Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (7)

Provas da existência de Deus?

 

As Escrituras não gastam tempo discutindo sobre as “provas da existência de Deus”, antes, nos apresentam um Deus que fala e age. Muito de o seu agir é agenciado por sua palavra que cria, recria e transforma (Gn 1.1/Gn 2.4).[1]

 

Por meio de Isaías, Deus faz registrar: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15).

 

A Palavra de Deus nos ensina que Deus não pode estar limitado pelo universo, que é sua criação: Deus é infinito e, por isso, é imenso e eterno, transcendendo de forma perfeita todas as limitações espaciais e temporais, que são próprias da criatura, não do Criador – entretanto, Deus está presente em todas as suas criaturas e em todos os lugares.

 

Com isso não queremos dizer que Deus esteja presente no mesmo sentido em todas as suas criaturas. Deus está em todo ser de acordo com a natureza deles. Desse modo, afirmamos que Deus habita de uma forma no homem e de outra no mundo orgânico, de outro no mundo inorgânico etc. O modo como Deus está em nós, seu povo, é diferente da forma como Ele habita nos incrédulos. Deus está presente agindo soberanamente numa interminável variedade de maneiras.[2]

 

Transcendência e imanência

 

Desta forma, afirmamos a transcendência de Deus, negando com isso o panteísmo; e, afirmamos a imanência de Deus, partindo de um fato real: a Revelação de Deus, negando, portanto, o deísmo. A fé cristã sustenta a criação de todas as coisas pela vontade livre, que nos é inacessível, e soberana de Deus e, ao mesmo tempo, a manutenção desta realidade por meio deste Deus pessoal e que se revela, se relacionando conosco.

 

A Bíblia ensina estas duas verdades:

 

1) O Céu e a Terra não podem conter Deus: 1Rs 8.27; Is 66.1; At 7.48,49.

 

2) Todavia, Ele sustenta os Céus e a Terra, estando especialmente próximo daqueles que sinceramente o buscam: Sl 139.7-10; Is 57.15; Jr 23.23,24; At 17.27,28. Calvino (1509-1564) exulta: “A glória de nossa fé é que Deus, o Criador do mundo, não descarta nem abandona a ordem que Ele mesmo no princípio estabelecera”.[3]

 

Foi com este Deus que nossos primeiros Pais se relacionavam, mas, optaram por rejeitarem-no, justamente porque tinham a pretensão de serem iguais a Ele.

 

 

Maringá, 24 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1]“Esta é a gênese dos céus e da terra quando foram criados, quando o SENHOR Deus os criou” (Gn 2.4).

[2] Veja-se: João Calvino, As Institutas, I.16.3.

[3] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 11.4-5), p. 241.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (6)

Conhecimento libertador

 

Conhecer a Deus em sua soberania, portanto, é um dom da graça do soberano Deus. Podemos descansar na certeza gloriosa de saber que podemos conhecê-lo, ainda que limitadamente, de modo verdadeiro e suficiente e claro. Este conhecimento, por sua vez, nos liberta para que possamos conhecer a nós mesmos e as demais coisas da realidade.[1]

 

Somente a partir de um genuíno conhecimento de Deus poderemos nos conhecer verdadeiramente bem como toda a realidade. O conhecimento de Deus possibilita-nos enxergar a realidade em suas múltiplas facetas com os seus valores próprios conferidos pelo próprio Deus que a sustenta. A verdade nos liberta (Jo 8.32).

 

As Escrituras não tratam a Deus panteística[2] nem deísticamente[3] como normalmente ocorre com o pensamento pagão ao longo da história. Antes, nos mostram tal qual Ele se revela.

 

Categorias compatíveis: senso religioso e acomodação

Esta revelação encontra eco em nós pelo fato de Deus o fazer em categorias compreensíveis à nossa mente[4] – conforme Ele a criou – já que o Senhor se “acomoda” à nossa compreensão.[5]

 

A despeito do pecado, continuamos sendo a imagem de Deus, carregando conosco o senso do divino, sendo, portanto, incuravelmente religioso.[6] Além disso, temos o seu Espírito que nos ilumina[7] para podermos ter uma compreensão verdadeira das Escrituras.

 

Bavinck sintetiza

 

Todos os povos ou puxam Deus panteisticamente para baixo, na direção daquilo que é criado, ou o elevam deisticamente, colocando-o infinitamente acima da criatura. Em nenhum dos casos se chega a uma verdadeira comunhão, a uma aliança, a uma religião genuína. No entanto, a Escritura insiste em ambos: Deus é infinitamente grande e condescendentemente bom; Ele é soberano, mas também é Pai; Ele é Criador, mas também é Protótipo. Em uma palavra, Ele é o Deus da aliança.[8]

 

Maringá, 24 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

[1] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Soberania de Deus e a responsabilidade humana, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2016.

