Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (53)

O pecado como alienação

O homem foi criado essencialmente como ser social.[1] O pecado alienou-nos de Deus, de nós mesmos, do nosso semelhante e da natureza.[2] Assim, o pecado, de certa forma, desumanizou-nos. 

Perda do aspecto ético da imagem e semelhança

A Queda trouxe consequências desastrosas à imagem de Deus refletida no homem. Após a queda, mesmo o homem não-regenerado continua sendo imagem e semelhança de Deus (aspecto metafísico):[3] Apesar de o pecado ter sido devastador para o homem, Deus não apagou a sua “imagem”, ainda que a tenha corrompida,[4] alienando-o de Deus.

Conforme já mencionamos, o pecado trouxe como implicação a perda do aspecto ético da imagem de Deus.[5]  A nossa vontade, como agente de nosso intelecto,[6] agora, é oposta à vontade de Deus.

O propósito divino de santidade para nós foi contraposto pelo desejo pecaminoso do homem de seguir seu próprio caminho à revelia de Deus e de Seus mandamentos.   

Imagem de satanás

A imagem que agora refletimos estampa mais propriamente o caráter de Satanás.[7] O homem está eticamente sob o seu domínio.[8]

            Calvino é enfático ao retratar a depravação humana:

Portanto, que os homens reconheçam que, conquanto são nascidos de Adão, são criaturas depravadas, e por isso só podem conceber pensamentos pecaminosos, até que se tornem nova feitura de Cristo, e sejam formados por seu Espírito para uma nova vida. E não se deve nutrir dúvida de que o Senhor declara que a própria mente do homem é depravada e totalmente infectada com pecado; de modo que todos os pensamentos que procedem daí são maus. Se tal é o defeito na própria fonte, segue-se que todos os afetos humanos são maus e suas obras cobertas com a mesma poluição, visto que, necessariamente, têm laivos de seu original. Porquanto Deus não diz meramente que os homens às vezes pensam mal; mas a linguagem é sem fronteira, circunscrevendo a árvore com seus frutos.  (…) Pois visto que sua mente seja corrompida com descaso de Deus, com orgulho, amor próprio, ambição, hipocrisia e fraude, ela não pode proceder de outra forma, senão que todos os seus pensamentos se acham contaminados com os mesmos vícios. Além disso, não podem tender para um fim correto; donde sucede devam ser julgados como sendo o que realmente são: pervertidos e perversos. Pois tudo quanto há em tais homens, que nos deleita sob o matiz de virtude, é como o vinho deteriorado pelo odor do tonel. Porque (como já se disse) as próprias afeições da natureza, que em si mesmas são louváveis, contudo estão viciadas pelo pecado original, e, em razão de sua irregularidade, têm se degenerado de sua natureza peculiar; tal é o amor mútuo de pessoas casadas, o amor de pais para com seus filhos, e daí por diante. E a cláusula adicionada, ‘desde sua mocidade’, declara mais plenamente que os homens já nascem maus; a fim de mostrar que, tão logo atingem a idade em que começam a formar pensamentos, já revelam a corrupção radical da mente.  (…) Devemos, pois, aquiescer ao juízo de Deus, o qual pronuncia o homem como estando tão escravizado pelo pecado, que não pode produzir nada são e sincero. Todavia, ao mesmo tempo devemos recordar que não se deve lançar nenhuma culpa sobre Deus por aquilo que tem sua origem na defecção do primeiro homem, pela qual a ordem da criação foi subvertida. E, além do mais, deve-se notar que os homens não são isentados de culpa e condenação mediante o pretexto desta servidão; porque, embora todos se apressem para o mal, contudo não são impelidos por qualquer força extrínseca, e sim pela inclinação direta de seus próprios corações; e, por fim, pecam não de outro modo, senão voluntariamente.[9]

O boi e o jumento

            Por intermédio de Isaías, Deus faz uma analogia extremamente forte para ilustrar a nossa situação. Ele toma dois animais difíceis de trato: o boi e o jumento. Mostra que a obtusidade, a teimosia e a dificuldade de condução destes animais dão-se pela sua própria natureza; no entanto, assim mesmo, eles sabem reconhecer os seus donos, aqueles que lhes alimentam. O homem, por sua vez, como coroa da criação,[10]  cedendo ao pecado perdeu totalmente o seu discernimento espiritual; já não reconhecemos nem mesmo o nosso Criador; antes lhe voltamos as costas e prosseguimos em outra direção:[11]

O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade, raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o SENHOR, blasfemaram do Santo de Israel, voltaram para trás. (Is 1.3-4).

Perdão é essencial

Portanto, o perdão é essencial ao homem. Sem perdão jamais poderemos voltar a nos relacionar com Deus. Estaremos para sempre separados dele. Isso, de fato, é um inferno.

            Por isso, quando nos deparamos com a Lei de Deus e as exigências divinas, por graça tomamos consciência de quão distantes estamos do padrão divino.

            O salmista sabia bem disso, por isso, clama:   “Por causa do teu nome, SENHOR, perdoa (xl;s)’ (salach) a minha iniquidade(}oWf()(avon), que é grande” (Sl 25.11).

            O perdão é o caminho da reconciliação. Carecemos, de fato, de perdão.

Maringá, 11 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]“O homem foi formado para ser um animal social” (John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis,Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1981 (Reprinted), v. 1, (Gn 2.18), p. 128). Em outro lugar: “O homem é um animal social de natureza, consequentemente, propende por instinto natural a promover e conservar esta sociedade e, por isso, observamos que existem na mente de todos os homens impressões universais não só de uma certa probidade, como também de uma ordem civil” (João Calvino, As Institutas,II.2.13).

[2]“Pelo pecado estamos alienados de Deus” (João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.9), p. 32); “Tão logo Adão alienou-se de Deus em consequência de seu pecado, foi ele imediatamente despojado de todas as coisas boas que recebera” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 2.5), p. 57). “Como a vida espiritual de Adão era o permanecer unido e ligado a seu Criador, assim também o dEle alienar-se foi-lhe a morte da alma” (João Calvino, As Institutas, II.1.5).  Vejam-se também: Francis A. Schaeffer, Poluição e a Morte do Homem,São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 46-47; John W. R. Stott, O Discípulo Radical, Viçosa, MG.: Ultimato, 2011, p. 43.

[3] Podemos também chamar de aspecto “lato”, “estrutural” ou “formal”. (Para uma visão panorâmica do uso destes termos, veja-se: Anthony A. Hoekema, Criados à Imagem de Deus,São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 84-88).

[4]Vejam-se: João Calvino, As Institutas,I.15.4; II.1.5; Juan Calvino, Breve Instruccion Cristiana, Barcelona: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1966, p. 13; João Calvino, Efésios, (Ef 4.24), p. 142; João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 8.5), p. 169; v. 2, (Sl 62.9), p. 579.

[5]Podemos também chamar de aspecto “estrito”, “funcional” ou “material”. (Para uma visão panorâmica do uso destes termos, veja-se: Anthony A. Hoekema, Criados à Imagem de Deus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 84-88,101). “É verdade que ela não foi totalmente extinta; mas, infelizmente, quão ínfima é a porção dela que ainda permanece em meio à miserável subversão e ruínas da queda” (João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 8.5), p. 169). “Ele é a criatura que, inicialmente, foi criada à imagem e semelhança de Deus, e essa origem divina e essa marca divina nenhum erro pode destruir. Contudo, ele perdeu, por causa do pecado, os gloriosos atributos de conhecimento, justiça e santidade que estavam contidos na imagem de Deus. Todavia, esses atributos ainda estão presentes em ‘pequenas reservas’ remanescentes da sua criação; essas reservas são suficientes não somente para torná-lo culpado, mas também para dar testemunho de sua primeira grandeza e lembrá-lo continuamente de seu chamado divino e de seu destino celestial” (Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 17-18). Vejam-se: João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999,v. 2, (Sl 51.5), p. 431-432; John Calvin, Commentaries on the Epistle of James, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996, (Calvin’s Commentaries, v. 22), (Tg 3.9), p. 323; As Institutas, I.15.8; II.2.26,27; Hermisten M.P. Costa, João Calvino 500 anos: introdução ao seu pensamento e obra, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 211ss.; W. Gary Crampton; Richard E. Bacon, Em Direção a uma Cosmovisão Cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2010, p. 27; Herman Dooyeweerd, No Crepúsculo do Pensamento, São Paulo: Hagnos, 2010, p. 260-261; François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 591; Emil Brunner, Dogmática: A Doutrina Cristã da Criação e da Redenção, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, v. 2,  p. 88.

