Uma fé que investiga e uma ciência que crê (43)


Considerações finais (Continuação)

Talvez o volátil consenso popular possa nos dar uma pista, porém, ele além de manipulável é extremamente fugidio.[1] Estamos, portanto, “perdidos no espaço”, ainda buscando a nossa satisfação. Sem absolutos não sabemos ao certo o sentido da vida, o valor do homem e o seu papel no universo. Sem princípios universais não existem absolutos. Consequentemente, é impossível uma ética consistente. Assim, tudo é possível a partir de meu gosto, preferências ou “razoabilidade” autorreferendada.

Enquanto revisava essas anotações, deparei-me com a oportuna constatação de Henry (1913-2003) que, após contar uma experiência, conclui: “O Ocidente perdeu o rumo da bússola moral e epistêmica. Ele não possui nenhum critério comum para julgar se os seres humanos estão se movendo para cima ou para baixo, se permanecem parados, ou se apenas se movem sabe Deus para onde”.[2]

Deste modo, desprovido de referência e, portanto, sem padrão de verdade, conceito e significado de vida, a felicidade, por exemplo, ficou circunscrita ao conceito de prazer de cada um dentro de sua maneira de ver a realidade,  independentemente de princípios e valores divinos universais. Como escreve Ravi Zacharias, um ex-ateu: “A realidade é que o vazio resultante da perda do transcendente é absoluto e devastador, tanto no sentido filosófico quanto existencial”.[3]

O humanismo renascentista – do qual somos herdeiros – sem dúvida, tomou uma parte importante da realidade, todavia, em geral, esqueceu-se da principal e, o mais trágico de tudo, é que o esquecido é aquele quem dá sentido a tudo o mais. 

O problema da existência é uma questão basicamente metafísica. Aliás, o homem é um ser metafísico. A negação prática dessa realidade acarreta uma percepção errada e tristemente limitante da natureza humana. Por isso, o homem “pós-moderno” dispõe diante de si de todas as saídas possíveis, porém, nenhuma delas conduz ao “fim” necessário. Os seus pressupostos descartam o único caminho real do significado da vida e do ser: O Deus transcendente e pessoal. O Deus que se revela como tal conferindo sentido a todo o real e à nossa existência.

Ao mesmo tempo, o homem, em seu pretenso humanismo autônomo, não consegue encontrar um ponto de integração que confira sentido à realidade, ou seja, à vida e ao seu sentido.[4] Por isso, o sentimento constante de insatisfação e frustração, como descrito por McGrath:

Deixar de relacionar-se com Deus é deixar de ser completamente humano. Ser realizado é ser plenificado por Deus. Nada transitório pode preencher esta necessidade. Nada que não seja o próprio Deus pode esperar tomar o lugar de Deus. Assim mesmo, por causa da decadência da natureza humana, há hoje a tendência natural de se tentar fazer com que outras coisas preencham essa necessidade. O pecado nos afasta de Deus e nos leva a pôr outras coisas em seu lugar. Essas vêm para substituir Deus. Elas, porém, não satisfazem. E, como a criança que experimenta e expressa insatisfação quando o pino quadrado não se encaixa no orifício redondo, passamos a experimentar um sentimento de insatisfação. De alguma forma, permanece em nós a sensação de necessidade de algo indefinível de que a natureza humana nada sabe, só sabe que não o possui.[5]         

A história tem demonstrado o fracasso dessa tentativa e, que mais cedo do que poderiam imaginar os mais pessimistas, esse humanismo que pretendia restaurar o homem à sua dignidade é, na realidade, um anti-humanismo. Na tentativa de matar a Deus, o secularismo matou o homem em sua plenitude – ele passou a ser apenas o resultado de uma evolução casuística – restando apenas um arremedo de nossa real natureza, felizmente ainda preservada em misericórdia pelo Deus vivo, que nos sustenta como sua imagem.

A observação de Teilhard de Chardin (1881-1955), parece-nos oportuna. Em 27 de fevereiro de 1921, numa conferência em Paris, disse: “A Ciência, sozinha, não pode descobrir a Cristo – mas o Cristo sacia os anseios que nascem em nosso coração na escola da Ciência”.[6]

Lendo Monod (1910-1976) – ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, em 1965 – constatamos a melancólica conclusão de seu livro:

Talvez se trate de uma utopia, mas não de um sonho incoerente. É uma ideia que se impõe pela força única de sua coerência lógica. Tal é a conclusão a que a busca da autenticidade leva necessariamente. Rompeu-se a antiga aliança. Enfim, o homem sabe que está sozinho na imensidão indiferente do universo, de onde emergiu por acaso. Não mais do que seu destino, seu dever não está escrito em lugar algum. Cabe-lhe escolher entre o Reino e as trevas.[7]

Maringá, 13 de maio de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “O ápice da sagacidade entre os gentios era que o consenso reinava em lugar da razão” (João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6,São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.2-7), p. 187.

[2] Carl F.H. Henry, O Resgate da Fé Cristã,  Brasília, DF.: Monergismo, 2014, p. 27-28.

[3] Ravi Zacharias, A Morte da Razão: uma resposta aos neoateus, São Paulo: Editora Vida, 2011, p. 13. “Nenhuma filosofia acerca de um mundo sem Deus traz esperança” (p. 14).

[4]“O humanismo, em seu sentido mais amplo, mais inclusivo, é o sistema pelo qual homens e mulheres, partindo absolutamente de si mesmos, procuram racionalmente construir a partir de si mesmos, tendo exclusivamente o homem como ponto de integração para encontrar todo o conhecimento, significado e valor” (Francis A. Schaeffer, O Deus que Intervém, 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 27).

[5]Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 68.

[6]Pierre Teilhard de Chardin, Ciência e Cristo, Petrópolis, RJ.: Vozes, 1974, p. 43. (Para uma abordagem breve, porém, com insights equilibrados e relevantes a respeito das contribuições de Chardin, veja-se: Alister E. McGrath,Fundamentos do Diálogo entre Ciência e Religião, São Paulo: Loyola, 2005, p. 273-277).Não deixa de ser notável a tentativa feita no final do século XX de se conseguir um diálogo produtivo entre a ciência e a filosofia, partindo do pressuposto teológico da existência de Deus. Neste sentido, veja-se: Jean Guitton, Grichka Bogdanov; Igor Bogdanov, Deus e a Ciência, em direção ao metarrealismo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992, 158p. (Para uma abordagem breve, porém, com insights equilibrados e relevantes a respeito das contribuições de Chardin, veja-se: Alister E. McGrath,Fundamentos do Diálogo entre Ciência e Religião, São Paulo: Loyola, 2005, p. 273-277).

[7]Jacques Monod, O acaso e a necessidade, Petrópolis, RJ.: Vozes, 1971, p. 198.

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