A Pessoa e Obra do Espírito Santo (22)

6.1.4. O Espírito, a iluminação e o testemunho

À parte do Espírito, a Palavra está morta, ao passo que, à parte da Palavra, o Espírito é desconhecido. – John Stott  (1921-2011).[1]

O Autor das Escrituras é também o seu comunicador. A obra de Deus é sempre completa. Nada cai no vazio ou simples esquecimento. Não há remendos ou ajustes. Nada escapa ao seu soberano e sábio controle e direção.

            O Deus transcendente, criador de todas as coisas, se revela fidedignamente aos homens, fez com que essa revelação fosse progressivamente sendo escrita  encontrando o seu ápice, em Jesus Cristo o Verbo encarnado. Essa revelação foi registrada sobrenaturalmente e Ele a tem preservado, providenciando meios para que a sua Palavra infalivelmente alcance a todos a quem Ele a destinou.

            Kuyper (1837-1920), distinguindo a iluminação da revelação e inspiração, define a iluminação como “o aclaramento da consciência espiritual que, no tempo por Ele escolhido, o Espírito Santo dá, segundo lhe apraz, a cada filho de Deus.[2]

            À frente, acrescenta: “Aquele que fez com que as Escrituras Sagradas fossem escritas é o mesmo que nos ensina a lê-la. Sem ele, esse produto de arte divina não pode nos afetar”.[3]

            Pelo Espírito, Deus continua hoje aplicando a verdade bíblica aos nossos corações levando adiante o seu eterno propósito.

            Hodge (1797-1878) interpreta:

O Espírito especialmente ilumina a mente dos filhos de Deus para que conheçam as coisas graciosamente concedidas (reveladas) por Deus. O homem natural não as recebe, nem pode conhecê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Todos os crentes são, portanto, descritos (pneumatikoi/) como espirituais, porquanto são dessa forma iluminados e guiados pelo Espírito.[4]

            Segundo Calvino (1509-1564), “A função peculiar do Espírito Santo consiste  em gravar a Lei de Deus em nossos corações”.[5] É o Espírito quem nos ensina por meio da Escritura.[6] 

       Calvino sempre manifestou um alto apreço pelas Escrituras; elas são “A Palavra pura de Deus”,[7] a “Sagrada Palavra de Deus”,[8] “Santa Palavra”,[9] “Palavra da verdade”,[10] “Palavra de Vida”,[11] Infalível,[12] que tem “segura credibilidade”:[13] é íntegra.[14] Por isso ela é a “Norma da fé”,[15] “Infalível norma de sua sacra vontade”.[16] 

            Enfatizando o aspectos pedagógico da Palavra, diz que ela é “a escola do Espírito Santo”,[17] que é a “escola de Cristo”,[18]  “escola do Senhor”,[19] “escola de Deus”,[20] “escola do Filho de Deus”,[21] “escola de nosso Senhor Jesus Cristo”.[22]

            Na Escritura temos o currículo completo e suficiente: “A  Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual, como nada é omitido não só necessário, mas também proveitoso de conhecer-se, assim também nada é ensinado senão o que convenha saber”[23]

Maringá, 18 de outubro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] John Stott, Eu Creio na Pregação, São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 108.

[2] Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 111.

[3]Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 113.

[4] Charles Hodge, Teologia Sistemática,São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 396. Veja-se: Sinclair Ferguson, O Espírito Santo,São Paulo: Os Puritanos, 2000, p. 92-93.

[5] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 40.8), p. 228.“O ensino interno e eficaz do Espírito é um tesouro que lhes pertence de forma peculiar. (…) A voz de Deus, aliás, ressoa através do mundo inteiro; mas ela só penetra o coração dos santos, em favor de quem a salvação está ordenada” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 40.8), p. 229).

[6] Veja-se: J. Calvino, AsInstitutas, I.9.3.

[7] João Calvino, As Institutas, IV.4.1; IV.8.9; IV.10.26. Fala também da “mui pura Palavra de Deus” (J. Calvino, As Institutas, II.16.8).

[8] João Calvino, As Institutas, I.18.3.

[9]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4, (IV.15), p. 116.

[10] João Calvino, Exposição de Romanos,(Rm 12.7), p. 432.

[11] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.7), p. 10; João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 4.12), p. 110.

[12] João Calvino, As Pastorais,(1Tm 3.15), p. 98; As Institutas, IV.16.16; Exposição de Hebreus, Dedicatória, p. 14.

