O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (10) (FINAL)

Algumas aplicações

 

1) As aflições, por vezes, se constituem em meios de nos aproximar mais de Deus por meio das orações.

 

       2) A tristeza, proporcionada pela disciplina de Deus, produz arrependimento e nosso retorno à alegria da comunhão com Ele: Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação (2Co 7.10). O consolo de Deus para com os que choram de arrependimento é o perdão. Não há nada mais consolador do que ser restaurado à comunhão com o nosso Senhor.

 

3) Faço aqui uma digressão: Com entusiasmo tenho assistido há algumas décadas um crescente interesse pela teologia e pensamento Reformados no Brasil.[1] Sei que esse fenômeno não é apenas uma peculiaridade da igreja brasileira.[2] Sei também que em um período de euforia e, por vezes, de triunfalismo, é comum haver pouca reflexão e, portanto, adesão e rejeição de uma “onda” sem a avaliação mais demorada e consistente dos fenômenos. Obviamente tais comportamentos geram dificuldades.

 

Alegro-me em ver em todas as partes do país, jovens, em sua grande maioria, com grande e intenso interesse pelas obras de Calvino, dos Puritanos, teólogos contemporâneos e apologetas do século XX e XXI. Isso é muito encorajador. Não é para menos. Basta lembrar que a primeira obra de Calvino só foi traduzida para o português em 1985.[3]

 

Com crescimento de traduções dessas obras, o surgimento de gerações de teólogos comprometidos com as Escrituras e seu fiel ensinamento tem sido uma constante. Isso não é de pouca monta. Deus tem abençoado a igreja brasileira.

 

Contudo, é preciso que nós teólogos, especialmente os mais maduros, não se infantilizem com a publicidade, se bestializando, assumindo atitudes pueris, com preocupações exóticas, criando grandes questões em cima de assuntos irrelevantes ou queiram ser maiores do que a mensagem que deveriam levar. Popularidade não é necessariamente sinônimo de fidelidade e, triunfalismo teológico certamente não é o caminho bíblico para o ensino da verdade. Por vezes, e não poucas, a verdade tem permanecido com o remanescente fiel. A verdade não é construída nem destruída, antes ela permanece porque toda verdade pertence a Deus. Por isso, só permanece na condição de verdadeiro o que é verdade. A verdade, por proceder de Deus, é eterna.

 

É preciso que cultivemos o espírito de gratidão a Deus e grande temor diante de nossa responsabilidade como cooperadores do Reino.

 

A infantilidade tem sua graça na infância. Na mocidade, em alguns casos, pode até ser tolerada. Mas, na vida adulta é lamentável. Ainda mais se essa imaturidade for influenciadora de dezenas de pessoas na sua imaturidade natural fruto de sua infância espiritual.

 

Por vezes, no desejo orgulhoso e pecaminoso de permanecer em evidência, corremos o risco de fazermos concessões com a verdade a fim de sermos bem aceitos dentro dos moldes contemporâneas, com a sua ética e estética tão bem definidas sob a designação sagrada de “politicamente correto”.

 

Quando o gosto e a preferência pessoal assumem preponderância sobre a verdade, temos de fato o grave problema do pragmatismo teológico e eclesiástico. Nesse contexto, a verdade torna-se indiferente e irrelevante.[4]

 

Os líderes e mestres da igreja são responsáveis dentro de sua esfera de competência por conduzir com integridade o rebanho. A superficialidade na condução do povo de Deus por meio da Palavra é quase tão grave quanto o ensino estranho às Escrituras.

 

       Uma teologia que vise destruir seu oponente, fomentar debate pelo debate e ostentar uma suposta superioridade intelectual e um cinismo arrogante, nada tem a ver com o propósito de uma genuína teologia bíblica, que é nos conduzir ao conhecimento pessoal e redentivo de Deus que redunde em Sua glória.

 

Sabemos que toda afirmação envolve negação. A verdade sempre envolverá antíteses. Aqui não temos escolhas. Dizer “sim” é dizer “não”. Convicção e firmeza não são sinônimas de pretensão arrogante.

 

A verdade revelada nas Escrituras é a realidade como Deus a percebe. Deus percebe as coisas como são. Somente Deus, e mais ninguém, tem um conhecimento objetivo da realidade. As coisas são como são porque de alguma forma Deus as sustenta. Antes de atribuirmos valor à verdade, ela já o tem porque foi Deus quem a criou e lhe confere significado. A verdade é uma expressão de Deus em Si mesmo e na Criação. Deus é a verdade, opera por meio da verdade e nos conduz à verdade. A graça de Deus opera pela verdade e, nesta verdade que foi ouvida e compreendida, frutificamos (Cl 1.6).

 

“A verdade é aquilo que é consistente com a mente, a vontade, o caráter, a glória e o ser de Deus. Sendo mais preciso: a verdade é a autoexpressão de Deus”.[5] Por isso, a verdade é sempre essencial. O Cristianismo não se sustenta amparado em aparências, circunstâncias e ambiguidades, antes, ele proclama a verdade e se dispõe a ser examinado à luz da verdade. Ou a sua mensagem é verdadeira, ou não há mensagem relevante a ser proclamada. “Como sempre, verdade é a questão essencial. Onde uma noção clara da verdade está ausente, o cristianismo torna-se mais uma atitude do que um sistema de crenças. Contudo, a crença sempre pressupõe uma verdade que pode e deve ser conhecida”.[6]

 

A teologia como a sistematização do que nos foi revelado na Palavra, visa tornar mais compreensível a plenitude da revelação.[7] A teologia, portanto, nada tem a dizer além das Escrituras. Ela não a substitui nem a completa, antes, deve ser a sua serva. A teologia brota dentro da intimidade da fé daqueles que cultuam a Deus e comprometem-se com a edificação da igreja.

 

A nossa teologia é sempre limitada e finita. Nunca é um edifício completo em todas as suas partes.[8] Antes, é uma tentativa humana de aproximação fiel das Escrituras, rogando a indispensável assistência do Espírito (Sl 119.18) e, por isso mesmo, sempre aberta à correção e aperfeiçoamento proveniente do estudo das Escrituras acompanhada pela essencialidade da iluminação do Espírito.

 

Nesse propósito, ela apresenta uma direção humilde para os peregrinos que vivem no mundo de Deus buscando compreender e vivenciar de forma autêntica as etapas de sua jornada até que cheguem ao seu destino (Rm 8.29-30),[9] e, o Senhor Jesus volte para nos conduzir em absoluta segurança para o lugar que Ele mesmo foi-nos preparar. (Jo 14.1-6).

 

O maravilhoso mistério a respeito de Deus aumenta em nossa compreensão à medida que mais O conhecemos.[10] A douta ignorância faz parte essencial da fé genuína e sincera.[11] O conhecimento de nossa limitação não é inato, antes é precedido pela revelação.  É no encontro significativamente pessoal com Deus que tomamos conhecimento de nossas limitações.[12] O nosso conhecimento poder ser real e genuíno, porém é fragmentado e limitado.[13] Contudo, devemos nos alegrar em poder conhecer. O Senhor não exigirá mais do que nos foi dado. Mas, o Senhor exige a nossa fidelidade no muito e no pouco.[14]

 

Talvez aqui devêssemos nos arrepender e chorar pelo fato de nem sempre termos esses propósitos em vista, nos tornando arrogantes e negligentes, confiando em nossa capacidade ou barateando a graça por meio de nossa ociosidade e inépcia.