[2]Panteísmo [“Pan” (pa=n = tudo, todas as coisas) & “Theós” (qeo/j = Deus)], é a doutrina que ensina que não há nenhuma realidade transcendente e que tudo é imanente; por isso, Deus e o mundo formam uma unidade essencial, sendo, portanto, a mesma coisa, constituindo um todo indivisível; por isso a negação da transcendência de Deus visto que Ele se confunde com a própria matéria, sendo esta a própria manifestação de Deus.

A Bíblia não confunde Deus com a matéria; antes, afirma que Deus criou a matéria (Gn 1.1) e a sustenta com o seu poder (Cl 1.17; Hb 1.3). Esta distinção entre o Deus Criador e a criação é um ensinamento fundamental das Escrituras.

[3]Deísmo é uma denominação genérica das doutrinas filosófico-religiosas que surgiram em meados do século XVII, as quais, contrapondo-se ao “ateísmo”, afirmavam a existência de Deus; entretanto, negavam a Revelação Especial, os milagres e a Providência. Esse Deus é concebido preliminarmente como a causa motora do universo. Uma das ideias predominantes, era a de que um Deus transcendente criou o mundo dotando-o de leis próprias e retirou-se para o seu ócio celestial, deixando o mundo trabalhar conforme as leis predeterminadas. Uma figura comum ao deísmo do século XVIII era a do relógio de precisão que seria o equivalente ao universo que trabalha sozinho depois de se lhe dar corda. Neste caso, Deus seria uma espécie de relojoeiro distante, apenas observando a sua criação sem “intervir” em suas questões cotidianas. A conclusão chegada pelos deístas é a que as leis que regem o universo são imutáveis. O deísmo consequentemente atribui à Criação a capacidade de se sustentar e se governar por si mesma. Temos aqui um naturalismo autônomo.

Desta forma, Deus é um proprietário ausente, que não age diretamente sobre a Criação; a única relação existente entre o Criador e a Criação, dá-se por meio de suas leis deixadas, as quais regem o universo de forma determinista. Deus seria regente do universo “apenas de nome”. O deísmo não deixa de ser um ateísmo prático visto que Deus não é considerado de forma concreta na vida de seus adeptos. Deus sai do cenário real e concreto, mas, o destino e o acaso terminam por ser entronizados. (Para maiores detalhes sobre o panteísmo e o deísmo, vejam-se: Hermisten M.P. Costa, O homem no teatro de Deus: providência, tempo, história e circunstância, Eusébio, CE.: Peregrino, 2019, p. 96-101).

[4] “As tentativas de explicar a origem e a essência da religião sem fazer referência a Deus e sua revelação cognoscível estão fadadas ao fracasso” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Prolegômena, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 302).

[5]“Não podemos compreender plenamente a Deus em toda a sua grandeza, mas que há certos limites dentro dos quais os homens devem manter-se, embora Deus acomode à nossa tacanha capacidade toda declaração que faz de si mesmo. Portanto, somente os estultos é que buscam conhecer a essência de Deus” (João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Edições Paracletos, 1997, (Rm 1.19), p. 64). Vejam-se: Hermisten M.P. Costa, João Calvino 500 anos, São Paulo: Cultura Cristã, 2009; Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Prolegômena, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 214; Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 97ss.

[6]“Assim como não se pode encontrar homem algum, por mais bárbaro e mesmo selvagem que possa ser, que não seja tocado por alguma ideia de religião, é certo que todos somos criados a fim de conhecer a majestade de nosso Criador, e tendo-a conhecido, estimá-la acima de todas as coisas e honrá-la com todo temor, amor e reverência” (João Calvino, Instrução na Fé Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Cap. 1, p. 11). “Os próprios ímpios são para exemplo de que vige sempre na alma de todos os homens alguma noção de Deus” (João Calvino, As Institutas, I.3.2). Vejam-se também: João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 11.6), p. 305; João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 8.5), p. 167.

[7] “As mentes humanas são cegas a essa luz da natureza, a qual resplandece em todas as coisas criadas, até que sejam iluminadas pelo Espírito de Deus e comecem a compreender, pela fé, que jamais poderão entendê-lo de outra forma” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 11.3), p. 299). Vejam-se: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.7), p. 10-11; João Calvino, As Institutas, I.9.3; II.2.19; III.2.33; III.21.3; III.24.2; João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 40.8), p. 229; João Calvino, Salmos, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2009, v. 4, (Sl 119.18), p. 184; John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, (Calvin’s  Commentaries), 1996, v. VIII/4, (Is 59.21), p. 271; João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.25), p. 109; João  Calvino,  Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 10.16), p, 374;  João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 2.11), p. 88-89; (1Co 2.14), p. 93; João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 154; João Calvino, Exposição de Hebreus,  São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 6.4), p. 152,154; Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 113; D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 230.

[8]Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 580.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (5)

Deus, Senhor do real que se revela fidedignamente

Deus também não é uma mera força impessoal sem nenhum sentido de racionalidade, antes, é o Deus transcendente e pessoal que se revela genuinamente, com quem podemos nos relacionar: ouvir, amar, temer, confiar e orar.[1] A linguagem usada para Deus tem um caráter relacional, mostrando um Deus que se relaciona com o seu povo na história.[2] (Trataremos desse tema mais à frente).

