Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (13)

B. Incomparável e insondável

Saucy, esclarecendo por que não podemos apresentar uma “definição rigorosa da ideia de Deus”, lança luz sobre o conceito de definição: “Definir, que significa limitar, envolve a inclusão do objeto dentro de certa classe ou proposição universal conhecida e a indicação dos seus aspectos distintivos comparados com outros objetos daquela mesma classe”.[1]

De fato, Deus não pode ser definido nem comparado. As comparações bíblicas são formas humanas concedidas pelo próprio Deus Criador, a fim de que possamos ter um conhecimento adequado de sua natureza. As nossas analogias podem se tornar extremamente perigosas porque não fatíveis de erros, distorções e esvaziamento da plenitude do revelado. Parece-me um bom princípio limitarmo-nos às figuras bíblicas e, dentro do seu propósito estrito. Fora disso, é caminhar por um caminho muito escorregadio e arriscado.

Deus se acomoda à nossa linguagem

            Calvino (15090-1564) corretamente entende que a revelação de Deus é um ato de condescendência.[2] Deus, na sua Palavra, “se acomodava à nossa capacidade”,[3] “balbuciando” a sua Palavra a nós como as amas fazem com as crianças.[4] Deus se vale de analogias, recorrendo a metáforas – comparando-se a um leão, ao urso e ao homem – visando ser entendido por nós. “Deus não pode se revelar a nós de nenhuma outra maneira do que não por meio de comparações com coisas que conhecemos”, insiste Calvino.[5]  Em outro lugar: “Deus, acomoda-se ao nosso modo ordinário de falar por causa de nossa ignorância, às vezes também, se me é permitida a expressão, gagueja”.[6]   

            Por isso, insistimos, torna-se  perigoso estabelecer analogias estranhas à Palavra para falar de Deus. É prudente ater-nos às figuras que o próprio Senhor usou em sua Palavra.

            A Escritura reconhece que Deus não tem comparação nem pode ser sondado. Ele é incomparável e insondável.

            Não há com que ou com quem comparar Deus. Ele está muito além de nossas referências. A sua grandeza é inexaminável e indecifrável. Não temos parâmetros para decifrá-la ainda que de forma aproximada. Assim se expressaram os salmistas:

Grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado; a sua grandeza (hL’WdG>) (gedullah) é insondável (rq,xe !yIa;) (ayin cheqer). (Sl 145.3).

Ó SENHOR, Deus dos Exércitos, quem é poderoso como tu és, SENHOR, com a tua fidelidade ao redor de ti?! (Sl 89.8).

Com efeito, eu sei que o SENHOR é grande e que o nosso Deus está acima de todos os deuses. (Sl 135.5).

Todos os meus ossos dirão: SENHOR, quem contigo se assemelha? (Sl 35.10).

Ora, a tua justiça, ó Deus, se eleva até aos céus. Grandes coisas tens feito, ó Deus; quem é semelhante a ti?” (Sl 71.19).

Tentação de esquadrinhar Deus

            Considerando o que disse Salomão – “A glória de Deus é encobrir as coisas, mas a glória dos reis é esquadrinhá-las (rq;x’) (chaqar) (= sondar, investigar, pesquisar) (Pv 25.2) -, devemos nos precaver de  uma tentação na qual podemos incorrer, especular sobre o ser de Deus e seus atos, perdendo a dimensão de que o nosso conhecimento é de servo, limitado e fraccionado, dependendo essencialmente da revelação (Is 40.28).[7]

Desejo de anunciar os feitos de Deus

            Ao contrário dessa tentação, o salmista oferece-nos um caminho a seguir: anunciar os feitos de Deus ainda que não tenhamos, naturalmente, a compreensão de todos eles:

São muitas, SENHOR, Deus meu, as maravilhas que tens operado e também os teus desígnios para conosco; ninguém há que se possa igualar contigo. Eu quisera anunciá-los e deles falar, mas são mais do que se pode contar. (Sl 40.5).

Tu me tens ensinado, ó Deus, desde a minha mocidade; e até agora tenho anunciado as tuas maravilhas (al’P’) (pala). (Sl 71.17).

Recife/São Paulo, 8/9 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] R.L. Saucy, Doutrina de Deus: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã,São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, p. 440.

[2]Cf. Alister E. McGrath, Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1998, p. 210. A Confissão de Westminster fala também da “condescendência” de Deus em firmar um Pacto com o homem caído (Ver: Confissão de Westminster, VII.1). Trato mais detalhadamente desse assunto em meu livro: João Calvino 500 anos, São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

[3]J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios,(1Co 2.7), p. 82. 

[4] “Pois quem, mesmo que de bem parco entendimento, não percebe que Deus assim conosco fala como que a balbuciar, como as amas costumam fazer com as crianças? Por isso, formas de expressão que tais não exprimem, de maneira clara e precisa, tanto quê Deus seja, quanto Lhe acomodam o conhecimento à paucidade da compreensão nossa. Para que assim se dê, necessário Lhe é descer muito abaixo de Sua excelsitude” (J. Calvino, As Institutas, I.13.1). “A descrição que dEle se nos outorga tem de acomodar-se-nos à capacidade, para que seja de nós entendida. Esta é, na verdade, a forma de acomodar-se: que tal se nos represente, não qual é em Si, porém, qual é possível de ser de nós apreendido” (J. Calvino, AsInstitutas, I.17.13). Ver também: João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 13.3), p. 265; (Sl 19.4-6), p. 420-421;  v. 2, (Sl 50.14), p. 409; v. 3, (Sl 78.65), p. 241; (Sl 91.4), p. 447; (Sl 93.2), p. 474; (Sl 106.23), p. 685; João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.1), p. 30;  (Jo 3.12), p. 127; v. 2, (Jo 14.28), p. 111; (Jo 21.25), p. 327; As Institutas,I.14.3,11; I.16.9; IV.17.11

[5] John Calvin, “Commentary on the Book of the Prophet Isaiah,” John Calvin Collection,(CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), (Is 40.18), p. 64.

[6] John Calvin, Commentary on the Gospel according to John,Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (Calvin’s Commentaries, v. 18), 1996 (Reprinted), (Jo 21.25), p. 299.

[7]“Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar (rq;x’) (chaqar) o seu entendimento” (Is 40.28).

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