Uma fé que investiga e uma ciência que crê (19)

Ateísmo teórico e prático

            O ateísmo do iníquo não é apenas teórico, antes, é eminentemente prático,[1] se manifestando em seu comportamento. Um ateísmo apenas teórico revelaria a consistência de sua inconsistência; em síntese, a sua nulidade como princípio intelectual e teórico. Terminaria apenas em uma abstração. Isso pode até parecer interessante, mas não é. Do mesmo modo, a incredulidade do crente pode revelar também a consistência de sua inconsistente fé. É preciso confiar no Senhor sem vacilar (Sl 26.1).[2] Para isso é necessário guardar a lei de Deus no coração (Sl 37.31).[3]

            Por isso, uma fé apenas teórica é altamente reveladora. No caso do ateu revelaria a fé daquele que diz não crer. No caso do crente, revelaria a incredulidade de sua fé.

            Escrevendo o Salmo 14, Davi, que em última instância descreve a realidade potencial de todo o homem sem Deus, fala de modo mais específico daquele que nega o transcendente, cometendo o grande ato de insensatez: “Diz o insensato (lb’n”) (nabal) no seu coração (ble)(leb): Não há Deus (~yhil{a/) (elohim). Corrompem-se (tx;v’) ((shahat) e praticam abominação (b(;T) (ta’ab)” (Sl 14.1).

O insensato nega a realidade transcendente, não existe Deus nem seres angelicais,[4] o seu mundo é puramente material. Ele solidifica isso em seu coração, não simplesmente, da boca para fora, daí dizer “no seu coração”, a sede de sua emoção, razão e vontade. Ele se alimenta em seu “eu essencial” da negação de Deus.

A ideia do texto é que o ateísmo como não permanece apenas no campo teórico, faz com que nos desviemos totalmente dos preceitos de Deus. Há um extravio, por isso a corrupção intelectual[5] e moral. Limito-me à questão intelectual. O salmista diz que ele se corrompe (tx;v’) ((shahat).[6] A palavra tem também a ideia de ruína (2Cr 34.11; Pv 6.32); destruição (Sl 78.38,45; Is 37.12); danificar (Jr 49.9); poço (Sl 7.16); cova (Sl 9.16), lodo (Jó 9.31).

O insensato na afirmação de que não há Deus, perdendo a dimensão metafísica da existência, se arruína, se destrói intimamente, tem desestruturada toda a sua forma de pensar, perceber a realidade (epistemologia) e, consequentemente, de organizar o seu pensamento (lógica) a partir de fundamentos equivocados. Isto se manifesta inclusive em sua conduta religiosa e ética. Ele escorregou e caiu na cova de seu próprio pensamento. Na vida humana há uma tríade que se relaciona e mutualmente se influencia: A metafísica, a epistemologia e a ética. É impossível dissociá-las de forma coerente.[7]

Daí a prática de abominações que consistem em atos totalmente contrários à Palavra de Deus, tais como a idolatria e o sacrifício humano (1Rs 21.26; Sl 106.40), atos sanguinários e fraudulentos. Deus abomina quem tais coisas praticam:“Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam (b(;T) (ta’ab) a iniquidade (!w<a’) (‘aven) (Sl 5.6).

            Contrariamente àqueles que resistem ao Senhor, temos aqui um convite a que sirvamos ao Senhor em adoração jubilosa, com temor, alegria e tremor. Nos versos 10 e 11 há um ultimato:[8] 10Agora, pois, ó reis, sede prudentes (lk;f’) (sakal);[9] deixai-vos advertir (rs;y”) (yasar) (= instruir, ensinar), juízes da terra. 11Servi (db;[‘) (abad) ao SENHOR com temor e alegrai-vos nele com tremor” (Sl 2.10-11).

