A Pessoa e Obra do Espírito Santo (82)

D) Repreende 

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão (e)legmo/j ou e)le/gxw),[1] para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17).

    Paulo afirma que a Escritura Sagrada, que é plenamente inspirada e provém de Deus, é útil para nos ensinar e, também para corrigir, para refutar o erro e repreender o pecado. O termo usado aqui para “repreensão” já possuía um rico emprego na literatura secular,[2] significando, de modo especial:

    a) A exposição lógica e objetiva dos fatos de uma matéria, com o objetivo de refutar os argumentos de um oponente; daí a ideia de refutar e convencer.

    b) A correção do modo de viver dos homens, feita pela consciência, pela verdade ou por Deus.

    Uma ideia embutida na palavra grega é a de evidenciar o erro, expô-lo e trazê-lo à luz, objetivando corrigi-lo. Há na palavra o sentido de “disciplina educativa”. A educação e a correção devem caminhar juntas (Pv 3.11,12; Hb 12.5; Ap 3.19).

    Há determinadas cirurgias que a grande dificuldade é chegar até o órgão a ser tratado ou extraído, parcial ou totalmente. Lembro-me quando visitei um colega de ministério em 1985 que tinha feito uma cirurgia no coração. Ele havia acabado de sair da UTI. Fiquei surpreso ao ver entre os botões do seu pijama o corte que fora feito. Confesso que nunca tinha pensado sobre isso.

    Por vezes, quando vamos executar determinados serviços em nosso veículo, o caro é a mão-de-obra. A dificuldade de acessar a peça que precisa, em geral, ser trocada. Não é raro o mecânico nos perguntar se não queremos trocar outras peças que estão com “meia vida”, considerando que o “câmbio já está aberto”, o mesmo acontecendo quando mexemos com a embreagem. O alerta é sempre quanto os custos de um novos serviço dentro de poucos meses…

    Digamos assim: a Palavra nos penetra fundo e expõe o nosso mal para que possa ser tratado. Isso pode e, geralmente é, doloroso.

    Paulo nos mostra que a Palavra de Deus, justamente por ser perfeita, evidencia o nosso pecado para que, em submissão a Deus, possamos corrigi-lo. Na contemplação do que é perfeito as imperfeições ganham vida ainda que tal vitalidade, por vezes, nos entristeça.

    Quando de fato buscamos nas Escrituras orientação para a nossa vida, descobrimos também que ela nos mostra os nossos erros; ela traz luz à nossa conduta que, muitas vezes, está manchada, pois tendemos a nos acomodar com este ou aquele pecado, visto ser “normal” dentro do mundo em que vivemos. Entretanto, Paulo nos chama a atenção para o fato de que as Escrituras são úteis para nos corrigir segundo o modelo divino.

    A disciplina corretamente entendida, envolve ensino e repreensão. O ensino correto previne muitos males e conduz o fiel ao arrependimento pelos seus pecados. Deste modo, devemos entender a disciplina de maneira formativa e corretiva.[3] A disciplina formativa que consiste no ensino da Palavra é, pelo Espírito, amplamente corretiva.

    O padrão da correção das Escrituras é o padrão de Deus, não um modelo de uma época ou cultura. Toda cultura tem um padrão de homem ideal. A “recompensa” e as “repreensões” são o resultado social do preenchimento destes objetivos, que variam de época para época e de povo para povo. Entretanto, Deus nos corrige por intermédio da sua Palavra, não para que nos moldemos ao “homem ideal de uma época”, mas para que sejamos conforme seu Filho, que é o modelo de todos os eleitos de Deus em todas as épocas:“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”(Rm 8.29).

    Meditando sobre a repreensão de Deus, Elifaz diz a Jó: “Bem-aventurado é o homem a quem Deus disciplina (LXX: e)le/gxw); não desprezes, pois, a disciplinado Todo-Poderoso” (Jó 5.17).

    De semelhante modo, instrui Salomão: “Filho meu, não rejeites a disciplina (paidei/a) do Senhor, nem te enfades de sua repreensão (LXX: e)le/gxw). Porque o Senhor repreende (LXX: paideu/w) a quem ama, assim como o Pai ao filho a quem quer bem” (Pv 3.11-12).

    No livro de Apocalipse, encontramos a declaração explícita de Jesus Cristo à Igreja de Laodiceia: “Eu repreendo (e)le/gxw) e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso, e arrepende-te” (Ap 3.19).

    Por isso, Paulo recomenda a Timóteo que pregue a Palavra, porque ela de fato é útil para a correção: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige (e)le/gxw), repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2Tm 4.2).

    Em outro lugar, o apóstolo insiste com Tito para que repreenda os falsos mestres a fim de que eles tenham uma fé sadia: “Portanto, repreende-os (e)le/gxw) severamente para que sejam sadios na fé” (Tt 1.13).

