Arte e fé: estética, ética e espiritualidade em diálogo
Hoje, segunda-feira, não consegui mexer nas estantes. Meu cronograma virtual dissolveu-se na virtualidade do esquecimento. Há, porém, atenuantes: fui ao mercado – afinal, teólogos também fazem compras e se surpreendem com o preço da banana –, paguei o IPVA e tive o privilégio de conversar longamente com um amigo visionário. Aliás, não são os sonhadores os verdadeiros arquitetos do mundo? Aprendi muito com ele, pois aprender é, de fato, uma arte sagrada.
A vida humana é tecida de gestos, encontros e aprendizagens que, como fios invisíveis, compõem uma tapeçaria de sentido. Até mesmo um dia aparentemente “fracassado” em tarefas domésticas pode revelar-se fecundo quando se converte em ocasião de diálogo e crescimento. Aprender é arte; viver, igualmente, é um exercício artístico.
A Escritura nos lembra que fomos criados como obra de arte divina: “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras” (Ef 2.10). A Criação é a primeira grande obra estética, e o novo nascimento é a obra-prima espiritual que nos torna reflexos vivos da beleza de Deus.
Mas toda arte é bem-vinda? Como discernir o valor de uma obra artística? Para responder, é necessário compreender a arte em sua raiz e propor critérios que unam estética, ética e espiritualidade.
1. O que é Arte?
A palavra arte provém do latim ars, que significa habilidade, técnica, modo de fazer. No grego, téchne designa o saber prático, o domínio criativo que transforma matéria em forma. Originalmente, arte não se restringia ao campo estético, mas abrangia qualquer atividade humana que exigisse engenho e virtude.
Com o tempo, arte passou a ser associada à beleza e à expressão simbólica. Contudo, em sua essência, arte é sempre criação: o ato humano de dar forma ao invisível, seja em sons, imagens, palavras ou gestos. É o encontro entre trabalho e imaginação, disciplina e inspiração.
2. Arte e Beleza
Umberto Eco (1932-2016) observa que a beleza não é absoluta, mas assume diferentes rostos conforme a cultura e a história.[1] Já Kuyper (1837-1920) insiste que a beleza é objetiva, expressão da perfeição divina.[2] Assim, a arte não pode ser reduzida a mero deleite subjetivo: ela é participação na ordem e na harmonia que emanam de Deus.
A beleza, portanto, é mais que estética: é revelação. É o reflexo da sabedoria divina que se manifesta tanto na paisagem quanto na música, tanto na arquitetura quanto na vida de santidade.
3. Arte e Trabalho
A arte é inseparável do trabalho humano. H.R. Rookmaaker (1922-1977) lembrava que não basta talento e imaginação: é preciso caráter e energia para perseverar.[3] O esforço criativo é parte da vocação humana; não fomos chamados ao lazer eterno, mas ao trabalho que glorifica a Deus e serve ao próximo.
Assim, a arte é labor: disciplina que exige suor, paciência e devoção. É vocação que transforma o ordinário em extraordinário, o cotidiano em liturgia; em serviço religioso.
4. Arte, Verdade e Edificação
Diante da pluralidade de expressões artísticas que atravessam culturas e épocas, surge a questão inevitável: como discernir o que é belo, verdadeiro e edificante? A arte, longe de ser neutra, carrega em si uma força formadora. Ela pode elevar ou degradar, edificar ou corromper. Por isso, é necessário estabelecer critérios que orientem sua avaliação à luz da fé cristã e da tradição reformada.
A. Fidelidade à Criação
A arte deve lidar com todos os aspectos da realidade criada por Deus, sem distorcê-la ou reduzi-la a caricaturas. John Frame afirma que “a arte deve lidar com todos os aspectos da criação de Deus”.[4] A fidelidade à criação implica reconhecer que o mundo, em sua beleza e complexidade, é reflexo da sabedoria divina. A arte que nega ou falsifica essa realidade perde sua conexão com a verdade.
B. Excelência Estética e Técnica
A obra de arte deve revelar domínio de forma, proporção e criatividade.[5] Como recorda H.R. Rookmaaker, “nunca o artista chega a uma grande arte tendo apenas talento e imaginação, mas também caráter e energia para continuar a trabalhar.” [6] Tudo o que é digno de existir − mesmo em sua fragilidade ou indignidade − pode tornar-se objeto de contemplação e estudo. A verdadeira excelência estética não se reduz a virtuosismo vazio; ela é fruto de dedicação e disciplina, marcas de uma vocação exercida com seriedade e responsabilidade diante de Deus e da sociedade.
