“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (34)


4.3.2. Verdade autoritativa

Uma das questões centrais da Reforma Protestante que, na realidade, determinava os seus debates, era a hermenêutica, a interpretação das Escrituras. A Reforma foi um fenômeno religioso de profundas implicações na história e na sociedade, fundamentado no problema da interpretação bíblica. A questão da autoridade das Escrituras não era o ponto, já que era comum à cristandade e aos reformadores, a convicção de sua autoridade.[1]  O que por certo, foi enfatizado pela Reforma, foi a suficiência das Escrituras. Portanto, a Reforma foi um fenômeno no âmbito da hermenêutica.

          A Reforma gerou grandes exegetas e criou, como não poderia deixar de ser, de estímulo à exegese bíblica com vistas à melhor compreensão do texto, no intuito de compreender o objetivo não simplesmente do autor humano, mas, do autor divino no registro e preservação do texto para a igreja. A convicção da autoridade suficiente das Escrituras que se materializa em seus estudos, trouxe frutos magníficos para a igreja e a sociedade em geral. O resultado de sua exegese está diluído em seus comentários, cartas, sermões e tratados dos mais diversos.[2]

          Isso explica o Sola Scriptura, tendo a bíblia como a única autoridade infalível para dirigir a igreja em todas as áreas e em todos os tempos.[3] Enquanto os demais documentos da cristandade tem um valor relativo, somente a Palavra é absoluta para a igreja.[4]

          De forma decorrente, a autoridade de quem prega, não é derivada do fato de ser pregador, mas de sua fidelidade na transmissão da Palavra. Entre tantos outros autores, Calvino também nos ensina isso:

As únicas pessoas que têm o direito de ser ouvidas são aquelas a quem Deus enviou e que falam a palavra de Sua boca. Portanto, para qualquer homem exercer autoridade, duas coisas são requeridas: o chamamento [divino] e o desempenho fiel do ofício por parte daquele que foi chamado.[5]

          A compreensão Reformada da autoridade bíblica, fundamenta-se na convicção de sua procedência conforme o próprio testemunho bíblico. A Escritura procede do único Deus da verdade. Por isso, ela não precisa de nosso testemunho para ser o que é. O nosso testemunho ilustra a graça de Deus que possibilita a nossa compreensão da Palavra, mas, nada lhe acrescenta. Por isso, ela é autoritativa porque Deus é o seu autor, quem lhe confere autoridade. O Espírito de Deus é O intérprete e comunicador da Escritura. Portanto, compreender a Palavra é graça![6]

A Palavra é a verdade de Deus, quer creiamos, quer não, aceitemos ou não. A autoridade da Palavra é decorrente da sua origem divina. Nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21). Deste modo, a autoridade da Palavra é proveniente do Deus da Palavra, não daqueles que a proclamam.

A Confissão de Westminster declara com precisão:        

A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus.[7]

Calvino (1509-1564), atento a isso, escreveu em lugares diferentes: “É chocante blasfêmia afirmar que a Palavra de Deus é falível até que obtenha da parte dos homens uma certeza emprestada”.[8] Em outro lugar: “A Palavra do Senhor é semente frutífera por sua própria natureza”.[9]

          O sacerdote romano, Bruckberger (1907-1998), analisando os Puritanos nos Estados Unidos,concluiu:“Os nossos puritanos não estudavam a Bíblia como exegetas, ainda menos como racionalistas. Ela era a sua vida”.[10]

          De fato, se, pelo Espírito recebemos a Bíblia como a Palavra autoritativa de Deus, não há lugar para relativismos. Ela é a nossa vida, a Constituição de nosso crer e agir. Quando a Escritura é levada a sério como Palavra autoritativa de Deus, os efeitos disso não tardam a aparecer em nossa vida como resultado desta cosmovisão.

   São Francisco do Sul/Maringá, 05 de março de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Cf. Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 312.

[2] “Os reformadores eram grandes exegetas das Escrituras Sagradas. Suas obras teológicas mais incisivas encontram-se em seus sermões e comentários bíblicos. Eles estavam convencidos de que a proclamação da igreja cristã não poderia originar-se da filosofia ou de qualquer cosmovisão auto- elaborada. Não poderia ser nada menos que uma interpretação das Escrituras. Nenhuma outra proclamação possui direito ou esperança na igreja. Uma teologia que se baseia na doutrina reformada das Escrituras Sagradas não tem nada a temer com as descobertas precisas dos estudos bíblicos modernos” (Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1993, p. 313).

[3] “A insistência evangélica sobre a autoridade da Escritura reflete a determinação de não permitir que nada fora da herança cristã torne-se norma para o que é verdadeiramente ‘cristão’.” (Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 50).

[4] “Reservamos à Bíblia uma estima e um amor que não temos, no mesmo grau, pela tradição, nem mesmo pelos mais valiosos de seus elementos. Nenhuma Confissão de Fé datando da Reforma ou da época atual pode, da mesma maneira que as Escrituras, elevar-se à pretensão de solicitar o respeito da Igreja.

            “Mas isso não retira nada do fato de que a Igreja escuta e aprecia o testemunho de seus Pais. Então, mesmo que nós não encontremos nele a Palavra de Deus como em Jeremias ou em Paulo, ele tem para nós um significado elevado. Obedecendo ao mandamento ‘honra teu pai e tua mãe’, nós não nos recusaremos a respeitar, seja na pregação, seja na elaboração científica da dogmática, as afirmações de nossos Pais. Diferentemente das Escrituras, as Confissões não têm autoridade que obrigue, mas devemos, todavia, levá-las seriamente em consideração e lhes atribuir uma autoridade relativa” (Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 13).

[5] João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 1.1), p. 15.

[6] “O Espírito Santo abre nosso coração para confiarmos, crermos e obedecermos à Palavra de Deus na Escritura. A submissão continua sendo uma luta, inclusive intelectual. Devemos reconhecer nossas limitações, a realidade do mistério, a fraqueza de nossa fé, sem nos desesperarmos de todo o conhecimento e verdade” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Prolegômena, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 389).

[7]Confissão de Westminster, I.4.

[8]João Calvino, As Pastorais,São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 3.15), p. 98.

[9]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios,São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 3.6), p. 103.

[10]Padre R.L. Bruckberger, A República Americana, Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1960, p. 31.

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