Em outras palavras, há uma intimação para que os reis usem sua inteligência,[10] tenham bom senso para analisar a questão de forma genética e prática: todo o poder pertence a Deus, percebam então a loucura de rebelar-se contra Ele.[11] Sejam sensíveis à advertência, ensino e instrução (rs;y”) (yasar) do Senhor, o qual é pródigo em ministrar instrução ao nosso coração (Sl 16.7). Retornem ao Senhor! Este retorno, resultante do aprender de Deus, deve se manifestar em obediência e serviço.

            Há um destaque à majestade soberana de Deus e ao mesmo tempo à alegria de poder participar ativa e voluntariamente do seu reinado. Como é bom poder servir ao Senhor com os nossos talentos. Servir ao Reino deve ser o grande alvo de nossa existência!

            É maravilhoso colocar a nossa inteligência, tempo, recursos e bens a serviço do Senhor. Exultar na condição de servos, não de senhores. Saber que não precisamos de cargos para poder fazer a obra de Deus com integridade. A alegria está no serviço de Deus – até mesmo por meio de cargos e funções -, em sabermos que somos admitidos graciosamente em suas fileiras. Não há nada mais gratificante nesta vida do que sermos alegres servos de Deus.

            O erudito missionário Francisco L. Schalkwijk, escreveu com propriedade:

Que bênção: lavar louça ou fazer continhas, lavrar a terra ou servir como deputado, tudo para a glória de Deus! Foi a Reforma que colocou novamente todas as atividades humanas nesse plano elevado, redescobrindo esse ensino bíblico.[12]

Maringá, 06 de abril de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “O ateísmo pode ser prático ou teórico, ou ambos. O ateu teórico nega a Deus; o ateu prático simplesmente vive como se Deus não existisse” (John Frame, Apologética para a Glória de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 149).

[2]Faze-me justiça, SENHOR, pois tenho andado na minha integridade e confio no SENHOR, sem vacilar” (Sl 26.1).

[3]“No coração, tem ele a lei do seu Deus; os seus passos não vacilarão” (Sl 37.31).

[4]Keil e Delitzsch vão além, entendendo que a negação é da existência de um Deus pessoal (C.F. Keil; F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, Grand Rapids, MI: Eerdmans, (1871), v. 5, (I/III), (Sl 14.1), p. 203-204).

[5]“A insensibilidade para com Deus bem como a insensibilidade moral fecham a mente para a razão” (Louis Goldberg, Nabal: In: R. Laird Harris, et. al., eds., Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 910). Do mesmo modo, Derek Kidner, Provérbios: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1980, p. 40.

[6]Sl 9.16; 35.7; 78.45; 106.23; Sf 3.7.

[7] Veja-se: Vern S. Poythress, Redimindo a filosofia: uma abordagem teocêntrica às grandes questões, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 13-21.

[8] Veja-se: Frans Van Deursen, Los Salmos, Países Bajos: Fundacion Editorial de Literatura Reformada, 1996, v. 1, p. 159.

[9] A palavra se refere “à ação de, com a inteligência, tomar conhecimento das causas. (…) Designa o processo de pensar como uma disposição complexa de pensamentos que resultam numa abordagem sábia e bastante prática do bom senso. Outra consequência é a ênfase no ser bem-sucedido” (Louis Goldberg, Sakal: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1478).

[10] No entanto, o ímpio rejeita a instrução e o discernimento: “As palavras de sua boca são malícia e dolo; abjurou o discernimento (lk;f’) (sakal) e a prática do bem” (Sl 36.3).

[11]“Que espantosa é a loucura daqueles que seguem sendo seus inimigos” (C.H. Spurgeon, El Tesoro de David, Barcelona: Libros CLIE., 1989, v. 1, (Sl 2.10), p. 22).

[12]Francisco L. Schalkwijk, Meditações de um peregrino, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 166. “Quer você esteja fazendo a exegese do Salmo 110, quer esteja examinando as penas de um pica-pau, você deve oferecer a obra a Deus e ver esse esforço intelectual, essa erudição, como parte da adoração” (D.A. Carson: In: John Piper; D.A Carson, O Pastor Mestre e O Mestre Pastor, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 87).

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