 

            O mundo do conhecimento pertence a Deus. Ele é o seu autor e revelador. Logo, todo e qualquer conhecimento quer empírico, quer filosófico, quer científico, quer teológico[3] que o homem tenha ou possa ter, é parte do conhecimento de Deus expresso na sua Criação. Desta forma, podemos dizer que não existe conhecimento fora de Deus.

 

A realidade pertence a Deus, quem a criou, e lhe confere sentido. Quando, então, nos referimos ao conhecimento que podemos ter do próprio Deus, do seu caráter e majestade, temos de reafirmar a verdade bíblica de que esse conhecimento provém do próprio Deus.

 

Portanto, Deus só pode ser conhecido por Ele mesmo. Daí a necessidade de revelação para que possamos conhecê-lo, e nos relacionarmos com ele.[4] Deus em sua integridade se revela verdadeiramente como é em sua natureza essencial.[5]  Porém, nenhuma de suas perfeições esgota a totalidade de seu ser. Este conhecimento resultante da graça é único, singular e pessoal.[6]

 

Conhecimento de servo

 

No entanto, não é demais enfatizar que o nosso conhecimento a respeito de Deus é um “conhecimento-de-servo” delimitado pelo próprio Senhor, considerando, inclusive, o pecado humano.

 

Em outras palavras, citando Frame: “É um conhecimento acerca de Deus como Senhor, e um conhecimento que está sujeito a Deus como Senhor”.[7]

 

O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa.[8] “Visto que somos seres finitos e não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez, nossa perspectiva da realidade é necessariamente limitada por nossa finitude”.[9]

 

Como temos insistido, poder conhecer a Deus é sempre uma iniciativa da graça divina. O nosso conhecimento é um ato de fé, e esta é procedente da graça[10] que se manifesta no fato de Deus se revelar e de nos possibilitar conhecer. Mais: nunca somos ou seremos o padrão de verdade. Os nossos pensamentos e as nossas supostas experiências concretas não têm poder autorreferentes, antes, precisam sempre ser validados pela Palavra, que é a verdade (Jo 17.17).

 

Só pensamos verdadeiramente quando pensamos à luz da Palavra. Por isso, é que conhecer a Deus é algo singular porque somente Deus é soberano e, somente a partir dele podemos conhecê-lo. E tudo isso, por meio de Jesus Cristo, o Deus encarnado,[11] a revelação pessoal de Deus.[12]

 

Maringá, 24 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


 

[1] “A principal ênfase do cristianismo bíblico consiste na doutrina de que um Deus infinito e pessoal é a realidade final, o Criador de todas as outras coisas, e de que um indivíduo pode se aproximar do Deus santo com base na obra consumada de Cristo, e somente desse modo” (Francis A. Schaeffer, O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 272).

[2] Cf. Terence Fretheim, Javé: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 740-741; Gottfried Quell, ku/rioj, etc.: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, 8. ed. Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., (reprinted) 1982, v. 3, p. 1062-1063.

[3] Quanto aos tipos de conhecimento, veja um resumo em: Hermisten M. P. Costa, Introdução à metodologia das ciências teológicas, Goiânia, GO.: Cruz, 2015.

[4]Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Prolegômena, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 287ss.

[5] “Deus se revela como ele verdadeiramente é. Seus atributos revelados verdadeiramente revelam sua natureza” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98).

[6] “Conhecer a Deus é uma coisa completamente única, singular, visto que Deus é único, é singular” (John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 25).

[7]John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 56.

[8]A respeito de um comportamento oposto, escreveu Lloyd-Jones: “Não há maior obra-prima do diabo do que seu sucesso em persuadir as pessoas de que é seu conhecimento superior que as leva a rejeitar o cristianismo. Mas exatamente o oposto é que é verdadeiro. O diabo as mantém na ignorância porque, enquanto permanecerem nela, elas farão o que ele manda. A partir do momento em que recebem a luz – o evangelho é chamado de ‘luz’ – elas veem o diabo e o abandonam” (David Martyn Lloyd-Jones, Uma Nação sob a Ira de Deus: estudos em Isaías 5, 2. ed. Rio de Janeiro: Textus, 2004, p. 68).

[9]Norman Geisler; Peter Bocchino, Fundamentos Inabaláveis: resposta aos maiores questionamentos contemporâneos sobre a fé cristã, São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 50.

[10] “Todo conhecimento é fé” (Gordon H. Clark, Uma visão cristã dos Homens e do Mundo, Brasília, DF.: Monergismo, 2013, p. 305).

[11] “Toda nossa luz e conhecimento consistem (…) em conhecer a Deus na pessoa de seu Filho unigênito. Com isso, digo eu, é que devemos nos contentar” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 146-147).

