A Pessoa e Obra do Espírito Santo (29)

6.1.5. O Espírito, a Reforma, a autoridade e a interpretação bíblica (continuação)

Lutero

A posição de Lutero (1483-1546), firmada em 1519, é representativa:[1]


Tenho aprendido a atribuir a honra da infalibilidade apenas aos livros aceitos como canônicos. Estou profundamente convencido de que nenhum desses escritores errou. Todos os outros escritores, por mais que se tenham distinguido em santidade ou em doutrina, eu os leio da seguinte forma: Avalio o que eles dizem, não com base no fato de eles mesmos acreditarem que uma coisa é verdadeira, mas apenas na medida em que são capazes de me convencer por meio da autoridade dos livros canônicos ou por uma razão clara.[2]

            Melanchthon (1497-1560) bastante próximo e admirado por Lutero[3] e que  mais tarde tornou-se também amigo de Calvino, em 19 de setembro de 1519, respondendo a questões para obter o Baccalaureus biblicus (Prelecionador bíblico), afirma: “Não é necessário para um católico crer em quaisquer outros artigos de fé que não aqueles dos quais a Escritura é testemunha. A autoridade dos concílios está abaixo da autoridade das Escrituras”.[4] 

            Os dizeres da Confissão Gaulesa (Capítulo 5) resumem bem o espírito que orientou a aceitação dos Credos pelos Reformadores:

Concluímos que nem a antiguidade, nem os costumes, nem a maioria, nem sabedoria humana, nem julgamentos, nem prisões, nem as leis, nem decretos, nem os concílios, nem visões, nem milagres podem se opor a esta santa Escritura, mas ao contrário, todas as coisas devem ser examinadas, regulamentadas e reformadas por ela. Neste espírito, nós reconhecemos os três símbolos, a saber:      O Credo dos Apóstolos, de Nicéia, e de Atanásio, porque eles estão de acordo com a Palavra de Deus.[5] (Destaques meus).

       Do mesmo modo, declararia posteriormente (1580), a Fórmula Concórdia:

Cremos, ensinamos e confessamos que somente os escritos proféticos e apostólicos do Antigo  e do Novo Testamento são a única regra e norma, segundo a qual devem ser atualizadas e julgadas, igualmente, toda as doutrinas e todos os mestres. (…) Outros escritos, entretanto, dos antigos ou dos novos mestres, seja qual for o nome deles, não devem ser equiparados à Escritura Sagrada, porém, todos lhe devem ser completamente subordinados. (…) Dessa maneira, retém-se a distinção entre a Sagrada Escritura do Antigo e do Novo Testamento e todos os demais escritos, ficando somente a Escritura Sagrada como o único juiz, regra e norma, de acordo com que, como única pedra de toque, todas as doutrinas devem e têm de ser discernidas e julgadas quanto a serem boas ou más, correta ou incorretas. Os demais Symbola, todavia, e os outros escritos citados, não são juízes como o é a Escritura Sagrada….[6] (Destaques meus).

            Este princípio permaneceu com grande vitalidade nos sistemas reformados, inclusive, como princípio metodológico na reflexão e elaboração teológica.[7]

Maringá,  26 de outubro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Embora saibamos que a posição de Lutero não seja sempre clara em seus diversos escritos, assumindo posições multifacetadas (Cf. Richard A. Muller, Post-Reformation Reformed Dogmatics, v. 2 – Holy Scripture: The cognitive foundation of theology,Grand Rapids: Baker Academic, 2003, p. 66ss.). Ilustro.  Lutero tinha um critério próprio para avaliar a importância dos livros Canônicos. Ele expõe o seu critério no Prefácio de Tiago (1546), dizendo: “Esta é, também, a verdadeira pedra de toque para se criticar todos os livros: verificando se eles promovem Cristo ou não, uma vez que toda Escritura aponta para Cristo, Rm 3. E S. Paulo só quer saber de Cristo, 1 Coríntios 2. O que não ensina Cristo ainda não é apostólico, mesmo que S. Pedro ou Paulo o ensinem. Por outro lado, o que prega a Cristo seria apostólico, mesmo que fosse feito por Judas, Anás, Pilatos e Herodes” (Martinho Lutero, Prefácio às Epístolas de S. Tiago e Judas: In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Comissão Interluterana de Literatura; Sinodal; Concórdia, 2003, v. 8, p. 154).

