O Subjetivismo Ético e a Política: Um Chamado Pastoral à Verdade Bíblica
Nunca se pode ter moral verdadeira sem absolutos. Nós podemos chamá-la de moral, mas sempre termina com ‘eu gosto’, ou contrato social, nenhum dos quais é a moral. (…) E não tendo nenhum absoluto, o homem moderno não tem categorias. Não se podem ter respostas verdadeiras sem categorias, e estes homens não podem ter outras categorias, além das pragmáticas e tecnológicas. − Francis A. Schaeffer (1912-1984).[1]
Sem a lei absoluta, todas as coisas são relativas e equivalentes, igualmente importantes e ao mesmo tempo sem sentido. (Rousas J. Rushdoony (1916-2001).[2]
A cultura pós-cristã do Ocidente lança dúvidas a respeito da existência de qualquer absoluto moral. − J.I. Packer (1926-2020).[3]
Introdução
O subjetivismo ético, ainda que sistematizado apenas na modernidade (século XIX), já se insinuava na antiguidade como a crença de que o bem e o mal são determinados pelo indivíduo segundo seus desejos e interesses.[4]
Aplicado à vida política, esse posicionamento produz distorções severas: relativiza a justiça, manipula a verdade e converte o poder em instrumento de conveniência pessoal.
A Escritura, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, denuncia essa prática como perversão da justiça e corrupção da verdade, oferecendo uma crítica que permanece atual.
Para o subjetivismo, a validade da verdade está limitada ao sujeito que conhece e julga. Assim, não existe uma realidade comum a todos os seres humanos. Toda certeza é pessoal, visto que toda verdade é subjetiva. O certo e o errado não estão associados às coisas em si, mas à forma como lidamos subjetivamente com elas.[5] Os conflitos, portanto, não passam de choques de interesses e desejos distintos. Como resumiu Thomas Hobbes (1588-1679):
Seja qual for o objeto do apetite ou desejo de qualquer homem, esse objeto é aquele a que cada um chama bom; ao objeto de seu ódio e aversão chama mau, e ao de seu desprezo chama vil e indigno. Pois as palavras “bom”, “mau” e “desprezível” são sempre usadas em relação à pessoa que as usa. Não há nada que o seja simples e absolutamente, nem há qualquer regra comum do bem e do mal, que possa ser extraída da natureza dos próprios objetos.[6]
O subjetivismo privilegia a diversidade de compreensões humanas, mas, ao fazê-lo, limita toda verdade ao âmbito individual. Surge, então, a arbitrariedade: cada pessoa formula suas opiniões conforme seus interesses e racionaliza suas escolhas para justificá-las.[7] Uma consequência inevitável é a convicção de que o sujeito que julga está sempre certo.
1. O Subjetivismo no Antigo Testamento
O profeta Isaías retrata líderes que subvertiam categorias morais, chamando o mal de bem e o bem de mal,[8] legitimando práticas injustas e institucionalizando a corrupção ética (Is 5.18-23; 59.14-15).[9] A justiça se tornava mercadoria, e a verdade tropeçava nas praças, revelando a dimensão política do subjetivismo: quando a verdade é relativizada, o justo se torna alvo de perseguição.
18 Ai dos que puxam para si a iniquidade com cordas de injustiça e o pecado, como com tirantes de carro! 19 E dizem: Apresse-se Deus, leve a cabo a sua obra, para que a vejamos; aproxime-se, manifeste-se o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos. 20 Ai dos que ao mal ([r;)(ra`)chamam bem e ao bem, mal ([r;)(ra`); que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo! 21 Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito! 22 Ai dos que são heróis para beber vinho e valentes para misturar bebida forte, 23 os quais por suborno justificam o perverso e ao justo negam justiça. (Is 5.18-23).
14 Pelo que o direito se retirou, e a justiça se pôs de longe; porque a verdade anda tropeçando pelas praças, e a retidão não pode entrar. 15 Sim, a verdade sumiu, e quem se desvia do mal ([r;)(ra`) é tratado como presa. O SENHOR viu isso e desaprovou o não haver justiça” (Is 59.14-15).[10]
O livro de Juízes também retrata essa realidade: “Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos” (Jz 21.25). Embora o padrão objetivo — a revelação de Deus — existisse, sua não adoção em favor dos interesses casuísticos de cada indivíduo conduziu inevitavelmente à fragmentação social e ao caos político.