 

Que o Senhor nos console com o seu perdão, nos imbuindo de maior fidelidade, humildade e piedade.

 

       4) O consolo que temos está na cruz junto ao Senhor crucificado, o nosso Consolador. Na vitória do Filho na cruz, temos o nosso definitivo consolo.

 

       5) A Igreja, no presente tempo, ainda que já usufruindo parcialmente da alegria do Reino comunicada pelo Messias,[15] geme aguardando o regresso triunfante de Cristo, quando ela estará para sempre com o seu Senhor:

 

23 E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. 24 Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? 25 Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos. (Rm 8.23-25).

 

       6) No final dos tempos, quando Deus consumar a sua obra, ele mesmo enxugará de nossos olhos todas as lágrimas (Ap 7.17; 21.4). A tristeza da Igreja Militante se converterá na alegria da Igreja Triunfante: “Em verdade, em verdade eu vos digo que chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria” (Jo 16.20). Na glorificação futura, teremos para sempre e de forma plena, a bem-aventurança prometida.

 

Sproul (1939-2017) comenta com sensibilidade bíblica:

 

Bem-aventurança é o que nós buscamos.

A bem-aventurança nunca é uma realização. Não podemos ganhá-la em troca de algo nem manipulá-la. Ela é fruto da graça divina, um presente que somente o próprio Deus é capaz de nos conceder. Embora tenhamos a capacidade de recebê-la, somos incapazes de produzi-la. Embora sejamos ativos em buscá-la, somos passivos em recebê-la. Bem-aventurança é algo que Deus faz por nós, para nós e em nós.

Bem-aventurança é um assunto que envolve um processo gradual. Ela atinge seu auge no complemento final de nossa santificação por parte de Deus, que a Bíblia chama de glorificação.

A etapa final da bem-aventurança é a glorificação.[16]

 

       7) O Catecismo de Heidelberg (1563), à pergunta nº 1, “Qual é o teu único conforto na vida e na morte?”, responde:

 

     É que eu pertenço ‒ corpo e alma, na vida e na morte ‒ não a mim mesmo, mas a meu fiel Salvador, Jesus Cristo, que com o seu precioso sangue pagou plenamente todos os meus pecados e me libertou completamente do domínio do Diabo; que Ele me protege tão bem, que sem a vontade de meu Pai no céu nenhum cabelo pode cair da minha cabeça; na verdade, que tudo deve adaptar-se ao seu propósito para a minha salvação. Portanto, pelo seu Santo Espírito, Ele também me garante a vida eterna e me faz querer estar pronto, de todo o coração, a viver para Ele daqui por diante”.

 

À pergunta 52, “Que conforto a volta de Cristo ‘para julgar os vivos e os mortos’ te oferece?”, responde:

 

     Que em toda aflição e perseguição posso esperar, de cabeça erguida, o verdadeiro Juiz do céu, que já se submeteu ao julgamento de Deus por mim e de mim removeu toda a maldição; que Ele lançará todos os seus e os meus inimigos na condenação eterna, mas, juntamente com todos os eleitos, me tomará para si mesmo na alegria e glória celestial.[17]

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


 

[1] Escrevi um pouco sobre isso na introdução do texto: João Calvino: uma coletânea de escritos, São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 9-12.

[2] Vejam-se algumas perspicazes anotações em: Iain H. Murray, John MacArthur, Servo da Palavra e do Rebanho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2012, p. 233-248.

[3]Em outubro de 1985 houve o lançamento no Seminário Presbiteriano do Sul de dois dos quatro volumes das Institutas de Calvino. Os outros dois seriam publicados apenas em 1989.

[4] Veja-se: William L. Craig,  Apologética Cristã para Questões difíceis da vida, São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 11.

[5] John F. MacArthur, A Guerra pela Verdade: lutando por certeza numa época de engano, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2008, p. 30.

[6]Albert Mohler, O Desaparecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 11-12.

[7] “A teologia representa a tentativa humana de colocar ordem nas ideias das Escrituras, organizando-as e ordenando-as para que a relação mútua entre elas possa ser melhor entendida”   (Alister McGrath, Teologia para Amadores, São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 32). “A teologia consiste em associar muitas passagens sobre diversos assuntos e organizá-las em um conjunto inteligível” (Gordon H. Clark, Em Defesa da Teologia, Brasília, DF.: Monergismo, 2010, p. 20).

[8] “A teologia deve sempre ser submetida à reforma. O entendimento humano é imperfeito. Embora as construções sistemáticas de alguma geração ou grupo de gerações possam ser arquitetônicas, sempre há a necessidade de correção e reconstrução de modo que a estrutura possa vir a uma aproximação mais íntima das Escrituras e a reprodução possa vir a ser uma transcrição ou reflexo mais fiel do exemplar divino” (John Murray, O Pacto da Graça: Um Estudo Bíblico-Teológico,  São Paulo: Editora Os Puritanos, 2001, p. 8).

[9] “O objetivo da boa teologia é humilhar-nos diante do Deus trino de majestade e graça. (…) Os antigos teólogos da Reforma e da pós-Reforma estavam tão convictos que suas interpretações estavam muito distantes da majestade de Deus que eles chamavam seus resumos e sistemas de ‘nossa humilde teologia’ e ‘uma teologia para peregrinos no caminho’” (Michael Horton, Doutrinas da fé cristã,  São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 15). Vejam-se: João Calvino, Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.6), p. 93; John M Frame, A doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 97; Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 45.

[10] “O verdadeiro mistério só pode ser entendido como  um mistério genuíno mediante a revelação” (Emil Brunner,  Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157).

[11] Ver: João Calvino, As Institutas, III.21.2; III.23.8. Na edição de 1541, escrevera: “E que não achemos ruim submeter neste ponto o nosso entendimento à sabedoria de Deus, aos cuidados da qual Ele deixa muitos segredos. Porque é douta ignorância ignorar as coisas que não é lícito nem possível saber; o desejo de sabê-las revela uma espécie de raiva canina” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3 (III.8), p. 53-54).

[12] Ver: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157, 159ss.

[13] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98, 110.

[14] Veja-se: Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 10.

[15]“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados; 2 a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os que choram 3 e a pôr sobre os que em Sião estão de luto uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem carvalhos de justiça, plantados pelo Senhor para a sua glória” (Is 61.1-3/Lc 4.16.19). “Na pessoa de Jesus Cristo o futuro se torna presente” (Herman N. Ridderbos, O Testemunho de Mateus acerca de Jesus Cristo: o Rei e o Reino, Patrocínio, MG.: Ceibel, 1980, p. 24).

[16]R.C. Sproul, A Alma em Busca de Deus: Satisfazendo a fome espiritual pela comunhão com Deus, São Paulo: Eclesia, 1998, p. 170.

