Pular para o conteúdo
Hermisten Maia

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (64)

Rev. Hermisten Maia11 min de leitura

11.6. Amor a Deus

“O conceito de predestinação pressupõe a eleição, e esta, o amor (…). Por onde, todos os predestinados são eleitos e amados”, conclui Tomás de Aquino (1225-1274).1

A eleição revela a graça amorosa e misericordiosa de Deus. Todos merecíamos ser condenados. Mas Deus, sendo rico em misericórdia nos salvou. Há uma conexão entre eternidade e tempo, causa e efeito: O amor de Deus antecede ao nosso e nos capacita a respondê-Lo com fé e amor.2 Conforme resume João: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19/1Jo 4.9,10; Rm 5.8-10).

Kuiper (1886-1966) é contundente ao dizer que:

Como o amor de Deus é infinito, desprezar esse amor é pecado de proporções infinitas. No entanto, é o que fazem aqueles que, por sua descrença, rejeitam o Filho de Deus, dom do Seu amor (…). Rejeitar este amor é incorrer no banimento eterno da presença de Deus. Responder com fé e amor é herdar a vida eterna. Nada pode ser mais urgente do que a escolha de uma destas atitudes.3

O nosso amor a Deus revela-se em nossa obediência aos Seus preceitos, conforme nos ensina o Senhor Jesus:

21 Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele. (…) 23 Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada. (Jo 14.21,23).

11.7. Firme esperança em Cristo

A predestinação, conforme Calvino a entendia, não é nem uma torre de igreja de onde se vê a paisagem humana, nem um travesseiro para dormir. Antes, é uma fortaleza em momentos de tentação e provação, e uma confissão de louvor à graça de Deus e à Sua glória. – Timothy George.4

Como vimos, Paulo dá graças a Deus pela vida dos tessalonicenses, reconhecendo, entre outras virtudes, a esperança perseverante que a igreja depositara em Deus: “Recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança (ὑπομονῆς τῆς ἐλπίδος)” (1Ts 1.3).

Recordemos um pouco a história. A Igreja de Tessalônica foi fundada por Paulo e Silas durante a Segunda Viagem Missionária (At 17.1-10). Pregou durante 3 semanas na Sinagoga. Possivelmente permaneceu ali mais tempo. Alguns judeus foram convertidos, assim como muitos gregos e mulheres distintas (nobres) (At 17.2-4). Outros judeus, no entanto, movidos de inveja, subornaram homens da malandragem (ἀγοραῖος = “vagabundo”, “desordeiro”, “homens de mercado”) (At 17.5)5 e juntos alvoroçaram a cidade, movendo uma perseguição contra Paulo e Silas, invadindo inclusive a casa de um certo Jasom que os havia hospedado.

A palavra, ou mais propriamente, o grito desses homens que conclamava o povo à perseguição era: “Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui” (At 17.6).

A acusação que causou um reboliço no povo e nas autoridades era: “Todos estes procedem contra o decreto de César, afirmando ser Jesus outro rei” (At 17.7).

Jasom e outros irmãos foram presos e posteriormente libertos após pagarem a fiança estipulada (At 17.9); fiança, que pode ter sido apenas um compromisso de não mais hospedar tais homens e promover a sua partida da cidade.

À noite, irmãos cuidadosos promoveram a saída de Paulo e Silas de Tessalônica, indo então para Beréia (80 km), onde continuaram o seu trabalho (At 17.10).

Notemos que a afirmação de que*“Estes que têm transtornado* (ἀναστατόω = “sublevar”, “incitar”, “revolucionar”)6 o mundo chegaram também aqui” (At 17.6), ou mais literalmente: “estes que têm causado problemas em todo lugar”, indica por um lado, que a fama de seu trabalho era evidente, causando grande transformação; por outro lado, revela também, que a sua mensagem era olhada com desconfiança, especialmente por parte dos judeus.

Aqui aprendemos, de passagem, quão revolucionário é o Evangelho. Ele afeta a nossa mente e coração, transformando a nossa maneira de ver, sentir e agir no mundo, apresentando-nos um novo senso de valores, o qual é regido pela Palavra de Deus.7 “Quando o cristianismo entra em ação realmente deve causar uma revolução tanto na vida do indivíduo como na da sociedade”.8

Pouco mais de 1 ano depois destes episódios, Paulo escreveu a primeira epístola aos tessalonicenses, dando graças a Deus porque a igreja continuava firme no Senhor e o vigor da sua fé estava sendo divulgado na Macedônia e Acaia, repercutindo assim, a Palavra de Deus (1Ts 1.7-10).

