã, 2010, p. 284.

[4]“A origem de onde nasceram frequentemente e continuam nascendo as heresias é a seguinte: há mentes perversas e sem paz, que, discordando em sua perfídia, não podem suportar a unidade. O Senhor, por seu lado, respeita a liberdade do arbítrio humano, permite e tolera que isto aconteça, a fim de que o crisol da verdade purifique os nossos corações e as nossas mentes, e, na provação, resplandeça com luz inequívoca a integridade da fé” (São Cipriano, A Unidade da Igreja Católica,  Petrópolis, RJ.: Vozes, 1973, 10, p. 39).

[5] Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 57.

[6]“Durante os quatro primeiros séculos que se seguiram à morte de Cristo, mais exatamente até os concílios de Nicéia (325), Éfeso (431) e Calcedônia (451), grande parte dessa criatividade cristológica foi dirigida a responder, de maneira cabal, à pergunta (…) Jesus de Nazaré é Deus?….” (Juan Luis Segundo, O Homem de Hoje Diante de Jesus de Nazaré, (II/2), São Paulo: Paulinas, 1985, p. 17).

[7]Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 177.

[8]O Martírio de Policarpo, XII.2. In: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE., 1967, p. 39. Para um estudo crítico deste documento, inclusive no que se refere à data do martírio, veja-se: J.B. Lightfoot, The Apostolic Fathers, 2. ed. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers. © 1989, Vol. I, p. 646-722. Para uma visão abreviada desta discussão, ver: J.B. Lightfoot, The Apostolic Fathers, 10. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker, 1978, p. 103-106.

[9]Agostinho (354-430) parece ter sido o primeiro a ampliar o conceito, incluindo São Jerônimo, um presbítero, entre os Pais (Cf. B. Altaner; A. Stuiber, Patrologia, 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 19). Seguindo o exemplo de Agostinho, Vicente de Lérins em 434, aplicou o termo Pai a diversos escritores eclesiásticos sem nenhuma distinção hierárquica. (Ver: Vicente de Lérins, Commonitorium, 31 e 33. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, v. 11, p. 155 e 156.  

[10]Alister McGrath, Heresia em defesa da fé,  São Paulo: Hagnos, 2014, p. 7. (O título em português é, pelo menos, tendencioso. O título em inglês é: Heresy: a history of defending the truth, que poderia ser traduzido por “Heresia: uma história de defesa da verdade”).

[11]Alister McGrath, Heresia em defesa da fé,  São Paulo: Hagnos, 2014, p. 8.

[12]R.C. Sproul, O Pregador Mestre: In: R. Albert Mohler, Jr., et. al. Apascenta o meu rebanho: um apaixonado apelo em favor da pregação, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 89. “A relatividade da verdade é normalmente uma premissa do pensamento atual. Mas o  cristianismo ortodoxo é baseado na posição de que a verdade é absoluta. Logo, a defesa da possibilidade da verdade absoluta é crucial para a defesa da fé cristã histórica” (Verdade, natureza da: Norman Geisler, Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã, São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 864).

[13]William L. Craig, Apologética Cristã para Questões difíceis da vida, São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 11.

[14] Charles Colson; Harold Fickett, Uma boa vida, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 177.

[15] “Todo aquele que, com seu presunçoso orgulho, quebra a unidade da Igreja, é por Paulo qualificado de herege. Temos, porém, de exercer moderação a fim de não transformar imediatamente em herege a alguém que não consegue concordar com nossas opiniões, porquanto há certas matérias sobre as quais os cristãos têm liberdade de discordar entre si sem se dividirem em seitas” (João Calvino, As Pastorais,São Paulo: Paracletos,1998, (Tt 3.10), p. 358).

[16] “Não temos direito de decidir se uma pessoa é herege, nem temos o direito de rejeitá-la, sem que primeiro tentemos trazê-la de volta ao bom senso” (João Calvino, As Pastorais,São Paulo: Paracletos,1998, (Tt 3.10), p. 359).

[17] “O que produz heresias senão a ambição, a qual reside, não nos sentidos inferiores, mas na sede mais excelente da mente?” (João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 5.19), p. 169).

[18] “A má consciência [é] a mãe de todas as heresias” (João Calvino, As Pastorais,São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 1.19), p. 50).

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