A Pessoa e Obra do Espírito Santo (3)

2. O Espírito Santo no Antigo Testamento

          O Antigo Testamento emprega a palavra (ahUr) (rüah), para “espírito”, sendo traduzida por “vento”, “espírito”, “alento”, “hálito”, “sopro”, etc. A ideia básica é de “ar em movimento” (Gn 2.7; Ex 10.13,19; 14.21; Dt 32.11; Jó 1.19; Is 7.2).[1] Entretanto, “não é tanto o movimento por si que desperta a atenção, mas, sim, a energia que semelhante movimento manifesta”, interpreta Kamlah.[2] “Não expressa imaterialidade, mas a energia da vida em Deus”, resume Vos (1862-1949).[3]

          Fazendo eco a Vos, Ferguson enfatiza: “O que está em vista é energia em vez de imaterialidade. (…) A ênfase é posta, antes, em sua esmagadora energia”.[4] (Is 25.4; 40.7; 59.19; Hc 1.11).

          Payne (1922-1979) e Ferguson chamam-nos a atenção para o episódio da rainha de Sabá que, maravilhada com a sabedoria prática de Salomão, “não tinha mais rüah” (1Rs 10.5);[5] ou seja: ficou com a “respiração suspensa”.[6]

          Quando ahUr é empregado para Deus, denota o Seu poder incorruptível e preservador.[7] Portanto, a ideia de vento aponta para o poder soberano de Deus que se manifesta algumas vezes como juiz, outras vezes como consolador[8] e, também, que se movimenta livremente, figuradamente, como uma tempestade, um tufão incontrolável, daí a impossibilidade de prender, domesticar ou dominar o Espírito de Deus.

          Das 389 ocorrências do substantivo no Antigo Testamento,[9] 136 se referem ao Espírito, O qual é chamado de “Espírito de Deus” (Gn 1.2) e, principalmente, “Espírito do Senhor” (hawhy)[10] (Cf. Jz 6.34; 1Sm 16.13; Is 11.2). Estas designações não sugerem nenhum tipo de subordinação, antes são apenas nomes que expressam o Deus que executa o Seu querer; são, portanto, nomes “executivos” de Deus.[11]

          Algumas vezes também, ahUr indica os maus espíritos enviados da parte de Deus (Jz 9.23; 1Sm 16.14-16,23; 18.10; 19.9; 1Rs 22.21-23/Jó 1.6-12; Is 19.14; 29.10) e aos anjos (1Rs 19.11,12/Sl 104.4; Ez 1.12,20).

          ahUr em diversos textos refere-se ao “espírito humano”, sempre evidenciando a sua dependência de Deus,[12] visto ser o Espírito de Deus o poder vitalizador e gerador de toda criação[13] (Gn 1.2; 6.3; Jz 3.10; 13.15/14.6; 1Sm 10.6; Jó 26.13; 33.4; 34.14-15; Sl 104.29-30; 146.4; Ec 12.7; Is 40.7), inclusive dos animais (Gn 6.17; 7.15,22; Ec 3.19-21). Considerando a variedade de emprego da palavra, torna-se, em determinados casos, necessário um exame cuidadoso do contexto no qual o termo ocorre.

Continuaremos esse assunto no próximo post.

Maringá, 25 de setembro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] J. Barton Payne, hUr: In: R. Laird Harris, ed.  Theological Wordbook of the Old Testament, 2. ed. Chicago:  Moody Press, 1981. v. 2, p. 836a.

[2] E. Kamlah, et. al., Espírito: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p.124. “O pensamento implícito em rûah é que a ‘respiração’, com o movimento do ar que ela acarreta, é a expressão externa da força vital inerente em todo o comportamento humano” (E. Kamlah, et. al., Espírito: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,v. 2, p. 124). Por outro lado, recorrendo à figura do vento, podemos dizer que: “… Os hebreus conheciam muito bem o poder do vento. Uma tempestade de areia no deserto é uma potência que pode destruir até homens. Tremendo poder! Quando falam do Espírito de Deus estão pensando no poder de Deus, Seu alento, aquilo que se emite Dele e que sai ao mundo para cumprir Seus propósitos. Na realidade este é o conceito do Espírito no Antigo Testamento, o poder de Deus que sai ao mundo para realizar algum propósito determinado que Deus tem” (Hoke Smith, Teologia Biblica dEl Espiritu Santo,Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1976, p. 14-15). Veja-se: também, A.B. Davidson, The Theology of the Old Testament, Edinburgh: T. & T. Clark, 1904, p. 193; A.B. Crabtree, Teologia do Antigo Testamento,2. ed. Rio de Janeiro: JUERP., 1977, p. 65-66; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 16-19; Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005,p. 362.

[3] Geerhardus Vos, Biblical Theology: Old and New Testaments, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1985 (Reprinted), p. 238.

[4]Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, p. 17,18.

[5]ARA: “ficou como fora de si”; BJ e ACR: “ficou fora de si”; ARC (1911): “não houve mais espírito nela”.

[6]J. Barton Payne, ahUr: In: R. Laird Harris, ed. Theological Wordbook of the Old Testament, v. 2, p. 836; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, p. 17.

[7] F. Baumgärtel, Pneu=ma: In: G. Friedrich; G. Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan:  Eerdmans, 1982, v. 6, p. 364.  

[8] Ver: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005,p. 362.

