Política não é redenção: Maquiavel, Calvino e a política de nossos dias
Niccolò Machiavelli (1469-1527) permanece como um dos pensadores mais inquietantes e influentes da tradição política ocidental. Sua obra não se impõe por oferecer respostas definitivas aos dilemas do poder, mas por nos obrigar a encará-lo sem ilusões. Maquiavel conhecia bem a distância entre o que os homens desejariam que a política fosse e aquilo que ela, de fato, costuma ser. Via com clareza a ambição, os interesses, os conflitos, a instabilidade e as limitações que moldam a vida humana. Nesse contraste entre aspiração e realidade, revela-se também um descompasso que nos acompanha: a distância entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser, entre nossos projetos e as contradições que a própria realidade nos impõe.
Ler Maquiavel, portanto, pode ser útil. Não para adotarmos sua concepção de política, mas para compreendermos melhor a realidade sobre a qual ela se desenvolve. O cristão não precisa ser ingênuo diante do poder; precisa, contudo, submetê-lo a um juízo mais elevado.
É nesse sentido que João Calvino (1509-1564) oferece o horizonte a partir do qual podemos avaliar criticamente algumas das percepções de Maquiavel. Não se trata de estabelecer entre os dois um diálogo que historicamente não existiu, nem de sugerir que Calvino tenha escrito uma resposta sistemática a Maquiavel. Trata-se de colocar em contraste duas compreensões profundamente diferentes da ação humana na história.
Maquiavel pergunta, em grande medida, como o homem pode agir eficazmente diante das circunstâncias, preservar a ordem política e responder às contingências do poder. Calvino parte de uma pergunta mais fundamental: como o homem deve agir diante de Deus, sob sua providência e dentro dos limites de sua vocação? Essa diferença é decisiva.
A realidade do poder
Uma das contribuições de Maquiavel foi retirar a política do terreno das idealizações. O governante não pode pressupor que os homens agirão sempre segundo aquilo que seria moralmente desejável. Precisa conhecer os interesses envolvidos, antecipar reações, compreender conflitos e considerar as forças que podem favorecer ou ameaçar seu governo.
Em O Príncipe, ao tratar da relação entre amor e temor, Maquiavel sustenta que, se não for possível ser amado e temido ao mesmo tempo, é mais seguro ser temido; acrescenta, porém, que o governante deve evitar ser odiado. Para ele, o medo pode ser administrado pela autoridade, enquanto o ódio tende a produzir resistência e conspiração. Por isso, recomenda que o governante evite atingir desnecessariamente os bens e a honra de seus súditos.
Podemos discordar profundamente de sua concepção de poder sem ignorar a realidade que ele percebeu. Governos não se sustentam apenas por boas intenções ou discursos. Autoridade, legitimidade, confiança, competência administrativa, instituições e percepção pública produzem consequências concretas.
O problema começa quando essa constatação se transforma em princípio moral: aquilo que funciona passa a ser considerado justificável. Nesse momento, a eficácia deixa de ser apenas um aspecto a ser considerado na ação política e passa a ocupar o lugar de critério para determinar o que é certo ou errado. A pergunta deixa de ser “isso é justo?” ou “isso é verdadeiro?” e passa a ser, sobretudo, “isso funciona?”. É nesse ponto que o realismo pode deslizar para o pragmatismo. Quando os resultados passam a determinar a validade de nossas escolhas, aquilo que produz os efeitos desejados tende a ser considerado legítimo, ainda que contrarie princípios de verdade, justiça ou moralidade. O que funciona passa a ser tomado como bom; o que não funciona, como mau ou inadequado.
Essa lógica é especialmente perigosa para o cristão, porque desloca o fundamento do juízo moral. A verdade deixa de orientar a ação e passa a ser avaliada pelos resultados que produz. A justiça deixa de estabelecer os limites da eficácia e passa a ser relativizada em nome dela. Assim, meios moralmente questionáveis podem ser aceitos simplesmente porque parecem produzir bons resultados.
O pragmatismo, quando elevado a princípio de vida, política ou mesmo de ministério cristão, colide inevitavelmente com a perspectiva bíblica. Nem tudo o que funciona é certo, assim como nem tudo o que é certo produz imediatamente os resultados que esperamos. Por isso, a eficácia é uma consideração legítima, mas não pode ser o critério supremo. O cristão deve perguntar se determinada ação funciona, mas precisa perguntar antes se ela é verdadeira, justa, legítima e conforme à vontade de Deus.
