A Pessoa e Obra do Espírito Santo (83)

E) Corrige

“Toda  Escritura  é  inspirada  por Deus e útil para  (…)  a correção (e)pano/rqwsij), para a educação na justiça” (2Tm 3.16).

   No  item anterior, enfatizamos que a Escritura é útil para nos repreender,  mostrar os nossos erros, convencendo-nos da estultícia  de nossos pecados.  Agora queremos enfatizar um aspecto positivo  do ensinamento de Paulo: ele nos diz que a Escritura é útil  para  a  nossa  correção. A palavra empregada por Paulo para correção  só  ocorre  aqui  em todo o Novo Testamento e mesmo na Septuaginta. Ela  tem o sentido de: “restaurar”, “corrigir”, “emendar”, “melhorar”, “aprimorar”, “endireitar”, “restabelecer”. [1]

   Paulo  nos mostra que, ao mesmo tempo que as Escrituras  evidenciam  os nossos pecados, nos convencendo de nossos erros,  ela  também é útil para nos conduzir positivamente a uma atitude  correta. 

    Deus, por meio da Sua Palavra, nos mostra uma vereda  reta,  um  caminho seguro para que possamos seguir de forma consciente,  a  fim de que, abandonando os nossos pecados, possamos ser restaurados à comunhão com Ele.

   Desta  forma,  nestas duas palavras “repreensão” e “correção”, encontramos  duas  fases  de nossa vida, a primeira nos conduz ao arrependimento;  a  segunda à reconstrução de novos valores, conforme  aprendidos  das Escrituras, por intermédio de mente transformada (Rm 12.1-2).

F) Educa na Justiça

1) O sentido de educar

Paulo diz que “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para (…) a educação (paidei/a)na justiça” (2Tm 3.16).

    A palavra paidei/a (de onde vem a nossa “pedagogia”),[2] significa “educação das crianças”, e tem o sentido de treinamento, instrução, disciplina, ensino, exercício, castigo.

    Cada cultura tem o seu modelo de homem ideal e, portanto, a educação visa formar esse homem, a fim de atender às expectativas sociais. Paulo sabia muito bem disso; ele mesmo declarara durante a sua defesa em Jerusalém que fora instruído por Gamaliel, o grande mestre da Lei. “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído (paideu/w) aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados” (At 22.3).

    De igual modo, Estevão, descrevendo a vida de Moisés, fala de sua formação, declarando: “E Moisés foi educado (paideu/w) em toda a ciência dos egípcios, e era poderoso em palavras e obras” (At 7.22).

    Cito um fato elucidativo. Quando Virgínia e Maryland assinaram um tratado de paz com os Índios das Seis Nações, como demonstração da generosidade do homem branco, seus governantes mandaram cartas aos índios solicitando que enviassem alguns de seus jovens para estudarem em seus colégios. Seguem abaixo extratos da resposta dos chefes indígenas:

….Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração.

Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa ideia de educação não é a mesma que a nossa.

…. Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros.

Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens.[3]

    Se olharmos ainda que de relance o tipo de formação desde a Antiguidade, poderemos constatar que o seu ideal variava de povo para povo e, até mesmo, de cidade para cidade, daí a diferença entre os “currículos“, visto que este é o caminho, a “corrida” para se atingir o objetivo proposto.[4] Assim, temos, ainda que, grosso modo, diversas perspectivas educacionais:[5]

CHINA: A educação visava conservar intactas as tradições. Portanto, o currículo está voltado apenas para o conhecimento e preservação das tradições, seguindo sempre o seu modelo. A originalidade era proibida.

EGITO: Preparar o educando para uma vida essencialmente prática, que o levasse ao sucesso neste mundo e, por intermédio de determinados ritos, alcançasse o favor dos deuses, e a felicidade no além.

HOMERO: “O educador da Grécia”, como o denomina Platão, tinha como meta formar homens virtuosos inspirando-se nos heróis em seus atos de bravura na consecução de seus ideais.[7]

ESPARTA: Homens guerreiros, mas que fossem totalmente submissos ao Estado. Neste processo estimula-se até mesmo à delação como modo de evidenciar a sua lealdade ao Estado.