[13] João Calvino, As Institutas, I.8.1.

[14] João Calvino, As Pastorais,(1Tm 6.21), p. 187.

[15] João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.14), p. 330.

[16] João Calvino, Exposição de Hebreus, Dedicatória, p. 14.

[17] J. Calvino, AsInstitutas, III.21.3; AsInstitutas, (1541), IV.12. Ainda que haja em autores antigos alusão aqui e ali a respeito deste ensinamento, Calvino foi de fato quem sistematizou e ampliou a doutrina concernente ao Espírito Santo. Warfield compreende que: “A doutrina da obra do Espírito Santo é um presente de João Calvino para a Igreja de Cristo. (…) Foi Calvino quem primeiro deu-lhes expressão sistemática ou apropriada, e foi tão somente por ele que eles chegaram a ser a propriedade garantida da Igreja de Cristo. Não existe nenhum fenômeno na história doutrinal mais extraordinário do que as ideias comumente concebidas como as contribuições feitas por João Calvino para o desenvolvimento da doutrina cristã” (B.B. Warfield, Notas Introdutórias à obra, Abraham Kuyper,  A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 35). Warfield cunhou a expressão dizendo que Calvino pode ser considerado “o teólogo do Espírito Santo” (B.B. Warfield, Calvin and Calvinism, Michigan: Baker Book House (The Work’s of Benjamin B. Warfield), 2000 (Reprinted), v. 5,  p.  21, 107;  B.B. Warfield, Calvin and Augustine (organizada por Samuel G. Craig), Philadelphia:  Presbyterian and Reformed,  ©1956, 1971, p. 487). Murray (1898-1974), não isoladamente, adota a mesma perspectiva, ao escrever: “Calvino tem sido corretamente chamado de o teólogo do Espírito Santo” (John Murray, Calvin as Theologian and Expositor: In: Collected Writings of John Murray, Cambridge: The Banner of Truth Trust © 1976, 2001 (Reprinted), v. 1, p. 311).  Calvino pode com razão ser chamado de o Teólogo da Palavra e do Espírito Santo. Schaff  (1819-1893) diz que a “teologia de Calvino está baseada sobre um perfeito conhecimento das Escrituras” (Philip Schaff, History of the Christian Church,Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1996, v. 3, p. 261). (Vejam-se: João Calvino, AsInstitutas, I.7.4-5; I.9.3; Bernard Ramm, The Witness of the Spirit, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1959, p. 22-27; Hendriksus Berkhof, La Doctrina del Espiritu Santo, Buenos Aires: Junta de Publicaciones de las Iglesias Reformadas; Editorial La Aurora, (1969), p. 23; D.M. Lloyd-Jones, Deus o Espírito Santo,São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1998, p. 13; I. John Hesselink, O Movimento Carismático e a Tradição Reformada. In: Donald K. McKim, ed. Grandes Temas da Teologia Reformada, São Paulo: Pendão Real, 1999,p. 339; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo,São Paulo: Os Puritanos, 2000, p. 10).

[18]João Calvino, Efésios, (Ef 4.17), p. 133; João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, p. 27. Ainda que não se referindo sempre às Escrituras, Calvino usa a figura em outros lugares: Vejam-se: João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.40), p. 76; (Jo 3.1), p. 112; (Jo 3.3), p. 115; (Jo 4.16), p. 164; (Jo 4.19), p. 165; (Jo 4.25), p. 177.

[19]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios,(1Co 1.17), p. 55; (1Co 3.3), p. 100; João Calvino, Beatitudes: Sermões sobre as Bem-Aventuranças, São Paulo: Fonte Editorial, 2008, p. 35; João Calvino, As Institutas, III.2.34; III.10.5.

[20] João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 6.45), p. 280; (Jo 7.16), p. 313; v. 2, (Jo 14.25), p. 109.

[21]John Calvin, To the Marchioness of Rothelin, “Letters,” John Calvin Collection,[CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), 5 de fevereiro de 1558, nº 489.

[22] João Calvino, Beatitudes: Sermões sobre as Bem-Aventuranças, São Paulo: Fonte Editorial, 2008, p. 36.

[23] J. Calvino, AsInstitutas, III.21.3. Veja-se também: AsInstitutas, IV.17.36. “A tal ponto se tem proveito em Sua escola que não há necessidade de acrescentar nada que venha de outros, e se deve ignorar tudo o que não é ensinado nela” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v. 4, (IV.12), p. 24).  

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