O que funciona pode revelar a eficácia de um meio, mas não pode, por si só, determinar sua legitimidade. Para o cristão, essa conclusão é inadmissível, pois uma estratégia eficaz não é necessariamente justa e estabilidade não significa legitimidade. O poder precisa ser exercido dentro de limites morais, jurídicos e, sobretudo, diante de Deus. O realismo pode nos livrar da ingenuidade, mas não pode, sozinho, fornecer o fundamento da justiça.
Virtù: capacidade política e seus limites
Outro conceito central em Maquiavel é o de virtù. É importante não compreendê-lo simplesmente como “virtude” no sentido moral cristão. Em seu pensamento, virtù designa sobretudo a capacidade de agir politicamente: coragem, energia, prudência, iniciativa, inteligência e capacidade de adaptação às circunstâncias. O governante dotado de virtù, nesse sentido, não é necessariamente um homem moralmente virtuoso. É aquele que sabe agir diante das circunstâncias, aproveitar oportunidades, enfrentar adversidades e tomar decisões capazes de preservar ou fortalecer seu poder.
Aqui encontramos uma distinção importante para nossos dias. Uma pessoa pode ser politicamente hábil sem ser moralmente íntegra. Pode saber conquistar votos sem saber governar com justiça; dominar a comunicação sem possuir sabedoria; vencer uma eleição e fracassar no exercício responsável da autoridade.
Precisamos, sem dúvida, de competência política. Governar exige conhecimento, prudência, coragem, capacidade administrativa e discernimento. A incompetência de um governante não se torna virtude pelo simples fato de suas intenções serem boas.
Mas competência não é caráter. E eficácia não é justiça.
A virtù maquiaveliana pode nos ajudar a perceber a importância da capacidade política, mas, do ponto de vista cristão, é insuficiente como critério para julgar o governante. O homem não foi chamado apenas a ser capaz; foi chamado a ser fiel.
Fortuna e providência
A virtù aparece em Maquiavel relacionada à fortuna, que representa as circunstâncias, contingências e forças que escapam ao domínio humano e podem favorecer ou frustrar os projetos de um governante. O político precisa, portanto, desenvolver capacidade para responder às mudanças da realidade.
Aqui a diferença em relação à fé cristã se torna ainda mais profunda. Para Calvino, a história não está entregue ao acaso. Deus sustenta, dirige e governa todas as coisas segundo sua sabedoria. A realidade que nos parece contingente ou imprevisível não está fora do governo divino.
Isso, entretanto, não transforma o homem em espectador passivo. A providência não é fatalismo.
Deus governa também por meio das ações humanas. Trabalhamos, planejamos, votamos, governamos, argumentamos, advertimos, resistimos à injustiça e procuramos o bem comum. Nossas decisões são reais, nossa responsabilidade é verdadeira e nossas ações produzem consequências. Mas não somos soberanos.
Essa é uma das grandes contribuições da doutrina reformada da providência para a reflexão política: somos responsáveis por aquilo que Deus colocou em nossas mãos, mas não somos senhores do resultado final da história.
O cristão deve agir intensamente sem imaginar que controla soberanamente os acontecimentos. Essa convicção produz uma postura política que Maquiavel não poderia fornecer: responsabilidade sem pretensão de soberania.
A autoridade pertence a Deus
A doutrina cristã da autoridade civil também estabelece um limite que não pode ser ignorado. Calvino, comentando Romanos 13, reconhece a legitimidade da autoridade civil e sua origem divina. O magistrado exerce uma função ordenada por Deus para a manutenção da ordem e do bem da sociedade. Isso, entretanto, não transforma qualquer exercício concreto do poder em algo justo. A autoridade é legítima; seus abusos não são. O governante não é a fonte última de sua autoridade. Ele a recebe. Por isso, sua autoridade é derivada, limitada e responsável.
Esse princípio muda a maneira como pensamos a política. O Estado não pode ocupar o lugar de Deus. O governante não pode ocupar o lugar de Deus. A maioria não pode ocupar o lugar de Deus. Nem mesmo a vontade popular, por mais ampla que seja, constitui o critério absoluto do bem e do mal. Há uma autoridade acima de todas as autoridades.
Essa verdade também impede que transformemos a política em objeto de esperança absoluta. Nenhum governo pode oferecer aquilo que somente Deus pode dar.
