Teologia da Evangelização (121)

        

  4.3. O Conteúdo e o significado da proclamação (Continuação)

Olhando a Evangelização ensinada e praticada no Novo Testamento, podemos perceber que ela era muito mais abrangente do que hoje normalmente costumamos pensar. O que tem acontecido é que muitas vezes temos nos esquecido da mensagem; temos corrido tanto, temos falado tanto, temos discutido tanto… que, de repente, descobrimos que a mensagem foi esquecida.[1] Nos distanciamos do seu significado, perdemos a dimensão de sua urgência, relevância propósito e eficácia. Estamos ainda usando o verbo evangelizar, todavia ele já não diz grande coisa, porque as letras “E-V-A-N-G-E-L-H-O”, tem nos dias atuais pouco a ver com o significado bíblico desta palavra. O Evangelho tem sido muitas vezes apenas mais um “slogan cristão”, que as pessoas não conseguem entender o seu significado. A palavra se aplica a qualquer coisa que eu deseje ensinar conforme o meu gosto e projetos pessoais.

          Kierkegaard (1813-1855) conta uma parábola que pode servir como ilustração para o que queremos dizer. Ele conta que um circo se instalou próximo de uma cidadezinha dinamarquesa. Este circo pegou fogo. O proprietário do circo vendo o perigo do fogo se alastrar e atingir a cidade, mandou o palhaço, que já estava vestido a caráter, pedir ajuda naquela cidade a fim de apagar o fogo, falando do perigo iminente. Inútil foi todo o esforço do palhaço para convencer os seus ouvintes. Os aldeões riam e aplaudiam o palhaço entendendo ser esta uma brilhante estratégia para fazê-los participar do espetáculo. Quanto mais o palhaço falava, gritava e chorava, insistindo em seu apelo, mais o povo ria e aplaudia. O fogo se propagou pelo campo seco, atingiu a cidade e esta foi destruída.[2]

          De forma semelhante, temos nós muitas vezes apresentado uma mensagem incompreensível aos nossos ouvintes, talvez porque ela também seja incompreensível a nós. As pessoas se acostumaram a nos ouvir brincar tanto com as coisas sagradas, que não conseguem descobrir o sagrado em nossas brincadeiras. Assim, sem nos darmos conta, estamos compactuando com a indiferença de nossos ouvintes, que, de certa forma, estão “cansados” da palavra Evangelho, sem que na realidade, nunca tenham sido ensinados a respeito do Evangelho de Cristo e, pior: nunca o tenham experimentado. Outras vezes a nossa mensagem é compreensível, acessível e agradável, contudo, o seu conteúdo é tão distante do Evangelho bíblico que a sua compreensão e aceitação distanciam ainda mais os seus adeptos da plenitude da revelação bíblica.

          O Evangelho é uma mensagem acerca de Deus – da sua Glória e de seus atos salvadores -; acerca do homem – do seu pecado e miséria -; acerca da salvação e da condenação condicionada à submissão ou não a Cristo como Senhor de sua vida.[3] Esta mensagem que envolve uma decisão na história, ultrapassa a história, visto ter valor eterno. Portanto, não podemos brincar com ela, não podemos fazer testes: estamos falando de vida e morte eternas (Jo 3.16-18).[4]

           Martin apresenta uma crítica pertinente:

O esforço desnatural de certos pregadores para serem ‘contadores de piadas’, entre a nossa gente, constitui uma tendência que precisa acabar. A transição de um palhaço para um profeta, é uma metamorfose extremamente difícil”.[5]

          Paulo anunciou o Evangelho em sua inteireza, com seriedade e responsabilidade, sabendo que o Evangelho é uma mensagem de vida eterna.

Maringá, 22 de novembro de 2022.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Vejam-se as observações pertinentes de Billy Graham, na sua palestra, O Evangelista em um Mundo Agitado. In: J.D. Douglas, ed. O Evangelista e o Mundo Atual, São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 9-10, bem como o comentário de John R.W. Stott, O Perfil do Pregador, São Paulo: Sepal, 1989, p. 145-149.

[2] Esta parábola é contada e aplicada nas obras de Harvey Cox (1929- ) (A Cidade do Homem, 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971, p. 270) e J. Ratzinger (Introdução ao Cristianismo, São Paulo: Herder, 1970, p. 7-8). Todavia a aplicação que ambos fazem é divergente entre si. E a que faço é diferente da de ambos.

[3]Veja-se: J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, p. 41-51.

[4]“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.16-18).

[5] Albert N. Martin, O Que há de Errado com a Pregação de Hoje?, São Paulo: Fiel, [s.d.], p. 23. Mais recentemente escreveu Lawson: “Esse tipo de pregação nominal satisfaz aos ouvintes por substituir a exposição bíblica por entretenimento. Substitui a teologia por teatro. Oferece avaliações saudáveis no lugar da sã doutrina. Nesta mudança infeliz, o drama da redenção dá lugar a simples apresentações teatrais. Essa pregação desprezível tem transformado muitos púlpitos em um palco de fim de semana para atores que se mascaram de pregadores” (Steven J.  Lawson, O tipo de pregação que Deus abençoa,  São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 37).

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