A Pessoa e Obra do Espírito Santo (35)

6.1.5. O Espírito, a Reforma, a autoridade e a interpretação bíblica (continuação)

Calvino sustentava que o mesmo Espírito que inspirou o registro das Escrituras, nos convence da autoridade de sua Palavra, concedendo-nos discernimento espiritual. O testemunho do Espírito é mais relevante e eficaz do que qualquer argumento ou arrazoado humano.[1]

            Comentando 1Co 2.11, Calvino interpreta:

Paulo, aqui, pretende ensinar duas coisas: 1) que o ensino do evangelho só pode ser entendido pelo testemunho do Espírito Santo; e 2) que a segurança daqueles que possuem tal testemunho do Espírito Santo é tão forte e firme, como se o que creem pudesse realmente ser tocado com suas mãos e isto em razão do fato de que o Espírito é uma testemunha fiel e confiável.[2]

            Em outro lugar:

A genuína convicção que os crentes têm da Palavra de Deus, acerca de sua própria salvação e de toda a religião, não emana das percepções da carne, ou de argumentos humanos e filosóficos, e, sim da selagem do Espírito, o que faz suas consciências mais seguras e todas as dúvidas resolvidas.[3]

            Como temos insistido, a Palavra de Deus jamais poderá ser recebida salvadoramente sem o ensino do Espírito. É Ele quem de fato abre as Escrituras diante dos nossos olhos, nos capacitando a enxergar o Evangelho da Glória de Deus.

            Calvino comentando o texto de 2Pe 1.3, diz:

A causa eficaz de fé não é a perspicácia de nossa mente, mas a vocação de Deus. E ele (Pedro) não se refere somente à vocação externa, que é em si mesma ineficaz; mas à vocação interna, realizada pelo poder secreto do Espírito, quando Deus não somente emite sons em nossas orelhas pela voz do homem, mas, pelo seu próprio Espírito atrai intimamente nossos corações para Ele mesmo.[4]

            A autoridade da Palavra não depende do testemunho de nenhum homem ou instituição, antes, baseia-se na autoridade divina do seu autor que nos fala por meio da Escritura: “a credibilidade da doutrina se não firma antes que se nos persuada além de toda dúvida de que seu autor é Deus. Destarte, a suprema prova da Escritura se estabelece reiteradamente da pessoa de Deus nela falar”.[5] Portanto, não é o testemunho interno do Espírito – sem dúvida fundamental para a compreensão das Escrituras –, que a tornam autoritativa; antes a sua autoridade é proveniente da inspiração divina que a produziu e a preservou pelo Espírito. Portanto, o Espírito e a Palavra são inseparáveis.[6]

            Sem a inspiração do Espírito não haveria o registro da Palavra; sem a iluminação do Espírito jamais seríamos persuadidos de             sua autenticidade e nunca poderíamos compreender salvadoramente a revelação de Deus. Na Palavra temos uma ação retroalimentadora: O Espírito nos conduz à Palavra; a Palavra nos instrui sobre o Espírito.

             No entanto, não nos enganemos. Calvino não ignorava os argumentos em prol da autoridade bíblica; ele simplesmente entendia que sem a iluminação do Espírito estes argumentos, por mais razoáveis que fossem (e ele os considerava convincentes), não produziria um conhecimento salvador.

            Em síntese: Sem o Espírito, não haveria evidência objetiva que se tornasse persuasiva ao homem. A verdade objetiva só se torna verdade subjetiva para o homem quando o Espírito o persuade, fazendo-o enxergar as evidências.