[17] Ver também: Catecismo Maior de Westminster, Perg. 90.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (9)

4. Serão Consolados

 

“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados (parakale/w) (Mt 5.4).

 

O texto é enfático. O pronome au)toi é intensivo, enfatizando a identidade dos que serão consolados A ideia, portanto, é de que somente estes os que choram serão consolados.[1]

O verbo consolar (parakale/w) tem o sentido de: implorar (Mt 8.5; 18.29), suplicar (Mt 18.32); rogar (Rm 12.1; Ef 4.1); exortar (Lc 3.18; At 2.40; 11.23); conciliar (Lc 15.28); consolar (Mt 5.4; Lc 16.25; 15.32; 1Ts 5.11; 2Ts 2.17); confortar (At 16.40; 2Co 1.4; 7.6); contemplar (2Co 1.4); convidar (At 8.31); pedir (At 9.38; 1Co 4.13; 16.15); pedir desculpas (At 16.39); fortalecer (At 20.2,12); solicitar (At 25.2; Fm 9,10); chamar (At 28.20); admoestar (1Co 4.16; Hb 10.25); recomendar (1Co 16.12; 2Co 8.6; 9.5; 1Tm 6.2).

No texto de João 14.16, Jesus Cristo conforta os seus discípulos, prometendo-lhes “outro Consolador”, referindo-se a uma pessoa numericamente distinta que viria substituir outra – um Consolador semelhante a ele.[2] (Vejam-se também: Jo 14.26; 15.26; 16.7). Portanto, o Consolador é Jesus Cristo. O Espírito é outro, semelhante a Jesus Cristo, que veio substituí-lo neste propósito.

O Consolador é aquele que conforta, exorta, guia, instrui e defende. É um amigo que assiste seus amigos.[3] “Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). Agora eles tinham a Jesus fisicamente ao seu lado. Quando viesse o Espírito, eles teriam dois consoladores (advogados): Jesus Cristo no céu e o seu Espírito neles (Jo 14.16-17).[4]

Nós hoje continuamos desfrutando deste mesmo conforto, fortalecimento e ânimo, a saber: do Espírito em nós e de Cristo no céu por nós (1Jo 2.1/Rm 8.34; Hb 7.25). Ferguson comenta: “Tão plena é a união entre Jesus Cristo e o Parácleto, que a vinda deste é a vinda do próprio Jesus Cristo no Espírito”.[5]

O Espírito nos consola, fortalece e ajuda em todas as nossas dificuldades, nos estimulando à ação. Ele age em nós como Jesus agiu com os seus discípulos e ainda age por nós (Jo 14.26; 15.26/14.16; 1Jo 2.1).[6]

Ele nos consola de várias maneiras. Creio que ele o faz de modo efetivo, testificando continuamente[7] em nós, que somos filhos de Deus (Rm 8.16).[8] É pelo testemunho do Espírito que a graça de Deus é-nos conscientizada. “Nossa mente, por iniciativa própria, jamais nos comunicaria tal segurança se o testemunho do Espírito não a precedesse”.[9]

Mas, além de nos consolar, ele nos desafia à luta, ao testemunho fiel de nossa fé. Lucas registra que a igreja, “edificando-se e caminhando no temor do Senhor e, no conforto (para/klhsij) do Espírito Santo, crescia em número” (At 9.31). O estímulo do Espírito é por si só desafiante e consolador. Paulo nos diz que “… tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação (para/klhsij) das Escrituras, tenhamos esperança. Ora, o Deus da paciência e da consolação (para/klhsij) vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus” (Rm 15.4-5).

Lembremo-nos de que foi o Espírito quem fez registrar as Escrituras (2Tm 3.16; 2Pe 20-21). Ele, como Deus que é, na inspiração das Escrituras, providenciava o nosso conforto, consolo e estímulo. Uma das formas eficazes que o Espírito utiliza para nos consolar é por meio da leitura e meditação na Palavra de Deus. As Escrituras foram escritas para o nosso consolo.

William Barclay (1907-1978), recorrendo à literatura grega, faz uma analogia muito oportuna que nos mostra outra vertente da questão:

 

Repetidas vezes achamos que parakalein é a palavra do sinal de reagrupamento; é a palavra usada dos discursos dos líderes e dos soldados que se animam mutuamente a avançarem. É a palavra usada a respeito de palavras que fazem com que soldados e marinheiros medrosos, temerosos e hesitantes entrem na batalha com coragem. Um paraklêtos é, portanto, um encorajador, uma pessoa que injeta coragem nos acovardados, que anima o braço fraco para a luta, que leva um homem muito comum a lidar heroicamente com uma situação perigosa e arriscada.

Aqui, pois, temos a grande obra do Espírito Santo. Expressando-a em linguagem atual, o Espírito Santo capacita os homens a lidarem com a vida. O Espírito Santo é, na realidade, o cumprimento da promessa.[10]

 

O Espírito nos consola, nos instrui e nos desafia a recorrer à graça de Deus, mostrando-nos que a nossa suficiência está em Cristo, aquele que nos consola e fortalece (Fp 4.13).[11]

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


 

[1] Cf. R.C.H. Lenski, Commentary on the New Testament: The Interpretation of St. Matthew’s Gospel, [s. cidade]: Hendrickson Publishers, 1998, (Mt 5.4), p. 187; John MacArthur, O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 75.

[2] Veja-se: Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, 7. ed. revised and enlarged, London: Macmillan and Co., 1871, § xcv, p. 337.

[3] Vejam-se: William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 15, (1Jo 2.1-2), p. 45-48; idem., Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988 (reimpressão), p. 153-158.

[4]16 E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, 17 o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós(Jo 14.16-17).

[5] Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 74.

[6]A palavra grega traduzida no Evangelho de João por “Consolador”, (Para/klhtoj) (Jo 14.16,26; 15.26) – que é usada unicamente por João no NT. –, é a mesma que é traduzida na Epístola de João, por “Advogado” (1Jo 2.1) (ARA, ARC, ACR, BJ). Para um estudo detalhado desta palavra, Vejam-se: W. Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988 (reimpressão), p. 153-158; Johannes Behm, Para/klhtoj: In: G. Friedrich; Gerhard Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v. 5, p. 800-814.

[7] Veja-se: A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 36.

[8] O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus(Rm 8.16).

[9] João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1987, (Rm 8.16), p. 279.

[10] W. Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, p. 157.

[11] Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13).

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (8)

3. Bem-Aventurados os que choram

 

     “Bem-aventurados os que choram (penqe/w), porque serão consolados (parakale/w) (Mt 5.4).

 

De todas as palavras gregas empregadas para indicar dor, tristeza e choro, possivelmente esta (penqe/w) (penthéõ) é a mais intensa. O substantivo pe/nqoj (pénthos) indica luto.[1] Descreve a tristeza dos amigos de Jesus diante de sua morte e, por incredulidade, sem esperança de ressurreição: “E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes (penqe/w) e choravam (klai/w) (Mc 16.10). É a mesma palavra empregada na Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) para descrever a tristeza de Abraão quando morre sua esposa, Sara: “…veio Abraão lamentar Sara e chorar (penqe/w) por ela” (Gn 23.2).[2]

Do mesmo modo, descreve o sofrimento de Jacó quando pensa que seu filho José havia morrido: “Então, Jacó rasgou as suas vestes, e se cingiu de pano de saco, e lamentou (penqe/w) o filho por muitos dias” (Gn 37.34). A palavra refere-se ao luto pela perda da mãe (Sl 35.14/Os 4.3; Am 1.2; Jl 1.9; Lm 1.4)[3] e o choro de Daniel pela situação de Jerusalém (Dn 10.2).

