Competência, caráter e temor de Deus: fundamentos para o exercício da autoridade
Quando Jetro, sogro de Moisés, o aconselhou a escolher homens para ajudá-lo no julgamento do povo, apresentou-lhe muito mais do que uma solução para o excesso de trabalho. Havia ali elementos importantes para o exercício da liderança: distribuição de responsabilidades, delegação de autoridade e escolha criteriosa daqueles que exerceriam funções de governo. Entretanto, a preocupação do texto não é apenas com eficiência. Antes de perguntar quem poderia desempenhar determinada função, Jetro estabelece quem deveria ser considerado apto para exercê-la:
“Procura dentre o povo homens capazes (lyIx;) (hayil) (pessoas hábeis, honradas e de bem), tementes (arey) (yare’) a Deus, homens de verdade (tm,a/) (‘emeth) (fiel, digno de confiança), que aborreçam a avareza” (Ex 18.21).
Competência e integridade
A ordem é significativa. A capacidade é necessária, mas não suficiente. Os homens deveriam ser capazes, mas também tementes a Deus, homens de verdade e inimigos da avareza. A Escritura, portanto, não separa competência de caráter. Aquele que recebe autoridade deve possuir condições para exercê-la, mas também qualidades morais que o tornem idôneo para essa responsabilidade. A competência torna alguém capaz de exercer autoridade; o caráter, formado pelo temor de Deus, o torna idôneo para essa responsabilidade.
Essa perspectiva é fundamental para uma compreensão cristã da administração. Administrar não consiste simplesmente em organizar recursos, estabelecer procedimentos e alcançar resultados. Toda administração envolve pessoas, responsabilidades, bens, decisões e autoridade. Por isso, possui inevitavelmente uma dimensão moral. Quem administra não responde apenas pela eficiência de suas decisões, mas também pela maneira como as toma, pelos princípios que as orientam e pelas pessoas que são afetadas por elas.
A Escritura não concebe a ética como um conjunto autônomo de regras acrescentado posteriormente à vida cristã. Ela nasce da própria teologia, pois aquilo que cremos acerca de Deus determina a maneira como vivemos diante dele e dos homens. A doutrina não apenas nos ensina a conhecer a Deus por meio das Escrituras; ela também nos orienta a viver de modo coerente com aquilo que professamos. Por isso, na perspectiva reformada, a ética não pode ser dissociada da teologia.
O temor de Deus como princípio orientador
Uma administração verdadeiramente cristã, portanto, não começa com técnicas administrativas, mas com uma visão correta de Deus. A maneira como compreendemos Deus determina a maneira como compreendemos a nós mesmos, a autoridade, o próximo, os bens que administramos e a própria finalidade de nosso trabalho. A soberania de Deus nos lembra que nenhuma autoridade humana é absoluta; a providência nos ensina que somos mordomos, e não proprietários últimos; a santidade de Deus estabelece o padrão de nossa conduta; e a graça nos conduz a exercer autoridade não como instrumento de domínio, mas como serviço.
É nesse ponto que o temor de Deus ocupa lugar central. Em Deuteronômio, quando Moisés determina que a Lei seja lida diante de todo o povo durante a Festa dos Tabernáculos, o objetivo não era simplesmente transmitir informação religiosa. O povo deveria ouvir, aprender e temer o SENHOR, passando a observar cuidadosamente todas as palavras da Lei (Dt 31.9-13). A instrução bíblica, portanto, não termina no conhecimento. Ela pretende formar pessoas que conheçam a verdade, amem a verdade e vivam de acordo com a verdade.
A educação cristã possui necessariamente essa dimensão formativa. A doutrina não nos é dada para satisfazer mera curiosidade intelectual, mas para conformar nossa vida à vontade de Deus. O conhecimento da verdade deve conduzir à prática da verdade. A verdadeira instrução alcança a mente, forma o caráter e orienta a vida.
Consequentemente, não existe verdadeira competência cristã dissociada de formação moral. É possível possuir conhecimento, habilidade técnica, experiência e capacidade estratégica e, ainda assim, não possuir caráter suficiente para exercer uma função de confiança. A técnica pode ensinar como realizar determinada tarefa; o temor de Deus nos lembra diante de quem a realizamos.
O temor do Senhor não deve ser compreendido simplesmente como medo de punição. Ele nasce do reconhecimento da grandeza, santidade, justiça, bondade e misericórdia de Deus. É a reverência daquele que sabe diante de quem está. Por isso, o temor orienta pensamentos, desejos, projetos, decisões e atitudes. Ele coloca toda a existência sob a consciência da presença de Deus.
“Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34.11). O temor de Deus é, portanto, também objeto de ensino. Não é uma disposição meramente espontânea, mas uma realidade que precisa ser aprendida, cultivada e transmitida. Depois de confessar seu pecado e buscar a restauração do Senhor, Davi podia dizer: “Então, ensinarei aos transgressores os teus caminhos” (Sl 51.13). Quem foi alcançado pela graça não guarda para si o conhecimento dos caminhos de Deus; procura transmiti-lo a outros.
Essa relação entre temor, conhecimento e prática é essencial para a liderança. O conhecimento que não produz reverência pode alimentar orgulho intelectual. A competência que não é acompanhada de caráter pode transformar-se em instrumento de ambição. E a autoridade que não é submetida ao temor de Deus tende a converter-se em poder sobre os outros, e não em serviço aos outros.
Integridade: coerência entre fé e vida
Por isso, a Escritura insiste na integridade. Integridade não significa perfeição sem pecado. Significa coerência diante de Deus: uma disposição de buscar a verdade, reconhecê-la e conformar a vida a ela. A vida cristã não pode ser fragmentada entre aquilo que confessamos no culto e aquilo que praticamos no cotidiano. A fé alcança a existência inteira. Nossa cosmovisão não deve ser mero ornamento intelectual ou instrumento de demarcação de território; deve produzir coerência entre aquilo que cremos, falamos e fazemos.
Nesse sentido, integridade é uma expressão prática da verdade. A busca da verdade e a fidelidade à verdade caminham juntas. Não basta defender princípios corretos publicamente se, no âmbito privado, cultivamos práticas incompatíveis com aquilo que professamos. Não basta falar de justiça enquanto administramos com parcialidade; não basta defender a honestidade enquanto manipulamos informações. Não podemos exaltar o serviço enquanto buscamos privilégios. A incoerência entre convicção e conduta destrói a credibilidade da liderança.
É precisamente por isso que a Escritura apresenta como indispensáveis à liderança qualidades como fidelidade, domínio próprio, sobriedade, justiça e bom testemunho. Em Neemias 7.2, Hananias é colocado sobre Jerusalém porque era “homem fiel e temente a Deus, mais do que muitos outros”. Observe-se novamente a combinação: fidelidade e temor. A confiança depositada nele não decorreu apenas de sua capacidade, mas de seu caráter.
A mesma lógica aparece no Novo Testamento. Quando a Igreja precisou escolher homens para uma tarefa administrativa concreta, os apóstolos não disseram simplesmente que deveriam procurar pessoas disponíveis ou eficientes. Deveriam ser homens “de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6.3). Quando Paulo estabelece os requisitos para presbíteros e diáconos, também não começa pelas habilidades administrativas. Ele enfatiza caráter, domínio próprio, fidelidade, maturidade, bom testemunho e capacidade de ensinar (1Tm 3; Tt 1).
Isso demonstra que, biblicamente, a competência nunca é reduzida à habilidade técnica. Há uma idoneidade moral e espiritual indispensável ao exercício da autoridade. Saber fazer é importante; saber fazer corretamente, pelos motivos corretos e diante de Deus é indispensável.
Essa verdade é especialmente importante na liderança da Igreja. Não devemos escolher pastores, presbíteros e diáconos tendo como critérios principais a influência, a boa comunicação, a disponibilidade, os recursos financeiros ou a competência profissional. Tais qualidades podem ser úteis, mas não constituem os critérios fundamentais estabelecidos pela Escritura. A Igreja precisa de homens reconhecidamente fiéis, maduros, equilibrados, íntegros e tementes a Deus.
Na liderança espiritual, a incoerência é particularmente destrutiva. O líder não transmite apenas aquilo que ensina; transmite também aquilo que é. Seu caráter torna-se parte de seu ministério. Por isso, a integridade é indispensável à liderança da Igreja: aquele que conduz outros deve oferecer um exemplo digno de confiança.
Integridade no exercício da administração pública
Essa mesma realidade, embora com aplicações próprias, alcança a administração pública e as demais instituições da sociedade. O Estado necessita de pessoas competentes para administrar recursos, formular políticas, executar projetos e tomar decisões complexas. Entretanto, a competência técnica, por si só, não garante o uso justo e responsável da autoridade.
