“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (35)


4.3.3. Verdade que permanece

                        O salmista exulta na presença de Deus cantando aspectos da maravilhosa Palavra de seu Senhor: “O temor do SENHOR é límpido e permanece para sempre (d[;) (`ad) (perpetuamente) (Sl 19.9).

Como vimos, é comum em nosso tempo ouvir-se falar de minha verdade, sua verdade e, verdade de cada um. A verdade, quando muito, é local, pessoal e circunstancial.  Em geral, não discutimos a efetividade de um câncer de próstata, mas, apreciamos discursar sobre compreensões de verdades e de sua falta de sentido para o homem em sua complexidade existencial…

Infelizmente não se fala mais de forma comprometida sobre a verdade norteadora do nosso comportamento, valores que devem ser preservados, tais como: sustentar o que é verdadeiro independentemente das consequências, honrar a palavra dada, pagar o que é justo, fidelidade, honradez, cumprir prazos, sofrer o dano ao invés de provocá-lo, humildade, solidariedade, realizar o trabalho de forma digna etc.

O homem moderno relativizou a verdade, não considera mais a existência de absolutos: “Baseados na sua epistemologia, os homens não mais creem nem mesmo na possibilidade da verdade absoluta”, constata Schaeffer.[1]

De fato, se não exige nada ontologicamente absoluto, já de início toda a epistemologia e lógica estão comprometidas e sem sentido. Assim, é um “salve-se quem puder”, ainda que não saibamos de quê nem para quê.

Com é natural, pensamentos como esses têm implicações éticas, como observou Packer: “A cultura ocidental pós-cristianismo duvida que haja absolutos morais”.[2] E isso é obvio.   Não há por que buscar a verdade que possa nos dirigir em nosso pensar e agir. Se não há princípio orientador e regulador que permaneça, como pautar a nossa conduta por aquilo que é simplesmente subjetivo, relativo e, portanto, quando muito, provisório?

          A Palavra de Deus é a verdade que permanece, cumpre-se cabalmente, não apenas no passado, nem simplesmente no futuro, mas sempre.

Na declaração de Jesus, percebemos a seriedade da Escritura: “Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome, que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura” (Jo 17.12).

Em outros contextos, Ele já dissera: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Mt 24.35). “A Escritura não pode falhar” (Jo 10.35).

A verdade de Deus é atemporal! Ela não está restrita a determinadas épocas, culturas ou classes sociais. Ela permanece como a verdadeira verdade que perdura no tempo e se perenizará na eternidade. Esta convicção está presente também nos salmos:

Para sempre (~l’A[) (‘olam), ó SENHOR, está firmada a tua palavra no céu. (Sl 119.89).
As tuas palavras são em tudo verdade desde o princípio, e cada um dos teus justos (qd,c) (tsedeq) juízos (jP’v.mi) (mishpat) dura para sempre (~l’A[) (‘olam). (Sl 119.160).

          Para quem usa aplicativo de orientação no trânsito, uma experiência difícil, porém, não rara, ocorre quando ele deixa de funcionar, perde o sinal ou, fica lento justamente quando você está em uma bifurcação ou em lugar que você nada conhece e precisa tomar uma decisão imediata: direita, esquerda ou seguir em frente… Creio que muitos de nós já experimentamos isso. Esses dias passei um apuro porque o celular não carregava enquanto dirigia. Descarregou. Percorri uns 300 kms sem o “waze”. Foi muito incômodo, principalmente porque a estrada, em obras, estava com muitos desvios… No dia seguinte, depois de alguns testes, deduzi e confirmei que o problema era o fusível dos soquetes.

          A Palavra Deus com seus preceitos e promessas permanece para sempre nos conduzindo nesta vida e em segurança à eternidade. Não há desvios, atalhos ou necessidade de planos de atualização. Ela não nos deixa vagando ao leu sem direcionamento. Não há ponto cego. Não há falta de sinal.

          A Palavra de Deus, aqui representada pelo seu Conselho, nos guia em segurança e nos conduz à glória celestial: “Tu me guias com o teu conselho (hc'[e) (etsah) e depois me recebes na glória” (Sl 73.24).

Diante das maravilhas da Palavra e da nossa costumeira obtusidade espiritual, o salmista ora ao Senhor da Palavra: Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei” (Sl 119.8).

          Maravilhado com a beleza, profundidade, veracidade e eficácia da Palavra, o salmista canta:   “Admiráveis  (al,P,) (pele)(= maravilhosos) são os teus testemunhos (tWd[e) (`eduth) (= estatutos, estipulações); por isso, a minha alma os observa (rc;n”) (natsar) (= guarda, preserva)(Sl 119.129).

          Paulo, no final de sua vida, não deu um “salto no escuro”, antes, declarou a sua inabalável confiança no Deus que conhecia e a quem dedicou a sua vida:

Porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia. (2Tm 1.12).

6 Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. 7 Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. 8 Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda. (2Tm 4.6-8).

Paulo não fala de hipóteses ou teorias, afirma sim, a sua firme certeza na verdade de Deus. Ele sabia que tanto quanto ao tempo como quanto à eternidade, só permanece na condição de verdadeiro o que é verdade. A verdade, por proceder de Deus, é eterna.

   São Francisco do Sul/Maringá, 05 de março de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Francis A. Schaeffer, O Sinal do Cristão, Goiânia, GO.: ABU.; APLIC., 1975, p. 25.

[2] J.I. Packer, O que é santidade e por que ela é importante?: In: Bruce H. Wilkinson, ed. ger. Vitória sobre a Tentação,2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 34.

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