Com a saída de Paulo, a Igreja continuou sendo afligida. A perseguição fora tão intensa que Paulo, quando partiu para Beréia e depois para Atenas, pediu a Timóteo que ficara com Silas em Beréia, que fosse à Tessalônica verificar como os irmãos estavam resistindo a esta situação, bem como para confirmá-los e exortá-los. Paulo só teve alívio quando Timóteo regressou, acompanhado de Silas, encontrando-se com ele em Corinto, relatando a firmeza da Igreja (At 17.15,16/1Ts 3.1-7/At 18.5/1Ts 1.3).

Posteriormente, na sua segunda epístola, Paulo mais uma vez agradece a Deus pela perseverança dos tessalonicenses

Irmãos, cumpre-nos dar sempre graças (Εὐχαριστέω)9 a Deus no tocante a vós outros, como é justo, pois a vossa fé cresce sobremaneira (ὑπεραυξάνω),10 e o vosso mútuo amor de uns para com os outros vai aumentando, a tal ponto que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus, à vista da vossa constância (u(πομονή) e fé, em todas as vossas perseguições (διωγμός) 11 e nas tribulações (θλίψις) que suportais. (2Ts 1.3,4).

Na primeira epístola, Paulo recordara diante de Deus a firme esperança daquela jovem e sofrida igreja: “Recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da (…) firmeza da vossa esperança (ὑπομονῆς τῆς ἐλπίδος)” (1Ts 1.3).

O substantivo ὑπομονή (perseverança) e o verbo ὑπομένω (perseverar), têm o sentido de persistir, permanecer, firmeza, constância, paciência, resistência.12 Os termos descrevem não simplesmente uma atitude passiva de deixar os fatos acontecerem, mas, sim, um comportamento ativo que enfrenta as dificuldades, tendo uma perspectiva que ultrapassa a simples visão adversa do momento; é, portanto, uma perseverança viril na prova: aceita os embates da vida, porém, ao aceitá-los, transforma-os em novas conquistas. A palavra quer dizer uma resistência persistente, a despeito das circunstâncias difíceis. Uma fé que se fortalece ainda mais no meio das adversidades.13

Esta paciência é uma perseverança corajosa, que encara os desafios de sua fé e permanece fiel ao seu Senhor; ela é uma qualidade espiritual, o produto de um andar submisso e guiado pelo Espírito. Por isso ela pode ser descrita como “a graça para suportar”. Esta resistência se alicerça sobre a fé. A fé consiste na entrega da alma a Cristo, confiando inteiramente nos Seus cuidados. Tal consagração confere ao crente a disposição e o poder de suportar dificuldades provenientes de sua lealdade irrestrita a Cristo. A nossa fé, portanto, se evidencia em nossa paciência em suportar as adversidades. E assim, a vida cristã vai sendo lapidada, aprimorada em seus contornos por meio das dificuldades comuns a todos aqueles que querem permanecer fiéis ao Senhor: “A tribulação produz perseverança” (ὑπομονή) (Rm 5.3); é a fé provada que produz a “constância” (Tg 1.3).

A nossa esperança em Cristo não é uma utopia, ilusão humana, forjada pela nossa imaginação, um mero mecanismo racional para nos dar tranquilidade emocional e espiritual. A esperança que temos emana de Deus e está depositada nas Suas promessas. Nós esperamos firmemente a concretização daquilo que para nós é certo, porque foi prometido por Deus; a Palavra de Deus é sempre a palavra final para nós e dela procedem a nossa fé e esperança (Rm 10.17; 15.4).

Venema pontua:

A principal observação anunciada na revelação de Deus referente ao futuro é a da esperança. O povo de Deus espera, ansioso, o retorno de Cristo porque ele promete a conclusão da obra redentora de Deus para eles e para toda a criação. A abordagem cristã para o futuro é sempre a da esperança nutrida pela Palavra. O futuro é nítido porque está cheio de promessas; promessas estas da Palavra de Deus.14

No meio das tribulações, das angústias e das incompreensões, podemos sempre esperar em Deus, certos da Sua ação providente e poderosa. Quando depositamos a nossa esperança no Deus da Palavra, não temos com que nos preocupar; a nossa esperança nunca será frustrada, porque Deus é fiel; Ele sempre cumpre a Sua Palavra. “O único meio pelo qual, em nossa aflição, podemos obter a vitória é pela esperança que resplandece sobre nós, em meio às trevas, e pela influência mantenedora que desponta de nossa expectativa do favor divino”, escreveu Calvino.15

Esperar em Deus, portanto, envolve o exercício de nossa fé, fazendo-a amadurecer e se fortalecer cada vez mais. No Antigo Testamento, vemos que diante de uma iminente invasão Assíria, Isaías desafia o povo de Israel a confiar em Deus e não nos recursos dos egípcios. Ele declara: “… Os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” (Is 40.31).

O escritor de Hebreus diz: “Com efeito, tendes necessidade de perseverança (ὑπομονή), para que havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa” (Hb 10.36).