[6]Ver: James M. Boice, O Evangelho da Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 111. Agostinho (354-430), comentando o Salmo 148, faz uma analogia muito interessante: “Como nossos ouvidos captam nossas palavras, os ouvidos de Deus captam nossos pensamentos. Não é possível agir mal quem tem bons pensamentos. Pois as ações procedem do pensamento. Ninguém pode fazer alguma coisa, ou mover os membros para fazer algo, se primeiro não preceder uma ordem de seu pensamento, como do interior do palácio, qualquer coisa que o imperador ordenar, emana para todo o império romano; tudo o que se realiza através das províncias. Quanto movimento se faz somente a uma ordem do imperador, sentado lá dentro? Ao falar, ele move somente os lábios; mas move-se toda a província, ao se executar o que ele fala. Assim também em cada homem, o imperador acha-se no seu íntimo, senta-se em seu coração; se é bem e ordena coisas boas, elas se fazem; se é mau, e ordena o mal, o mal se faz” (Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998, v. 3, (Sl 148.1-2), p. 1126-1127).

[7]“Moral e espiritualmente, o caráter do homem estampa a imagem de Satanás, e não a de Deus. Ora, é precisamente isso o que a Bíblia quer dizer quando fala sobre o homem caído no pecado como ‘filho do diabo’. (Jo 8.44; Mt 13.38; At 13.10 e 1Jo 3.8)” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 67). “Tampouco é absurdo dizer que a imagem em parte se perdeu e em parte se conservou, e que no mesmo sujeito há a imagem de Deus e a do diabo em diferentes aspectos” (François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 588).

[8]Cf. Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 3, 190.

[9]John Calvin, Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis,Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1981 (Reprinted), v. 1, (Gn 8.21), p. 284-286.

[10]“Não é arrogância humana acreditar que seja a coroa, o alvo da criação. Ela o é, não apenas porque seja a última numa série ascendente, mas porque, pela sua natureza, foi estabelecida para isso” (Emil Brunner, Dogmática: A Doutrina Cristã da Criação e da Redenção, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, v. 2, p. 99).

[11]Lloyd-Jones explora com vivacidade a analogia do texto. Veja-se: D.M. Lloyd-Jones, O Caminho de Deus, não o nosso, p. 43-46.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (52)

Quando tratamos deste tema, devemos ter em mente que a questão primeira não é a quantidade ou intensidade de nossos pecados, mas, o fato de que pecamos – e, diferentemente da compreensão de determinados pensadores humanistas, inclusive cristãos[1] –; a gravidade do pecado está no ponto de que todo pecado é primeiramente contra Deus, o eternamente santo,[2] que não tolera o mal (Hc 2.13). O que intensifica ainda mais a complexidade de nossa rebelião é o mal uso que fazemos de seus esplêndidos dons que nos foram conferidos[3] e, o fato de rejeitarmos o seu infinito amor plenificado em Jesus Cristo.[4]

Schaeffer (1912-1984) coloca a questão nestes termos:

Nós pecamos deliberadamente contra o santo de Deus; é por isso que a nossa situação é desesperadora. (…)

O problema não está na quantidade de pecados que praticamos, mas em quem ofendemos. Nós pecamos contra um Deus infinitamente santo, que realmente existe. E, a partir do momento em que pecamos contra um Deus infinitamente santo, que realmente existe, nosso pecado é infinito.[5]

            O problema é que o pecado não nos deixa perceber as suas consequências: estamos totalmente alienados de Deus. O pecado faz conosco o que determinados remédios fazem como efeito colateral: mascaram os sintomas, tornando a possível enfermidade imperceptível.

Rebelião contra Deus

            Portanto, o grande problema do homem é a sua permanente rebelião contra Deus.[6] Pecado consiste basicamente numa atitude errada para com Deus. “Pecado não é tanto uma expressão do que fazemos quanto uma expressão do nosso relacionamento com Deus”, interpreta Lloyd-Jones.[7]

A Palavra de Deus ao povo de Israel permanece como verdade para todos aqueles que ainda se encontram distantes dele: “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o SENHOR é quem fala: Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim” (Is 1.2).

            Todos, sem exceção, estão nesta situação, até que conheçam, pela fé, salvadoramente a Cristo.

O homem desde a queda encontra-se sob o domínio do pecado e, por isso mesmo é incapaz de responder positivamente ao chamado externo do Evangelho.

O pecado corrompeu o intelecto, a vontade e a faculdade moral de toda a raça humana; por isso, o homem está morto espiritualmente, sendo escravo do pecado (Gn 6.5; 8.21; Is 59.2; Jo 8.34,43,44 Rm 3.9-12,23; Ef 2.1,5; Cl 1.13; 2.13)[8] e, nada pode fazer – e na realidade nem sequer deseja – para retornar à comunhão perdida. Como disse o Senhor Jesus Cristo: “Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34) (Vejam-se: Is 64.6; Rm 6.6). Agora “O homem peca com o consentimento de uma vontade pronta e disposta”, interpreta Calvino.[9]

Perdemos a nossa percepção espiritual

A depravação total é justamente isto: a contaminação de todas as nossas faculdades pelo pecado. Perdemos totalmente a nossa capacidade de percepção espiritual. As cousas de Deus soam como loucura (1Co 1.18-21; 2.6-8; 12-16). 

O homem pelo seu próprio conhecimento não pode conhecer a Deus.

É por isso que a loucura de Deus, que tanto humilha o homem em sua tentativa de autossuficiência, é o caminho estabelecido por Deus para conhecê-Lo salvadoramente (1Co 1.21). 

A nossa lógica, resultante de Graça Comum de Deus, tão hábil para desvendar os mistérios do saber e desmantelar sofismas, se mostra totalmente inadequada e incapaz para perceber a realidade da Palavra que nos fala de Deus e do que somos.

Calvino resume:

O intelecto do homem está de fato cegado, envolto em infinitos erros e sempre contrário à sabedoria de Deus; a vontade, má e cheia de afeições corruptas, odeia a justiça de Deus; e a força física, incapaz de boas obras, tende furiosamente à iniquidade.[10]

            Ainda que o homem não seja absolutamente mau – não é tão mau quanto poderia -, é extensivamente mau; todo o seu ser está contaminado pelo pecado.[11] O pecado nos domina completamente.

Na linguagem do profeta Isaías, “Toda a cabeça está doente e todo o coração enfermo. Desde a planta do pé até à cabeça não há nele cousa sã, são feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo” (Is 1.5-6).

O Reformador João Calvino é enfático em lugares diferentes:

Não teremos uma ideia adequada do domínio do pecado, a menos que nos convençamos dele como algo que se estende a cada parte da alma, e reconheçamos que tanto a mente quanto o coração humanos se têm tornado completamente corrompidos.[12]
Nada, senão a morte, procede dos labores de nossa carne, visto que os mesmos são hostis à vontade de Deus. Ora, a vontade de Deus é a norma da justiça. Segue-se que tudo quanto seja contrário a ela é injusto; e se é injusto, também traz, ao mesmo tempo, a morte. Contemplamos a vida em vão, caso Deus nos seja contrário e hostil, pois a morte, que é a vingança da ira divina, deve necessariamente seguir de imediato a ira divina.
Observemos aqui que a vontade humana é em todos os aspectos oposta à vontade divina, pois assim como há uma grande diferença entre nós e Deus, também deve haver entre a depravação e a retidão.[13]

Maringá, 11 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Dentro desta perspectiva limitante do sentido do pecado, incluímos, entre outros, Cecil Osborne (1904-1999), que seguindo o pensamento de Erich Fromm (1900-1980), (“Pecado não se dirige primariamente contra Deus, mas contra nós mesmos” (Erich Fromm, Psicanálise e religião, 2. ed. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, Ltda., 1962, p. 105). Do mesmo modo, ver a obra de Fromm, Análise do Homem, São Paulo: Círculo do Livro, (s.d.), 218p), escreveu: “Pecado é essencialmente um erro contra si mesmo ou contra outro ser humano” (Cecil Osborne, A Arte de Compreender-se a Si Mesmo, Rio de Janeiro: JUERP., 1977, p. 139). Do mesmo modo, esse conceito tem sido amplamente difundido por um discípulo de Norman Vincent Peale, Dr. Robert Schuller, que enfatiza: “o pecado é uma ofensa psicológica a si mesmo” (Vejam-se as pertinentes críticas a esta posição em: John MacArthur Jr., Sociedade sem Pecado, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p. 78ss).

[2] “O pecado envolve uma certa responsabilidade, por um lado, responsabilidade esta surgida da santidade de Deus, e, por outro lado, da seriedade do pecado como oposição àquela santidade” (John Murray, Redenção: consumada e aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 29). “Jamais compreenderemos o que o pecado realmente é, enquanto não aprendermos a pensar nele em termos de nosso relacionamento com Deus” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 64).

[3]Veja-se: Anthony A. Hoekema, Criados à Imagem de Deus,São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 101-102.

