Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (34)

            A morte de Cristo que parecia uma vitória de satanás sobre o Reinado do Senhor, não o foi, antes, constituiu-se na realização do propósito de Deus.[1] A ressurreição de Cristo é o coroamento desta vitória.

            Paulo pregando em Antioquia demonstra esta realidade citando inclusive o Salmo 2:

32 Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita a nossos pais, 33 como Deus a cumpriu plenamente a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus, como também está escrito no Salmo segundo: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. 34 E, que Deus o ressuscitou dentre os mortos para que jamais voltasse à corrupção, desta maneira o disse: E cumprirei a vosso favor as santas e fiéis promessas feitas a Davi. 35 Por isso, também diz em outro Salmo: Não permitirás que o teu Santo veja corrupção. 36 Porque, na verdade, tendo Davi servido à sua própria geração, conforme o desígnio de Deus, adormeceu, foi para junto de seus pais e viu corrupção. 37 Porém aquele a quem Deus ressuscitou não viu corrupção. (At 13.32-37).

            Da mesma forma escreve aos Romanos: “E foi designado (o(ri/zw) (determinado, constituído, destinado)[2] Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1.4).

O Rei eterno na ressurreição de Cristo valida o seu ministério.[3] “A ressurreição é a inversão divina da sentença que o mundo impôs a Jesus”.[4] Nela temos a manifestação pública de sua filiação divina e da aprovação de seu ministério.[5] Na ressurreição a sua glória se tornou publicamente manifesta. “A ressurreição é o ponto que marca o começo de uma nova época na existência do Filho de Deus. Sendo antes Filho de Deus em debilidade e humilhação, pela ressurreição torna-se o Filho de Deus em poder”, rejubila-se Nygren (1890-1978).[6]

            O Pai glorificou o Filho na ressurreição: “Assim, também Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Hb 5.5).

            A ressurreição de Cristo é o coroamento do seu Ministério terreno. Ela é repleta de significado para o Ministério de Cristo e, consequentemente para a vida da Igreja, que é o seu Corpo.

            Sem a ressurreição, a obra de Cristo seria nula, a Igreja não existiria, não haveria salvação, estaríamos todos perdidos para sempre! “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos”(1Co 15.20), é o brado de Paulo.

            A Igreja cristã se firmou amparada na certeza da ressurreição de Cristo, o Messias.[7] Daí que a sua pregação se constituiu no elemento central de toda pregação. Esta é a fé da Igreja;[8] é nossa certeza. Calvino está ao correto ao dizer: “Sem a ressurreição não podemos consolar-nos de nenhuma maneira; todos os argumentos possíveis serão insuficientes para alegrar-nos”.[9]

            No Novo Testamento após a cura operada por Pedro e João em um homem coxo de nascença com mais de quarenta anos (At 3.1-10,22), sendo esses ameaçados e proibidos de falar do nome de Cristo, quando se reúnem para compartilhar os fatos com os demais discípulos, registra Lucas:

23 Uma vez soltos, procuraram os irmãos e lhes contaram quantas coisas lhes haviam dito os principais sacerdotes e os anciãos. 24 Ouvindo isto, unânimes, levantaram a voz a Deus e disseram: Tu, Soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há; 25 que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? 26 Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido; 27 porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, 28 para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram; 29 agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra. (At 4.23-29). (Destaques meus).

            Aqui vemos claramente a consciência dos discípulos de que o Salmo de Davi se cumpria e, ao mesmo tempo, Deus continuava como Senhor de todas as coisas, operando, inclusive por intermédio de seus inimigos.

Maringá, 28 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “A morte do Senhor Jesus Cristo na cruz do Calvário não foi um acidente; foi obra de Deus. Foi Deus quem o ‘manifestou’ ali” (David M. Lloyd-Jones, A cruz: A justificação de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1980, p. 3).

[2]*Lc 22.22; At 2.23; 10.42; 11.29; 17.26,31; Rm 1.4; Hb 4.7.

[3]Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 25.

[4]Herman Bavinck, Teologia Sistemática,Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 405.

[5] Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 2.7), p. 68-69. “Gerar [Sl 2.7], aqui, tem referência àquilo que foi feito conhecido. (…) Cristo foi declarado Filho de Deus pelo exercício público de um poder verdadeiramente celestial, ou, seja, o poder do Espírito, quando Ele ressuscitou dos mortos” (João Calvino, Romanos, 2. ed., São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 1.4), p. 39,40).

[6]Anders Nygren, Commentary on Romans, 5. ed. Philadelphia: Fortress Press, 1980, p. 51. “Por meio de sua gloriosa ressurreição, sua investidura com poder não só foi realçada, mas também começou a resplandecer em toda sua glória” (William Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 1.4), p. 58-59).

[7] “A pregação da Igreja primitiva estava essencialmente baseada na ressurreição. A princípio, a doutrina da ressurreição de Jesus foi o ensinamento central do Cristianismo” (Alan Richardson, Así se hicieron los Credos: Una breve introducción a la historia de la Doctrina Cristiana, Barcelona: Editorial CLIE, 1999, p. 24).

[8]“A Cristandade descansa na certeza da ressurreição de Jesus como uma ocorrência no espaço-tempo da história” (J.I. Packer, Teologia Concisa, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1999, p. 119).

[9]Juan Calvino, Se Deus fuera nuestro Adversario: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 6), p. 85. “Declaramos positivamente que ninguém tem feito nenhum progresso na escola de Cristo, a menos que espere rejubilante o dia de sua morte e ressurreição final” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 66).

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