O governante não é senhor da história
A personalização excessiva do poder é uma das tentações permanentes da política. Governantes passam. Partidos passam. Projetos políticos passam. Instituições permanecem.
Quando uma sociedade começa a depender excessivamente de uma pessoa, revela a fragilidade de suas instituições. Uma democracia madura deve funcionar não apenas quando é governada por pessoas excepcionais, mas também quando é governada por pessoas comuns, falíveis e limitadas.
Por isso, precisamos distinguir entre liderança forte e poder concentrado. Uma liderança pode ser firme sem ser autoritária. Um governo pode exercer autoridade sem transformar toda a sociedade em extensão de sua própria vontade.
A tradição reformada oferece aqui uma contribuição importante. Historicamente, ela procurou distinguir as esferas de autoridade da Igreja e do magistrado civil, sem conceber essas esferas como mundos absolutamente independentes. Posteriormente, Abraham Kuyper (1837-1920) desenvolveu essa compreensão de modo mais sistemático por meio da doutrina da “soberania das esferas”, ressaltando a responsabilidade própria de instituições como família, Igreja, Estado, educação, ciência e outras organizações sociais. A autoridade do Estado é legítima, mas não ilimitada.
Essa distinção continua necessária. O Estado não deve ocupar todos os espaços da sociedade. Assim como a Igreja não deve assumir funções próprias do Estado, o Estado não deve pretender governar a consciência, absorver a sociedade civil ou transformar-se em árbitro absoluto de todas as dimensões da existência. A sociedade não começa no Estado.
Família, Igreja e sociedade
A família, a Igreja, as associações e outras formas de organização social possuem responsabilidades próprias. O Estado tem uma função indispensável, mas não é a origem de toda autoridade nem a fonte de todos os direitos. A própria Constituição brasileira reconhece a família como base da sociedade e lhe assegura especial proteção. Esse reconhecimento lembra que uma sociedade livre não é formada exclusivamente pelo Estado e pelos indivíduos isolados. Entre ambos existem instituições, comunidades e vínculos sociais que precisam ser preservados.
O poder estatal tem limites precisamente porque a sociedade possui uma estrutura mais ampla que o próprio Estado.
A Constituição também estabelece a separação dos Poderes e submete a administração pública a princípios como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
Esses princípios não são meros detalhes administrativos. São mecanismos que reconhecem uma verdade fundamental: o poder precisa de limites. E isso vale para todos os governos, inclusive para aqueles com os quais simpatizamos.
Adversários não são inimigos
Talvez uma das maiores doenças da política contemporânea seja a transformação do adversário em inimigo. A democracia pressupõe divergência. Pessoas honestas podem discordar acerca dos meios mais adequados para alcançar determinados fins. Podem possuir diagnósticos diferentes sobre economia, educação, segurança, saúde, relações internacionais ou sobre a própria função do Estado.
O problema começa quando a divergência política passa a ser interpretada como uma luta entre o bem absoluto e o mal absoluto. Nesse momento, o adversário deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a ser alguém que precisa ser destruído. A política se transforma em guerra permanente. O cristão deve resistir a essa lógica.
Isso não significa relativizar a verdade nem considerar todas as posições igualmente legítimas. Significa lembrar que nosso adversário político continua sendo nosso próximo.
Podemos combater uma ideia sem odiar a pessoa que a sustenta. Podemos denunciar uma injustiça sem transformar todos os opositores em inimigos absolutos. Podemos defender convicções firmes sem abandonar a caridade.
A doutrina da providência também nos ajuda aqui. Se Deus governa a história, não precisamos carregar sobre nossos ombros o peso de derrotar definitivamente todos aqueles de quem discordamos.
Nossa responsabilidade é testemunhar a verdade, buscar a justiça e agir fielmente. O resultado final pertence a Deus.
Instituições acima das pessoas
Uma sociedade saudável precisa de instituições que sejam mais fortes que seus governantes. É precisamente porque os homens são falíveis que precisamos de leis, controles, responsabilidades, procedimentos e limites ao exercício da autoridade.
Também aqui podemos aprender algo com Maquiavel, desde que não lhe atribuamos categorias que pertencem ao desenvolvimento posterior do pensamento constitucional. Ele percebeu a importância das leis, das instituições e das estruturas políticas para a estabilidade do Estado. Seria, entretanto, anacrônico apresentá-lo como formulador do constitucionalismo liberal moderno ou do atual Estado de Direito.