[9] 378 vezes em hebraico e 11 em aramaico (Cf. Hans W. Wolff, Antropologia do Antigo Testamento,2. ed.  São Paulo: Loyola, 1983, p. 51). Vejam-se também: J. Barton Payne, hUr: In: R. Laird Harris, ed. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1407 e Wilf Hildebrandt, Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento, São Paulo: Editora Academia Cristã, 2004, p. 17.

[10] Como sabemos, o tetragrama YHWH é o nome pessoal de Deus, considerado pelos judeus como o nome por excelência de Deus. Ele é usado 5321vezes no Antigo Testamento. (Cf. Gottfried Quell, ku/rioj: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament,8. ed. Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., (reprinted) 1982, v. 3, p. 1067). Fretheim fala-nos de cerca de 6800 vezes (Cf. Terence Fretheim, Javé: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 736). hwhy (YHWH), é reconhecido como sendo o nome pessoal, real, essencial e pactual de Deus (hw”hoy>) (Yehovah), o qual não é atribuído a nenhum outro suposto deus ou seres angelicais. “É especialmente no nome Yhwh que o Senhor se revela como o Deus de Graça” (Herman Bavinck, The Doctrine of God,2. ed. Grand Rapids, Michigan:  Eerdmans, 1955, p. 103). Aqui, de modo especial, encontramos a afirmação da imutabilidade de Deus, a confirmação do eterno cumprimento das suas promessas decorrentes do Pacto (Ex 3.13,14; 6.2,3; 15.3; Is 42.8; Os 12.5-6). Deus não muda em seu relacionamento com o seu povo. (Vejam-se: Walter C. Kaiser, Jr., Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 111-112; G. Aulén, A Fé Cristã, São Paulo: ASTE, 1965, p. 131). “O ‘nome’ é Deus em revelação” (Geerhardus Vos, Teologia Bíblica, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 139). (hw”hoy>) (Yehovah) é o nome revelacional de Deus (Ex 3.14-15; 6.2-3), “Eu sou o que sou” ou, “Eu sou o que serei” ou ainda: “Eu serei o que serei”. Porém, a sua origem é disputada entre os eruditos, não se tendo uma opinião consensual. No entanto, é o nome com o qual Deus se manifesta a Moisés e pelo nome que quer ser sempre lembrado. (Uma breve, porém, ótima discussão sobre o assunto temos em Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 144-147. Mais atual, porém, menos crítico: Terence Fretheim, Javé: In: Willem A. VanGemeren, org. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 4, p. 736-741).

Ninguém pode atribuir nome a Deus. Deus não tem nome no sentido de distingui-lo ou descritivo de sua natureza essencial (Veja-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 253). Os nomes fazem parte de sua autorrevelação. O desvelar-se adequado e ao mesmo tempo, acomodatício de suas perfeições aludindo a aspectos de sua identidade santa e perfeita (Veja-se: (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 97). No entanto, nem um nome ou todos os nomes coligados esgotam as suas perfeições. Deus em sua simplicidade, não é composto. Na integridade única de seu ser, há perfeição, totalidade e harmonia absoluta. Deus não tem amor, justiça e santidade, por exemplo, mas, é absolutamente amor, justiça e santidade. É absolutamente absoluto!

            Nós podemos conhecer a Deus como Criador porque Ele ao longo da história tem se dado a conhecer claramente na Criação. Nós, cristãos, podemos conhecê-lo pelo nome porque Ele mesmo se apresentou a nós. O Criador que se mostra na Criação, é o nosso Pai, conforme nos foi dado a conhecer em Cristo, nosso irmão mais velho. Conhecer a Deus sempre é graça!

            No Shemá (“ouve”), o “credo judeu” –, lemos: 4 Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. 5 Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6.4-5).

 O Senhor é o Deus da Aliança que se revelou por meio de seus atos e da sua Lei. É um Deus Pessoal que se relaciona pessoalmente com o seu povo (Ex 3.14). A grandeza de Deus é-nos manifesta de forma concreta por meio de sua revelação. O mistério é enaltecido no ato de Deus desvelar-se. Isso é grandioso demais para nós. (Veja-se: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157). Para uma abordagem mais abrangente, vejam-se: Hermisten M.P. Costa, Eu Creio, no Pai, no Filho e no Espírito Santo, 2. ed. São Paulo: Fiel, 2014; L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 51; H. Bavinck, The Doctrine of God, 2. ed. Grand Rapids, Michigan: W. M. Eerdmans Publishing Co., 1955, p. 102ss.; A.R. Crabtree, Teologia do Velho Testamento, 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1977, p. 64; J. Barton Payne, Hawa: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 346; François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 253-254; J. Barton Payne, The Theology of the Older Testament, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1962, p. 147-149.

[11] Veja-se: B.B. Warfield, A Doutrina Bíblica da Trindade,Leiria: Edições Vida Nova, (s.d.), p. 165.

[12] Wolff acentua que: “A maioria dos textos que tratam da rûach de Deus ou dos homens mostra Deus e o homem em relação dinâmica. O fato de que um homem como rûach é vivo, quer o bem e age com autorização não vem dele mesmo” (H.W. Wolff, Antropologia do Antigo Testamento, p. 60).

[13]Veja-se: Walther Eichrodt, Teologia Del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1975, v. 1, p. 196; Veja-se: também, v. 2, p. 56ss; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, p. 20-24; Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, p. 363.

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