[12] Vejam-se: Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 25-26); Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 167.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (4)

I – O Deus dos Salmistas

 

As Escrituras não são especulativas. Isso por dois motivos óbvios: Deus como senhor de todo o conhecimento e verdade, de nada precisa saber. Todo o saber lhe pertence; nada lhe é derivado. O segundo motivo é que Ele não deseja que o seu povo se perca em especulações de assuntos não revelados. Guiar-se por especulações significa desejar ir além do que Deus revelou e, ao mesmo tempo, perder-se em hipóteses e teorias frívolas já que pretendem “decifrar” o que Deus sábia e soberanamente não nos quis dar a conhecer. “Nossas especulações não podem servir de medida para nosso Deus”, acentua Packer.[1]

 

A Bíblia é um livro descritivo e extremamente prático. Ela não discute, por exemplo, sobre a existência de Deus ou faz abstrações de sua natureza e essência, antes, parte do pressuposto da existência do Deus Todo-Poderoso que se revela Criando com sabedoria e poder todas as coisas. Portanto, mais do que uma teoria ou abstração, as Escrituras nos põem em contato com o Deus vivo e pessoal, que age e fala.[2] É o Deus que se relaciona e cuida de seu povo.

 

A história do povo de Israel é de certa forma a história da revelação concreta de Deus na História: no tempo e no espaço. “A Escritura, em sua totalidade, é o próprio livro da providência de Deus”, resume Bavinck (1854-1921).[3]

 

Deus é o Senhor eterno antes e independentemente de sua Criação. “Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus”, escreveu Moisés (Sl 90.2).

 

Moisés por revelação direta de Deus, registra de forma inspirada (2Pe 1.20-21), narrando os atos criadores de Deus, sem se preocupar em falar com mais detalhes a respeito daquele que mediante a sua Palavra, faz com que do nada surja a vida, criando o universo, estabelecendo suas leis próprias e, avaliando a sua criação como boa.

 

Moisés apenas apresenta o Deus Todo-Poderoso exercitando o seu poder de forma criadora, segundo o seu eterno propósito. Deus existe − este é o fato pressuposto em toda a narrativa da Criação. Deus cria segundo a sua Palavra e isto nos enche de admiração e reverente temor: a Palavra de Deus é o verbo criador que manifesta a determinação e o poder de Deus (Gn 1.1,26,27; Sl 33.6,9; Jo 1.1-3; Hb 11.3), o qual criou as coisas com sabedoria (Pv 3.19).

 

Deus infinito-pessoal que se revela

 

As Escrituras nunca tratam de Deus de forma impessoal ou abstrata, mas, como o Deus infinito-pessoal que se revela[4] e se relaciona misericordiosamente com os seus.

 

Obviamente, o Deus dos salmistas e das Escrituras não é um deus criado pela imaginação do homem projetando em sua criação seus desejos e vícios,[5] o que facilmente conduz da idolatria ao ateísmo.[6]

 

Douta ignorância

 

Deus não se deixa invadir pela razão humana, ou mesmo pela fé. Ele se dá a conhecer livre, fidedigna e explicitamente. Deus se revela a si mesmo como Senhor.[7] E “Senhorio significa liberdade”, pontua Barth (1886-1968).[8]

 

Conhecer a Deus é um privilégio da graça que tem o seu início sempre no Deus Trino (Mt 11.27;1Co 12.3).

 

“Quanto mais conhecemos Deus, mais compreendemos, e sentimos que seu mistério é inescrutável”.[9] A douta ignorância faz parte essencial da fé genuína e sincera.[10] O conhecimento de nossa limitação não é inato, antes é precedido pela revelação. Sem a revelação de Deus não há teísmo, ateísmo nem agnosticismo. É no encontro significativamente pessoal com Deus que tomamos conhecimento de nossas limitações.[11]

 

Sem a revelação, o homem passaria toda a sua vida e estaria na eternidade sem o menor conhecimento de Deus por mais engenhosos que fossem os seus métodos, por mais sistemáticas que fossem as suas pesquisas, por mais que evoluísse a ciência… O homem nunca conseguiria chegar a Deus, ou mesmo à sua ideia: ignoraria eternamente a própria ignorância! Entretanto, Deus continuaria sendo o que sempre foi: o Senhor! [12] Todavia, graças a Deus, porque ele soberanamente se revelou a si mesmo, para que possamos conhecê-lo e render-lhe toda a glória que somente a ele é devida. Em Cristo, nós somos confrontados com o clímax e plenitude da revelação de Deus (Jo 14.9-11; 10.30; Cl 1.19; 2.9; Hb 1.1-4).

 

Lewis (1898-1963) escreve de forma perspicaz:

 

O ateísmo (…) é uma coisa por demais simplista. Se todo o universo não tem sentido, nunca descobriríamos que ele não tem sentido, do mesmo modo que, se não houvesse luz no universo, nem, consequentemente, criaturas com olhos, nunca saberíamos que era escuro. A palavra escuro seria uma palavra sem sentido.[13]

 

No entanto, Deus se revelou fidedigna e acessivelmente. “No Filho temos a revelação última de Deus. Da mesma forma como é verdade que quem viu o Filho viu o Pai, também é verdade que quem não viu o Filho, não viu o Pai”, escreve Hendriksen (1900-1982).[14] Jesus Cristo, a plenitude da graça encarnada, é a medida da revelação; o seu padrão e apelo final!