[4] “O incrédulo despreza o amor de Deus. Se este amor fosse pequeno, seria um pecado pequeno ignorá-lo. Se é grande, é grande pecado rejeitá-lo. Mas o fato é que este amor é infinito. Isso faz da rejeição deste amor um pecado de proporções infinitas” (R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 19). “Como o amor de Deus é infinito, desprezar esse amor é pecado de proporções infinitas No entanto, é o que fazem aqueles que, por sua descrença, rejeitam o Filho de Deus, dom do Seu amor. (…) Rejeitar este amor é incorrer no banimento eterno da presença de Deus. Responder com fé e amor é herdar a vida eterna. Nada pode ser mais urgente do que a escolha de uma destas atitudes” (R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, p. 72).

[5]Francis Schaeffer, A obra consumada de Cristo, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 75.

[6]“O pecado é antes um poder militante diametralmente oposto à vontade divina e seus propósitos” (Gustaf Aulén, A fé cristã, São Paulo: ASTE., 1965, p. 143).

[7]D.M. Lloyd-Jones, O Caminho de Deus, não o nosso, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2003, p. 25-26.

[8]“Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5). “…. o SENHOR (…) disse consigo mesmo: Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade….” (Gn 8.21). “…. as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça” (Is 59.2). “Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado. (…) Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.34,43,44). “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.9-12). “…. todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; (…) e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos” (Ef 2.1,5). “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor (…). E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos” (Cl 1.13; 2.13).

[9]João Calvino, Instrução na fé, Goiânia: Logos Editora, 2003,Cap. 5, p. 16.

[10]João Calvino, Instrução na fé, Cap. 4, p. 15. Veja-se: D.M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 338.

[11]“Lembremo-nos de que nossa ruína se deve imputar à depravação de nossa natureza, não à natureza em si, em sua condição original, para que não lhe lancemos a acusação contra o próprio Deus, autor dessa natureza” (J. Calvino, As Institutas, II.1.10). Vejam-se: Confissão de Westminster,VI.2; IX.3; Catecismo Menor de Westminster,Questão 18; Catecismo de Heidelberg,Questões 5 e 7; Cânones de Dort,III e IV; L. Berkhof, Teologia Sistemática,Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 248; W.J. Seaton, Os Cinco Pontos do Calvinismo,São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (s.d.), p. 6-7; Duane E. Spencer, TULIP: Os Cinco Pontos do Calvinismo à Luz das Escrituras,São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, p. 39; L. Boettner, La Predestinación, Grand Rapids, Michigan: SLC. (s.d.), p. 55-73; A.W. Pink, Deus é Soberano, São Paulo: Fiel, 1977, p.101-119; Edwin H. Palmer, Doctrinas Claves, Carlisle, Pennsylvania: El Estandarte de la Verdad, 1976, p. 11-36; A.A. Hodge, Esboços de Theologia, Lisboa: Barata & Sanches, 1895, Cap. XX, p. 312-321; John L. Dagg, Manual de Teologia, São Paulo: Fiel, 1989, p. 126-130.

[12]João Calvino, O livro dos Salmos,v. 2, (Sl 51.5), p. 431. Do mesmo modo MacArthur: “A depravação (…) significa que o mal contaminou cada aspecto da humanidade – coração, mente, personalidade, emoções, consciência, razões e vontade (Cf. Jr 17.9; Jo 8.44)” (John MacArthur Jr., Sociedade sem pecado, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p. 81).

[13]João Calvino, Exposição de Romanos,(Rm 8.7), p. 266-267.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (51)

A ética cristã é fortemente marcada pela certeza de que a nossa salvação é por graça. Pertence totalmente a Deus e, ao mesmo tempo, pela consciência da necessidade de sermos obedientes à Lei de Deus: “Um cristão medirá todas as suas ações por meio da lei de Deus, seus pensamentos secretos estarão sujeitos à sua divina vontade”, escreve Calvino.[1]

No entanto, é natural que os homens se inclinem prazerosamente para os ensinamentos que falam de suas virtudes e capacidade.[2]

Mente secular otimista

Em geral a mente secular é profundamente otimista em relação às suas potencialidades. Portanto, falar de pecado é algo que não encontra tão facilmente ouvidos prazerosos ou mesmo atentos. Daí, uma tendência comum é a tentativa de suavizar esta doutrina, mudando nomes, perspectivas ou simplesmente silenciando a respeito. Dentro de uma perspectiva mais filosófica, tenta-se driblar a real questão por meio da amenização da realidade com a apresentação do perdão, como se a noção de perdão, por si só, trouxesse alívio, enquanto a proclamação da realidade do pecado assustasse as pessoas, as afastassem da mensagem do Evangelho.

Pois bem, talvez isso seja assim no campo especulativo onde o pecado e o perdão são apenas conceitos vagos sobre os quais reflito por meio de uma análise fenomenológica, não me importando com a sua essência e fundamentação teológica.

Deste modo, o que importa é a percepção subjetiva do conceito, não a veracidade e implicações dos fatos. Neste sentido, recordo-me da declaração de Erasmo de Roterdã (1466-1536): “Por certo são numerosos e fortes os argumentos contra a instituição da confissão pelo próprio Senhor. Mas como negar a segurança em que se encontra aquele que se confessou a um padre qualificado?”.[3]

Crentes mimados

O cristão de hoje, em especial, tende a gostar de ser mimado no culto ficando numa posição confortável climatizada analisando com certa indiferença o que é dito, brincando com as coisas de Deus sem nenhum tipo de constrangimento ou culpa. Afinal, a graça de Jesus é maravilhosa!, complacentemente diz para si mesmo. 

            O homem é hábil em buscar “uma capa e subterfúgio para seu pecado”.[4] Ou, quem sabe, podemos nutrir até alguma noção sobre pecado, contudo, tendemos a pensar que isso é coisa praticada por pessoas ignorantes, deste modo, o conhecimento, por si só, nos liberta desta prática, supomos.

De fato, como pontua Horton,

A necessidade de misericórdia só é sentida depois que a realidade da culpa impressiona. (…) O grito pelo socorro da graça nunca cativará o ouvido enquanto não houver novamente um sentimento de culpa e desespero em nossas igrejas.[5]

            Por isso, entendemos que somente pela graça, por meio da Palavra, podemos ter uma clara consciência de nossa pecaminosidade ativa e concreta e de sua afronta a Deus.[6]

Ter consciência do pecado significa reconhecer o quão urgentemente precisamos de perdão. O Evangelho só se torna subjetivamente necessário – enquanto na realidade ele é urgentemente necessário – quando as pessoas percebem, por Deus, a sua necessidade. Enquanto isso não acontecer, ele soará sempre como algo descartável.

“Não podemos ser cristãos sem convicção do pecado. Ser cristão significa que compreendemos que somos culpados diante de Deus e que estamos sob a ira de Deus”, resume Lloyd-Jones.[7]

Maringá, 11 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] João Calvino, A verdadeira vida cristã,São Paulo: Novo Século, 2000, p. 31.

[2]Cf. João Calvino, As Institutas,II.1.2.

[3] Erasmo, Opera Omnia, Leyde, 1704, v, col. 145-6, Apud Jean Delumeau, A confissão e o perdão: as dificuldades da confissão nos séculos XIII a XVIII, São Paulo: Companhia das Letras, 1991,p. 37. Em outro lugar, também indagou: “Por que se dar ao trabalho de confessar seus pecados a outro ser humano apenas pelo fato de ser um sacerdote, quando pode confessá-los diretamente a Deus?” (Apud Alister E. McGrath, Teologia, sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005,p. 84).

[4]João Calvino, O livro dos salmos,São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 105.6), p. 671.

[5] Michael S. Horton, Os Sola’s de Reforma: In: J.M. Boice;  B. Sasse, Reforma Hoje,  São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 123.

[6] “É mister graça e iluminação espiritual para crermos que nossos pecados são um problema sério aos olhos de Deus, conforme a Bíblia nos diz. Precisamos orar para que Deus nos torne humildes e dispostos a aprender, quando estudamos esse tema” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 63. Ver também p. 70s).

[7]D.M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 227.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (50)

Analisemos agora alguns aspectos do perdão concedido por Deus e de sua necessidade.

A. A gravidade do pecado e a necessidade de perdão

                        O pecado consiste na falta de conformidade com a lei de Deus. Por isso a sua culpa.[1] Independentemente da consequências diretas do pecado, ele sempre traz culpa, ainda que o homem dominado por suas paixões tente eliminar esse sintoma que lhe parece misterioso, mas, sabemos, que é resultante do fato de que Deus criou o homem para se relacionar com Ele.

O pecado sempre envolve a transgressão de algum mandamento divino. Por isso, inclusive, que todo pecado é primeiramente contra Deus. É impossível pecar contra nós mesmos, nosso próximo, a natureza e à sociedade em geral, sem pecarmos contra Deus. Os mandamentos de Deus abrangem toda a realidade e relações justamente porque Ele é o senhor de tudo e, cuida pessoalmente de sua criação. O seu propósito é que a sua imagem refletida no homem se  concretize em todas as suas obras.