            Gerstner (1914-1996) interpreta:

O papel do Espírito Santo não é alterar a evidência (de insatisfatória para satisfatória) mas, sim, mudar as atitudes dos homens, da resistência à verdade para a submissão a ela. (…) Calvino não ensina que o Espírito é a evidência em prol da inspiração da Bíblia. Tudo quanto faz é levar as pessoas a crerem na evidência.[7]

            Do mesmo modo Sproul (1939-2017) interpretando Calvino:

Para Calvino, o testemunho do Espírito Santo não é um sussurro interior trazendo uma nova informação ou um truque interno que transforme um argumento fraco em um bom argumento. O testemunho interno não nos leva a crer em oposição a uma evidência; ele trabalha em nossos corações para levar-nos à rendição diante de uma evidência objetiva. (…) O Espírito leva-nos a sermos persuadidos pela prova.[8]

     Calvino, o teólogo da Palavra e do Espírito, escreveu magistralmente sobre este ponto certificando que o testemunho do Espírito é superior a qualquer arrazoado humano porque, na realidade, é mais elevado do que a  capacidade humana racional:

O testemunho do Espírito é superior a todos os argumentos. Deus na Sua Palavra é a única testemunha adequada a respeito de Si mesmo, e, de maneira semelhante, Sua Palavra não será verdadeiramente crida nos corações dos homens até que tenha sido selada pelo testemunho do Seu Espírito. O mesmo Espírito que falou através dos profetas deve entrar em nosso coração para convencer-nos que eles entregaram fielmente a mensagem que Deus lhes deu. (…) Sendo iluminados pelo Seu poder, já não devemos ao nosso próprio juízo, nem ao de outros, o fato de crermos que as Escrituras vêm da parte de Deus; mas, por razões além do julgamento humano temos perfeita certeza, como se nelas contemplássemos a glória do próprio Deus, que elas foram transmitidas a nós da própria boca de Deus, pela instrumentalidade dos homens. Não procuramos argumentos ou probabilidades sobre os quais fundamentar nosso julgamento, mas sim sujeitamos nosso julgamento e nosso intelecto a elas como sendo algo acima e além de toda disputa. Nossa convicção, portanto, é tal que não requer argumentos; nosso conhecimento é tal que é consistente com o melhor dos argumentos; porque nelas a mente descansa com mais segurança e firmeza do que em quaisquer argumentos.[9]

Em outro lugar, Calvino escreveu:

Deus não deu a conhecer a Palavra aos homens com vistas a momentânea apresentação, assim que de pronto a abolisse com a vinda de Seu Espírito; pelo contrário, enviou o mesmo Espírito, pelo poder de Quem havia dispensado a Palavra, para que realizasse sua obra mediante a eficaz confirmação dessa mesma Palavra. Desta forma, Cristo abriu o entendimento aos dois discípulos de Emaús (Lc 24.27,45), não para que, postas de parte as Escrituras, se fizessem sábios de si mesmos, mas para que entendessem essas Escrituras.[10] De modo semelhante, Paulo, enquanto exorta aos tessalonicenses a que não extingam o Espírito, não os arrebata às alturas, a vãs especulações à parte da Palavra, mas imediatamente acrescenta que as profecias não deveriam ser desprezadas (1Ts 5.19,20).[11] Com o que acena, longe de dubiamente, que a luz do Espírito é sufocada assim que em desprezo vêm as profecias.[12]

            Em resposta ao Cardeal Sadoleto (1477-1547), Calvino diz:

Hás sido castigado pela injúria que fizeste ao Espírito Santo, separando-O e dividindo-O da Palavra. (…) Aprende, pois, por tua própria falta, que é tão insuportável vangloriar-se do Espírito sem a Palavra, como desagradável o preferir a Palavra sem o Espírito.[13]

            Comentando 1Co 2.11, arremata: “Não há nada no próprio Deus que escape ao seu Espírito”.[14] E é o Espírito do Pai e do Filho o nosso orientador e guia pessoal que nos conduz por meio da Palavra em direção a Cristo. A Palavra é uma autoridade objetiva. O Espírito, ao nos capacitar a compreendê-la, fornece a autoridade subjetiva.