Como deve estar claro, o choro aludido na bem-aventurança indica intensidade de dor; contudo, não sejamos ingênuos a ponto de pensar que a promessa de Deus se refira ao choro provocado por qualquer grande angústia e aflição. Há angústias intensamente pecaminosas como foi o caso de Amnon que, antes de violentar a sua irmã, angustiava-se por não possuí-la[4] ou como a do rei Acabe que, por não conseguir comprar a vinha do seu vizinho, ficou triste sem querer alimentar-se até que sua esposa, Jezabel, providenciou a morte de Nabote, podendo assim seu marido ficar com a vinha.[5]

Ainda que nem todo o lamento seja apenas por questões pecaminosas, certamente a bem-aventurança não contempla a todo o pesar que se manifeste em lágrimas. Pelo contexto, podemos entender que Jesus nos ensina que é feliz o homem que consegue entender o santo padrão estabelecido por Deus, percebendo a sua pequenez, entristece-se com seus pecados, por sua incapacidade de atingir o exigido pelo Senhor. Portanto, na sua pobreza espiritual, chora de arrependimento pelos seus pecados.

Como vimos na série anterior, o arrependimento é por si só fruto da graça de Deus;[6] é uma tristeza produzida por Deus em nossos corações. Somente a verdadeira convicção do pecado, resultante da contemplação do Deus santo, pode nos conduzir à consciência de nossa pobreza espiritual e ao choro de arrependimento pelos nossos pecados.

Os que assim agem serão consolados pelo próprio Deus. Este consolo trará alegria eterna para o seu povo: “Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir” (Lc 6.21).

Esse princípio é frontalmente oposto ao de uma sociedade que prega como virtude o senso de autossuficiência e poder. Os filósofos estoicos, na Antiguidade, no seu ideal de a)pa/qeia, indiferença a todas as emoções, austeridade e imperturbabilidade, já combatiam a dor (pe/nqoj), entendendo que ela era um sentimento, uma paixão (pa/qoj) que se deveria evitar.[7] Hoje não é diferente. No entanto, nesta bem-aventurança nos deparamos com um homem que, consciente de seus pecados, arrependido diante do Senhor, os confessa com tristeza reconhecendo a sua condição de um ser totalmente incapaz de satisfazer a Deus por seus próprios méritos.

O arrependimento consiste numa mudança de mente, ocasionando um sentimento de tristeza pelos nossos pecados, que se caracteriza de forma concreta no seu abandono. O arrependimento sincero é uma “concessão” de Deus: “Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento (meta/noia = “mudança de mente”) para a salvação” (2Co 7.10/2Tm 2.25). “A bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento (meta/noia) (Rm 2.4/Hb 12.17). Arrependimento é graça. “O arrependimento é um presente do Cristo que subiu ao céu, no seu glorioso ofício de Mediador”.[8]

O salmista, por seu zelo para com a Lei de Deus, chorava ao ver os homens desprestigiarem o reto caminho do Senhor:

 

136 Torrentes de água nascem dos meus olhos, porque os homens não guardam a tua lei. 137 Justo és, Senhor, e retos, os teus juízos. 138 Os teus testemunhos, tu os impuseste com retidão e com suma fidelidade. 139 O meu zelo me consome, porque os meus adversários se esquecem da tua palavra. (Sl 119.136-139).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


[1] E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto (pe/nqoj), nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram(Ap 21.4). Veja-se: Richard C. Trench, Synonyms of The New Testament, 7. ed. (revised and enlarged.), London: Macmillan And Co., 1871, § lxv, p. 224-225.

[2] Na literatura Grega a associação deste termo com a morte e o luto era comum (Veja-se: R. Bultmann, Pe/nqoj: In: G. Friedrich; Gerhard Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, 8. ed. Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., (reprinted) 1982, v. 6, p. 40-41).

[3] “Portava-me como se eles fossem meus amigos ou meus irmãos; andava curvado, de luto, como quem chora por sua mãe (Sl 35.14).

[4]“Tinha Absalão, filho de Davi, uma formosa irmã, cujo nome era Tamar. Amnom, filho de Davi, se enamorou dela. 2 Angustiou-se Amnom por Tamar, sua irmã, a ponto de adoecer, pois, sendo ela virgem, parecia-lhe impossível fazer-lhe coisa alguma” (2Sm 13.1-2).

[5]Sucedeu, depois disto, o seguinte: Nabote, o jezreelita, possuía uma vinha ao lado do palácio que Acabe, rei de Samaria, tinha em Jezreel. 2 Disse Acabe a Nabote: Dá-me a tua vinha, para que me sirva de horta, pois está perto, ao lado da minha casa. Dar-te-ei por ela outra, melhor; ou, se for do teu agrado, dar-te-ei em dinheiro o que ela vale. 3 Porém Nabote disse a Acabe: Guarde-me o Senhor de que eu dê a herança de meus pais. 4 Então, Acabe veio desgostoso e indignado para sua casa, por causa da palavra que Nabote, o jezreelita, lhe falara, quando disse: Não te darei a herança de meus pais. E deitou-se na sua cama, voltou o rosto e não comeu pão. 5 Porém, vindo Jezabel, sua mulher, ter com ele, lhe disse: Que é isso que tens assim desgostoso o teu espírito e não comes pão? 6 ele lhe respondeu: Porque falei a Nabote, o jezreelita, e lhe disse: Dá-me a tua vinha por dinheiro; ou, se te apraz, dar-te-ei outra em seu lugar. Porém ele disse: Não te darei a minha vinha. 7 Então, Jezabel, sua mulher, lhe disse: Governas tu, com efeito, sobre Israel? Levanta-te, come, e alegre-se o teu coração; eu te darei a vinha de Nabote, o jezreelita. 8 Então, escreveu cartas em nome de Acabe, selou-as com o sinete dele e as enviou aos anciãos e aos nobres que havia na sua cidade e habitavam com Nabote. 9 E escreveu nas cartas, dizendo: Apregoai um jejum e trazei Nabote para a frente do povo. 10 Fazei sentar defronte dele dois homens malignos, que testemunhem contra ele, dizendo: Blasfemaste contra Deus e contra o rei. Depois, levai-o para fora e apedrejai-o, para que morra. 11 Os homens da sua cidade, os anciãos e os nobres que nela habitavam fizeram como Jezabel lhes ordenara, segundo estava escrito nas cartas que lhes havia mandado. 12 Apregoaram um jejum e trouxeram Nabote para a frente do povo. 13 Então, vieram dois homens malignos, sentaram-se defronte dele e testemunharam contra ele, contra Nabote, perante o povo, dizendo: Nabote blasfemou contra Deus e contra o rei. E o levaram para fora da cidade e o apedrejaram, e morreu. 14 Então, mandaram dizer a Jezabel: Nabote foi apedrejado e morreu. 15 Tendo Jezabel ouvido que Nabote fora apedrejado e morrera, disse a Acabe: Levanta-te e toma posse da vinha que Nabote, o jezreelita, recusou dar-te por dinheiro; pois Nabote já não vive, mas é morto. 16 Tendo Acabe ouvido que Nabote era morto, levantou-se para descer para a vinha de Nabote, o jezreelita, para tomar posse dela” (1Rs 21.1-16).