Pecado é uma falsidade ideológica de nossa natureza essencial, já que fomos criados para glorificar a Deus em nossa alegre e prazerosa obediência. Como imagem, deveríamos refletir em nossa vida e comportamento aspectos da gloriosa beleza de Deus. A santidade proposta por Deus para seus filhos consiste na harmonia de sua vida e ação com a beleza da santidade eterna de Deus expressa na Sua revelação e, perfeitamente, em Jesus Cristo. No entanto, o pecado nos descaracterizou.

            Para um tratamento adequado que qualquer problema, necessitamos de um diagnóstico correto. Porém, mesmo tendo esse diagnóstico seguro, podemos nos aventurar em fórmulas mágicas que para nada mais servem, senão para agravar a nossa dor e desilusão.

            Também podemos, de posse de uma análise correta do problema, perceber que não temos acesso ao remédio. Ele pode ser inacessível porque, por exemplo, é muito caro, não é conhecido ou mesmo permitido onde estamos.

            Outro trágico caminho que podemos seguir é simplesmente nos negar a adotar o caminho proposto por simples e total falta de fé.

            Seja em que condições for, estaremos fadados aos efeitos da não correção do problema.

A Palavra nos dá o diagnóstico correto

            A Palavra de Deus nos apresenta o diagnóstico completo, perfeito e exaustivo da situação humana e, também, apresenta o remédio definitivo para nos curar: A expiação de nossos pecados em Cristo Jesus.

Por isso é que sem a consciência do pecado não há Evangelho. Somente o Evangelho trata o pecado com seriedade.[2] Isso porque Deus leva a sério a condição de suas criaturas em suas misérias espirituais.

Lei é Evangelho

A Lei é o Evangelho ainda que não em sua plenitude. Contudo, sem a Lei não há consciência do pecado e, por isso mesmo, a convicção da necessidade de salvação.

A Boa Nova de salvação engloba o pecado, as suas consequências e a libertação de suas mazelas pela graça de Deus. Por isso é que podemos dizer que a Lei é graça.

            A Lei de Deus revela o nosso pecado, evidenciando a sua gravidade[3] e, nos aponta o caminho proposto por Deus. Assim, a Lei deve ser pregada a todos, a crentes e descrentes.[4]

A lei moral permanece, como escreve Calvino:

A lei moral de Deus é a verdadeira e perpétua regra de justiça, ordenada a todos os homens, de todo e qualquer país e de toda e qualquer época em que vivam, se é que pretendem reger a sua vida segundo a vontade dele. Porque esta é a vontade eterna e imutável de Deus: que ele seja honrado por todos nós, e que todos nós nos amemos uns aos outros.[5]

         A Lei, portanto, nos conduz à graça que brilha de forma magnífica na face de Cristo (Gl 3.24).[6] Portanto, jamais poderemos separar a Lei do Evangelho sem perdermos a dimensão abrangente do propósito salvífico de Deus.[7]

Maringá, 11 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Veja-se: Catecismo Maior de Westminster, Pergunta 24.

[2]Veja-se: J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 69ss.

[3] Veja-se: João Calvino, As Institutas, II.7.6.

[4] Veja-se: Fórmula de Concórdia, Epítome VI.2-3: In: Livro de Concórdia, 7. ed. (rev. Atual.), São Leopoldo, RS.; Canoas, RS.; Porto Alegre: Editora Concórdia; Editora Sinodal; Editora da Ulbra, 2016, p. 517.

[5]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4, (IV.16), p. 160.

[6] Veja-se: João Calvino, As Institutas, II.7.8.

[7] “O Evangelho e a Lei não devem ser separados, constituem uma única entidade no interior da qual o Evangelho é a coisa primordial e a Lei permanece contida na Boa Nova” (Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 22).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (49)

Essa é a palavra condenatória de Deus aos sacerdotes e profetas de Israel: “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jr 6.14; Jr 8.11).

Psicologia e Pregação

Culpa é um conceito legal resultante de uma condenação pelo fato de ter-se quebrado uma lei.[1] Não há genuína culpa sem um padrão, e a sua transgressão. As Escrituras nos ensinam que todos nós como seres responsáveis que somos, tornamo-nos culpados por transgredir a sua lei (Jo 8.34; Rm 5.12; 6.23; Ef 2.1).

A psicologia que invadiu os nossos púlpitos, em parte pela ausência de pessoas habilitadas para expor as Escrituras com autoridade e integridade, se misturou com a teologia de tal forma, que conceitos totalmente estranhos à Palavra são difundidos com naturalidade sem que nem ao menos percebamos.

Culpa e autoestima

Um desses conceitos é de que devemos eliminar o sentimento de culpa. Outro ensinamento associado a esse, é da importância de cultivarmos uma autoestima. Como se sensação de não termos culpa ou um alto conceito de nós mesmos mudasse a realidade do que somos.

Sem dúvida, a culpa psicológica, que pode perdurar pela falsa ideia de pecado ou, pela compreensão equivocada da obra expiatória de Cristo e do completo perdão de Deus, deve ser superada.[2]

No entanto, a autoestima não irá vencer o genuíno sentimento de culpa resultante de um pecado real. Somente o Evangelho pode fazer por nos mostrar o que somos e como podemos nos tornar em Cristo.

Martin Buber (1878-1965), tem um insight muito perspicaz:

Se Deus faz essa pergunta [“Onde você está?], Ele não quer saber algo que ainda não saiba sobre a pessoa; Ele quer provocar alguma coisa nessa pessoa, algo que só pode ser provocado dessa maneira – com a condição de que a pergunta atinja o coração da pessoa, de que a pessoa se permita ser atingida no coração.

Adão se esconde para não ter de dar satisfações, para escapar da responsabilidade em relação à própria vida. Dessa maneira, todos os homens se escondem, pois todos são Adão e estão na situação de Adão. Para escapar da responsabilidade por sua vida, a existência é transformada num sistema de esconderijos.[3]

Sentimento de culpa como bênção

O pecado não é uma invenção cristã, antes é a realidade do homem após a Queda, quando nossos primeiros Pais desobedeceram a Deus resultando tal ato em vergonha e culpa.[4]

“A verdadeira culpa tem somente uma causa: o pecado. Até que o pecado seja tratado, a consciência lutará para acusar. E o pecado – e não a baixa estima – é o que o Evangelho veio derrotar”, enfatiza MacArthur.[5]

O Cristianismo não é uma religião de doença e enfermidade com ênfase patológica no pecado. Mas, sem dúvida, o Cristianismo trata essencialmente com doentes e, sincera e misericordiosamente apresenta com clareza o seu diagnóstico terminal. Porém, ao mesmo tempo, apresenta a cura definitiva na expiação de Cristo Jesus.

Portanto, não podemos falar de perdão sem considerarmos o pecado.

Mohler Jr., coloca bem a questão:

Onde o pecado não é encarado como pecado, a graça não pode ser graça. Que necessidade de expiação poderiam ter homens e mulheres quando lhes é dito que o seu problema mais profundo é algo menos do que aquilo que a Bíblia ensina explicitamente? O ensino fraco sobre o pecado leva à graça barata e não conduz ao evangelho.[6]

 Jesus Cristo veio salvar os enfermos, não os supostamente sãos: 31 Respondeu-lhes Jesus: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes.  32 Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento” (Lc 5.31-32).

“O Cristianismo é a religião do coração ferido”, resume Machen.[7]

Considerar-nos sãos quando na realidade estamos em um estado terminal é algo terrivelmente nocivo a todos nós.

            Por isso, o sentimento de culpa pode ser uma das bênçãos de Deus para que não nos entreguemos totalmente ao pecado. “A culpa que sentimos como pecadores é legítima, natural e até mesmo apropriada”, conclui MacArthur.[8]

Culpa é graça

 A culpa, nestes casos, é graça! Por exemplo, a sensação indesejada de dor, como quando tocamos distraidamente em um ferro quente, propicia um alerta para evitar um mal maior.[9] O painel do carro que com tanta frequência em nosso país acende indicando problemas na “injeção”, é indesejado, porém, passa a ser um sinal importantíssimo até então imperceptível, de que algo está errado. Em geral, para nossa alegria (não é a “injeção”) e tristeza, é o combustível do posto “confiável” com bandeira, que não atende às especificações da mistura, já por si só, bastante generosa…. Portanto, a luz vermelha não é o problema. Ela apenas indica que algo está errado.

A culpa não é o fim, mas, por vezes, é o meio utilizado por Deus para restringir o mal e nos conduzir, no momento próprio, de volta a Ele pela Palavra.[10]

A nossa consciência, não cauterizada, tem um papel importante nesse processo (1Tm 4.2/1Co 4.3-5).[11]

Somente a Palavra pode curar nossas feridas restaurando a nossa alma. Não há restabelecimento espiritual sem o retorno a Deus; à nossa restauração primeira; à comunhão com Deus.

Maringá, 11 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Veja-se: Culpa: In: Carl F.H. Henry, org. Dicionário de Ética Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 152-153.

[2] Sobre esses pontos, veja-se: Francis A. Schaeffer, Verdadeira espiritualidade, São Paulo: Editora Fiel, 1980, p. 144-156.