                          Marrou (1904-1977) comenta:

Certamente, essa Esparta dos séculos VIII-VI é, antes de tudo, um Estado guerreiro (…). O lugar dominante ocupado em sua cultura pelo ideal militar é atestado pelas elegias guerreiras de Tirteu, que ilustram belas obras plásticas contemporâneas, consagradas, como elas, à glorificação do herói combatente.[9]

Ao atingir sete anos, o jovem espartano é requisitado pelo Estado: até à morte, pertence-lhe inteiramente. A educação propriamente dita vai dos sete aos vinte anos; ela é disposta sob a autoridade direta de um magistrado especial, verdadeiro comissário da Educação nacional, o paidono/moj.[10]

ATENAS: Treinamento competitivo entre os homens a fim de formar cidadãos maduros física e espiritualmente com capacidade de exercitarem a sua liberdade.

SÓCRATES (469-399 a.C.)/PLATÃO (427-347 a.C.): Formar basicamente por meio da música e da ginástica, homens capazes de vencer a injustiça reinante.[11] A educação tinha um forte apelo moral por intermédio do conhecimento e prática das virtudes. A sabedoria está associada à vida virtuosa.

Maringá, 21 de dezembro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Aristóteles  (384-322  a.C.)  emprega  a palavra referindo-se  aos  amigos  que “são passíveis de reforma” (Ética a Nicômaco,  1165b  19). No livro apócrifo de 1Mac 14.34, refere-se ao estabelecimento dos judeus em Gazara.

[2] paidagwgi/a.

[3]Apud Carlos R. Brandão, O Que é Educação,6. ed., São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 8-9.

[4]Currículo” é uma transliteração do latim “curriculum” que é empregado tardiamente, sendo derivado do verbo “currere”, “correr”. “Curriculum” tem o sentido próprio de “corrida”, “carreira”; um sentido particular de “luta de carros”, “corrida de carros”, “lugar onde se corre”, “hipódromo” e um sentido figurado de “campo”, “atalho”, “pequena carreira”, “corte”, “curso”.

            A palavra currículo denota a compreensão que ele não é um fim em si mesmo; é apenas um meio para atingir determinado fim. (Cf. Hermisten M.P. Costa, A Propósito da Alteração do Currículo dos Seminários Presbiterianos, São Paulo: 1997, p. 8ss. [Trabalho não publicado]).

[5]Veja-se um bom sumário disso em Thomas Ransom Giles, Filosofia da Educação, São Paulo: EPU., 1983, p. 60-92.

[6] Platão, A República, 7. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1993), 606e, p. 475. Num fragmento de Xenófanes de Colofão (c. 570-c.460 a.C.), crítico ferrenho Homero, encontramos a menção: “Desde o início todos aprenderam seguindo Homero” (Xenófanes, Fragmento 10: In: José Cavalcante de Souza, org., Os Pré-Socráticos, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 1), 1973, p. 70).

[7] A palavra traduzida, ainda que inadequadamente, por virtude (a)reth/) relaciona-se àquilo que faz com que uma coisa seja o que é. Sobre o conceito de virtude (a)reth/) entre os gregos, vejam-se: O. Bauernfeind, a)reth/: In: Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, 8. ed. (reprinted) Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., 1982, v. 1, p. 457-460; H.G. Link; A. Ringwald, Virtude: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1983, v. 4, p. 574-575; Werner Jaeger, Paidéia: A Formação do Homem Grego, 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989, especialmente, p. 19ss.; José Ferrater Mora, Dicionário de Filosofia. São Paulo: Edições Loyola, 2001, v. 4, p. 3027-3028; André Lalande, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 1218-1221; F.E. Peters, Termos Filosóficos Gregos: Um léxico histórico, 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1983), p. 38-39; Jean Porter, Virtudes: In: Jean-Yves Lacoste, dir., Dicionário Crítico de Teologia, São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004, p. 1860; Henri-Irénée Marrou, História da Educação na Antiguidade, 5. reimpressão, São Paulo: EPU., 1990, especialmente, p. 28ss.

[8] Thomas Ransom Giles, Filosofia da Educação, p. 64.

[9]Henri-Irénée Marrou, História da Educação na Antiguidade, São Paulo: E.P.U. (5. reimpr), 1990, p. 35.

[10]Henri-Irénée Marrou, História da Educação na Antiguidade, p. 42.

[11]Platão, A República, 376e ss. p. 86ss.

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