[6]“O arrependimento não está no poder do homem” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 6.6), p. 155).

[7] Cf. R. Bultmann, Pe/nqoj: In: G. Friedrich; Gerhard Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, 8. ed. Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., (reprinted) 1982, v. 6, p. 41.

[8]Sinclair B. Ferguson, Arrependimento, Recuperação e Confissão: In: James M. Boice; Benjamin Sasse, orgs. Reforma Hoje, São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 143.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (7)

4) Perseguição

 

A perseguição quer seja física, psíquica ou moral gera muita dor e sofrimento. Pedro estimula as igrejas a permanecerem firmes em seu testemunho: “Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações” (1Pe 1.6). “Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados” (1Pe 3.14).

Paulo, descrevendo parte de seus sofrimentos, diz: “Entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2Co 6.10).

Quando ele narra aos presbíteros de Éfeso o seu trabalho tão bem conhecido por eles, apresenta esta conotação como fruto das tentações da parte dos judeus: “Servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram” (At 20.19).

5) Solidariedade

Sensibilizamo-nos com o sofrimento de nossos irmãos, compartilhando com ele de sua alegria e dor. Paulo diz que devemos desenvolver esta sensibilidade: “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm 12.15).

6) Patriotismo

Quando Jerusalém foi destruída (586 a.C.), o povo de Judá foi levado cativo. Jeremias, um cidadão patriota, revela a sua tristeza:

Como jaz solitária a cidade outrora populosa! Tornou-se como viúva a que foi grande entre as nações; princesa entre as províncias, ficou sujeita a trabalhos forçados! 2 Chora e chora de noite, e as suas lágrimas lhe correm pelas faces; não tem quem a console entre todos os que a amavam; todos os seus amigos procederam perfidamente contra ela, tornaram-se seus inimigos. 3 Judá foi levado ao exílio, afligido e sob grande servidão; habita entre as nações, não acha descanso; todos os seus perseguidores o apanharam nas suas angústias. (Lm 1.1-3).

 

7) Preocupação com a Igreja

Paulo, um pastor cuidadoso, procurava instruir, interceder e alertar a igreja quanto a perigos iminentes. Ele passou boa parte de seu ministério pregando o Evangelho em diversas cidades e, alguns anos preso, o seu pastorado era, o que não poderia deixar de ser, à distância. As suas cartas se constituem em verdadeiras pastorais onde ele instrui, exorta, consola e adverte. Quanto à amada igreja de Filipos, revela a sua angústia em relação aos falsos mestres, talvez de diversos matizes que circundavam-na: “Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo” (Fp 3.18).

Do mesmo modo, ele diz aos presbíteros de Éfeso que pessoalmente os ensinou durante três anos com persistência em meio a lágrimas: “Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um” (At 20.31).

8) Por uma promessa precipitada

 

Herodes, comemorando o seu aniversário, prometeu publicamente à filha da esposa de seu irmão, Herodias, com quem adulterava, conceder-lhe o que ela quisesse. Ela, instigada por sua mãe, pediu-lhe a cabeça de João Batista, aquele que denunciava o pecado de Herodes com a sua cunhada. Relata o texto: “Entristeceu-se o rei, mas, por causa do juramento e dos que estavam com ele à mesa, determinou que lha dessem” (Mt 14.9/Mc 6.26).

9) Senso de valores equivocado

 

1) Esaú preferiu trocar o direito de primogenitura por um prato de lentilhas, desdenhando da herança da família, a terra (Gn 12.7) e a bênção da aliança (Gn 25.27-34). Mais tarde, quando não pôde obter a bênção de seu pai Isaque, chorou amargamente: “Disse Esaú a seu pai: Acaso, tens uma única bênção, meu pai? Abençoa-me, também a mim, meu pai. E, levantando Esaú a voz, chorou” (Gn 27.38/Hb 12.16-17).

 

2) O jovem rico, diante de um conflito de valores, não soube buscar socorro na misericórdia de Deus, antes, apenas ficou contrariado e se entristeceu, optando por ficar com a sua riqueza em detrimento do Reino de Deus. Eis a narrativa:

 

17 E, pondo-se Jesus a caminho, correu um homem ao seu encontro e, ajoelhando-se, perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 18 Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. 19 Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e tua mãe. 20 Então, ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude. 21 E Jesus, fitando-o, o amou e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. 22 Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades. (Mc 10.17-22).

 

10) Diante de um desafio que se parece grande por demais

 

Quando o povo de Judá voltou do exílio e deu início à reconstrução do templo (c. 536 a.C.), houve um misto de alegria e tristeza. Os jovens se alegraram pela libertação e possibilidade de realizarem aquela obra, sendo que a maioria nem conhecera o antigo templo. Há júbilo e gratidão. Contudo, os anciãos que conheceram a beleza do antigo templo, provavelmente percebendo a carência de recursos disponíveis, choram:

 

Cantavam alternadamente, louvando e rendendo graças ao Senhor, com estas palavras: Ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre sobre Israel. E todo o povo jubilou com altas vozes, louvando ao Senhor por se terem lançado os alicerces da sua casa. 12 Porém muitos dos sacerdotes, e levitas, e cabeças de famílias, já idosos, que viram a primeira casa, choraram em alta voz quando à sua vista foram lançados os alicerces desta casa; muitos, no entanto, levantaram as vozes com gritos de alegria. (Ed 3.11-12/Ag 2.1-5).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (6)

 

9) Uma mulher pecadora, talvez prostituta, arrependida de seus pecados, valendo-se de um misto de coragem e humildade, vai a um jantar para o qual não fora convidada, não para se alimentar, antes, para ungir os pés de Jesus sob forte emoção:

36 Convidou-o um dos fariseus para que fosse jantar com ele. Jesus, entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa. 37 E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; 38 e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o unguento. 39 Ao ver isto, o fariseu que o convidara disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora. 40 Dirigiu-se Jesus ao fariseu e lhe disse: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele respondeu: Dize-a, Mestre. 41 Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta. 42 Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? 43 Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem. 44 E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. 45 Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. 46 Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés. 47 Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. 48 Então, disse à mulher: Perdoados são os teus pecados. (Lc 7.36-48).