Ou, como escreveu Warfield interpretando e aplicando o pensamento de Calvino:

A revelação especial ou a Escritura em sua forma documentada, fornece, como ponto de fato na visão de Calvino, somente o lado objetivo da cura que ele sabe ter sido providenciado por Deus. O lado subjetivo é efetuado pelo testimonium Spiritus Sancti. A Escritura providencia os óculos: somente o Espírito Santo no coração dos homens  abre os olhos para que vejam através das lentes.[15]

Maringá, 30 de outubro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Após redigir estas linhas, lembrei-me de uma pertinente constatação de Lloyd-Jones (1899-1981), que disse: “Não se pode levar ninguém à vida cristã pelo raciocínio. Vocês podem dar as razões para crerem, mas não pode levá-los a crer pela razão. Vocês podem pôr a causa diante deles, mas não podem prová-la como se fosse questão de um teorema de geometria. Devemos compreender que, enquanto os instruímos, devemos orar por eles também. É só quando o Espírito Santo lida com eles e os prepara e abre o entendimento deles, que eles podem receber a verdade” (D. Martyn Lloyd-Jones,As Insondáveis Riquezas de Cristo, p. 99). Veja-se: também, J. Calvino, As Institutas,I.9.1ss.

[2] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.11), p. 88.

[3]João Calvino, Efésios,(Ef 1.13), p. 36.

[4] John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (reprinted), v. 22, (2Pe 1.3), p. 369. “Nós nunca conheceremos nada enquanto não formos ensinados pelo Espírito Santo, que fala mais ao coração do que ao ouvido” (C.H. Spurgeon, Firmes na Verdade,Lisboa: Peregrino, 1987, p. 72).

[5]João Calvino, As Institutas,I.7.4.

[6]Cf. João Calvino, As Institutas, I.9.3. Veja-se B.B. Warfield, Calvin and Augustine, Michigan: Baker Book House (The Work’s of Benjamin B. Warfield), 2000 (Reprinted), v. 5, p. 79ss. Do mesmo modo Ware: “O Espírito e a Palavra são inseparáveis na economia de Deus, e Jesus dá um testemunho glorioso desta verdade. Devemos aprender de Jesus que sujeição ao Espírito e devoção à Palavra são companheiros indispensáveis” (Bruce Ware, Cristo Jesus homem: Reflexões teológicas sobre a humanidade de Jesus Cristo, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 84).

[7] John H. Gerstner, A Doutrina da Igreja sobre a Inspiração Bíblica: In: James M. Boice, ed. O Alicerce da Autoridade Bíblica,São Paulo: Vida Nova, 1982, p. 41.

[8]R.C. Sproul, A Alma em Busca de Deus,São Paulo: Eclésia, 1998, p. 62.

[9]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã,São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1984 (Resumo feito por J.P. Wiles), I.7. p. 40. (Vejam-se, João Calvino, As Institutas,I.7.4-5). Hesselink (1928-2018) diz que “a contribuição mais original e duradoura de Calvino para uma compreensão evangélica da natureza e da autoridade da Escritura foi sua doutrina do testemunho interno do Espírito Santo” (I. John Hesselink, O Movimento Carismático e a Tradição Reformada. In: Donald K. McKim, ed., Grandes Temas da Tradição Reformada, p. 339). Pannier (1869-1945), do mesmo modo, escreve: “Esta doutrina especificamente calvinista, baseada na Escritura Sagrada, é o fio condutor que permite seguir de um extremo ao outro o plano geral e os diversos capítulos do livro”  (Jacques Pannier, Introduction à Institution de la Religion Chrestienne, Paris: Société Les Belles Lettres, 1936, v. 1, p. XXVI).

[10]Sproul (1939-2017) comenta: “Aqui a Palavra de Deus encarnada explica a Palavra de Deus escrita” (R.C. Sproul, A Alma em Busca de Deus,p. 71).

[11] À frente trataremos a compreensão da Calvino a respeito de profecia.

[12]J. Calvino, As Institutas,I.9.3.

[13]Juan Calvino, Respuesta al Cardeal Sadoleto,4. ed. Países Bajos: Felire, 1990, p. 30. (Veja-se: também, a p. 29).

[14] João CalvinoExposição de 1 Coríntios, (1Co 2.11), p. 88.

[15] B.B. Warfield, Calvin and Augustine, Michigan: Baker Book House (The Work’s of Benjamin B. Warfield), 2000 (Reprinted), v. 5, p. 69-70.

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