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Hermisten Maia

Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (75)

Rev. Hermisten Maia6 min de leitura

5.9. O Espírito como Senhor da vida e Mestre da Oração (Continuação)

O Espírito Criador e Recriador

O Antigo Testamento emprega a palavra (ahUr) (rüah), para “espírito”, sendo traduzida por “vento”, “espírito”, “alento”, “hálito”, “sopro” etc. A ideia básica é de “ar em movimento” (Gn 2.7; Ex 10.13,19; 14.21; Dt 32.11; Jó 1.19; Is 7.2).1

Quando ‘ahUr é empregado para Deus, denota o seu poder incorruptível e preservador.2 Portanto, a ideia de vento aponta para o poder soberano de Deus que se manifesta algumas vezes como juiz, outras vezes como consolador3 e, também, que se movimenta livremente, figuradamente, como uma tempestade, um tufão incontrolável. Daí a impossibilidade de prender, domesticar ou dominar o Espírito de Deus.

Das 389 ocorrências do substantivo no Antigo Testamento,4 136 se referem ao Espírito que é chamado de “Espírito de Deus” (Gn 1.2) e, principalmente, “Espírito do Senhor” (hawhy)5 (Cf. Jz 6.34; 1Sm 16.13; Is 11.2). Estas designações não sugerem nenhum tipo de subordinação, antes, são apenas nomes que expressam o Deus que executa o seu querer. São, portanto, nomes “executivos” de Deus.6

Em diversos textos, refere-se ao “espírito humano”, sempre evidenciando a sua dependência de Deus,7 visto ser o Espírito de Deus o poder vitalizador e gerador de toda criação8 (Gn 1.2; 6.3; Jz 3.10; 13.15/14.6; 1Sm 10.6; Jó 26.13; 33.4; 34.14-15; Sl 104.29-30; 146.4; Ec 12.7; Is 40.7), inclusive dos animais (Gn 6.17; 7.15,22; Ec 3.19-21). Considerando a variedade de emprego da palavra, torna-se, em determinados casos, necessário um exame cuidadoso do contexto onde o termo é utilizado.

O Antigo Testamento enfatiza mais a atividade do Espírito do que a sua natureza, no entanto, nem por isso deixa de evidenciar a sua personalidade e divindade (Sl 51.11; Is 48.16;9 63.10,11; Zc 3.9/Zc 4.6,10;10 Mq 2.7),11 bem como a sua distinção de Deus (Nm 11.17; Ez 37.9), temas que serão melhor desenvolvidos no Novo Testamento. 12

A atividadedo Espírito é demonstrada mais amplamente no homem, ainda que não exclusivamente, visto ser ele o agente e sustentador da criação (Gn 1.2; Jó 4.9; 26.13; 33.4; 34.14,15; Sl 33.6; 104.30; Is 40.7; 42.5). Há em todas as criaturas a sustentação de Deus. Nada existe sem a manutenção constante dele.13

O Antigo Testamento mostra o Espírito como onisciente (Is 40.13), onipresente(Sl 139.7) e onipotente (Is 34.16), evidenciando, assim, a impotência e inércia dos ídolos, uma vez que eles não têm espírito, não têm vida (Hc 2.19/Jr 10.14). Somente Deus pode conceder vitalidade, já que a vida pertence a ele (Ez 37.14/Hc 3.2) (hfyfx) (hãyãh).14

O Espirito Santo, conforme a sua natureza santa, produz no homem o caráter moral de Deus, esquadrinhando o coração dele, entristecendo-se e testificando contra o pecado, conduzindo-o por meio da regeneração (Ez 11.19; 36.26,27), ao arrependimento, à fé e à santidade (Ne 9.20,30; Sl 32.2; 51.11; 143.10; Is 59.21; 63.10,11; Ez 39.29; Ag 2.5), que se revelam num fervor religioso (Is 26.9; Zc 12.10). O Antigo Testamento ensina, claramente, que as operações do Espírito Santo envolviam uma renovação moral e espiritual de seu povo.15

Maringá, 16 de junho de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


Footnotes

  1. J. Barton Payne, hUr: In: R. Laird Harris, ed. Theological Wordbook of the Old Testament, 2. ed. Chicago: Moody Press, 1981. v. 2, p. 836a. ↩

  2. F. Baumgärtel, Pneu=ma: In: G. Friedrich; G. Kittel, eds. *Theological Dictionary of the New Testament,*Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982, v. 6, p. 364. ↩