 

Bavinck (1854-1921) exulta:

 

A plenitude do ser de Deus é revelada nEle. Ele não apenas nos apresenta o Pai e nos revela Seu nome, mas Ele nos mostra o Pai em Si mesmo e nos dá o Pai. Cristo é a expressão de Deus e a dádiva de Deus. Ele é Deus revelado a Si mesmo e Deus compartilhado a Si mesmo, e portanto Ele é cheio de verdade e também cheio de Graça.[15]

 

Maringá, 24 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 20.

[2]Veja-se: Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP, 2001, p. 175.

[3]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 607.

[4] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 113.

[5] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, Princípios bíblicos de adoração cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

[6] “A perda total de significado implícita no ateísmo é de mais para que muitos suportem. As pessoas precisam de alguns valores, alguns padrões, algumas maneiras para orientar suas vidas. Entre essas pessoas, aqueles que continuam a resistir à crença no verdadeiro Deus tornam-se inconsistentes quanto ao seu ateísmo, ou tornam-se idólatras. Se não querem o verdadeiro Deus, terão de procurar outro” (John Frame, Apologética para a Glória de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 150).

[7] Ver: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 181,186ss.

[8] K. Barth, Church Dogmatics, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2010, I/1, p. 306.

[9]Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 156.

[10] Ver: João Calvino, As Institutas, III.21.2; III.23.8. Na edição de 1541, escrevera: “E que não achemos ruim submeter neste ponto o nosso entendimento à sabedoria de Deus, aos cuidados da qual Ele deixa muitos segredos. Porque é douta ignorância ignorar as coisas que não é lícito nem possível saber; o desejo de sabê-las revela uma espécie de raiva canina” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3 (III.8), p. 53-54).

[11] Ver: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157, 159ss.

[12] “Ainda que o mundo inteiro fosse incrédulo, a verdade de Deus permaneceria inabalável e intocável” (João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 2.2), p. 48-49).

[13]C.S. Lewis, A essência do Cristianismo autêntico, São Paulo: Aliança Bíblica Universitária, (1979), p. 21.

[14]William Hendriksen, O evangelho de João, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, (Jo 14.9) p. 657.

[15]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 25-26.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (3)

A figura do pastor aplicada a Deus

Ainda que talvez não tenhamos percebido, no Antigo Testamento a figura de Deus como pastor não é exclusividade do Salmo 23.

Jacó na velhice, dias antes de morrer, recapitula o cuidado e a provisão de Deus:[1]  “E abençoou a José, dizendo: O Deus em cuja presença andaram meus pais Abraão e Isaque, o Deus que me sustentou (h[‘r’) (raah) (pastoreou) durante a minha vida até este dia” (Gn 48.15/Gn 49.24).

O salmista Asafe o faz da mesma forma em sua súplica: “Dá ouvidos, ó pastor (h[‘r’) (raah) de Israel, tu que conduzes a José como um rebanho; tu que estás entronizado acima dos querubins, mostra o teu esplendor” (Sl 80.1).

O profeta Isaías, bem antes do cativeiro de Judá, considera que Deus como pastor e senhor apascenta o seu rebanho, cuidando carinhosamente dele. Escreve então, consolando o povo que seria tirado de sua terra: “Como pastor (h[‘r’) (raah), apascentará (h[‘r’) (raah) o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos e os levará no seio; as que amamentam ele guiará mansamente” (Is 40.11).

Posteriormente Jeremias e Ezequiel escrevem demonstrando que Deus como pastor busca suas ovelhas e ajunta o rebanho:

“Ouvi a palavra do SENHOR, ó nações, e anunciai nas terras longínquas do mar, e dizei: Aquele que espalhou a Israel o congregará e o guardará, como o pastor (h[‘r’) (raah), ao seu rebanho. (Jr 31.10).

Como o pastor (h[‘r’) (raah) busca o seu rebanho, no dia em que encontra ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; livrá-las-ei de todos os lugares para onde foram espalhadas no dia de nuvens e de escuridão. (Ez 34.12).

Magnitude do Salmo 23: Facilidade e dificuldade

Portanto, estudar o salmo 23 é algo de grande enlevo e, expor sobre o mesmo, é algo fácil e ao mesmo tempo difícil.

Fácil porque é pequeno, vale-se de figuras corriqueiras nas Escrituras – pastor e ovelhas − e, também, porque quase sempre encontra ouvidos e olhos prazerosos.

O que torna difícil expô-lo é justamente a sua complexa simplicidade e, ao mesmo tempo, a sensação comum dos ouvintes e leitores de que já sabem o que vão ouvir e apreciam uma descrição mais ou menos detalhada – quanto mais, melhor – da vida das ovelhas com sua fragilidade e peculiaridade. Certamente não vou escapar em algum grau dessa abordagem ainda que não seja o meu ponto.