[3]Martin Buber, O caminho do homem segundo o ensinamento chassídico, São Paulo: É Realizações, 2011, p. 10.

[4]“Quando Adão e Eva cometeram sua primeira transgressão, a vergonha e a culpa foram sentidas pela primeira vez na história humana” (R.C. Sproul, Estudos bíblicos expositivos em Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 109).

[5]John F. MacArthur, O aconselhamento e a pecaminosidade humana: In: John F. MacArthur, et. al., eds.  Introdução ao aconselhamento bíblico: um guia básico dos princípios e prática do aconselhamento, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 130.

[6]Albert Mohler Jr., O desaparecimento de Deus,  São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 32. 

[7]J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 71.

[8] John F. MacArthur, O aconselhamento e a pecaminosidade humana: In: John F. MacArthur, et. al., eds.  Introdução ao aconselhamento bíblico: um guia básico dos princípios e prática do aconselhamento, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 138. Do mesmo modo, escreveu Stott: “Se os seres humanos pecaram (o que aconteceu), e se são responsáveis por seus pecados (o que são), então são culpados perante Deus. A culpa é dedução lógica das premissas do pecado e responsabilidade. Erramos por nossa própria falta, e, portanto, devemos arcar com a justa penalidade de nosso erro” (John R.W. Stott, A Cruz de Cristo,Miami: Editora Vida, 1991, p. 86).

[9] Veja-se: Jay E. Adams, Teologia do aconselhamento cristão, Eusébio, CE.: Editora Peregrino, 2016, p. 202-203.

[10]“Estejamos seguros de que quando Deus nos faz sentir Sua mão, de modo a humilhar-nos sob ela, que Deus nos está fazendo um favor especial, e que se trata de um privilégio que Ele não concede a ninguém, senão a seus próprios filhos” (Juan Calvino, Bienaventurado el Hombre a Quem Dios Corrige: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 3), p. 49).

[11]“Pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência” (1Tm 4.2). “Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por tribunal humano; nem eu tampouco julgo a mim mesmo. 4Porque de nada me argúi a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado, pois quem me julga é o Senhor.  5 Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações” (1Co 4.3-5).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (48)

3. Perdoador

            Uma certeza sempre presente nos Salmos como em toda a Escritura, é que o nosso Senhor é o Deus perdoador.[1] 

Quanto maior for a nossa proximidade de Deus, envolvendo um conhecimento de sua pessoa, mais teremos clareza a respeito de nossos pecados e de nossa total incapacidade de nos relacionar com o Deus santo em santidade. Deus é perfeito, nós somos imperfeitos; Ele é santo, nós pecadores; Ele é justo, nós injustos.

            O salmista consciente dessa distância qualitativa e intransponível entre Deus e nós, suplica: “Por causa do teu nome, SENHOR, perdoa (xl;s)’ (salach) a minha iniquidade(}oWf() (‘avon), que é grande” (Sl 25.11).

            Por isso, enquanto tivermos uma ideia vaga do pecado e da maldade intrínseca do coração humano, jamais teremos uma visão adequada do perdão de Deus.

            Ele se coloca diante de Deus como um iníquo. O sentido da palavra (}oWf()(‘avon) é de perverter, distorcer, envergar algo que é reto, encurvar, torto.

A principal ideia está associada ao ato consciente, frequente e intencional de fazer o que é errado. Quando se aplica à lei significa “cometer uma perversão”, “infringir”. Distorcer o caminho certo. 

O pecado de nossos primeiros pais desestruturou o aspecto ético da imagem de Deus no homem. O homem se corrompeu.

A sua visão e prática tornaram-se tortuosas, desfocalizadas. O gosto pela transgressão passou a caracterizar o homem. Quando pecamos passamos a ter uma visão tortuosa em todas as nossas relações; perdemos a verdadeira dimensão da realidade. Toda a nossa visão a respeito do mundo, da vida e de nós mesmos está distorcida.

 Mesmo os nossos afetos não passam imunes a isso. Este é o sentido da depravação total.[2]

Calvino escreve com propriedade:

Não teremos uma ideia adequada do domínio do pecado, a menos que nos convençamos dele como algo que se estende a cada parte da alma, e reconheçamos que tanto a mente quanto o coração humanos se têm tornado completamente corrompidos.[3]

Culpa como consequência do pecado

Ao que parece, a culpa moral é a principal consequência subjetiva deste pecado[4] ainda que não saibamos dar nome a isso e não tenhamos o discernimento claro de seu motivo. No desejo de tentar se livrar desse sentimento, o homem se vale com muito esforço de vários subterfúgios.

É muito natural o homem buscar justificativa para os seus atos iníquos. Há um processo malévolo de racionalização por meio do qual elaboramos teorias por vezes sofisticadas que, pelo menos para nós, justificam os nossos atos.

Como isso nem sempre é suficiente, procuramos também persuadir os outros da integridade e necessidade de nossos atos pecaminosos que, nesse caso, não são apresentados como tais, antes, como necessários, ousados e inteligentes. Pecado, por vezes, recebe o nome de praticidade. O pecado não apenas racionaliza para si o seu pecado; ele deseja conquistar adeptos para a sua visão e prática. Dessa forma, em sua legitimação, desejo que o meu pecado se torne plausível a outras pessoas.

As nossas racionalizações complementadas por alguns comprimidos podem servir como paliativos durante algum tempo, contudo, não atingem o cerne do problema; elas não resolvem a questão do pecado e consequentemente da culpa.

Pecado fora de moda

Além disso, a palavra pecado já faz tempo que está fora de modo.[5] Preferimos eufemismos que amenizem o sentido ou, simplesmente, descaracterizem o pecado ou, até mesmo, nos conduza à afirmação de que o chamado pecado é uma virtude. Desse modo, podemos falar como tantos já o fizeram, de “cair para cima”.

Junto a isso, com todo e em geral bem-vindo progresso científico e tecnológico, alguns conceitos são tão bem difundidos em nossa sociedade, que já não os avaliamos, simplesmente os bebemos como leite materno de uma cultura essencial e sobejamente contaminada desde a sua gravidez pecaminosa no Éden quando nossos pais desobedeceram a Deus.

            Desse modo, cremos por exemplo, que o mal não está em nosso coração, mas, tem causas externas. Assim sendo, devemos tratar de questões externas como se desse modo resolvêssemos todos os nossos problemas: A violência é culpa da sociedade injusta, a gravidez indesejada é pela falta de informação e uma educação sexual mais explícita, a imoralidade é culpa dos meios de comunicação etc.

Enquanto cultivarmos esses equívocos, vamos lidar com os efeitos e não com as causas. Não podemos nos esquecer de que a sociedade estruturalmente má e os pecados sociais são cometidos pelo homem perfeitamente socializado.

Assim sendo, nos especializamos em paliativos que – como paliativos podem ser importantes -, mas não como soluções definitivas.

Maringá, 11 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Veja-se: Robert B. Chisholm Jr., Perdão e salvação em Isaías 53: In: Darrell L. Bock; Mitch Glaser, O Servo sofredor, São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 164-165.

[2]“Assim como o pecado original se estende por toda a humanidade, ele se estende também por toda a pessoa. Ele exerce influência sobre toda a pessoa, sobre a mente e a vontade, o coração e a consciência, a alma e o corpo, sobre todas as capacidades e poderes de uma pessoa” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 3, p. 123). Veja-se o excelente artigo de MacArthur. John F. MacArthur, O aconselhamento e a pecaminosidade humana: In: John F. MacArthur, et. al., eds.  Introdução ao aconselhamento bíblico: um guia básico dos princípios e prática do aconselhamento, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 123-141.

[3]João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 51.5), p. 431.

[4] Veja-se: Carl Schultz e Bruce K. Waltke, ‘ãwâ: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1087.

[5]“O desaparecimento do pecado do nosso vocabulário moral é uma das marcas da Idade Moderna – e da moralidade pós-moderna. Nestes dias, a maioria das pessoas acredita ser imperfeita, com espaços para melhorias – mas não pensam em si mesmas como pecadores necessitados de perdão e de redenção” (Albert Mohler Jr., O desaparecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 31).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (47)

E. Juízo eterno

O direito de Deus agir como juiz é estabelecido por Ele mesmo. Foi Deus mesmo quem “erigiu” o seu trono para julgar.

   O mesmo Deus que estabeleceu as estrelas nos céus (Sl 8.3);[1] os céus[2] e a terra,[3] firmou o seu trono nos céus (Sl 103.9).[4]

            Foi o Senhor quem constituiu o seu trono para julgar. Ele o fará para sempre: “Mas o SENHOR permanece no seu trono eternamente (~l’A[) (olam), trono que erigiu (!WK) (kun) para julgar (jP’v.mi) (mishpat)(Sl 9.7). O juízo de Deus permanece.

