Desperta, Brasil: Chamado à Fé, Ética e Transformação Social
“Uma das metas primeiras do Estado deveria ser respeitar e preservar a liberdade de seus cidadãos individuais” − Quentin Skinner.[1]
“Ninguém gosta de perder, o monopólio é o sonho íntimo da maioria dos empresários e nenhum governante fica feliz quando lê nos jornais uma crítica, por mais correta que seja. Não sem motivo os políticos se engalfinham por concessões de emissoras de rádio e TV, transformadas em armas poderosas de autoelogio e votos”. − Gilberto Dimenstein (1956-2020).[2]
“Fé e ação são absolutamente inseparáveis na ética calviniana. E esta ética não se contenta com ações ‘caritativas’ individuais, pois abarca toda a vida política coletiva no sentido mais amplo do termo, englobando as atividades econômicas e todas as relações sociais”. − André Biéler (1914-2006).[3]
Em Efésios 5.14 lemos: “Desperta, tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará.” Esse chamado, que nasce no campo espiritual, ecoa também na vida social e política do Brasil. Despertar é romper com o conformismo, abandonar a indolência, não se deixar conduzir pela indiferença ou pela manipulação, mas assumir a responsabilidade de ser luz em meio às trevas.
Vivemos tempos de crise: corrupção, desigualdade, polarização e descrédito das instituições. Parte da imprensa cumpre seu papel de informar, mas outra parte manipula narrativas, alimentando divisões e reforçando preconceitos.
Ao mesmo tempo, cresce a ideia de que o Estado seria uma “grande mãe” que tudo provê, como um Robin Hood tropical, retirando dos que trabalham − frequentemente desprestigiados e sobrecarregados por impostos − para sustentar em muitos de seus eleitores uma dependência que empobrece não apenas materialmente, mas também em pensamentos e ideais. Essa resignação na ignorância enfraquece a sociedade e perpetua injustiças, tornando o povo cada vez mais vulnerável e menos crítico.
Como cristãos, não podemos assumir como meta de vida social o repouso permanente em confortos passageiros, mas sim glorificar a Deus por meio do trabalho, reconhecendo-o como vocação e dádiva.[4] O labor não é apenas necessidade terrena, mas expressão de dignidade e serviço. A Escritura sugere que, na eternidade, o trabalho será transformado em culto perfeito, livre do peso do pecado (Ap 22.3). Não se trata de repetição das fadigas desta vida, mas da continuidade da vocação humana de servir e glorificar a Deus em plenitude.
A esse quadro soma-se a questão ética. A ausência de suspeição em situações onde há certeza da suspeita revela a fragilidade moral de parte da nossa vida política. Esse paradoxo mostra que, mesmo diante de indícios claros de favorecimento, corrupção ou nepotismo, não se levanta nenhuma suspeita oficial. O sistema político, assim, se revela moralmente debilitado. Situações que deveriam gerar investigação ou questionamento são tratadas como normais, como se fossem aceitáveis. O comum estatisticamente tornou-se normal moralmente.
O silêncio diante dessas evidências fala mais alto do que mil palavras: ele encobre atos, perpetua injustiças e revela a cumplicidade de quem deveria zelar pela verdade.
Essa ausência de suspeição revela:
- Naturalização da irregularidade: práticas como nepotismo ou favorecimento pessoal deixam de ser vistas como problemáticas.
- Cultura de impunidade: mesmo diante de evidências, não há responsabilização, o que mina a confiança da sociedade.
- Fragilidade ética: a política perde credibilidade porque deixa de se pautar por princípios de justiça e transparência.
- Desestímulo ao cidadão: quando o povo percebe que suspeitas óbvias não são sequer consideradas, cresce a sensação de impotência e descrédito.
Portanto, essa complacência institucional e social denuncia a necessidade urgente de despertar para valores éticos e para a responsabilidade cidadã. O Brasil não pode aceitar como normal aquilo que é moralmente suspeito. O silêncio diante da injustiça é cumplicidade.
Essa perda de valores éticos e morais não afeta apenas a política, mas desarticula também a própria vida comunitária. A amizade, por exemplo, se revela como exercício de liberdade e de cuidado mútuo, florescendo apenas em condições de justiça e estabilidade ética. Mais do que um vínculo privado, ela é elemento constitutivo da pólis, pois não há cidade sem amizade: é ela que garante a coesão social e a possibilidade de uma vida boa. A amizade política, fundada na virtude e na busca do bem comum, supera as relações utilitárias ou prazerosas justamente porque sustenta a justiça e a igualdade entre os cidadãos; sua degradação equivale, portanto, à degradação da própria pólis.
Longe de ser fusão de almas, a amizade é reconhecimento da diferença e diálogo constante, condição para a pluralidade e para a liberdade. Quando a esfera pública é corroída pela má governança, a amizade perde seu caráter político e torna-se incapaz de sustentar a liberdade.[5] Ainda assim, permanece como forma de resistência contra a tirania e o isolamento, criando um espaço de confiança e de discurso compartilhado.