Uma pessoa pode ser extremamente habilidosa e, ao mesmo tempo, profundamente desonesta. Pode conhecer perfeitamente os mecanismos de uma instituição e utilizá-los em benefício próprio. Pode alcançar resultados impressionantes e, ainda assim, fazê-lo mediante corrupção, mentira, manipulação ou injustiça.
Daí a importância de rejeitarmos a ideia de que o resultado justifica qualquer meio empregado para alcançá-lo. A administração cristã não pode avaliar uma decisão somente por sua eficácia. Os meios também possuem caráter moral. Um resultado aparentemente positivo obtido mediante mentira, corrupção, violência, fraude ou injustiça não se torna moralmente correto simplesmente porque produziu eficiência. Na perspectiva cristã, o caminho percorrido importa tanto quanto o resultado pretendido.
Isso nos conduz a uma questão decisiva: não basta perguntar se alguém é capaz de governar; é preciso perguntar se possui caráter para fazê-lo. Não basta saber se possui conhecimento; precisamos considerar como utiliza esse conhecimento. Não basta verificar se alcança resultados; devemos perguntar que princípios orientam suas decisões e que preço está disposto a pagar para alcançá-los.
Quem teme verdadeiramente ao Senhor sabe que sua autoridade é derivada, limitada e temporária. Sabe que prestará contas. Não se considera proprietário da função que ocupa, mas mordomo de uma responsabilidade que recebeu. Essa consciência relativiza o poder e protege tanto o administrador quanto aqueles que estão sob sua responsabilidade.
Essa integração entre fé e vida é característica da tradição reformada. A soberania de Deus e a dependência absoluta da criatura não conduzem à passividade moral; ao contrário, submetem toda a existência à Palavra de Deus e à sua glória. Por isso, a fé cristã não se restringe ao âmbito privado ou religioso, mas alcança a vida social, econômica, política e profissional.
A administração cristã, portanto, não deve ser compreendida como uma tentativa de revestir técnicas seculares com uma linguagem religiosa. Trata-se de algo mais profundo: é administrar sob o senhorio de Deus. É reconhecer que a verdade não é criada pelo administrador, que a autoridade não é absoluta, que os recursos não lhe pertencem em última instância e que as pessoas não existem para servir aos seus interesses. É exercer responsabilidade diante daquele que é Senhor de todas as coisas.
A questão, portanto, não é escolher entre competência e caráter. Precisamos das duas coisas. A incompetência pode produzir desorganização, desperdício e injustiça; a competência sem caráter pode produzir resultados eficientes a serviço de fins perversos. A competência precisa ser orientada pela verdade, e o caráter precisa ser acompanhado de capacidade para realizar com responsabilidade aquilo que foi confiado.
A eficiência produz resultados; a integridade produz confiança. A técnica pode ensinar como administrar; o temor de Deus ensina diante de quem administramos.
Uma administração que é serviço
Por isso, a pergunta decisiva não é somente “quem é capaz?”, mas também “quem é fiel?”. Não basta encontrar pessoas que saibam administrar; precisamos de pessoas que reconheçam que administram diante de Deus.
É nesse sentido que competência e caráter devem permanecer unidos. A competência sem caráter pode tornar o homem perigoso; o caráter sem competência pode torná-lo incapaz de cumprir adequadamente a responsabilidade recebida. Quando competência, integridade e temor de Deus caminham juntos, a autoridade pode ser exercida como serviço, os recursos podem ser administrados como mordomia e as decisões podem buscar não apenas resultados, mas aquilo que é justo e bom.
Seja na Igreja, seja nas instituições da sociedade, a escolha de quem receberá autoridade não pode ser orientada apenas por popularidade, competência técnica, conveniência ou capacidade de produzir resultados. É necessário procurar pessoas de caráter comprovado, verdadeiras, confiáveis, capazes e, acima de tudo, tementes a Deus.
Administrar é servir; servir é exercer uma responsabilidade recebida; e exercer responsabilidade é fazê-lo diante de Deus. Porque, no fim, a grande questão da administração não é apenas o que fazemos com aquilo que recebemos, mas como o fazemos diante daquele a quem tudo pertence. Eis, portanto, o fundamento de uma administração verdadeiramente fiel: competência para realizar, caráter para permanecer íntegro e temor de Deus para lembrar, em cada decisão, diante de quem estamos.
Maringá, 07 de setembro de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
