A Pessoa e Obra do Espírito Santo (23)

6.1.4. O Espírito, a iluminação e o testemunho (Continuação)

Na Reforma, “a Palavra de Deus era a única autoridade, e a salvação tinha como base única a obra definitiva do Senhor Jesus Cristo, consumada na cruz”, resume Schaeffer (1912-1984).[1]

            Esta Palavra, portanto, antecede à Igreja, conforme enfatiza Calvino: “Se o fundamento da Igreja é a doutrina profética e apostólica, impõe-se a esta, haver assistido certeza própria antes que aquela começasse a existir”.[2]

            Portanto, como decorrência lógica, não é a Igreja que autentica  a Palavra por sua interpretação,[3] como a igreja romana sustentou em diversas ocasiões.[4] “um testemunho humano falível (como o da igreja) não pode moldar o fundamento da divina fé”, conclui Turretini (1623-1687).[5]

            É a Bíblia que se autentica a si mesma como Palavra autoritativa de Deus[6] e, é Ele mesmo quem nos ilumina para que possamos interpretá-la corretamente (Sl 119.18). “A carne não é capaz de tão alta sabedoria como é compreender a Deus e o que a Deus pertence, sem ser iluminada pelo Espírito Santo”, ensina Calvino.[7] Por isso, a Palavra não pode ser separada do Espírito.[8] Essa atitude é produto da imaginação dos fanáticos,[9] “que, desprezando a palavra, ufanam-se do nome do Espírito, e incrementam coisas, como confidenciais, em suas próprias imaginações. É o espírito de Satanás que é separado da palavra, a qual o Espírito de Deus está continuamente unido”, conclui Calvino.[10]

            Portanto, quando o Espírito aplica a Palavra ao nosso coração, Ele produz a sua boa obra em nós, gerando a fé salvadora que se direciona para Cristo e para os feitos de sua redenção.[11]

            Somente pela operação divina poderemos reconhecer a sua origem divina bem como compreendê-la salvadoramente. “A suprema prova da Escritura se estabelece reiteradamente da pessoa de Deus nela a falar”.[12]  Desse modo, a pretensão da igreja de subordinar a autoridade da Bíblia ao seu arbítrio consiste numa “blasfêmia”: “É chocante blasfêmia afirmar que a Palavra de Deus é falível até que obtenha da parte dos homens uma certeza emprestada”.[13] Em outro lugar: “…. a Palavra do Senhor é semente frutífera por sua própria natureza”.[14]

            Na Confissão Gaulesa (1559),[15] no Capítulo IV lemos:

Nós sabemos que esses livros [das Escrituras] são canônicos, e a regra segura de nossa fé (Sl 19.9; 12.7), não tanto pelo comum acordo e consentimento da Igreja quanto pelo testemunho e persuasão interior do Espírito Santo.

Na mesma linha, registra a Confissão de Westminster:

A nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações. (I.5).

Reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das cousas reveladas na palavra. (I.6).[16]

            Anglada (1954-2019) resume bem este ponto, do seguinte modo: “O testemunho do Espírito não é uma nova luz no coração, mas a sua ação através da qual Ele abre os olhos de um pecador, permitindo-lhe reconhecer a verdade que lá estava, mas não podia ser vista por causa da sua cegueira espiritual”.[17]

            Cabe a nós submeter o nosso juízo e entendimento à verdade de Deus conforme testemunhada pelo Espírito.[18]

            A Palavra de Deus direcionada ao homem, revela a seriedade com que Deus nos trata: “Sempre que o Senhor se nos acerca com sua Palavra, Ele está tratando conosco da forma mais séria, com o fim de mover todos os nossos sentidos mais profundos. Portanto, não há parte  de nossa alma que não receba sua influência”, conclui Calvino.[19]

            A Igreja, por sua vez, é a “escola de Deus”.[20] O Espírito é o “Mestre”;[21] “o melhor Mestre”;[22] “ótimo Mestre”;[23] “bendito Mestre”;[24] é o “Mestre interior”,[25] “Mestre no íntimo”,[26] “Mestre ou  Catedrático (Doutor) da verdade”.[27] Continua: “Daí se segue que, enquanto não formos intimamente instruídos por Ele, o entendimento de todos nós é assenhoreado pela vaidade e falsidade”.[28]