  3. Ver: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005,p. 362. ↩

  4. 378 vezes em hebraico e 11 em aramaico (Cf. Hans W. Wolff, *Antropologia do Antigo Testamento,*2. ed. São Paulo: Loyola, 1983, p. 51). Vejam-se também: J. Barton Payne, hUr: In: R. Laird Harris, ed. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1407 e Wilf Hildebrandt, Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento, São Paulo: Editora Academia Cristã, 2004, p. 17. ↩

  5. Como sabemos, o tetragrama YHWH é o nome pessoal de Deus, considerado pelos judeus como o nome por excelência de Deus; ele é usado 5321 vezes no Antigo Testamento. “É especialmente no nome Yhwh que o Senhor se revela como o Deus de Graça” (Herman Bavinck, *The Doctrine of God,*2. ed. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1955, p. 103). Esse é reconhecido como sendo o nome pessoal, real, essencial e pactual de Deus (hw”hoy>) (Yehovah), o qual não é atribuído a nenhum outro suposto Deus ou seres angelicais (Cf. Paulo Anglada, Soli Deo Gloria: O Ser e as obras de Deus, Ananindeua, PA.: Knox Publicações, 2007, p. 35). “O ‘nome’ é Deus em revelação” (Geerhardus Vos, Teologia Bíblica, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 139). (hw”hoy>) (Yehovah) é o nome revelacional de Deus (Ex 3.14-15; 6.2-3), “Eu sou o que sou” ou, “Eu sou o que serei” ou ainda: “Eu serei o que serei”. Porém, a sua origem é disputada entre os eruditos, não se tendo uma opinião concensual. (Uma breve, porém, ótima discussão sobre o assunto temos em Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 144-147. Mais atual, porém, menos crítico: Terence Fretheim, Javé: In: Willem A. VanGemeren, org. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 736-741). No entanto, é o nome com o qual Deus se manifesta a Moisés e pelo nome que quer ser sempre lembrado. ↩

  6. Veja-se: B.B. Warfield, *A Doutrina Bíblica da Trindade,*Leiria: Edições Vida Nova, (s.d.), p. 165. ↩

  7. Wolff acentua que: “A maioria dos textos que tratam da rûach de Deus ou dos homens mostra Deus e o homem em relação dinâmica. O fato de que um homem como rûach é vivo, quer o bem e age com autorização não vem dele mesmo” (H.W. Wolff, Antropologia do Antigo Testamento, p. 60). ↩

  8. Veja-se: Walther Eichrodt, Teologia Del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1975, v. 1, p. 196; Veja-se: também, v. 2, p. 56ss; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, p. 20-24; Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, p. 363. ↩

  9. O profeta aqui alude a si mesmo e ao Espírito, indicando a sua inspiração profética (Cf. Is 61.1; Ez 2.2; 11.5; 37.1; Zc 7.12). (Veja-se: A.R. Crabtree, *A Profecia de Isaías,*Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1967, v. 1, p. 166; C.F. Keil; F. Delitzsch, *Commentary on the Old Testament,*Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, v. VII/2, 1969, p. 252-253). ↩

  10. Aqui, Zacarias fala de forma poética do Espírito de Deus como sendo os “sete olhos”. Figura análoga é empregada em Ap 4.5. (Veja-se: J. Barton Payne, *The Theology of the Older Testament,*Grand Rapids, Michigan: Zondervan, © 1961, p. 174). ↩

  11. Um contraste revelante é feito, quando é dito que os ídolos não têm hUr (Jr 10.14; Hc 2.19). ↩

  12. Vejam-se: B.B. Warfield, The biblical doctrine of the Trinity: In: The Works of Benjamin B. Warfield, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 2000 (Reprinted), v. 2, p. 141-142 e Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, p. 40. ↩

  13. Cf. Abraham Kuyper, *The Work of the Holy Spirit,*p. 27. ↩

  14. Este verbo e os seus derivados ocorrem no Antigo Testamento cerca de 800 vezes, sendo traduzido normalmente por “viver” e “vida”. A sua origem etimológica ainda não foi explicada satisfatoriamente. Biblicamente, hfyfx tem o sentido de: a) Chamar à existência o que não existia: (Gn 2.7 (adjetivo: yfx “vivente”); Jó 33.4/2Rs 5.7), e b) Preservar vivo:(Gn 7.3; 19.32;Sl 33.19; 41.2). ↩

  15. Veja-se: Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, p. 26-31. ↩