2. O Subjetivismo no Novo Testamento
Jesus confronta os fariseus e escribas, denunciando sua hipocrisia e manipulação da lei (Mt 23.27-28). Pilatos, ao indagar “Que é a verdade?” (Jo 18.38), evidencia a relativização política da justiça: embora reconhecesse a inocência de Cristo, cedeu à pressão social e sacrificou a verdade em favor da conveniência. Herodes, por vaidade e medo de perder prestígio, manda executar João Batista (Mt 14.3-10). Em todos esses casos, o poder político se curva ao subjetivismo, privilegiando seus interesses em detrimento da verdade e da justiça.
O apóstolo Paulo descreve em Romanos 1.21-25 a humanidade que, rejeitando a verdade de Deus, troca a glória divina por ídolos. Essa idolatria é também política: o homem se torna medida de todas as coisas, e o poder é usado para confirmar desejos e paixões.[11] Em 2Timóteo 4.3-4, Paulo alerta que muitos buscarão mestres que falem conforme suas cobiças, ilustrando a essência do subjetivismo ético − a busca por discursos que legitimem interesses pessoais.
3. Implicações Políticas
Do ponto de vista político, o subjetivismo ético gera:
- Corrupção institucionalizada: decisões são tomadas não pelo que é justo, mas pelo que é conveniente.
- Manipulação da linguagem: termos como “bem comum” ou “justiça social” podem ser distorcidos para encobrir agendas egoístas.
- Perseguição dos justos: quem insiste em padrões objetivos é visto como ameaça.
- Fragmentação social: sem um padrão comum, cada grupo cria sua própria verdade, gerando polarização.
Tais implicações transcendem o campo teórico e se revelam na prática cotidiana da política e da vida social. A corrupção institucionalizada mina a confiança nas instituições públicas, enfraquecendo a governança e abrindo espaço para o autoritarismo.
A manipulação da linguagem cria um ambiente onde o discurso político se torna uma ferramenta de persuasão vazia, desconectada da realidade objetiva, o que favorece a desinformação e o populismo.
A perseguição dos justos, por sua vez, revela a intolerância que emerge quando a verdade objetiva é desconsiderada. Aqueles que defendem princípios éticos sólidos são frequentemente marginalizados ou rotulados como radicais, o que não apenas dificulta o diálogo, mas também enfraquece a possibilidade de construir consensos duradouros.
A negação da verdade comum intensifica a fragmentação social, já que a multiplicidade de percepções subjetivas da realidade fomenta polarização extrema. Essa divisão profunda compromete a cooperação entre grupos e impede o progresso coletivo, criando um ambiente onde o interesse próprio e a desconfiança prevalecem sobre a busca pelo bem comum.
Essas consequências corroem a confiança nas instituições, favorecem o populismo e alimentam a intolerância contra aqueles que defendem princípios sólidos. O resultado é uma sociedade polarizada, marcada pela desconfiança e pela prevalência do interesse próprio sobre o bem comum.
4. Algumas aplicações e implicações
4.1. Espiritual
Do ponto de vista espiritual, o subjetivismo ético traduz-se na rejeição da soberania de Deus. Ao colocar o indivíduo como medida última do certo e do errado, nega-se a autoridade divina e abre-se caminho para a idolatria, onde paixões e interesses pessoais se tornam deuses.
A Escritura conclama os crentes à obediência e fidelidade à verdade de Deus, que é imutável e absoluta. A Igreja é chamada a ser luz e sal no mundo, proclamando a verdade que liberta e denunciando as mentiras que escravizam.
Essa dimensão espiritual repercute inevitavelmente nas demais esferas da vida, pois o homem, criado à imagem de Deus, é essencialmente um ser religioso.
4.2. Social
No âmbito social, o subjetivismo ético corrói os laços comunitários e mina a confiança mútua. Quando cada pessoa ou grupo define sua própria moralidade, perde-se o senso de responsabilidade coletiva e o compromisso com o bem comum.
A promoção de valores objetivos, fundamentados na revelação bíblica, é essencial para construir uma sociedade justa e pacífica. Educação, cultura e instituições devem refletir esses princípios para fortalecer a coesão social e promover a dignidade humana.
4.3. Política
Na esfera política, enfrentar o subjetivismo ético requer a defesa de princípios universais e inegociáveis − justiça, verdade e dignidade humana − firmados nas Escrituras Sagradas. Governantes e cidadãos são chamados a agir com integridade e compromisso com o bem comum.