            Calvino fala também da “escola do céu”.[29] “O Espírito de Deus, de quem emana o ensino do evangelho, é o único genuíno intérprete para no-lo tornar acessível”.[30] A “docência de Deus” consiste em nos levar à Cristo.[31] A Palavra é, “mediante o Espírito, eficazmente impressa nos corações”.[32]

Em outros lugares Calvino continua com a mesma ênfase:

É Ele que nos ilumina com a sua luz para nos fazer entender as grandezas da bondade de Deus, que em Jesus Cristo possuímos. Tão importante é o seu ministério que com justiça podemos dizer que Ele é a chave com a qual são abertos para nós os tesouros do reino celestial, e que a sua iluminação são os olhos do nosso entendimento, que nos habilitam a contemplar os mencionados tesouros. Por essa causa Ele é agora chamado Penhor e Selo, visto que sela em nosso coração a certeza das promessas. Como também agora Ele é chamado mestre da verdade, autor da luz, fonte de sabedoria, conhecimento e discernimento.[33]

Maringá, 18 de outubro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]F.A. Schaeffer, La Fe de los Humanistas, p. 10.

[2] J. Calvino, As Institutas, I.7.1.

[3]Antes, é da Palavra que nasce a Igreja e é justamente pela fidelidade à Palavra que a Igreja de Cristo é reconhecida. (Vd. J. Calvino, As Institutas, I.7.1-2).

[4]Como exemplo, citamos Stanilaus Hosius (1504-1579) que considerava a Bíblia como “propriedade da Igreja Católica” (Cf. Sudhoff, Hosius: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk & Wagnalls Publishers, (revised edition), 1887, v. 2, p. 1024). Escrevendo contra o reformador amigo de Lutero, Brentius [J. Brenz (1499-1570)], Hosius disse que “As Escrituras têm tão-somente a mesma força que as fábulas do Esopo, se destituída da autoridade da igreja” (Apud Francis Turretin,Institutes of Elenctic Theology,Phillipsburg, New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1992, v. 1, p. 86). Segundo citação de Turretin, Hosius “não hesitou em blasfemar ao dizer”: “Melhor seria para os interesses da igreja se jamais houvesse existido a Bíblia” (Apud Francis Turretin,Institutes of Elenctic Theology,v. 1, p. 57). Johann Maier von Eck (1486-1543), amigo e depois severo oponente de Lutero, escreveu em 1525 que, “As Escrituras não são autênticas, exceto pela autoridade da igreja” (Enchirdion of Commonplaces, 1, Apud  Turretin, Institutes of Elenctic Theology,v. 1, p. 86). (Francis Turretin cita diversos outros pronunciamentos feitos por católicos a respeito deste assunto. Veja-se: Institutes of Elenctic Theology,v. 1, p. 86). Notemos que aqui, nestas questões levantadas pelos católicos, não há uma negação da procedência das Escrituras, mas sim a afirmação da supremacia do subjetivo sobre o objetivo. Neste caso, a verdade não é o que é; ela é o que digo (no caso a Igreja Católica Romana) que ela seja.

[5] Francis Turretin,Institutes of Elenctic Theology, v. 1, p. 89.

[6] Ver: João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 4.12), p. 110.

[7] João Calvino, As Institutas, II.2.19.

[8]Zuínglio (1484-1531) dissera textualmente: “Entendo a Escritura somente na maneira em que ela interpreta a si mesma pelo Espírito Santo. Isso não requer nenhuma opinião humana” (Apud Timothy George, Teologia dos Reformadores,p. 129. Vejam-se as p. 126-130. Calvino: “A verdade de Deus não depende da verdade do homem” (João Calvino, Romanos,2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 3.4), p. 111). Paul Tillich, História do Pensamento Cristão,São Paulo: ASTE., 1988, p. 234ss). Vejam-se: Tomás de Aquino, Súmula Contra os Gentios,São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 8I), 1973, VI, p. 69; J. Calvino, AsInstitutas, I.9.3; D.M. Lloyd-Jones, Vida no Espírito, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 126ss.