A lição que podemos extrair é simples e contundente: nenhuma sociedade deve depender da personalidade de seus governantes. Não existe messianismo político. O que se deve defender são ideias, princípios e instituições − não necessariamente as pessoas que, em circunstâncias específicas, acabam por representá-los. Isso também deveria orientar nosso próprio comportamento político.
Há uma pergunta particularmente útil:
Eu continuaria defendendo esta mesma regra se meu adversário estivesse no poder?
Se a resposta for negativa, talvez não estejamos defendendo um princípio, mas apenas uma conveniência. O princípio que só defendemos quando nos favorece não é princípio; é instrumento.
Eficácia não é justiça
Maquiavel nos força a perguntar se determinada ação política funciona. Essa pergunta é legítima. Governos precisam produzir resultados. Políticas públicas precisam enfrentar problemas reais. Recursos precisam ser administrados com responsabilidade.
Mas o cristão não pode parar nessa pergunta. Precisa perguntar também: é justo? É legítimo? É verdadeiro? Respeita a dignidade humana? Promove o bem do próximo? É compatível com os limites da autoridade?
A eficácia é importante, mas não é o critério supremo.
Uma política pode funcionar e ser injusta. Pode ser eficiente e produzir consequências moralmente perversas. Pode conquistar popularidade e violar princípios fundamentais. Pode alcançar resultados admirados por muitos e, ainda assim, ser incompatível com a justiça.
Por isso, a pergunta “funciona?” precisa estar acompanhada de outra: É certo? Essa pergunta nos leva para além de Maquiavel.
Política não é redenção
A política possui importância, mas não possui importância absoluta. Nenhum presidente pode redimir uma nação. Nenhum partido pode estabelecer o Reino de Deus. Nenhuma Constituição pode regenerar o coração humano. Nenhuma política pública pode solucionar a condição espiritual do homem.
Quando colocamos na política uma esperança que somente Deus pode satisfazer, inevitavelmente transformamos governantes em salvadores e adversários em inimigos.
O cristão pode participar intensamente da vida pública sem fazer da política sua religião. Pode votar com convicção sem idolatrar candidatos; defender determinadas propostas sem transformar partidos em objetos de devoção; denunciar injustiças sem imaginar que a solução definitiva esteja nas estruturas políticas.
A política é importante justamente porque o homem é importante e porque a justiça importa. Mas a política não é nossa esperança.
Nossa esperança está em Deus.
Calvino e a responsabilidade de agir
A providência de Deus não é uma desculpa para a omissão. Talvez esse seja um dos pontos em que uma compreensão inadequada da soberania divina pode produzir efeitos perversos. Se Deus governa todas as coisas, alguém poderia concluir que nossas ações são irrelevantes.
Calvino não permite essa conclusão. Deus governa também por meio dos meios que estabeleceu. Ele nos chama a agir dentro das vocações que nos confiou. A providência não elimina os meios; estabelece-os.
Isso aparece de maneira particularmente eloquente na atuação de Calvino em favor dos cristãos perseguidos em Lyon. Quando jovens franceses foram presos e ameaçados de morte, Calvino não permaneceu passivo sob o argumento de que Deus já havia determinado todas as coisas. Ele escreveu aos prisioneiros, procurou fortalecê-los espiritualmente, mobilizou a Igreja e buscou meios concretos para intervir em seu favor. Quando esses esforços não produziram o resultado desejado e o martírio se tornou inevitável, não concluiu que a providência havia falhado.
Aqui vemos a verdadeira relação entre providência e responsabilidade.
Porque Deus governa, agimos. Porque Deus governa, não desesperamos quando nossos esforços não produzem o resultado que desejávamos.
Essa é uma diferença fundamental em relação ao horizonte maquiaveliano.
O político que acredita depender exclusivamente de sua própria capacidade pode ser consumido pelo sucesso e pela derrota. O cristão, porém, trabalha com responsabilidade e descansa na providência.
Ele faz o que lhe compete. E confia o que não lhe compete a Deus.
Uma política sob o senhorio de Cristo
Talvez essa seja a principal contribuição que a fé reformada pode oferecer à reflexão política contemporânea.
O cristão não precisa ser ingênuo diante do poder, mas deve reconhecer seus limites. Não precisa ignorar a realidade dos interesses e conflitos, mas deve submetê-los à justiça. Não precisa desprezar a competência política, mas deve lembrar que competência sem caráter pode produzir grandes males. Não precisa abandonar a política, mas deve recusar sua transformação em religião.