            Em nosso país falamos com frequência de leis que “não pegam”. Ou seja: As leis existem, mas, não vigoram. Na realidade não há poder no Executivo de implementá-las, fiscalizá-las e de fazê-las cumprir. Deste modo, há leis que existem apenas no papel e, também, há outras que independentemente de sua prática ou não, são modificadas, substituídas ou abolidas. Deste modo, o que era legal, agora, deixou de ser. Isto existe em vários campos de conhecimento e atuação.

  • As mãos nas ruas e avenidas.
  • As normas mecanográficas para a confecção de trabalhos acadêmicos.
  • Normas ortográficas.
  • A penalidade para determinados crimes.
  • As leis de trânsito.
  • As leis que regulam os horários de funcionamento de shoppings e comércio em geral.
  • A possível reforma da Previdência que está em pauta.

            É verdade que podemos falar de leis que permanecem, tais como da termodinâmica, da gravidade etc. No entanto, todas estas leis permanecem, não pela sua descoberta, antes, porque Deus as criou e as preserva. Elas já existiam e Deus nos governava por meio delas e de inúmeras outras que nem sequer conhecemos. A nossa percepção científica não serve de parâmetro para a realidade. As coisas não passam a existir simplesmente porque as descobrimos.

            Os juízos de Deus por serem verdadeiros, fundamentando-se na verdade que emana do próprio Deus, duram para sempre: “As tuas palavras são em tudo verdade desde o princípio, e cada um dos teus justos (qd,c) (tsedeq) juízos (jP’v.mi) (mishpat) dura para sempre (~l’A[) (‘olam) (Sl 119.160).

            Deste modo, o que quero destacar, é que o juízo de Deus, tanto no aspecto deliberativo como executivo, permanece para sempre. Ele faz cumprir o que deliberou. Ele tem total autonomia e poder para assim proceder. Não existe grau de recurso além dele mesmo.[5]

            Desta forma podemos descansar confiantes em seu cuidado e proteção. Por isso a afirmação do salmista: “Pois o necessitado não será para sempre esquecido, e a esperança dos aflitos não se há de frustrar perpetuamente (d[;)(‘ad) (Sl 9.18).

            Passando por tremenda crise, estando cercado pelos seus inimigos e diante de conselhos que lhes parecem contraditórios, Davi recorre à sua convicção a respeito de Deus. Deus é justo: “Porque o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face”(Sl 11.7).

Se Deus é santo, soberano e justo, devo confiar inteiramente na vitória final da justiça de Deus. Davi está convencido da justiça e legitimidade de sua causa, por isso, invoca ao Deus justo.

Quem melhor do que Deus para julgar a sua causa?

A justiça da terra pode ser subvertida, no entanto, a justiça eterna de Deus permanece; ela não foi nem será extirpada de seu trono no céu (Sl 11.4).[6]

            Pode haver justiça sem santidade, porém, não pode haver santidade sem justiça. Contudo, a justiça pode ser apenas ideal, mas, não real pela impossibilidade de aplicá-la; por nos faltarem os meios.

            Em Deus temos a harmonia perfeita entre Santidade, Poder e Justiça. Deus é santo e tem todo o poder para agir conforme a sua justiça, sendo Deus mesmo justo ‒ Aquele que ama a justiça, o padrão de toda justiça. Deus age sempre em retidão.

Jesus e a santidade do Pai

             Na Oração Sacerdotal Jesus dirige-se a Deus como “Pai Justo” (Jo 17.25). Na sua entrega em favor de seu povo, Jesus Cristo tinha em vista a profunda certeza e confiança da paternidade e da justiça de Deus. Na entrega do Filho, além da misericórdia e do amor, temos, também, a perfeita manifestação de sua justiça.

            Diante das provações pelas quais passamos, aprendemos que muitas vezes, o mais importante do aprendizado não consistiu na concessão ou não do que pedimos em oração, mas, o que Deus nos ensinou neste processo de desafio à confiança, submissão, paciência e entrega.

            Se ando em fidelidade, posso entender as aflições pelas quais passo, como uma provação de Deus, que é justo (Sl 11.5). Deste modo, sabemos que a provação de Deus visa sempre ao nosso aperfeiçoamento. Por vezes somos refinados por meio das provações. Portanto, devo perseverar firme, confiante no seu amparo e cuidado.

            Como escreveu Calvino: “Se não podemos encontrar justiça em parte alguma do mundo, o único apoio de nossa paciência se encontra em Deus e em descansar felizes na equidade de seu juízo”.[7]

            Justamente por este fato, devemos confiantemente nos aquietar e nos alegrar no conforto de suas promessas e louvá-lo. Afinal, o fundamento do seu trono permanece inabalável. “Reina o SENHOR. Regozije-se a terra, alegrem-se as muitas ilhas. Nuvens e escuridão o rodeiam, justiça (qd,c) (tsedeq) e juízo são a base do seu trono” (Sl 97.1-2).

F. Juízo além de nossa compreensão

                        Davi escreve extasiado com as manifestações das perfeições de Deus:   “A tua justiça é como as montanhas de Deus; os teus juízos, como um abismo profundo. Tu, SENHOR, preservas os homens e os animais” (Sl 36.6).

            É necessário que não nos precipitemos. Os juízos de Deus ultrapassam em muito o nosso discernimento imediato. Ele, no entanto, que é Rei, julga para sempre, com justiça e sabedoria, tendo em vista a sua glória e a felicidade de seu povo.

G. Justo e compassivo

                               “Pois o SENHOR julga (!yDI) (din) (administra[8]) ao seu povo e se compadece  (~x;n”) (nacham) (consolar,[9] confortar,[10] compaixão[11]) dos seus servos” (Sl 135.14).

                “O SENHOR é reto. Ele é a minha rocha, e nele não há injustiça” (Sl 92.15), exulta o salmista.

                No reto juízo de Deus haverá sempre misericórdia. Deus é justo e misericordioso. Não há incompatibilidade nos atributos de Deus. Eles são perfeitos porque Deus é prefeito. Somente na perfeição transcendente de Deus há verdadeira harmonia entre o que nos parece irreconciliável.  Os nossos critérios de perfeição são sempre rotos visto que o imperfeito não pode criar e avaliar o perfeito e, mesmo que o tivesse diante de si, não teria parâmetros provenientes de si mesmo para identificá-lo com certeza.

Na justiça de Deus encontramos o amor provedor do Senhor. Portanto, não tentemos ser mais justos do que Deus, nós que julgamos com passionalidade ainda que tentemos ser “objetivos”. Somos pecadores e limitados; não nos esqueçamos disso.

Maringá, 11 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste (!WK) (Sl 8.3).

[2]“O SENHOR com sabedoria fundou a terra, com inteligência estabeleceu (!WK) os céus” (Pv 3.19).

[3]“A tua fidelidade estende-se de geração em geração; fundaste (!WK) a terra, e ela permanece” (Sl 119.90).

[4]Nos céus, estabeleceu (!WK) o SENHOR o seu trono, e o seu reino domina sobre tudo” (Sl 103.19).

[5] Figura análoga encontrei posteriormente em Piper. Veja-se: John Piper, Na sala do trono: In: Kathleen B. Nielson; D.A. Carson, orgs. Este é o nosso Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 58.

[6]Cf. A.F. Kirkpatrick, The Book of Psalms, Cambridge: University Press, © 1902, 1951, (Sl 11), p. 59.

[7] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 4.1), p. 92.

[8] Sl 9.9.

[9] Sl 23.4; 86.17.

[10] Sl 71.21.

[11] Sl 90.13.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (46)

Não há problemas de competência e jurisdição

            A Palavra enfatiza o domínio de Deus sobre todos os povos; todas as nações da Terra. Por isso, podemos dizer com o salmista:  “Ele julga (!yD) (diyn) entre as nações” (Sl 110.6).

            Deste modo, não há problemas de competência ou jurisdição: “Ele mesmo julga o mundo”(Sl 9.8).

O Senhor da História conduz a história para o seu glorioso fim: “O Senhor da história será o Juiz do mundo inteiro”, conclui Lloyd-Jones.[1]

            Deus exerce ativamente o seu poder sobre o mundo e os homens, dirigindo a História para a realização do seu propósito eterno. O salmista, nessa certeza, louva ao Senhor: “Ele é o SENHOR, nosso Deus; os seus juízos permeiam toda a terra” (Sl 105.7).

Soberania, juízo e história

            É muito difícil para nós entender a história.[2] Na realidade essa dificuldade não é apenas nossa. O salmista nos salmos 10 e 73, de modo especial, e Habacuque, conforme vimos, demonstram ter esta dificuldade.

Ninguém escapa desse problema em algum momento de sua vida.

Observe que não estamos falando simplesmente da macro história; refiro-me até mesmo à dificuldade que por vezes temos de entender a nossa própria história de vida. As adversidades pelas quais passamos, doenças, desemprego, incompreensão, calúnias, crises familiares etc.

Muitas vezes pensamos que as coisas estão indo mal e, quando imaginamos que chegamos ao fim do poço, elas ainda pioram. Nessas situações tendemos a nos angustiar profundamente.

