Cotidiano

Rev. Oadi, um homem difícil de vencer pelo tempo

Uma homenagem à fidelidade que resiste ao tempo

Há filmes que ultrapassam o próprio enredo e se tornam verdadeiras parábolas sobre o tempo e a condição humana  −  quase como aquelas histórias simples que, uma vez ouvidas, permanecem alojadas no coração e voltam a falar conosco em dias inesperados.

            Um Homem Difícil de Matar (Monte Walsh, 1970), estrelado por Lee Marvin (1924–1987), com a participação de Jack Palance (1919–2006), é um desses raros casos: um faroeste intimista, de tonalidade quase existencial, situado no crepúsculo do Velho Oeste, em que um homem envelhecido contempla, em silenciosa lucidez, o desaparecimento de tudo aquilo que um dia deu sentido à sua vida.

            Não se trata de um filme de feitos grandiosos, embora deles não careça por completo, mas de uma narrativa recolhida, quase em tom de confissão. Fala do desgaste, da memória, da perda  −  e, sobretudo, da dignidade de quem atravessa o tempo sem trair a própria alma. O protagonista percebe, pouco a pouco, que o mundo que conhecia já não existe  −  e que, com ele, também se esvai um modo de ser e de viver. Ainda assim, permanece. Resiste com mansidão firme, com integridade indomável, quase como um forasteiro  −  alguém que já não pertence inteiramente a lugar algum, senão àquilo que é. E nisso conserva a sua verdade.

            Foi inevitável lembrar-me desse tom quieto e grave na visita que fiz ontem, 28 de maio de 2026, ao meu antigo professor  −  agora com 95 anos  −, o último ainda vivo entre aqueles que moldaram decisivamente a minha formação. Seu corpo já traz os sinais do tempo, como um campo antigo que conheceu muitas estações. Mas sua mente permanece clara, e sua alma, doce e piedosa, guarda aquela mesma serenidade  −  e, por vezes, o mesmo modo enfático  −  com que outrora nos instruía.

            E havia, ainda, o seu humor  −  vivo, intacto, quase como um lampejo de juventude preservado pela graça. Recordamos juntos suas exclamações vigorosas, lançadas à beira do campo de futebol, com voz firme e inesquecível: “Levanta, que vem mais!”; “Que que é isso, companheiro?”; e aquela que se tornou antológica, dita com autoridade e graça: “Que que é isso, Petreca?”. Palavras simples, é verdade, mas carregadas de proximidade, amizade e uma descontração tão humana quanto formadora. Em muitos casos, ensinavam tanto quanto uma aula  −  e, às vezes, até mais.

            O mais notável, porém, não foi apenas encontrá-lo vivo, mas reconhecer nele a mesma coerência de sempre: a mesma firmeza de pensamento, a mesma sobriedade de juízo, a mesma integridade serena que conheço desde 1976, quando tive o privilégio de ser aluno de sua primeira turma no Seminário Presbiteriano do Sul. Como o homem do filme  −  e como tantos servos de Deus nas Escrituras   −, ele permanece sendo quem sempre foi. Não se curvou ao tempo, nem diluiu a própria identidade nas mudanças. Antes, guardou o bom depósito.

            Rimos de causos do meu tempo de estudante. Recordamos, com reverência e gratidão, a colaboração dos Revs. Jackson Macedo de Souza, Paulo Viana de Moura e Lázaro Lopes de Arruda. Ele também se lembrou, com carinho, dos Revs. Waldyr Carvalho Luz,  Richard Shaull, Jorge Goulart e Herculano de Gouvêa Jr., mestres importantes em sua formação. E eu lhe recordei algo que nunca esqueci: foi ele quem me introduziu à leitura de Miguel de Unamuno e de John Mackay. Mencionei também minha apreciação por José Ortega y Gasset, contemporâneo de Unamuno.

     Em certo momento, ele me perguntou, com aquela ironia pedagógica que nunca perdeu: “E você gostou de Unamuno?!”. Ele já sabia a resposta  −  e talvez soubesse também que algumas influências permanecem conosco para sempre. Mencionei ainda que Karl Barth, a quem ambos apreciamos em vários de seus escritos  − e também por sua humildade  −, nascera igualmente em maio: em anos diferentes, é claro, mas com apenas um dia de diferença, no dia 10. Ele sorriu com a satisfação serena de um pai ouvindo o filho repetir, já não como simples memória, mas como convicção assimilada, algo daquilo que um dia lhe ensinou.

     Homens assim não morrem  −  ao menos, não no sentido que mais importa. Eles permanecem. São como antigas colunas que sustentam silenciosamente o edifício, mesmo quando já não se fala nelas. Sua vida se torna testemunho: de fidelidade, de coragem, de perseverança.

            Seu ministério, longo e fecundo, deixou marcas em Goiás, em Minas Gerais, em Indaiatuba e, de modo muito especial, em Campinas, onde ainda reside, cercado pelo cuidado atento e amoroso de sua filha caçula, a Dra. Suzana, médica cardiologista.  Ali foram 39 anos ininterruptos no SPS  −  quase quatro décadas semeando, ensinando, formando. E quem semeia assim raramente mede a própria colheita.

            Pois, ainda que talvez nunca tenha dimensionado plenamente a extensão do que plantou, ele tem hoje uma descendência incontável  − filhos, netos e bisnetos espirituais espalhados, de modo muito particular, pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Vidas moldadas por suas mãos, consciências formadas por sua palavra, ministérios sustentados por aquilo que dele receberam. Entre esses, com humilde gratidão e também com certo senso de inadequação, conto-me eu.

            Não lhe relembrei a carta que me escreveu em meu último ano de Seminário, em 1979 − carta que foi instrumento da graça de Deus em dias de crise e desânimo. Creio que esse esquecimento foi providencial: teria me emocionado ainda mais do que já estava.

            Damos, portanto, graças a Deus pela vida do meu mestre  −  vida que reflete, com beleza simples e firme, o cuidado, a bondade e a misericórdia do Senhor. Uma vida que não buscou brilho, mas verdade; não buscou aplauso, mas fidelidade.

            Voltei cansado, é verdade  −  como quem percorre longas distâncias. Mas voltei também confortado, fortalecido e com o ânimo renovado para continuar no serviço do Senhor, no lugar onde Ele mesmo nos plantou.

            Levei-lhe chocolate; em outra visita, levara-lhe livros. Desta vez, voltei eu mesmo instruído e alimentado.

            Porque contemplar de perto uma vida assim é ouvir, mais uma vez, o chamado que, no meu caso, já me parece aproximar-se do fim: “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará.” (1Ts 5.24).

            A Deus toda a glória. Amém!

São Paulo, 29 de maio de 2028

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Um comentário sobre “Rev. Oadi, um homem difícil de vencer pelo tempo

  • Excelente e emocionante encontro, resultou em um belo e prazeroso artigo de se ler. Parabéns, Rev. Dr. Hermisten, amigo e diferenciado colega de turma e também de pastorado. Muito obrigado, por este emocionante artigo, que me traz à alma o período áureo de minha vida, que vale apena reviver. Um forte abraço,

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