O Senhor do salmista

Quando comecei a pensar sobre o salmo 23, o li e reli diversas vezes por semanas em minhas devocionais. Ative-me ao texto sem o auxílio, que seria no futuro tão oportuno, dos comentários. Terminei por ser dominado pela ideia primeira do Senhor do salmista. Quem é o Senhor do salmista? Essa pergunta foi se formando e dominando a minha mente e aquecendo o meu coração.

A impressão que tenho é que, por vezes, na exposição desse salmo o falar no Senhor é apenas um detalhe que introduz a ovelha. É uma espécie de cerimônia religiosa moderna de casamento, onde, com frequência, o culto a Deus é apenas um pretexto para a entrada da especialmente bela noiva naquele dia, com suas vestes nupciais.

Mas, certamente não é essa a perspectiva do salmista e menos ainda o seu propósito.

Desse modo, quero começar a estudar esta belíssima e significativa passagem bíblica pela perspectiva do salmista a respeito da pessoa do Senhor não apenas nesse salmo, mas, no livro de Salmos. Serão apenas reflexões destinadas à igreja.

Fé com conhecimento

Creio ser um lugar comum afirmar que não adianta ter uma fé bonita e vigorosa em alguém que nada pode fazer, ou, que devido às muitas ocupações não pode nos escutar ou, não está interessado em nossos problemas. Portanto, conhecer o Deus com quem nos relacionamos é de vital importância.

Se não estivermos convictos da existência e do Ser de Deus como aquele que é Todo-Poderoso e cuida de nós, jamais poderemos experimentar a convicção do salmista e a paz resultante dessa teologia experimentalmente vivenciada. Só pode haver paz em nosso coração se estiver convencido do poder da graça operante de Deus.

No salmo 9,[2] Davi retrata algo que fazia parte amplamente de sua experiência. E, ainda mais. Aqui está embutida a compreensão de que o Senhor está acessível a todos os que lhe buscam sinceramente: 9O SENHOR é também alto refúgio para o oprimido, refúgio nas horas de tribulação. 10Em ti, pois, confiam os que conhecem ([d;y”) (yada’)[3] o teu nome, porque tu, SENHOR, não desamparas os que te buscam (vr;D’) (darash)[4](Sl 9.9-10).

No salmo 28 lemos a súplica do salmista: “Salva o teu povo e abençoa a tua herança; apascenta-o (h[‘r)’ (raah) e exalta-o para sempre” (Sl 28.9).

Analisemos biblicamente, especialmente no livro de Salmos quem é este Senhor com o qual o salmista se relacionava e com quem podemos e devemos nos relacionar a fim de podermos, de fato, ter a certeza subjetiva de quem é o nosso Rei e Pastor.

Maringá, 24 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]“O idoso pastor reconhece o pastoreio especial de Deus em sua vida” (Bruce K. Waltke, Comentando o Antigo Testamento: Gênesis, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, (Gn 48.15) p. 747).

[2] Para um estudo mais detalhado desse salmo, veja-se: Hermisten M.P. Costa, O homem no teatro de Deus: providência, tempo, história e circunstância, Eusébio, CE.: Peregrino, 2019, p. 421-433.

[3] ([d;y”) (yada’). Este conhecimento envolve a capacidade de discernir (Sl 4.4), experimentar (Sl 9.11; 20.7; 25.4.14; 119.75; 139.1,2,4; 139.14), ver (Sl 16.11); pensar/perceber (Sl 35.8); perfeito conhecimento (Sl 37.18; 44.21; 50.11; 69.5; 94.11; 103.14; 139.23; 142.3); conhecimento íntimo e pessoal (Sl 51.3); intimidade/proximidade (Sl 55.13; 88.18); compreender (Sl 73.16); aprender (Sl 78.3); ensinar (Sl 90.12); fazer notório/manifestar (Sl 98.2; 103.7; 145.12).

[4] A ideia básica do termo (vrD) (darash) é buscar com diligência: “Moisés diligentemente buscou (vrd) (darash) o bode da oferta pelo pecado” (Lv 10.16). Além do sentido de “buscar” (Lv 10.16; Sl 22.26; 24.6 [duas vezes]; Sl 53.3), pode ser traduzida por: Requerer (Dt 23.22; Sl 9.12); cuidar (Dt 11.12); investigar (Sl 10.4); se importar (Sl 10.13); esquadrinhar (Sl 10.15); procurar (Sl 77.2); considerar (Sl 111.2); empenhar-se (Sl 119.45); interessar-se (Sl 142.4). (Vejam-se mais detalhes em: Leonard J. Coppes, Dãrash: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 328-329).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (2)

No campo espiritual, por vezes, gostamos de afirmar supostas verdades objetivas sem termos a certeza de que aquilo se coaduna com a nossa situação ou, a tenhamos experimentado.