Também não precisa esperar governantes perfeitos. Precisa de instituições responsáveis, autoridades limitadas e cidadãos conscientes de sua própria vocação.
E, sobretudo, precisa lembrar que Cristo é o Senhor.
A política não é um território fora do governo de Deus. O Estado não é uma esfera autônoma diante do Criador. Governantes, magistrados, cidadãos, partidos, instituições e sociedades inteiras permanecem debaixo do senhorio divino.
Isso significa que a participação cristã na vida pública não é uma tentativa de introduzir Deus em uma área da qual ele estaria ausente. É, antes, reconhecer que nenhuma área da existência humana está fora de seu domínio.
Por isso, o cristão pode entrar na política com coragem, mas também com humildade.
Pode trabalhar pela justiça sem acreditar que estabelecerá o paraíso na terra. Pode lutar por boas leis sem imaginar que uma lei poderá transformar o coração humano. Pode defender princípios sem idolatrar partidos.
Pode apoiar governantes sem lhes entregar sua consciência. Pode sofrer derrotas sem perder a esperança. Pode celebrar vitórias sem se embriagar com elas.
E pode exercer autoridade sem esquecer que está debaixo de autoridade.
Maquiavel nos ajuda a perceber que a política não pode ser compreendida a partir de boas intenções apenas. Ele nos lembra da força dos interesses, da ambição, dos conflitos, da instabilidade e das circunstâncias. Devemos ouvi-lo nesse ponto. Mas não precisamos terminar onde ele termina.
A realidade do poder precisa ser reconhecida, mas não absolutizada. A capacidade humana precisa ser exercida, mas não idolatrada. As circunstâncias precisam ser consideradas, mas não temidas como se estivessem fora do governo de Deus. A política precisa ser praticada, mas não transformada em esperança última.
A virtù humana tem seus limites porque o homem não é soberano. A fortuna não é senhora da história porque Deus é providente. O governante não é absoluto porque sua autoridade é derivada. E a política não é nossa redenção porque nossa esperança está em Deus.
Essa é, afinal, a perspectiva a partir da qual devemos olhar para a política de nossos dias. Não como homens que imaginam controlar a história, mas como servos que receberam uma responsabilidade dentro dela.
Agimos porque somos responsáveis.
Perseveramos porque Deus é soberano.
E esperamos porque a história pertence ao Senhor.
Considerações finais
Quando a política se afasta de uma ordem moral objetiva, não perde apenas princípios; perde também a linguagem comum que sustenta o debate público de forma racional.
Se os valores morais são reduzidos a preferências individuais ou a meras convenções sociais, a persuasão cede lugar à propaganda, e o argumento é substituído pela estratégia.
A política deixa de perguntar pelo que é justo e passa a ser guiada pelo que é possível, eficaz ou capaz de conquistar adesão.
O problema não está em reconhecer a importância da eficácia, mas em transformá-la no critério último de legitimidade. A política pode indagar “funciona?”, mas o cristão precisa perguntar também: “é justo?”, “é verdadeiro?”, “é legítimo?”, “está de acordo com os limites da autoridade e com o bem do próximo?”. Sem uma referência moral que transcenda o poder, aquilo que pode ser feito corre o risco de ser confundido com aquilo que deve ser feito.
Essa questão ultrapassa a esfera propriamente política. Uma sociedade que perde referências compartilhadas acerca da verdade, da justiça e do bem também perde critérios para avaliar seu próprio rumo. Nesse contexto, a eficiência pode ocupar o lugar da verdade, e o êxito pode ser confundido com legitimidade. A defesa de uma ordem moral objetiva, portanto, não busca preservar uma subcultura religiosa, mas reconhecer fundamentos intelectuais e morais indispensáveis ao exercício responsável da liberdade, da argumentação e da vida pública.
A questão fundamental, portanto, não é apenas se a política deve ser eficiente, mas a serviço de que verdade, de que justiça e de que concepção de ser humano essa eficiência será colocada. A eficácia pode mostrar que um meio funciona; não pode, por si mesma, dizer que esse meio é justo. Porque nem tudo o que funciona é legítimo, nem tudo o que pode ser feito deve ser feito. A política precisa de eficácia, mas somente a verdade e a justiça que procedem das Escrituras podem lhe dar direção segura.
Maringá, 04 de setembro de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
