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Unidade Imperfeita e Governo Necessário: Entre a Graça e a Política

O cisma será encontrado sempre onde estão presentes animosidades secretas, onde está ausente aquela harmonia que deve haver entre os crentes, ou onde interesses conflitantes fazem sentir sua presença; onde cada um pensa nos próprios meios de obter seus direitos, não acalentando qualquer interesse no que os outros dizem ou fazem”  − João Calvino (1509-1564).[1]

O homem é um ser social! Contudo, a vida comunitária é complexa em busca de sua simplicidade.

A vida comunitária cristã vive o dilema de conciliar santidade e imperfeição. Pequenos deslizes, frequentemente amplificados pela liderança, transformam-se em motivo de exclusão. O perfeccionismo, ainda que bem-intencionado, é inalcançável e, no fim, divide em vez de unir.

O mesmo fenômeno se repete na política: grupos que compartilham valores comuns fragmentam-se, cada qual defendendo sua versão particular de ortodoxia ideológica, isto é, quando a tem.

A Escritura reconhece nossa falibilidade: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). A unidade, portanto, não nasce da perfeição, mas da graça que nos une em Cristo (Jo 17.21). Paulo exorta: “Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente” (Cl 3.13). A verdadeira comunhão não depende da ausência de falhas, mas da disposição de perdoar e acolher. Quando o perfeccionismo se torna ídolo, ele conduz inevitavelmente à rejeição e à fragmentação — tanto na igreja quanto na sociedade.

Nesse contexto, ecoa o pronunciamento atribuído ao teólogo luterano Petrus Meuderlin (1582-1651): “Em essenciais, unidade; em não-essenciais, liberdade; em todas as coisas, amor”.[2] A frase tornou-se um lema irênico, especialmente em tempos de divergências teológicas e denominacionais. Ainda que permaneça a tensão sobre quem define o “essencial”, ela aponta para um caminho de humildade e tolerância, lembrando que a unidade não se constrói pela eliminação das diferenças, mas pela capacidade de distingui-las e relativizá-las dentro de um contexto mais amplo.

Embora a reflexão tenha raízes teológicas, ela também encontra eco na filosofia política clássica. Hobbes descreveu o estado de natureza como uma condição de permanente insegurança, onde a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, brutal e curta. Locke, em contraste, afirmou que onde não há lei, não há liberdade, defendendo o governo como guardião dos direitos naturais. Rousseau, por sua vez, advertiu que o homem nasce livre, e por toda parte encontra-se acorrentado, indicando que sem uma vontade geral autêntica, prevalece a opressão. Apesar das diferenças, todos convergem em um ponto: o governo – quer por consentimento, quer por pacto social −, ainda que imperfeito, é preferível ao desgoverno.

A história confirma essa necessidade. Na Alemanha pré-Segunda Guerra Mundial, partidos conservadores e liberais de direita não conseguiram formar uma frente unida contra o avanço nazista. O rigorismo ideológico e a recusa em fazer concessões abriram espaço para que Hitler consolidasse poder.

Nos Estados Unidos – ainda que reconheçamos as fortes divergências de pautas −  divisões internas no Partido Republicano entre conservadores, libertários e populistas dificultaram consensos em momentos críticos. Já na América Latina, coalizões de esquerda, mesmo reunindo partidos com agendas distintas, conseguem unir-se em torno de bandeiras comuns contra o “neoliberalismo”, austeridade, e privatizações, demonstrando pragmatismo em contraste com o purismo da direita.

No Brasil contemporâneo, a direita frequentemente se divide em disputas internas sobre ortodoxia ideológica, enfraquecendo sua capacidade de formar coalizões duradouras e sustentar governos estáveis. Em contrapartida, a esquerda mostra maior habilidade de articulação, mesmo reunindo partidos com agendas divergentes.

Todavia, essa unidade não está isenta de fragilidades: escândalos de corrupção, incoerências internas entre pautas sociais e econômicas, e práticas populistas frequentemente minam a credibilidade e a consistência ética da esquerda. Assim como a direita sofre com fragmentação, a esquerda enfrenta o risco de perder legitimidade ao flexibilizar princípios em excesso.

Coalizões se estruturam em torno de pautas identitárias e sociais. Criam frentes amplas que, embora careçam de coerência ética uniforme, mantêm-se coesas em votações parlamentares e disputas eleitorais.

No Brasil, o debate político gira não em torno de programas consistentes, mas de nomes e lideranças carismáticas. O “projeto” político torna-se mero recurso discursivo, usado para conquistar votos, sem conteúdo real.

Essa personalização fragiliza ainda mais a possibilidade de alianças sérias e comprometidas com o bem comum.

Esse cenário confirma a advertência bíblica: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (Jz 21.25). A fragmentação da direita reflete esse desgoverno potencial. Já a união pragmática da esquerda, embora superficial, mostra a tentativa de construir uma “vontade geral” rousseauniana − ainda que artificial.

Se no Antigo Testamento vemos o risco da ausência de liderança, no Novo Testamento Jesus ensina que a verdadeira coesão não se constrói em torno de nomes, mas de princípios e valores: “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha” (Mt 12.30). A lógica do Reino é a lógica da unidade em torno de um propósito maior − não de alianças a qualquer preço, nem da dispersão em torno de interesses individuais.

A análise bíblica, filosófica e política converge em um ponto essencial: a imperfeição é inevitável, mas a ausência de governo ou de unidade é desastrosa. A direita, ao buscar perfeição, corre o risco de se fragmentar; a esquerda, ao flexibilizar valores, consegue se unir, mas às custas da coerência ética. O desafio cristão e político é reconhecer que o governo, ainda que falho, é melhor que o desgoverno, e que a possível unidade, mesmo imperfeita, é preferível à divisão.

Unidade imperfeita e governo falho são preferíveis à divisão e ao caos.[3] Mas não basta unir-se a qualquer preço: precisamos de governos moldados pela integridade e pelo serviço. O desafio é não confundir pragmatismo com abandono de princípios. Que Deus nos dê discernimento para escolher a unidade que edifica, e não a que apenas acomoda.

Maringá, 15 de Julho de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996 [1Co 11.19], p. 342-343.

[2] Ao que parece, Richard Baxter (1615-1691) foi quem popularizou a frase. Compare as informações em: Philip Schaff,History of the Christian Church,Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1996, v. 7,  § 108, p. 650-653; John  R.W.  Stott, A Verdade do Evangelho: Um apelo à Unidade, Curitiba, PR.; São Paulo: Encontro; ABU Editora, 2000, p. 133-134; Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 21.

[3] “Os fanáticos que lutam pela supressão dos magistrados são privados de toda humanidade e promovem unicamente o barbarismo impiedoso.” (João Calvino, As Pastorais,São Paulo: Paracletos, 1998, [1Tm 2.2], p. 57).

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