 

            Há muitos que afirmam com a intimidade própria daqueles que creem no que asseveram: “Deus é pai”, “Deus é fiel”, ou: “O Senhor é o meu pastor”.

 

A partir daí inferem uma série de expectativas quanto à suposta ação que Deus, como pai, deve fazer a nosso favor. As perguntas que, por exemplo, antecedem à primeira declaração deveria ser: Deus é Pai de quem? Dos seus filhos, é claro. Mas, quem são os filhos de Deus? Eu preencho o critério divino de filiação? (Jo 1.12; Gl 3.26). Tenho procurado me comportar como filho de Deus? (Rm 8.14). Esta certeza tão real em mim tem sido confirmada pelo Espírito? (Rm 8.16). Há em meu testemunho evidências concretas de minha filiação?

 

Essas questões nos conduzem ao Salmo 23. Sem dúvida ele é o mais conhecido salmo das Escrituras. Também é um dos mais amados, memorizados e recitados. Certamente, juntamente com o a Oração do Pai Nosso, é uma das passagens mais lembradas da Bíblia.

 

Na Antiguidade o nome pastor é empregado de forma literal e figurada. White explica de forma simples: “Uma vez que, desde tempos remotos, a ocupação comum na Palestina era o pastoreio, o termo é fundamental para a descrição das pessoas do campo em todos os períodos da história”.[1]

 

De fato, esta metáfora é bastante usada para sacerdotes, príncipes e reis no Antigo Testamento, por vezes indicando a sua infidelidade (2Sm 5.2; Jr 3.15; 23.1-4; 25.32-38; Ez 34.1-9; Zc 11.17; 13.7). Em passagem extremamente curiosa, Deus se refere ao rei pagão, Ciro, que iria ser agente no cumprimento de sua vontade, como pastor: “Ele é meu pastor e cumprirá tudo o que me apraz; que digo também de Jerusalém: Será edificada; e do templo: Será fundado” (Is 44.28).

 

Nesses casos, a metáfora era associada ao governante como aquele que deve cuidar, guiar e proteger os que estão sob o seu comando. Tal utilização não se restringia à Palestina.

 

Conforme atesta Homero, esse é um emprego comum também entre os gregos, que por vezes se referem aos líderes como “pastor do povo”.[2]

 

Maringá, 24 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


[1] Willian White, Rã‘â: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1438.

[2] “Pois já eu com homens mais valentes que vós me dei — e nunca esses me desconsideraram. De resto nunca homens assim eu alguma vez verei: homens como Pirítoo e Driante, pastor do povo; Ceneu e Exádio e o divino Polifemo” (Homero, Ilíada, São Paulo: Companhia das Letras (Penguin), 2013, I.260-264).

“Por seu lado se levantaram e obedeceram ao pastor do povo os reis detentores de cetro; e por seu lado se apressava o povo” (II.85-86).

“Hermes soberano, que o deu a Pélope, condutor de cavalos; por sua vez de novo o deu Pélope a Atreu, pastor do povo” (II.104-105).

“Assim falou Tersites, insultando Agamêmnon, pastor do povo” (II.243)

“Mas ele encontrava-se junto das naus recurvas, preparadas para o alto-mar, encolerizado contra Agamêmnon, pastor do povo, filho de Atreu” (II. 771-773).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (1)

Introdução

 

O desafio da teologia é fazer justiça a todos os atributos de Deus revelados na Escritura. – Herman Bavinck.[1]

 

Se nos recusarmos a honrar a Deus como Deus, toda nossa visão sobre a vida e o mundo torna-se distorcida. – R.C. Sproul.[2]

 

Como é bom poder aprender! Amo aprender com todos e em todas as circunstâncias. Considero isso um privilégio de grande relevância que Deus nos oportuniza em nossa vida cotidiana.

 

Podemos aprender com pessoas diferentes, coisas simples da vida, como um segredinho que nos possibilita furar a parede com uma furadeira sem deixar que uma quantidade maior de poeira caia no chão, como também, aprender algo sofisticado que nos transmita um princípio de vida que pode moldar e redirecionar a nossa perspectiva e comportamento.

 

Tenho tido o privilégio de aprender muitas coisas com meus colegas, familiares, irmãos, pessoas desconhecidas, leituras, analisando as minhas reações, observando o comportamento de pessoas, alguns animais e assim por diante. Muito disso tem sido significativo para mim.[3]

 

É salutar aprender em lugares suspeitos (onde suspeitamos que vamos aprender) e, em lugares insuspeitos (onde não suspeitamos que podemos aprender algo). Confesso que por vezes, aprendo mais nos lugares insuspeitos, ainda que não necessariamente alguém quisesse me ensinar aqui e outros quisessem fazê-lo acolá… Mas, aprendamos com o que pretendem nos ensinar e com o que ninguém pensou em fazê-lo.[4]

 

Observo que ainda que seja admirável, em muitas circunstâncias, aprender positiva e negativamente com as experiências de outras pessoas, ou seja: como fazer ou não fazer, podendo, assim, evitar alguns dissabores desnecessários ou ganharmos tempo sem maiores tropeços, tais experiências são intransferíveis.