Nem sempre a nossa fé triunfa em nossas angústias

            Com frequência não nos é possível compreender a nossa situação de dor e angústia. Mais ainda: nem sempre nos parece possível manter a nossa fé em Deus nas angústias. Não estou dizendo que perdemos a fé; o que percebo é que o difícil é manter a nossa fé subjetivada: crer e viver, comportar-se, responder em consonância com esta fé. A nossa fé nem sempre triunfa de modo existencial durante as nossas tribulações.

            O fato, é que mesmo administrando a história por meio de homens, Deus continua no controle sobre todos os povos e o faz, com retidão. A sua reta vontade prevalecerá sempre.

Governo reto: o mal sob o governo de Deus

            O governo soberano de Deus é reto, com equidade, com direito e de forma suave. Os solavancos na história devem-se à rebeldia do homem que deseja subverter o justo governo de Deus. Daí, muitas vezes, as guerras, fome, pestes, epidemias, exploração e injustiças sociais. O governo de Deus é suave e justo.

Calvino comenta:

Deus se assenta supremo, mesmo quando os ímpios triunfam em seus sucessos, ou quando os justos são tripudiados sob os pés da insolência, e que vem o dia quando arrancará o cálice dos prazeres das mãos de seus inimigos e alegrará o coração de seus amigos, livrando-os de suas mais profundas angústias.[3]

            Não pensemos que o mal não esteja sob o governo soberano de Deus dentro de seus propósitos eternos.

O mundo não está entregue à própria sorte. Deus o governa. Ainda que não percebamos a todo momento sinais desse governo, podemos descansar seguros, certos de que a esperança do aflito não se há de frustrar para sempre.[4] O para sempre é dentro de uma perspectiva totalmente humana.

Na realidade, pela ótica divina, que é a verdadeira, a esperança do aflito, depositada nas promessas de Deus nunca se frustra. Podemos nos frustrar com os nossos sonhos e anseios, porém, nunca com as promessas de Deus.

            Os seus retos e santos juízos permeiam toda a Terra. Nada ficará de fora

Caráter missionário

            Como a realeza de Deus sobre todas as coisas é um fato, há na visão dos salmistas a certeza de que o seu juízo também é sobre toda a criação, adquirindo um caráter temporal e escatológico. O nosso Deus não é de uma cultura, de um povo, das montanhas, dos mares ou dos ares, antes é o Rei sobre todas as coisas, visíveis e invisíveis. Como tal, juiz de todas as nações: Essa certeza era parte integrante do caráter missionário da igreja mesmo no Antigo Testamento:

             “Reina o SENHOR. Ele firmou o mundo para que não se abale e julga (!yD) (diyn) os povos com equidade” (Sl 96.10).

                “Na presença do SENHOR, porque vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, consoante a sua fidelidade” (Sl 96.13/Sl 98.9).[5]

Comentando o Salmo 96, Calvino sustenta que:

O salmista está exortando o mundo inteiro, e não apenas os israelitas, ao exercício da devoção. Isso não poderia ser efetuado, a menos que o evangelho fosse universalmente difundido como meio de comunicar conhecimento de Deus. (…) O salmista notifica, consequentemente, que o tempo viria quando Deus erigiria seu reino no mundo de uma maneira totalmente imprevista. Ele notifica ainda mais claramente como ele procede, ou, seja: que todas as nações partilhariam do favor divino. Ele convoca a todos a anunciarem sua salvação e, desejando que a celebrassem dia após dia, insinua que ela não era de uma natureza transitória ou evanescente, mas que duraria para sempre.[6]

Maringá, 11 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]D. M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997 (Grandes Doutrinas Bíblicas, v. 1), p. 323.

[2] “A história é ciência do homem e nada do que se refere ao homem é simples. E se uma questão histórica importante nos parece simples, o nosso dever deve ser imediatamente complicá-la, pois, ao vê-la simples, podemos ter a certeza de que a deformamos… Por outras palavras, o papel do historiador não é simplificar o real, é procurar, por trás das aparências da simplicidade, a complexidade das coisas vivas, o corrente, a necessária complexidade da vida” (Lucien Febvre, A Europa: génese de uma Civilização, Lisboa: Teorema, 2001,p. 153).

[3]João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 49.1-2), p. 372.

[4] “A fé não deixou de ser confiante. Ela não se baseia em instáveis acasos terrenos, mas no Deus que, apesar de tudo, está no trono. Porém, os golpes terrenos também são reais, e muitas vezes o mundo em que vivemos parece pertencer aos ímpios e maus” (J.A. Motyer, Os Salmos: In: D.A. Carson, et. al., eds. Comentário Bíblico: Vida Nova, São Paulo: Vida Nova, 2009, (Sl 9), p. 746).

[5]“Na presença do SENHOR, porque ele vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, com equidade” (Sl 98.9).

[6] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 96.1), p. 514-515.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (45)

D. Juízo universal

Um recurso de retórica muito comum, ainda que indesejável, é incluir o “nós” onde só se tem certeza do “eu”.

Assim, falamos em nome de pessoas que não nos autorizaram a representá-las em nossa fala e, também, não temos autoridade para isso, exceto a concedida pelo nosso despropositado e pretensioso eu.

            Outra forma ideológica discursiva é a generalização indevida como estratégia para conferir força ao argumento.

Assim, falamos: “Hoje ninguém mais pensa dessa forma”; “Todos sabemos”; “Pesquisas têm demonstrado”; “A ciência já provou”, esse ou aquele pensamento “está totalmente ultrapassado” etc.

            Saindo dessas construções ideológicas, podemos retornar às Escrituras.

Senhor que governa

            As Escrituras declaram com insistência que Deus é Rei. O fato é que como Deus é o Senhor Criador de todas as coisas (Rei), também governa sobre todo o universo (Reina). Não há aqui generalizações, presunção ou hipérboles.

            Deste modo, a manifestação do seu juízo será sobre todos os povos. Ninguém será julgado simplesmente pelos padrões da sua cultura. Aqui não há nenhum tipo de relativismo[1] e subjetivismo.[2] A Lei de Deus permanece extensiva e permanentemente: sobre todos os povos e para sempre.

Boice (1938-2000) resume:

Quando perguntamos o que é certo, o que é moral, respondemos à questão não apelando para algum padrão moral independente, como se pudesse haver um padrão para qualquer coisa separado de Deus, e sim apelando para a vontade e natureza do próprio Deus. O certo é o que Deus é e revela para nós.[3]

            “O Senhor(hwhy) (Yehovah) julga os povos” (Sl 7.8). Deus julga a todos os povos porque, na realidade, todo o universo, toda a criação, visível e invisível, lhe pertencem e estão sob a sua preservação, cuidado e senhorio. Deus não é indiferente à sua criação. Deus não está ocioso nem inerte.[4]

O juízo de Deus é universal. Ele é independente. O seu juízo não é uma pretensão megalomaníaca, antes, é a manifestação santa e justa de seu governo. Ele é o Senhor.  Por isso tem autoridade e autonomia para fazê-lo.

            Não há nada no mundo que possa presumir autonomia ou independência de Deus. Tudo pertence a Deus.  Ele é o legítimo proprietário de todas as coisas. 

            Contudo, em alguns momentos a sucessão dos eventos históricos pode nos deixar perplexos, como aconteceu com o profeta Habacuque (Hc 1 e 2).

Entretanto, a mão poderosa de Deus rege todos os acontecimentos. Deus dirige a história fazendo com que todas as coisas contribuam para o bem do seu povo, da sua Igreja (Rm 8.28).

Toda nação da terra está sob a mão divina, porque não há poder neste mundo que, em última instância, não seja por Ele controlado. (…) Deus é o Senhor da história. (…) Ele começou o processo histórico, controla-o, e por-lhe-á um fim. Jamais devemos perder de vista este fato decisivo.[5]

            O salmista inspirado por Deus afirma que Deus “administra (julga) os povos com retidão” (Sl 9.8).

Bavinck escreve de modo esclarecedor e confortador:

A doutrina da providência não é um sistema filosófico, mas uma confissão de fé, a confissão de que, apesar das aparências, nem Satanás, nem  o ser humano, nem qualquer outra criatura, mas somente Deus – mediante seu poder Todo-Poderoso e presente em toda parte – preserva e governa todas as coisas. Essa confissão pode nos salvar tanto de um otimismo superficial que nega os mistérios da vida quanto de um pessimismo arrogante que se desespera deste mundo e do destino humano.[6]

            Ele tem o controle de todas as coisas. É o Senhor não só de Israel, mas, também, de todos os povos. E como não poderia deixar de ser, o controle universal de Deus é com retidão. Isto indica que um dos aspectos de sua soberania ligado diretamente a nós, é o seu governo sobre a história; nada lhe é estranho.

            O juízo de Deus está sobre todas as esferas, tanto na forma de amplitude (extensividade) como de intensidade (profundidade). (Sl 130).