A promessa de Deus sempre se cumpre; nós é que precisamos perseverar nela. Esta é a vontade de Deus, que permaneçamos firmes na Sua Palavra. “A herança da vida eterna já nos está garantida, visto, porém, que esta vida se assemelha a uma pista de corrida, temos que nos esforçar por alcançar a meta final”, consola-nos Calvino.16

A recomendação do escritor de Hebreus é: “Guardemos firme (κατέχω17) a confissão da esperança (ἐλπίς), sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel” (Hb 10.23). Outra vez: “Com efeito, tendes necessidade de perseverança (ὑπομονή), para que havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa” (Hb 10.36).

Paulo reconhece a eleição dos crentes de Tessalônica devido às manifestações concretas de fé, amor e esperança em Cristo Jesus (1Ts 1.3-4). A perseverança é uma das evidências de nossa filiação divina; ou seja: de nossa eleição eterna.18

Teresina, 29 de maio de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

*Leia esta série completa aqui.


Footnotes

  1. S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2. ed. Porto Alegre; Caxias do Sul, RS.: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes; Livraria Sulina Editora; Universidade de Caxias do Sul, 1980, v. 1, I.23.4. p. 235. ↩

  2. Veja-se: William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, (Jo 3.16), p. 191. ↩

  3. R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 72. ↩

  4. Timothy George, A Teologia dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 233. ↩

  5. a)gorai=oj = “vagabundo”, “desordeiro”, “homens de mercado”. ↩

  6. * At 17.6; 21.38; Gl 5.12. ↩

  7. “A experiência cristã que acontece apenas no coração, e que não renovou nossa mente, é inadequada e, de acordo com Jesus, profundamente falha. Falta-lhe o arrependimento e seu amor é incompleto” (Oliver Barclay, Mente Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 16). ↩

  8. William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, (Hechos de los Apostoles), Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 7, p. 138. ↩

  9. Vejam-se: 1Ts 1.2; 2Ts 2.13. ↩

  10. Esta palavra, que só ocorre neste texto, é muito forte, significando aumentar muitíssimo, aumentar extraordinariamente, extremamente, crescer maravilhosamente, crescer e abundar. Paulo está dizendo que a fé daqueles irmãos crescia de um modo extraordinário, mesmo sob a pressão das perseguições (1Ts 3.4-5). ↩

  11. O substantivo “perseguição” (Διωγμός = “caça”, “pôr em fuga”) dá a entender a figura simbólica de um animal caçado, de uma presa perseguida, de um tormento incansável e sem misericórdia. Esta palavra denota mais especificamente as perseguições promovidas pelos inimigos do Evangelho; ela se refere sempre à perseguição por motivos religiosos (Vejam-se: Mc 4.17; At 8.1; 13.50; Rm 8.35; 2Tm 3.11). Conforme já mencionamos, o verbo Diw/kw é utilizado sistematicamente para aqueles que perseguiam a Jesus, os discípulos e a Igreja (Mt 5.10-12; Lc 21.12; Jo 5.16; 15.20). Lucas emprega este mesmo verbo para descrever a perseguição que Paulo efetuou contra a Igreja (At 22.4; 26.11; 1Co 15.9; Gl 1.13,23; Fp 3.6), sendo também a palavra usada por Jesus Cristo quando pergunta a Saulo do porquê de sua perseguição (At 9.4-5/At 22.7-8/At 26.14-15). ↩

  12. Ὑπομένω (ὑπό = “sob” & me/nw = “permanecer, ficar, esperar, aguardar”), tem o sentido de “permanecer debaixo de”; “manter-se firme debaixo de”. (Para um estudo mais detalhado desta palavra, veja-se: Hermisten M.P. Costa, O Pai Nosso, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001). ↩

  13. William Barclay (1907-1978) assim comentou o sentido da palavra: “Não é paciência que pode sentar-se e curvar a sua cabeça deixando as coisas descerem contra ela e aguentar passivamente a tempestade passar. Não é meramente ‘passar por’ algumas coisas. É o espírito que pode suportar as coisas, não simplesmente com resignação, mas com a esperança fulgurante; não é o espírito que fica sentado num só lugar, esperando estaticamente, mas, sim, o espírito que suporta as coisas porque sabe que estas coisas o estão levando para um alvo de glória; não é a paciência que aguarda inflexivelmente o fim, mas a paciência que espera radiantemente a aurora” (William Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 101). ↩

  14. Cornelius P. Venema, A Promessa do futuro, São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 28. ↩

  15. João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 69.13), p. 26. ↩

  16. João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 10.36), p. 290. ↩

  17. Tem o sentido de reter (Lc 4.42, 2Ts 2.6-7); conservar (Fm 13). ↩

  18. Cf. S. Agostinho, A Graça (II), p. 105-111. ↩