  3) Saudade

1) José, movido por vários sentimentos, inclusive saudade, quando reencontra seu irmão, Benjamin, se emociona e chora:

29Levantando José os olhos, viu a Benjamim, seu irmão, filho de sua mãe, e disse: É este o vosso irmão mais novo, de quem me falastes? E acrescentou: Deus te conceda graça, meu filho. 30 José se apressou e procurou onde chorar, porque se movera no seu íntimo, para com seu irmão; entrou na câmara e chorou ali. 31 Depois, lavou o rosto e saiu; conteve-se e disse: Servi a refeição. (Gn 43.29-31).

 

Em outra ocasião, diante do temor de seus irmãos de que se vingasse da maldade que lhe fizeram, José chora novamente:

 

15 Vendo os irmãos de José que seu pai já era morto, disseram: É o caso de José nos perseguir e nos retribuir certamente o mal todo que lhe fizemos. 16 Portanto, mandaram dizer a José: Teu pai ordenou, antes da sua morte, dizendo: 17 Assim direis a José: Perdoa, pois, a transgressão de teus irmãos e o seu pecado, porque te fizeram mal; agora, pois, te rogamos que perdoes a transgressão dos servos do Deus de teu pai. José chorou enquanto lhe falavam. (Gn 50.15-17).

 

 2) Jesus Cristo, no processo de despedida de seus discípulos, anunciou-lhes momentos de perseguição e dor. Ele mesmo se angustia ao falar do traidor: Ditas estas coisas, angustiou-se Jesus em espírito e afirmou: Em verdade, em verdade vos digo que um dentre vós me trairá” (Jo 13.21/Jo 11.33). Todas essas coisas, sem compreender bem o significado,[1] se junta na mente dos discípulos fazendo-os entristecer:

 

Tenho-vos dito estas coisas para que não vos escandalizeis. 2 Eles vos expulsarão das sinagogas; mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus. 3 Isto farão porque não conhecem o Pai, nem a mim. 4 Ora, estas coisas vos tenho dito para que, quando a hora chegar, vos recordeis de que eu vo-las disse. Não vo-las disse desde o princípio, porque eu estava convosco. 5 Mas, agora, vou para junto daquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: Para onde vais? 6 Pelo contrário, porque vos tenho dito estas coisas, a tristeza encheu o vosso coração. (Jo 16.1-6).

 

A partida de Cristo é motivo de alegria para o mundo e tristeza para a igreja. No entanto, os discípulos devem saber que eles nunca estarão sozinhos e que, quando ele retornar em glória, a alegria de toda a igreja será completa:

 

Em verdade, em verdade eu vos digo que chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. 21 A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. 22 Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar. (Jo 16.20-22).

 

Neste contexto, talvez algumas horas depois, quando Jesus ora no Getsêmani, lemos:

 

40 Chegando ao lugar escolhido, Jesus lhes disse: Orai, para que não entreis em tentação. 41 Ele, por sua vez, se afastou, cerca de um tiro de pedra, e, de joelhos, orava, 42 dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua. 43 Então, lhe apareceu um anjo do céu que o confortava. 44 E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra. 45 Levantando-se da oração, foi ter com os discípulos, e os achou dormindo de tristeza, 46 e disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação. (Lc 22.40-46).

 

3) Paulo, quando se despede de diversos irmãos, declarando, ou deixando a entender pelo que podia deduzir, que eles nunca mais o veriam, gerava sempre tristeza pela saudade antecipada de um mestre e amigo.       Quando se despede dos presbíteros de Éfeso em Mileto, narra Lucas:

 

36 Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles. 37Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, 38entristecidos especialmente pela palavra que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até ao navio. (At 20.36-38).

 

Em Cesareia, o profeta Ágabo profetiza que Paulo seria preso em Jerusalém. Os irmãos alarmados tentam dissuadi-lo. O clima de tristeza e súplica para que Paulo não fosse à Jerusalém foi duro para ele. No entanto, manteve-se firme dentro do propósito que cria ser a vontade de Deus:

 

12 Quando ouvimos estas palavras, tanto nós como os daquele lugar, rogamos a Paulo que não subisse a Jerusalém. 13 Então, ele respondeu: Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus. 14Como, porém, não o persuadimos, conformados, dissemos: Faça-se a vontade do Senhor! (At 21.12-14).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]E eles, muitíssimo contristados, começaram um por um a perguntar-lhe: Porventura, sou eu, Senhor?” (Mt 26.22).

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (5)

4) O profeta Jonas, ao perceber a misericórdia de Deus para com o povo de Nínive, se entristece e ainda tenta justificar diante de Deus a sua desobediência. A sua indignação é tão grande que pede a Deus que o mate. Ao que parece, para Jonas, era melhor morrer do que vê a misericórdia perdoadora de Deus sobre aquele povo tão ímpio:

 

Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado. 2 E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. 3 Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver. (Jn 4.1-3).

 

5) Pedro, após negar o Senhor três vezes, lembrou-se das palavras que ele lhe dissera. Envergonhado e arrependido, chorou de forma intensa e sofrida:

 

Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente. (Mt 26.75).

E logo cantou o galo pela segunda vez. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes. E, caindo em si, desatou a chorar. (Mc 14.72).

 

Posteriormente, quando o Senhor ressurreto lhe pergunta três vezes a respeito de seu amor, é possível que a sua negação recente lhe viesse à mente, daí a sua tristeza:

 

Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas. (Jo 21.17).

 

6) Pelos pecados de uma cidade impenitente e pela sua futura destruição. Jesus chora diante de Jerusalém: 41 Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou 42 e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos” (Lc 19.41-42).

 

7) Paulo também se entristece pela incredulidade dos judeus, revelando de forma intensa o seu amor e dor:

 

Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência: 2 tenho grande tristeza e incessante dor no coração; 3 porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne. (Rm 9.1-3).

 

8) Pela insensibilidade da Igreja em não perceber a gravidade do pecado de um irmão, tocando a vida como se nada tivesse acontecido:

 

Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. 2 E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? (1Co 5.1-2).

 

Possivelmente, outro irmão havia pecado, inclusive, ofendendo a Paulo: Ora, se alguém causou tristeza, não o fez apenas a mim, mas, para que eu não seja demasiadamente áspero, digo que em parte a todos vós” (2Co 2.5).

 

À frente, Paulo falando sobre a disciplina divina, diz que ela produz tristeza; no entanto, esta tristeza é frutuosa. Portanto, valera a pena ter escrito a Carta Severa admoestando à Igreja, ainda que causando tristeza:

 

8 Porquanto, ainda que vos tenha contristado com a carta, não me arrependo; embora já me tenha arrependido (vejo que aquela carta vos contristou por breve tempo), 9 agora, me alegro não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis. 10 Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte. 11Porque quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! Que defesa, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vindita! Em tudo destes prova de estardes inocentes neste assunto. (2Co 7.8-11).

 

Paulo se entristecia e chorava pelos pecados cometidos por seus irmãos e a falta de arrependimento: “Receio que, indo outra vez, o meu Deus me humilhe no meio de vós, e eu venha a chorar por muitos que, outrora, pecaram e não se arrependeram da impureza, prostituição e lascívia que cometeram” (2Co 12.21).

 

Do mesmo modo, o escritor de Hebreus instrui sobre os frutos da disciplina: Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça” (Hb 12.11).