“Como grande Rei, o Senhor serve como o tribunal de apelação em questões civis para todos os oprimidos, isto, não somente para os oprimidos de Israel”, interpreta Bosma.[7]

            Nada lhe é indiferente. O sofrimento de seu povo não lhe passa desapercebido ou alheio ao seu santo controle.

Nessa certeza o salmista se conforta: “Pois o necessitado não será para sempre esquecido, e a esperança dos aflitos não se há de frustrar perpetuamente” (Sl 9.18/Sl 10.12-18).

            No alegre e agradecido cântico de Ana, há a declaração do governo de Deus sobre “as extremidades da Terra”: “Os que contendem com o SENHOR são quebrantados; dos céus troveja contra eles. O SENHOR julga (!yD) (diyn)as extremidades da terra, dá força ao seu rei e exalta o poder do seu ungido” (1Sm 2.10).

Águas de Lindóia, 8 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Para o relativismo ético ou convencionalismo, os conceitos considerados verdadeiros são produtos dos valores de uma época, de uma cultura, de um povo. Assim, toda verdade é relativa às crenças de uma sociedade, época, grupo ou cultura. Deste modo, não existe um código moral universalmente válido, antes, há uma infinidade de códigos com reivindicações semelhantes. A questão, portanto, não é quanto à existência de um código moral, antes, a sua validade universal. (Para uma descrição dos tipos de relativismos, vejam-se: David B. Wong, Relativismo Moral: In: Monique Canto-Sperber, org. Dicionário de Ética e Filosofia Moral, São Leopoldo, RS.: Editora Unisinos, 2003, v. 2, p. 490-496; J.P. Moreland; William L. Craig, Filosofia e Cosmovisão Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 498ss. Uma visão erudita e bem humorada do relativismo cultural mostrando a sua realidade, limites e incompreensões de seus acusadores, encontramos em: Clifford Geertz, Nova Luz Sobre a Antropologia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001, p. 47-67. Para uma avaliação cristã, vejam-se os artigos: Relativismo, Relativismo Cultural e Relativismo Ético. In: Carl Henry, org. Dicionário de Ética Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 507-514; Verdade, natureza da: Norman Geisler, Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã, São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 864-867 (especialmente); John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 133-166.

[2] Para o subjetivismo, a validade da verdade está limitada ao sujeito que conhece e julga. Desta forma, não podemos falar de uma realidade idêntica para todo o ser humano. Toda certeza é pessoal, visto que toda a verdade é subjetiva.

[3] James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã: Um manual de teologia ao alcance de todos,  Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 112.

[4] “Deus nunca está ocioso. Ele nunca está passivamente presente, como mero espectador” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 617). “Seu poder não cessou, mesmo no sétimo dia, no governo  do céu e da terra e de todas as coisas que criara, pois do contrário em seguida se desfariam. De fato, o poder do Criador e a virtude do Onipotente e do Mantenedor é causa da subsistência de toda a criatura” (Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis, São Paulo: Paulus, 2005 (Coleção Patrística; 21), IV.12, p. 133).

[5] D. Martyn Lloyd Jones, Do temor à fé, Miami: Editora Vida, 1985, p. 21.

[6] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 631

[7] Carl J. Bosma, Os Salmos: Porta de Entrada para as Nações. Aspectos da base teológica e prática missionária no Livro dos Salmos, São Paulo: Fôlego, 2009, p. 35.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (44)

Retidão consoante com sua justiça

            A retidão de Deus é consoante à sua justiça. A justiça é a manifestação do caráter essencialmente santo de Deus. Deus é justo em todos os seus atos, não se desvia de seu próprio padrão que é decorrente de sua santidade. A prática da justiça, que pode ser chamada de retidão, significa agir conforme o caráter de Deus, aquele que é justo absolutamente.

            Deus é o próprio padrão: “Deus é fidelidade, e não há nele injustiça: é reto e justo(qyDIc;) (tsadiyq)(Dt 32.4).

            O trono do Senhor está fundamentado em sua própria natureza santa, verdadeira e justa; é deste modo que Ele governa: “Justiça (qd,c) (tsedeq) e direito são o fundamento do teu trono; graça e verdade te precedem”(Sl 89.14).

            Deste modo, “a maior desonra que alguém poderia lançar sobre seu nome é a de contestar sua justiça”, interpreta Calvino.[1]

                 “Ele mesmo julga (jp;v) (shaphat) o mundo com justiça; administra (!yD) (diyn) os povos com retidão (rIv’yme.) (meshar)(Sl 9.8), escreve o salmista.

            Não há injustiça nos mandamentos de Deus. Não há contradição, equívocos ou parcialidade. Todos são igualmente justos. Essa convicção bíblica deve estimular o nosso louvor conforme vivenciou o salmista: “A minha língua celebre a tua lei, pois todos os teus mandamentos são justiça (qd,c,) (tsedeq) (Sl 119.172).

            Podemos, portanto, dizer que a justiça é a exteriorização da santidade de Deus em suas relações com as suas criaturas conforme revelada nas Escrituras.

A justiça de Deus se caracteriza por sua ação coerente com a sua natureza eterna. Por isso, suas ações são sempre perfeitas e retas, pois o seu padrão é a perfeição.

            Deus julga com justiça porque Ele, como o seu Filho, ama a justiça e aborrece a iniquidade: “Amas a justiça (qd,c) (tsedeq) e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos teus companheiros” (Sl 45.7/Hb 1.8-9).

Deísmo, Panteísmo e Panenteísmo

            O salmista parte de uma certeza: o mundo não está entregue ao acaso ou ao governo dos homens. Como vimos, Deus compartilha com o homem o seu poder, contudo, não abriu mão de sua soberania. Aqui não há espaço para nenhum tipo de Deísmo (Deus distante da Criação), Panteísmo (Deus se confunde com a matéria),  Teísmo Finito(Deus é bom, mas, limitado pelo mal) ou Panenteísmo(Deus e o mundo são eternos).[2]

            Como criador, preservador e proprietário de todas as coisas, Ele governa e julga com justiça: “Justo (qyDIc;) (tsadiyq) é o Senhor em todos os seus caminhos, benigno em todas as suas obras” (Sl 145.17).

O salmista ora a Deus: “Julga-me, SENHOR, Deus meu, segundo a tua justiça (qd,c) (tsedeq); não permitas que se regozijem contra mim” (Sl 35.24).

            Há a certeza de que “Justo (qyDIc;) (tsadiyq) és, SENHOR, e retos, os teus juízos” (Sl 119.137). 4Porque sustentas o meu direito e a minha causa; no trono te assentas e julgas (jp;v’) ((shaphat) retamente (qd,c) (tsedeq). (…) 8Ele mesmo julga o mundo com justiça (qd,c) (tsedeq); administra os povos com retidão (rIv’yme.) (meshar)[3] (Sl 9.4,8).

            A certeza de que há leis e de que somos governados por meio delas, não basta para nos fazer sentir confiantes em todo tempo.

            Muitas vezes as nossas causas nos parecem tão pequenas – perdidas entre tantas e tantas outras de maior proporção ou de maior importância conforme o grau de interesse de quem compete julgar -, que nem alimentamos grande esperança.

            Nestes casos cultivamos uma espécie de ceticismo resultante da convicção, sempre ilustrada, de que não há espaço para a justiça. A generalização indevida é pródiga na fomentação do ceticismo que, por sua vez, só retroalimenta a nossa insatisfação e a satisfação de a disseminarmos de forma corrosiva entre os crentes.

            O salmista, no entanto, afirma que o Deus que rege as nações e julga o mundo com justiça, também sustenta o seu direito e a sua causa (Sl 9.4). Ou seja: Deus cuida pessoalmente de nós e de nossas causas; nada fica esquecido ou perdido em meio aos “papéis”. Daí o salmista dizer:“Sei que o SENHOR manterá a causa (!yD) (diyn) do oprimido (ynI[‘)(`aniy) e o direito (jP’v.mi) (mishpat) do necessitado (!Ayb.a) (‘ebyon)(Sl 140.12).

            De fato, o Justo Senhor é o nosso pastor.

Águas de Lindóia, 8 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 50.21), p. 417.

[2]Veja-se: W. Gary Crampton; Richard E. Bacon, Em direção a uma cosmovisão cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2010, p. 93-106; Cosmovisão: In: Norman Geisler, Enciclopédia de apologética, São Paulo: Vida, 2002, (2. impressão), p. 188-189.

[3]A palavra retidão significa, entre outras coisas: Sinceridade (1Cr 29.17); Equidade (Sl 17.2; 96.10; 98.9; 99.4; Pv 1.3; 2.9); Retamente (Sl 75.2); Coisas retas (Pv 8.6; 23.16); Suavidade (Pv 23.31; Ct 7.9); Caminho plano (Metaforicamente) (Is 26.7); Reto (Is 33.15); Direito (Is 45.19); Concórdia (Dn 11.6).