Uma fé que investiga e uma ciência que crê (39)


  4.6. O Iluminismo e a moderna ciência moderna

O iluminismo é, de certo modo, um filho tardio dos valores e desejos do humanismo renascentista.[1] As concepções da Filosofia e da Ciência Moderna dentro de um processo de evolução intelectual contribuíram para que surgisse um novo espírito, caracterizado pela autonomia da razão em detrimento da tradição, ou de qualquer outro modelo externo.

A razão, aqui, pretendeu estender os seus limites para todo o ramo do saber, negando-se a reconhecer limites, fora de si mesma. Deste modo, ela num gesto sem-cerimônia, invade os domínios da ética, da epistemologia, da política e da religião,[2] tendo como elemento aferidor de toda a realidade a razão autônoma.[3]

Para isso, o Iluminismo – ainda que não seja um movimento único, por isso, seria melhor falar em iluminismos -, em seus aspectos preponderantes rejeita qualquer ajuda transcendente, ou mesmo da tradição. Ele deseja somente o que pode conseguir com a razão e esforços próprios: os seus recursos são suficientes para entender e explicar o mundo, ou o que quer que seja que se lhe apresente como carente de explicação.[4] “Em linhas gerais, o pensamento iluminista enfatiza a suficiência da razão humana e o ceticismo em relação à validez da autoridade tradicional do passado”, sintetiza Schaeffer.[5]

O Iluminismo, que durou cerca de 150 anos (1650-1800),[6] tem como uma de suas características fundamentais o retorno constante à razão, não mais à revelação. O homem racional é o centro do universo. “A razão substituiu a revelação como árbitro da verdade”, pontua Grenz.[7] O homem é a medida de todas as coisas, e a razão é o seu instrumento de medição. É o cânon da verdade.[8]

O método científico é o agente todo poderoso da razão, suficientemente, capaz de definir o que é o que não é.[9] Assim, há uma supervalorização de sua importância e abrangência, ignorando, seus proponentes, a sua limitação.[10] Desta forma, não há realidade intrínseca, toda a verdade é relativa, sendo credenciada pela onipotente razão.

Desta forma, ela é quem legitima o que quer que seja que tenha pretensão à existência. Reivindicar existência, ou relevância, pela sua própria condição de ser, seria o mesmo que negar a autonomia da razão, elegendo outro padrão epistemológico paralelo e marginal. Isto seria uma heteronomia. Tudo, menos isto: a autonomia intelectual deve permanecer! As coisas são o que são porque eu digo que são. Dentro desta perspectiva a História pode ser lida como um conjunto de erros acumulados pelo não uso adequado da razão. A razão deve se enriquecer com a experiência que visa valer-se de sua maturidade para transformar o real.

            “O século XVIII, o século do Iluminismo, conserva intacta a confiança na razão e é caracterizado pela decisão de se servir dela livremente”, acentua Abbagnano (1901-1990).[11] A razão não se opõe à experiência uma vez que é ela que organiza esta, conforme a concepção kantiana.

            Esse movimento originou-se na Inglaterra, expandindo-se pela França e Alemanha. E ali fora, então, apelidado de Aufklärung (Desvelamento, esclarecimento, Iluminismo, aclaramento), justamente devido à sua pretensão de iluminar o obscurantismo da tradição.[12]

            Mondin (1926-2015) caracteriza bem o Iluminismo:

O Iluminismo, mais do que um sistema filosófico, é um movimento espiritual, típico do século XVIII e caracterizado por uma ilimitada confiança na razão humana, considerada capaz de dissipar névoas do ignoto e do mistério, que obstruem e obscurecem o espírito humano, de tornar os homens melhores e felizes, iluminando-os e instruindo-os. O Iluminismo é, em essência, um antropocentrismo, um ato de fé apaixonado na natureza humana, considerada com seus caracteres universais e comuns a todos os homens, e não na natureza individual e original de cada um. Os olhares são dirigidos para o futuro; é um novo evangelho, uma nova era na qual o homem, vivendo em conformidade com a natureza, será perfeitamente feliz.[13](grifos meus).

            Bengt Hägglund (1920-2015) resume o otimismo iluminista dizendo que ele “caracterizou-se por uma fé ingênua no homem e em suas potencialidades”.[14]

O fato é que o Iluminismo foi um sonho que fracassou em suas pretensões, demonstrando isso em suas fragmentações e contradições.[15]

Maringá, 7 de maio de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]“O sonho utópico do Iluminismo pode ser resumido em cinco palavras: razão, natureza, felicidade, progresso e liberdade. Seu modo de pensar era totalmente secular. Os princípios humanistas que surgiram durante a Renascença tornaram-se uma onda avassaladora no Iluminismo. Aqui estava o homem partindo absolutamente de si mesmo. E, se os princípios humanistas da Renascença forem comparados aos princípios da Reforma, o Iluminismo acabará se revelando como antítese total desta. As duas correntes representavam e estavam assentadas sobre bases total e absolutamente divergentes entre si de uma maneira absoluta, gerando resultados absolutamente diferentes” (Francis A. Schaeffer, Como Viveremos?, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 76).