Nesse ponto, vale recordar uma reflexão de Antonio Gramsci (1891-1937), o grande teórico do marxismo no século XX., salientou: “Quando a concepção do mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é compósita, de uma maneira bizarra…..”.[6]
Embora Gramsci parta de pressupostos contrários à fé cristã, sua observação é valiosa ao mostrar como a incoerência de uma visão de mundo fragmentada enfraquece tanto a identidade quanto a responsabilidade pessoal. Lida criticamente, essa reflexão nos alerta para o risco de, como cristãos, perdermos uma mente orientada pela fé e um coração inflamado pela Palavra. Quando cedemos ao secularismo, acabamos cultivando um mosaico de ideias, sentimentos e valores contraditórios − e, pior ainda, excludentes daquilo que deveria marcar nossa fé: a fidelidade bíblica.
É preciso com urgência refletir seriamente sobre como lemos as Escrituras e como construímos a nossa forma de ver a chamada realidade. Os salmistas, em diversas condições adversas, reconheciam que Deus, dentro de seus critérios justos e santos, é quem lhes daria a vitória. Porém, vitória não significa necessariamente aquilo que nós, em nossa visão limitada, entendemos. É preciso avaliar nossa maneira de ver à luz das Escrituras.
Nesse cenário, a igreja e os fiéis são chamados a ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13-16). Isso significa viver com integridade, exercer cidadania responsável e influenciar positivamente a sociedade.[7]
O papel pastoral é lembrar que a fé não se restringe ao culto, mas se expressa na vida pública, na forma como votamos, como cobramos nossos líderes e como nos posicionamos diante da injustiça.
Orar pela nação é indispensável, reconhecendo a soberania de Deus, mas a oração precisa ser acompanhada de ação: votar com discernimento, buscar informação confiável e não se deixar conduzir por discursos superficiais ou tendenciosos.
O despertar que Paulo anuncia é espiritual, mas também social e político. O Brasil precisa de cristãos conscientes, que não se acomodem, mas que se levantem como instrumentos de transformação.
Quando a igreja se posiciona com fé e responsabilidade, iluminada por Cristo, contribui para que a nação caminhe rumo a uma democracia mais justa, ética e solidária.
O chamado é claro: despertar para Deus e para a realidade. Não podemos ser cúmplices da indiferença, da manipulação ou da corrupção. Somos chamados a ser sal e luz, a orar e agir, a crer na soberania divina e assumir nossa responsabilidade humana. Só assim o Brasil poderá encontrar caminhos de esperança e renovação, sustentado pela fé e pela prática cidadã. Que o Senhor, em sua soberania e misericórdia, nos fortaleça e conduza. Amém.
Maringá, 26 de janeiro de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
[1] Quentin Skinner, Liberdade antes do Liberalismo,São Paulo: Editora UNESP.; Cambridge University Press, 1999, p. 95.
[2] Gilberto Dimenstein, As armadilhas do poder: bastidores da imprensa, São Paulo: Folha de São Paulo, © 1990, p. 30.
[3] André Biéler, Calvino, o profeta de La era industrial: fundamentos y método de La ética calviniana de la sociedad, México, D.F.: Casa Unida de Publicaciones, 2015, p. 30.
[4]“…. o homem, por isso mesmo, desde o princípio é chamado ao trabalho. O trabalho é uma das características que distinguem o homem do resto das criaturas, cuja atividade, relacionada com a manutenção da própria vida, não se pode chamar trabalho; somente o homem tem capacidade para o trabalho e somente o homem o realiza preenchendo ao mesmo tempo com ele a sua existência sobre a terra. Assim, o trabalho comporta em si uma marca particular do homem e da humanidade, a marca de uma pessoa que opera numa comunidade de pessoas; e uma tal marca determina a qualificação interior do mesmo trabalho e, em certo sentido, constitui a sua própria natureza” (João Paulo II, Carta Encíclica Laborem Exercens).
(Disponível: https://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/edh_enciclica_laborem_exercens.pdf (consulta feita em 26.01.2026).
[5] Veja-se: Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 4), 1973, VIII.11, 1160 30. p. 391.
[6] Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020, v. 1, p. 94.
[7] “Como cidadão do reino terrenal, sob cujo domínio ele [cristão] não mais vive, pois vive no mundo mas não é do mundo, não se rende submisso e derrotado aos seus critérios mundanos. O esquema do mundo (Rm 12.1) não lhe serve mais de parâmetro normativo para o exercício de uma vida digna e de maior sentido em toda a sua extensão. Os padrões deste mundo, seus falsos valores e padrões éticos desqualificados, já foram destronados pelos altos valores do Reino celestial e da ética que produz” (Oadi Salum, Cidadão de dois Reinos, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: Z3 Editora, 2019, p. 149-150).