[9]“Aqueles fanáticos que incorrem em erro sob o pretexto de terem a revelação do Espírito Santo” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 146).

[10] John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, (Calvin’s  Commentaries), 1996, v. 8/4,  (Is 59.21), p. 271. “É o múnus peculiar do Espírito Santo nos ensinar de tal forma que a palavra que ouvimos tenha com isso sua posição e autêntica estima, e que dela tiremos proveito” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 146).

[11]Cf. William Hendriksen, O Evangelho de João,São Paulo: Cultura Cristã, 2004,  (Jo 17.20), p. 772.

[12]J. Calvino, AsInstitutas, I.7.4. Ver também, AsInstitutas, I.9.3.

[13]João Calvino, As Pastorais,(1Tm 3.15), p. 98.

[14]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.6), p. 103. Vejam-se dois estudos de Murray sobre a posição de Calvino a respeito das Escrituras e de sua Autoridade. John Murray, Calvin’s Doctrine of Scripture  e  Calvin and the Authority of Scripture: In: John Murray, Calvin as Theologian and Expositor, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, (Collected Writings of John Murray, v. IV), 1976, p. 158-175 e 176-190. Também: A.D.R. Polman, Calvino y la Inspiracion de la Escritura: In: Jacob T. Hoogstra, compilador, Juan Calvino, Profeta Contemporáneo, Barcelona: CLIE., 1973, p. 99-114.

[15]Essa Confissão foi escrita por Calvino (1509-1564) e seu discípulo Antoine de la Roche Chandieu (De Chandieu) (1534-1591), provavelmente com a ajuda de T. Beza (1519-1605) e Pierre Viret (1511-1571).

[16] Do mesmo modo diz a Confissão Belga(1561), Art 5.

[17] Paulo Anglada, A Doutrina Reformada da Autoridade Suprema das Escrituras: In: Fides Reformata,São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 2/2 (1997), p. 124-125.

[18]Ver: J. Calvino, AsInstitutas, I.7.5.

[19] João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 4.12), p. 108.

[20]João Calvino, As Pastorais,(1Tm 5.7), p. 136; João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6,São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.2-7), p. 190; João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 23, 157.

[21]João Calvino, Exposição de Romanos,(Rm 1.16), p. 58.

[22]João Calvino, AsInstitutas, IV.17.36. Calvino diz que quem rejeita o “magistério do Espírito”, é desvairado. (João Calvino, AsInstitutas, I.9.1).

[23]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v. 4 (IV.12), p. 24.

[24]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.16), p. 41.

[25]João Calvino, AsInstitutas, II.2.20; III.1.4; III.2.34; IV.14.9.

[26] João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.25), p. 108; (Jo 16.13), p. 156.

[27] João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.17), p. 101. Veja-se também: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v. 2, (II.4), p. 89.  

[28]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.17), p. 101; João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.4), p. 89.

[29]John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 3, (Ex 31.18), p. 328.

[30]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.14), p. 93. Lutero também escrevera: “O Espírito Santo é o escritor mais simples nos céus e na terra; portanto, suas palavras não podem ter mais do que um sentido simples, ao qual chamamos de sentido das escrituras ou sentido literal” (Apud F.W. Farrar, History of Interpretation, London: Macmillan and Co., 1886, p. 329).

[31] “A Igreja não pode ser restaurada de qualquer outra forma senão por Deus empreendendo o ofício de Mestre e conduzindo os crentes a si. O método de ensino, de que fala o profeta, não consiste meramente na voz externa, mas igualmente na operação secreta do Espírito Santo. Em suma, esta docência de Deus consiste na iluminação interior do coração” (João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 6.45), p. 278).

[32]João Calvino, As Institutas, I.9.3.

[33]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v. 2, (II.4), p. 89.  

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