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (3)

Continuamos hoje falando sobrecircuntâncias que levam  seres humanos, a tristeza e lágrimas. No post de ontem falávamos sobre a morte de filhos.

 

3) Filho único de uma viúva da cidade de Naim:

 

11Em dia subsequente, dirigia-se Jesus a uma cidade chamada Naim, e iam com ele os seus discípulos e numerosa multidão. 12 Como se aproximasse da porta da cidade, eis que saía o enterro do filho único de uma viúva; e grande multidão da cidade ia com ela. 13 Vendo-a, o Senhor se compadeceu dela e lhe disse: Não chores! (Lc 7.11-13).

 

4) Quando Herodes manda matar as crianças no desejo insano de assassinar o Messias, Mateus registra o crime e cita a profecia de Jeremias, ilustrando a tristeza de Raquel como representante das mães de Belém:

 

16 Vendo-se iludido pelos magos, enfureceu-se Herodes grandemente e mandou matar todos os meninos de Belém e de todos os seus arredores, de dois anos para baixo, conforme o tempo do qual com precisão se informara dos magos. 17 Então, se cumpriu o que fora dito por intermédio do profeta Jeremias: 18 Ouviu-se um clamor em Ramá, pranto, choro e grande lamento; era Raquel chorando por seus filhos e inconsolável porque não mais existem. (Mt 2.16-18).

 

B) A Morte de um Irmão

 

Maria estava triste com a morte de seu irmão Lázaro. O próprio Senhor Jesus diante daquele quadro de tristeza, marcado pela sujeição do homem à morte ‒ como consequência do pecado ‒ compadecidamente se emociona e chora:

 

31 Os judeus que estavam com Maria em casa e a consolavam, vendo-a levantar-se depressa e sair, seguiram-na, supondo que ela ia ao túmulo para chorar. 32 Quando Maria chegou ao lugar onde estava Jesus, ao vê-lo, lançou-se-lhe aos pés, dizendo: Senhor, se estiveras aqui, meu irmão não teria morrido. 33 Jesus, vendo-a chorar, e bem assim os judeus que a acompanhavam, agitou-se no espírito e comoveu-se. 34 E perguntou: Onde o sepultastes? Eles lhe responderam: Senhor, vem e vê! 35 Jesus chorou. (Jo 11.31-35).

C) A morte de um amigo

 

1) A morte de Jônatas, leal amigo de Davi, foi extremamente dolorosa para ele. No verso que compôs expressa isso:

 

17Pranteou Davi a Saul e a Jônatas, seu filho, com esta lamentação (…) 26 Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; tu eras amabilíssimo para comigo! Excepcional era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres. 27 Como caíram os valentes, e pereceram as armas de guerra! (2Sm 1.17,26-27).

 

2) Na cidade portuária de Jope havia uma mulher cristã, muito estimada pelos seus atos de generosidade. Quando ela morreu, houve grande tristeza. Sabendo que Pedro estava em uma cidade próxima, irmãos piedosos foram buscá-lo: Pedro atendeu e foi com eles. Tendo chegado, conduziram-no para o cenáculo; e todas as viúvas o cercaram, chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que Dorcas fizera enquanto estava com elas” (At 9.39). Pedro orou por ela e o Senhor a ressuscitou (At 9.40-41).

 

3) Quando a filha adolescente de Jairo morre, há intensa tristeza entre, certamente, alguns de seus amigos. Jesus foi chamado: 38 Chegando à casa do chefe da sinagoga, viu Jesus o alvoroço, os que choravam e os que pranteavam muito. 39 Ao entrar, lhes disse: Por que estais em alvoroço e chorais? A criança não está morta, mas dorme” (Mc 5.38-39).

 

D) Sofrimento pela morte do Senhor Jesus

 

Os discípulos se entristeceram pelo anúncio antecipado do que lhe ocorreria nas mãos dos judeus: “E estes o matarão; mas, ao terceiro dia, ressuscitará. Então, os discípulos se entristeceram grandemente” (Mt 17.23).

 

Os preparativos para a crucificação do Senhor, além de humilhantes, foram extremamente dolorosos, sensibilizando a muitos: “27 Seguia-o numerosa multidão de povo, e também mulheres que batiam no peito e o lamentavam. 28 Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos!” (Lc 23.27-28).

 

Após a crucificação do Senhor, Maria Madalena permanecia junto ao túmulo chorando:

 

11 Maria, entretanto, permanecia junto à entrada do túmulo, chorando. Enquanto chorava, abaixou-se, e olhou para dentro do túmulo, 12 e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira e outro aos pés. 13 Então, eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Ela lhes respondeu: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. 14 Tendo dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não reconheceu que era Jesus. 15 Perguntou-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela, supondo ser ele o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. (Jo 20.11-15).

 

Os demais discípulos também estavam profundamente abatidos: “9 Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena de quem expelira sete demônios. 10 E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes e choravam” (Mc 16.9-10).

 

 

Maringá, 28 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

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O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (2)

2. Razões para a tristeza

 

A Bíblia não é um livro de autoajuda. Ela de fato não simplesmente nos ajuda, mas nos mostra o caminho definitivo para a sua concretização eterna, a salvação em Cristo Jesus que envolve o tempo e a eternidade. Portanto, ela não trata de segredinhos para enganar, disfarçar ou esconder nossas rugas, manchas, “estrias” ou mazelas espirituais. Ela nos ensina que antes da alegria vem o choro; antes da felicidade vem a tristeza.

 

A Escritura descreve diversos momentos de angústia e tristeza entre os seres humanos, quer por motivos nobres, quer não; de homens e mulheres piedosos, ou não. Este sentimento acompanhado pelas lágrimas é comum ao ser humano. De forma ilustrativa, indiquemos algumas circunstâncias de tristeza e lágrimas:

1) Morte

A consciência da morte[1] que, por causa do pecado, pode ser tão grave, intensa e esmagadora para o homem,[2] soando como algo anormal,[3] pode e deve ser olhada como o caminho para a glória, como escreveu Calvino:

 

Somente os crentes genuínos conhecem a diferença entre este estado transitório e a bem-aventurada eternidade, para a qual foram criados; eles sabem qual deve ser a meta de sua vida. Ninguém, pois, pode regular sua vida com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da vocação celestial.[4]

 

Não é de se estranhar que a morte seja um dos aspectos mais indicados nas Escrituras como sendo causador de tristeza, dor e lágrimas.

 

A) A Morte de filhos

 

 1) Jacó, quando pensou que José, seu filho preferido, havia morrido, chorou intensamente, se negando, inclusive, a ser consolado pelos familiares: 34 Então, Jacó rasgou as suas vestes, e se cingiu de pano de saco, e lamentou o filho por muitos dias. 35 Levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém, recusou ser consolado e disse: Chorando, descerei a meu filho até à sepultura. E de fato o chorou seu pai” (Gn 37.34-35).

 

2) Davi chora intensamente a morte de seus filhos. Amnom, morto por ordem de Absalão, e, posteriormente, pela morte deste:

 

Absalão, porém, fugiu e se foi a Talmai, filho de Amiúde, rei de Gesur. E Davi pranteava a seu filho [Amnon] todos os dias. (2Sm 13.37).[5]

Então, o rei, profundamente comovido, subiu à sala que estava por cima da porta e chorou; e, andando, dizia: Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho! (2Sm 18.33).