A participação ativa da Igreja, ainda que não necessariamente como instituição formal, e da comunidade cristã na esfera pública é fundamental para influenciar positivamente as políticas públicas e fomentar uma cultura pautada na justiça e no respeito aos direitos humanos. Esse engajamento se manifesta no diálogo construtivo na defesa consistente dos valores bíblicos e na promoção de ações sociais que expressem o amor e a justiça de Deus, contribuindo assim para a transformação da sociedade rumo a um bem comum mais justo e solidário.
4.4. Ética
Eticamente, o subjetivismo desafia a consciência individual e coletiva, colocando em xeque a possibilidade de discernir o certo do errado sem um padrão absoluto. A ética cristã, fundamentada na revelação bíblica, oferece um caminho seguro para decisões morais, orientando o comportamento pessoal e social.
A formação ética deve ressaltar a centralidade da verdade objetiva, da responsabilidade e do amor ao próximo, resistindo à tentação de justificar ações por interesses egoístas ou conveniências passageiras.
O apóstolo Paulo descreve em Romanos 1.21-25 a humanidade que, rejeitando a verdade de Deus, troca a glória divina por ídolos. Essa idolatria é também política: o homem se torna medida de todas as coisas, e o poder é usado para confirmar desejos e paixões. Em 2Timóteo 4.3-4, Paulo alerta que muitos buscarão mestres que falem conforme suas cobiças, ilustrando a essência do subjetivismo ético − a busca por discursos que legitimem interesses pessoais.
5. Perspectiva Pastoral
Do ponto de vista pastoral, a denúncia bíblica do subjetivismo ético constitui um chamado à Igreja e à sociedade para reconhecer que a verdade não é relativa, mas fundamentada no caráter de Deus. Quando a política se afasta desse padrão, torna-se terreno fértil para a arbitrariedade, a injustiça e a perseguição dos justos. O papel da comunidade cristã consiste em resistir à tentação de relativizar a verdade e proclamar, com coragem, que a justiça só pode ser preservada quando enraizada na revelação divina.
Essa verdade não é apenas uma referência externa, mas precisa ser encarnada pelo povo de Deus em sua prática privada e pública, bem como na administração da Igreja, tanto como organismo espiritual quanto como organização. Nesse sentido, a Igreja é chamada a fortalecer espiritualmente seus membros por meio do ensino sólido da Palavra, da oração e da comunhão, preparando-os para enfrentar os desafios éticos e políticos do mundo contemporâneo.
Conclusão
O ponto de vista humano não define a verdade, porque Deus, não o homem, é o padrão da verdade e sua origem. − Vern S. Poythress.[12]
O subjetivismo ético individual é expressão evidente — e inevitável — do humanismo, que considera, de forma teórica e prática, o homem como centro e medida de toda a realidade.[13] Por isso, todo humanismo autônomo não passa de um ato idólatra: Deus é subjetivamente destronado e o homem colocado no centro da existência, perdendo-se, assim, todas as referências metafísicas.
A idolatria permeia o coração humano sedento por autonomia. Ao exilar Deus e retirá-lo de cena, o ser humano passa a viver apenas de estatísticas. Nesse horizonte, somente o homem — isto é, o próprio “eu” — torna-se referência última; não há valores acima dele.[14]
O subjetivismo ético, presente tanto na antiguidade quanto na atualidade, se mostra uma ameaça à vida espiritual e, por consequência, à vida pública. A Escritura ensina que, sem a verdade objetiva de Deus, a política torna-se refém dos interesses humanos.
A resposta pastoral, portanto, consiste em reafirmar a centralidade da verdade divina como fundamento da justiça e da vida social, lembrando que somente em Cristo encontramos o padrão absoluto que nos liberta da arbitrariedade e conduz à verdadeira paz.
Amém.
Maringá, 29 de janeiro de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
[1]Francis A. Schaeffer, Poluição e a Morte do Homem, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 24.
[2] Rousas J. Rushdoony, A Filosofia do Currículo Cristão, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 33
[3] J.I. Packer, A Redescoberta da santidade, 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 27.