[2]Mackintosh diz que o Iluminismo, “…. deixou sua marca profunda não só na religião, senão também na ciência, na filosofia e na filantropia….” (Hugh R. Mackintosh, Corrientes Teológicas Contemporáneas, Buenos Aires: Methopress Editorial y Gráfica, 1964, p. 23).

[3]Para uma interpretação da “autonomia” da razão iluminista, Vejam-se: Paul Tillich, Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX,São Paulo: ASTE, 1986,p. 48ss; Paul Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE., 1988, p. 262-263.

[4] Veja-se: E. Cassirer, A Filosofia do Iluminismo, Campinas, SP.: Editora da UNICAMP., 1992, p. 191.

[5]Francis A. Schaeffer, O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo:Cultura Cristã, 2010, p. 260.

[6] Vejam-se: Stanley J. Grenz, Pós-Modernismo: Um guia para entender a filosofia do nosso tempo, São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 97;  John M. Frame, A History of Western Philosophy and Theology, Phillipsburg, New Jersey: P&R Publishing, 2015, p. 207,215. McGrath o coloca entre 1720 e 1780 (Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: Uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 125; Alister E. McGrath, Teologia Histórica, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 239.

[7] S.J. Grenz, Pós-Modernismo: Um guia para entender a filosofia do nosso tempo, p. 106-107.

[8] Na Antiguidade, Aristóteles (384-322 a.C.), comentando a agudez do “homem bom” em discernir a verdade, disse ser o homem a norma (Kanw/n) e a medida (M//e/tron) da verdade. (Aristóteles, Ética a Nicômaco, III.4. 1113a 33). Protágoras (c. 480-410 a.C.), o filósofo sofista, já havia empregado o conceito de “medida”, aplicando-o ao homem, dizendo ser este, “a medida de todas as coisas” (Cf. Platão, Teeteto, 152a; Aristóteles, Metafísica, XI.6.1 062. Veja-se também: Platão, Eutidemo, 286). Platão diferentemente de Protágoras, entendia que a medida de todas as coisas estava em Deus. “Aos nossos olhos a divindade será ‘a medida de todas as coisas’ no mais alto grau” (Platão, As Leis, Bauru, SP.: EDIPRO, 1999, IV, 716c. p. 189).

[9] “Este método baseia-se na suposição de que nada pode ser realmente conhecido a não ser que o seja cientificamente, o que está longe de ser uma proposição evidente” (Étienne Gilson, Deus e a Filosofia, Lisboa: Edições 70, (2003), p. 86).

[10] “Embora o método científico tenha provado ser extremamente bem-sucedido em revelar o funcionamento do universo, ele tem suas limitações e não pode ser o único caminho para a descoberta de todo conhecimento” (Michael G. Strauss, Método Científico. In: Paul Copan, et al., ed. Dicionário de Cristianismo e Ciência,  Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018 (Edição do Kindle), posição 21716 de 34343).

[11]Nicola Abbagnano, História da Filosofia, 3. ed. Lisboa: Presença, (1982), v. 7, § 476, p. 131.

[12]Cf. U. Padovani, História da Filosofia, 13. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1981, p. 337; U. Padovani, Filosofia da Religião, São Paulo: Melhoramentos; EDUSP., 1968, p. 109 e Michele F. Sciacca, História da Filosofia, 3. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1968, v. 2, p. 149. Aliás, este foi o grande objetivo de Christian Wolff (1679-1723) em sua filosofia: “Iluminar o espírito humano de modo a tornar possível ao homem o seu uso da atividade intelectual na qual consiste a sua felicidade. (…) Tal objetivo não poderá ser atingido se não existir a ‘liberdade filosófica’ que consiste na possibilidade de manifestar publicamente o que se pensa sobre as questões filosóficas” (Cf. Nicola Abbagnano, História da Filosofia, 4. ed. Lisboa: Presença, 1994, v. 8, § 504, p. 20-21). Este ideal estaria bem próximo do que Kant chamaria posteriormente de “autonomia da razão”.

[13]Battista Mondin, Curso de Filosofia, São Paulo: Paulinas, 1981, v. 2, p. 153.

[14]B. Hägglund, História da Teologia, Porto Alegre, RS.: Concórdia, 1973, p. 293.  “O iluminismo tinha uma visão totalmente otimista da natureza humana: somos pessoas boas que fazem coisas boas” (Alister E. McGrath, Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e o sentido das coisas, São Paulo: Hagnos, 2015, p. 131).

[15] Veja-se: Alister E. McGrath, Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e o sentido das coisas, São Paulo: Hagnos, 2015, p. 165-166.

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