 

Essas experiências quando muito, podem compor parte de um quadro teórico de nossa mente, fazendo, portanto, sentido − já que as associamos ao que ouvimos ou lemos a partir de determinada fonte − às nossas outras experiências, ao que nos parece lógico e, também, não menos importante, ao grau de perda a que estarei sujeito se insistir em contradizer tudo isso apenas para fazer um teste e experimentar o que aprendemos, mas, não estamos tão convencidos assim. Aprender e praticar tem o seu ônus próprio.

 

Dentro dessa perspectiva, posso me arriscar a fazer um churrasco com sal refinado ao invés do sal grosso, para ver se também funciona. Se der errado, estamos em família, e os seus membros e agregados são generosos em seus comentários conforme a fome que os domina especialmente para almoçar depois das 15h. Mas, dificilmente me arriscaria a pôr meus únicos e poucos recursos em um investimento para o qual os especialistas indicam a perda iminente. Obviamente, cada caso é um caso. É isso mesmo: o grau de perda é diferente nos dois exemplos. Junto a esses, poderíamos enumerar muitos outros mais.

 

Em síntese, as hipóteses, por mais simpáticos que sejamos a elas, se não estivermos dispostos a verificá-las ou testá-las, é melhor manter o princípio de não as passarmos aos outros como sendo verdade. Mexerico, ainda que feito com simpatia – aprecio o que estou difundindo – tende a exalar aromas de nossa mais profunda natureza em sua estrutura intelectual[5] e espiritual.

 

Deste modo, repetir informações sem ter certeza e possibilidade de verificação é algo arriscado. O princípio de Lutero (1483-1546) nos parece óbvio: “É sempre melhor ver com os próprios olhos do que com os de outras pessoas”.[6]

 

Maringá, 24 de agosto de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98.

[2] R.C. Sproul, A Santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, 206.

[3] A observação de Warren aponta na mesma direção: “Eu prefiro admitir que não sei de tudo do que fazer de conta que sei de tudo e não aprender nada. Você pode aprender algo com qualquer pessoa”.[3] (Rick Warren, A batalha pela sua mente. In: John Piper; David Mathis, orgs. Pensar – Amar – Fazer,  São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 30).

[4] Conforme trarei em outro lugar (Hermisten M.P. Costa, Introdução à cosmovisão Reformada: um desafio a se viver responsavelmente a fé professada, Goiânia, GO.: Cruz, 2017, p. 25ss.), temos matrizes que conferem determinado sentido à realidade por ela ser percebida como tal. A realidade é o que é, no entanto, nós a percebemos mediante contornos conferidos e mediados por nossa experiência. O nosso lugar social privilegia a nossa percepção. O que nos privilegia também nos delimita. Não somos oniscientes. Portanto, no que acreditamos, de certa forma, determina a construção de nossa identidade. Isto é válido dentro de uma perspectiva cultural como individual. Cada época é caracterizada por determinadas crenças as quais moldam a sua visão de mundo.

Todo conhecimento parte de um pré-conhecimento que nos é fornecido pela nossa condição ontologicamente finita e pelas circunstâncias temporais, geográficas, intelectuais e sociais dentro das quais construímos as nossas estruturas de conhecimento. Afinal, a humanidade atesta a sua humanidade. A criatura demonstra a sua condição. Não existe neutralidade existencial porque, de fato, não há neutralidade ontológica (veja-se: Veja-se: H. R. Rookmaaker, A arte não precisa de justificativa, Viçosa, MG.: Ultimato, 2010, p. 39). Esta realidade pré-julgadora na maioria das vezes nos é imperceptível. O que pensamos determina a nossa visão e compreensão do objeto. Numa relação de conhecimento, o cérebro influencia mais o olho do que o olho ao cérebro. É por isso que a visão que tenho, ainda que tenha um forte elemento referente, é minha visão, com suas particularidades.

[5] “Deus, tendo designado o homem como criatura sociável, não o fez apenas com inclinação e necessidade para estabelecer camaradagem com os de sua própria espécie, mas o forneceu também com a linguagem, que passou a ser o instrumento mais notável e laço comum da sociedade. O homem, portanto, teve por natureza seus órgãos de tal modo talhados para formar sons articulados, que denominamos palavras. (…) Além de sons articulados, portanto, foi mais tarde necessário que o homem pudesse ter a habilidade para usar esses sons como sinais de concepções internas, e fazê-los significar as marcas das ideias internas de sua própria mente, pelas quais elas serão conhecidas pelos outros, e os pensamentos das mentes dos homens serão mutuamente transmitidos” (John Locke, Ensaios acerca do entendimento humano, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 19), 1974, III.1. §§ 1-2, p. 227. Veja o comentário feito por Leibniz: G.W. Leibniz, Novos ensaios, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 19), 1974, III.1, p. 167-168).

[6]Martinho Lutero, Conversas à mesa, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, # 33, p. 28.