C. Espírito e Intenção
Mais que o tema, importa o espírito da obra. Rookmaaker insiste que “o que é cristão na arte não está no tema, mas no espírito dela, em sua sabedoria e na compreensão da realidade que ela reflete.”[7] A intenção do artista, sua postura diante de Deus e da vida, confere à obra um caráter espiritual que transcende a técnica.
D. Edificação Comunitária
Calvino (1509-1564) via a arte e o trabalho humano como dons de Deus destinados ao serviço do próximo e ao bem comum. Em seus Sermões sobre Efésios, ele adverte os pais a não escolherem profissões para os filhos apenas pelo lucro, mas pelo proveito coletivo: “jamais profissão alguma será dele aprovada se não for útil, e se o público não for dela servido, e se também não redundar em proveito de todos”.[8] Assim, a arte deve contribuir para a edificação comunitária, seja pela beleza que consola, pela reflexão que instrui ou pela esperança que inspira.
E. Glorificação de Deus
Francis Schaeffer (1812-1984) enfatiza que “A busca pela excelência é uma maneira de louvar a Deus.”[9] Para ele, a arte cristã não é apenas veículo de evangelismo, mas expressão da vida integral do cristão. Toda arte que reconhece sua origem divina deve ser oferecida como louvor, como ato de gratidão ao Supremo Artista.
Considerações finais
A arte deve ser avaliada por critérios que unem estética, ética e espiritualidade: fidelidade à criação, excelência técnica, espírito e intenção, edificação comunitária e glorificação de Deus. Esses elementos revelam que a arte jamais é neutra: pode ser instrumento de verdade e beleza ou veículo de engano e degradação.
Discernir a arte é, em última análise, discernir se ela reflete a realidade criada, se promove o bem e se glorifica ao Criador. Como lembrava Calvino, todo dom deve ser usado para o proveito comum; e como ensinava Schaeffer, toda busca pela excelência é, em si, um ato de adoração.
Assim, a vida cristã, vivida coram Deo, torna-se a maior obra de arte: uma existência bela, verdadeira e edificante, moldada pelo Supremo Artista para sua glória.
A arte é dom divino e expressão da criatividade humana. Mais que pinturas ou músicas, a própria vida cristã é a obra-prima: vivida diante da face de Deus como manifestação de beleza, verdade e serviço. Francis Schaeffer lembrava que: “Nenhuma obra de arte é mais importante que a própria vida do cristão e todo cristão deve se preocupar em ser um artista nesse sentido.”[10] Aprender, trabalhar e criar são dimensões inseparáveis da arte de viver em Cristo.
A busca pela excelência — seja na música ou na simplicidade das tarefas cotidianas − é sempre uma forma de louvar a Deus. A vida, enfim, é poesia encarnada: uma obra em andamento, moldada pelo Supremo Artista, que nos chama a viver com beleza, precisão e devoção.
Enquanto isso e justamente por isso, preciso voltar às estantes.
Abraço a todos.
Maringá, 12 de janeiro de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
[1] “A beleza nunca foi algo de absoluto e imutável, mas assumiu rostos diversos segundo o período histórico e o país: e isso não somente no que diz respeito à beleza física (do homem, da mulher, da paisagem), mas também à beleza de Deus, ou dos santos, ou das Ideias” (Umberto Eco, Nos ombros dos gigantes: escritos para La Milanesiana, 2001-2015, Rio de Janeiro: Record, 2018, p. 38).
[2] “A beleza não é produto de nossa própria fantasia, nem de nossa percepção subjetiva, mas tem uma existência objetiva, sendo ela mesma a expressão de uma perfeição Divina” (Abraham Kuyper, Calvinismo,São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 164).
[3]Veja-se: H.R. Rookmaaker, A Arte Moderna e a morte de uma cultura, Viçosa, MG.: Ultimato, 2015, p. 251.
[4]John M. Frame, A Doutrina da Vida Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 833.
[5] “Deus quis que a vocação artística fosse exercida como um aproveitamento obediente e edificante de matérias, sons, formas, paisagens, palavras, gestos e outras coisas semelhantes que Ele colocou sob os cuidados dos homens e das mulheres” (C.G. Seerveld, Arte: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã,São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, [p. 120-125], p. 121).
[6] H.R. Rookmaaker, A Arte Moderna e a morte de uma cultura, Viçosa, MG.: Ultimato, 2015, p. 251.
[7]H.R. Rookmaaker, A Arte Moderna e a morte de uma cultura, p. 242.
[8] John Calvin, Sermons on The Epistle to the Ephesians, Carlisle, Pennsylvania:The Banner of Truth Trust 1998 (Reprinted), Sermon 31, Ef 4.26-28, p. 447-460.
[9]Francis A. Schaeffer, A Arte e a Bíblia, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 20.
[10]Francis A. Schaeffer, A Arte e a Bíblia, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 76.