 

Com esta lamentação intensa e contínua pela morte de Absalão, algo constrangedor aconteceu, como nos chama atenção MacArthur: “O pranto de Davi por Absalão foi tão intenso que seus soldados ficaram envergonhados da vitória”.[6]

 

Joabe foi fundamental para admoestar a Davi mostrando-lhe o quanto estava sendo nefasto o seu comportamento:

 

Disseram a Joabe: Eis que o rei anda chorando e lastima-se por Absalão. 2 Então, a vitória se tornou, naquele mesmo dia, em luto para todo o povo; porque, naquele dia, o povo ouvira dizer: O rei está de luto por causa de seu filho. 3 Naquele mesmo dia, entrou o povo às furtadelas na cidade, como o faz quando foge envergonhado da batalha. 4 Tendo o rei coberto o rosto, exclamava em alta voz: Meu filho Absalão, Absalão, meu filho, meu filho! 5 Então, Joabe entrou na casa do rei e lhe disse: Hoje, envergonhaste a face de todos os teus servos, que livraram, hoje, a tua vida, e a vida de teus filhos, e de tuas filhas, e a vida de tuas mulheres, e de tuas concubinas, 6 amando tu os que te aborrecem e aborrecendo aos que te amam; porque, hoje, dás a entender que nada valem para contigo príncipes e servos; porque entendo, agora, que, se Absalão vivesse e todos nós, hoje, fôssemos mortos, então, estarias contente. (2Sm 19.1-6).

 

As Escrituras narram que Davi reagiu positivamente a esta sincera e necessária repreensão (2Sm 19.8-15).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


 

[1] “O que distingue os humanos de todas as outras criaturas é a autoconsciência. Sabemos que estamos vivos e que morreremos, e não conseguimos deixar de questionar por que a vida é assim e qual é o seu significado” (Charles Colson; Harold Fickett, Uma boa vida, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 20).

[2] “Durante toda a minha vida, meu pensamento esteve ocupado pelo problema com o qual todos se defrontam: o sentido da vida e da morte. É, no fundo, a única questão contra a qual se choca desde a origem o animal pensante, o único que enterra seus mortos, o único que pensa na morte, que pensa sua morte. Para iluminar seu caminho nas trevas, para adaptar-se à morte, esse animal tão bem adaptado à vida só tem duas luzes: uma se chama religião, a outra se chama ciência” (Jean Guitton, in: Jean Guitton; Grichka Bogdanov; Igor Bogdanov, Deus e a Ciência, em direção ao metarrealismo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992, p. 14). Veja-se: William Edgar, Razões do Coração, Brasília, DF.: Refúgio, 2000, p. 79ss.

[3] J. I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 185.

[4]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 90.12), p. 440. Vejam-se: João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 61,66; João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.24-25), p. 218-219.

[5] É possível que isto tenha acontecido devido ao fato de Davi não ter punido corretamente a Amnon pelo ato de violentar a sua meia-irmã Tamar. (Veja-se: Francis A. Schaeffer, Não há gente sem importância, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 109).

[6] John MacArthur, O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 67.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (1)

A tristeza que domina a mente facilmente segue sua rota rumo aos olhos, e seguindo essa via concretamente se revela. ‒ João Calvino.[1]

 

Ninguém chega ao reino de Deus sem se entristecer com o seu próprio pecado. ‒ John MacArthur.[2]

 

 

Introdução

 Jesus Cristo, nesta segunda bem-aventurança, surpreende ainda mais aos seus ouvintes. Ele diz que são bem-aventurados os que choram. Temos aqui uma bem-aventurança paradoxal. Contudo, antes que eles pudessem ser induzidos a uma perspectiva equivocada a respeito do choro, Jesus diz que os que choram serão consolados. Deste modo, podemos observar que o Senhor não atribuiu nenhum valor especial e intrínseco ao choro como tal, mas, certamente, nos diz que determinado tipo de choro é bem-aventurado por causa do que ele reflete. Neste choro, seremos consolados.

 

1. Diversos termos

O Novo Testamento emprega diversas expressões que retratam a dor, angústia e choro humano.

 

  • brugmo/j e bru/xw: Ainda que no grego clássico as palavras sejam também usadas, por exemplo, para o “ato de comer de modo barulhento”,[3] no Novo Testamento tem o sentido de rilhar, ranger os dentes, denotando raiva intensa (bru/xw) (*At 7.54) e, mais precisamente, intenso sofrimento, sendo usado especificamente por Jesus Cristo para falar do destino dos incrédulos (brugmo/j) (*Mt 8.12; 13.42,50; 22.13; 24.51; 25.30; Lc 13.28).
  • Da/kru, da/kruon e dakru/w (Jo 11.33): Lágrimas, choro (Lc 7.38,44; At 20.19,31; 2Co 2.4).
  • qrhne/w: Prantear, lamentar, cantar um lamento (*Mt 11.17; Lc 7.32; 23.27; Jo 16.20).
  • Klai/w: Chorar, gritar (Mt 2.18; 26.75; Mc 16.10; Lc 19.41; At 21.13,15).
  • Klauqmo/j: Pranto, choro (Mt 2.18; At 20.37).
  • Ko/ptw e kopeto/j (*At 8.2): Prantear, lamentar. “Ressalta o aspecto do luto público, que se pode manifestar em vários costumes tais como: bater no peito, fazer cortes em si mesmo, lamentar ou cantar endechas fúnebres já existentes”.[4] (*Mt 11.17; 21.8; 24.30; Mc 11.8; Lc 8.52; 23.27; Ap 1.7; 18.9).
  • Lupe/w: Entristecer-se, contristar-se. Envolve a dor física e íntima, estar magoado (Mt 17.23; 18.31; 26.37; 2Co 2.2,4,5; 1Pe 1.6).
  • Lu/ph: Tristeza, dor (Lc 22.45; Jo 16.6,20,21,22).
  • Penqe/w: Chorar, lamentar, prantear, estar triste (*Mt 5.4; 9.15; Mc 16.10; Lc 6.25; 1Co 5.2; 2Co 12.21; Tg 4.9; Ap 18.11,15,19).
  • Pe/nqoj: Pranto, luto (*Tg 4.9; Ap 18.7 (2 vezes),8; 21.4).
  • Stena/zw: Gemer, queixar-se, suspirar (*Mc 7.34; Rm 8.23; 2Co 5.2,4; Hb 13.17; Tg 5.9).
  • Tara/ssw: Na forma figurada e passiva, significa angustiar-se, ficar agitado, alarmado (Lc 24.38; Jo 11.33; 12.27; 13.21; 14.1,27; 1Pe 3.14).

 

No próximo post começaremos a analisar biblicamente algumas razões para a tristeza.

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 6.7), p. 132-133.

[2] John MacArthur, O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 71.

[3] T. McComiskey, Lamentar: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 28.

[4] H. Haarbeck, Lamentar: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 23.