[4] “É com o declínio da crença religiosa nos séculos XVIII e XIX que o subjetivismo tornou-se mais que uma simples curiosidade. A fraqueza do fundamento religioso da ética é, no entanto, notória. (…) É […] com o declínio da crença religiosa que o subjetivismo tornou-se uma força real no pensamento europeu” (Simon Blackburn, Subjetivismo Moral: In: Monique Canto-Sperber, org. Dicionário de Ética e Filosofia Moral, São Leopoldo, RS.: Editora Unisinos, 2003, v. 2, [p. 644-651], p. 645).
[5] Veja-se: Ronald H. Nash, Questões Últimas da Vida: uma introdução à Filosofia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 375.
[6]Thomas Hobbes, Leviatã,São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 14), 1974, I.6. p. 37.
[7] Veja-se: Subjetivismo: In: J. Ferrater Mora, Dicionário de Filosofia, São Paulo: Edições Loyola, 2001, v. 4, p. 2774-2775.
[8]Tucídides (c. 465-395 a.C.) observou que: “A significação normal das palavras em relação aos atos muda segundo os caprichos dos homens. A audácia irracional passa a ser considerada lealdade corajosa em relação ao partido; a hesitação prudente se torna covardia dissimulada; a moderação passa a ser uma máscara para a fraqueza covarde, e agir inteligentemente equivale à inércia total. Os impulsos precipitados são vistos como uma virtude viril, mas a prudência no deliberar é um pretexto para a omissão….” (Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1982, II.82. p. 167).
[9] Recomendo com ênfase a leitura da obra de D. M. Lloyd-Jones, Uma Nação sob a Ira de Deus: Estudos em Isaías 5. 2. ed. Rio de Janeiro: Textus, 2004.
[10]“O resultado (v. 14) é que todos os princípios de moralidade foram retirados da vida da comunidade…. ‘Pelas praças’, onde eram instalados os processos judiciais, e conduzidas as transações comerciais, a verdade ‘anda tropeçando’ e cai; ela não é mais tida em alta estima. E nos lares, onde as famílias se reúnem, a honestidade não é admitida; foi banida. Assim a verdade ‘sumiu’ (v. 15a); não mostra mais o seu rosto” (J. Ridderbos, Isaías: Introdução e Comentário, São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1986, (Is 59.12-15a), p. 479).
[11]Este princípio está teorizado no sofista Protágoras (c. 480-410 a.C.). Apud Platão, Teeteto, 152a: In: Teeteto-Crátilo, 2. ed. Belém: Universidade Federal do Pará, 1988, 152a; 160c. Citado também em Platão, Crátilo, 385e. Aristóteles, diz: “O princípio (…) expresso por Protágoras, que afirmava ser o homem a medida de todas as coisas (…) outra coisa não é senão que aquilo que parece a cada um também o é certamente. Mas, se isto é verdade, conclui-se que a mesma cousa é e não é ao mesmo tempo e que é boa e má ao mesmo tempo, e, assim, desta maneira, reúne em si todos os opostos, porque amiúde uma cousa parece bela a uns e feia a outros, e deve valer como medida o que parece a cada um” (Metafísica, XI, 6. 1 062). (Para consultar uma edição bilingue, grego-português, veja-se: Aristóteles, Metafísica, São Paulo: Loyola, 2002. Platão diferentemente de Protágoras, entendia que a medida de todas as coisas estava em Deus. “Aos nossos olhos a divindade será ‘a medida de todas as coisas’ no mais alto grau” (Platão, As Leis, Bauru, SP.: EDIPRO, 1999, IV, 716c. p. 189).
[12] Vern S. Poythress. Redimindo a Ciência: uma abordagem teocêntrica, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 273.
[13]“A forma extrema da idolatria é o humanismo, que vê o homem como a medida de todas as coisas” (R.C. Sproul, O que é a teologia reformada: seus fundamentos e pontos principais de sua soteriologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 33). Veja-se também: R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 205. Na provável primeira carta que Calvino escreveu depois de ter se fixado em Genebra (1536), alegra-se com o avanço da Reforma e a consequente diminuição da superstição e idolatria. Então diz: “Deus permita que os ídolos sejam erradicados também do coração” (Carta escrita ao seu amigo Francis Daniel no dia 13 de outubro de 1536. In: João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 30). Veja-se também: João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003,Cap. 8, p. 22.
[14] “Para o humanismo, o homem é sua lei e o próprio legislador, de forma que a aprovação social é o melhor teste da lei.” (Rousas J. Rushdoony, A Filosofia do Currículo Cristão, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 25).