     A Igreja é uma comunidade de pecadores que foram regenerados pelo Espírito (Tt 3.5), que foram santificados em Cristo Jesus (1Co 1.2). Por isso, ela deve zelar pela sua pureza. A disciplina (formativa e corretiva) visa preservar a santidade da Igreja.[4]

    A omissão por parte da igreja constituída em disciplinar o faltoso, é um erro grave de consequências que podem ser desastrosas. Além disso, ela se coloca sob o juízo de Deus (Ap 2.14-15; 2.19-20).[5] Por outro lado, a atitude do faltoso após a disciplina é responsabilidade pessoal dele diante de Deus. (Voltaremos a tratar desse assunto quando estudarmos o Ministério Eclesiológico do Espírito).

    Do que analisamos neste tópico, podemos extrair algumas lições:

    a) A Palavra de Senhor é útil para evidenciar o nosso erro, mostrando-nos o paradigma definitivo que é Cristo Jesus.

    b) Deus nos deu a sua Palavra para, entre outras coisas, nos guiar, consolar e corrigir. A repreensão do Senhor indica a nossa não conformidade com a sua Palavra e revela também o seu amor por nós. Devemos, portanto, nos entristecer com o nosso pecado e nos alegrar com a repreensão amorosa do Senhor. A repreensão de Deus, conforme as Escrituras, visa a nossa restauração espiritual. Recorro mais uma vez às pertinentes observações de Calvino:

Porque a Deus não Lhe basta ferir-nos com sua mão, a menos que também nos toque interiormente com Seu Espírito Santo. (…) Até que Deus nos toque no mais profundo de nosso interior, é certo que não faremos nada senão dar coices contra Ele, cuspindo mais e mais veneno; e toda vez que nos punir rangeremos os dentes, e nada mais faremos senão atacá-Lo. (…) Então vocês veem como Deus mostra Sua justiça cada vez que pune os homens, ainda que tal punição não seja uma solução para sua emenda.[6]

    c) Devemos pregar a Palavra, entendendo que Deus convence o mundo, agindo pelo Espírito por intermédio da Palavra. Deste modo, a força de nossa argumentação não está em nossa sabedoria, mas, sim, em pregar a Palavra com fidelidade e autoridade. Por isso, Paulo fala ao jovem Tito: “Dize estas cousas; exorta e repreende (e)le/gxw) também com toda a autoridade. Ninguém te despreze”(Tt 2.15).

    d) Por inferência, podemos também dizer que o critério de correção de nossos filhos deve estar sempre fundamentado nos princípios bíblicos, visto ser a Escritura útil para o ensino e repreensão.

    e) Finalmente, a disciplina visa honrar o nome de Deus por meio de Sua Igreja, a qual Ele comprou com o seu próprio sangue (At 20.28).

    Armstrong comenta:

Se fracassarmos em honrar o glorioso nome de Cristo negligenciando a responsabilidade de disciplinar os irmãos caídos, então o respeito do mundo por nós diminuirá também. Ao longo do tempo, os membros da igreja irão perder a confiança nela.. (…) Quando o comportamento ético falha em honrar a Deus, tanto o nome dele quanto seus ensinamentos são “blasfemados” (1Tm 6.1), e o caminho da verdade é ‘infamado’ (2Pe 2.2).[7]

Maringá, 21 de dezembro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] As duas palavras dispõem de boa base documental, e)legmo/j = “convicção”, “repreensão”, “castigo” ou e)le/gxw = “trazer à luz”, “expor”, “demonstrar”, “convencer”, “persuadir”, “punir”, “disciplinar”.

[2]Vejam-se: H.M.F. Buchsel, E)le/gxw: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament,Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 2, p. 475; H.-G. Link, Culpa: In: Colin Brown, ed. ger. Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 572.

[3] Veja-se o excelente artigo: John Armstrong, Chorar pelos que erram e os caídos erguer: In: John F. MacArthur Jr., et. al., Avante, Soldados de Cristo: uma reafirmação bíblica da Igreja, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 85-110.

[4]Veja-se: Confissão de Westminster,XXX.3.

[5]À Igreja de Pérgamo: “14Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. 15 Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas” (Ap 2.14-15). À Igreja de Tiatira: “19 Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras. 20 Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos” (Ap 2.19-20).  Veja-se: John Armstrong, Chorar pelos que erram e os caídos erguer: In: John MacArthur, et. al. Avante, Soldados de Cristo: uma reafirmação bíblica da Igreja, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 92-93.

[6]Juan Calvino, Bienaventurado el Hombre a Quem Dios Corrige: In: Sermones Sobre Job, Jenison,Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 3), p. 48.             (Vejam-se também: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4, (IV.17), p. 204; João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 79.1), p. 250).

[7]John Armstrong, Chorar pelos que erram e os caídos erguer: In: John F. MacArthur Jr., et. al. Avante, Soldados de Cristo: uma reafirmação bíblica da Igreja, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 94.

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