Foi partindo deste princípio,  subjetivo e insatisfatório em sua aplicação, que Lutero atreveu-se a traçar um grau de importância entre os Livros, especialmente nos do Novo Testamento. Desta forma, no seu Prefácio ao Novo Testamento (1522), escreveu: “Pois o Evangelho segundo João e as epístolas de Paulo, em especial, aquela aos Romanos e a Primeira Epístola de Pedro são o bom cerne e a medula dentre todos os livros. Esses deveriam, perfeitamente, ser os primeiros. (…) Também as epístolas de Paulo e Pedro superam, em muito, os três evangelhos de Mateus Marcos e Lucas. (…) O Evangelho segundo João e sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, particularmente, as dirigidas aos romanos, aos gálatas, aos efésios e a Primeira Epístola de Pedro, são livros que te apresentam Cristo e te ensinam tudo que é necessário e bom saber, ainda que jamais visses ou desses ouvidos a qualquer outro livro ou doutrina. Por isso, a Epístola de Tiago é uma epístola de palha comparada às outras, pois ela, de qualquer forma, não tem característica evangélica” (Martinho Lutero, Prefácio ao Novo Testamento: In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Comissão Interluterana de Literatura; Sinodal; Concórdia, 2003, v. 8, p. 127). Falando ainda sobre a Epístola de Tiago diz: “Não a considero escrito apostólico” porque contraria os escritos de Paulo, Pedro e as demais Escrituras. Supõe também que Tiago teria vivido muito tempo depois de Pedro e Paulo. (Martinho Lutero, Prefácio às Epístolas de S. Tiago e Judas: In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, v. 8, p. 153-154). Quanto ao Apocalipse, seguindo a dúvida e ambiguidade de Eusébio (Eusébio de Cesárea, História Eclesiástica, Madrid: La Editorial Católica, S. A. (Biblioteca de Autores Cristianos, v. 349 e 350), III.25.2,4; III.39.6; VII.25.1ss) e, talvez a Erasmo, que tinha a mesma posição (Cf. W. G. Kümmel, Introdução ao Novo Testamento, São Paulo: Paulinas, 1982, p. 620: B. F. Westcott, El Cânon, Barcelona: CLIE, (s.d.), p. 231-232), não o considerava nem apostólico nem profético. “Tendo em vista essa interpretação incerta a esse sentido oculto, nós, até agora, também o deixamos de lado….” (Martinho Lutero, Prefácio ao Apocalipse de S. João: In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Comissão Interluterana de Literatura; Sinodal; Concórdia, 2003, v. 8, p. 155). Deve ser dito que Zuínglio, que fora discípulo de Erasmo na juventude (Cf. Timothy George, Teologia dos Reformadores, p. 111; B. Hägglund, História da Teologia, Porto Alegre, RS.: Casa Publicadora Concórdia, 1973, p. 220),  jamais pregou sobre o Apocalipse, justamente por ter dúvida quanto à sua autenticidade (Cf. G. R. Potter, Zwingli, Cambridge: Cambridge University Press, 1976, p. 61). Os comentários de Calvino, ainda que não saibamos o motivo (Ele não entendia?), de quase toda a Escritura também não incluem o Apocalipse. No caso de Calvino, a minha opinião é que ele não teve tempo para se deter nesse livro. Além disso, a preocupação dos primeiros reformadores estava dirigida para outros pontos da teologia além de considerem tenebrosas as especulações dos fanáticos de sua época (Quanto a isso, veja-se:  (H. Quistorp,  Calvin’s Doctrine of the Last Things,  Eugene, Oregon: Wipf & Stock, © 1955, 2009, p. 11-13).

No que ser refere à opinião de Lutero a livros do Antigo Testamento, podemos encontrar o sumário de algumas de suas posições em: Martinho Lutero, Conversas à Mesa, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, p. 24-27.

 Referindo-se ao critério de Lutero para identificar um livro profético ou apostólico, observou Harrison (1920-1993): “Por razões óbvias, esta norma não se podia aplicar diretamente ao Antigo Testamento sem alguma dificuldade, e foi principalmente devido a isto que Lutero nunca empreendeu uma revisão do cânon do Antigo Testamento, ainda que em forma uniforme enfatizasse que o próprio Antigo Testamento reclamava seu sentido mais pleno em proporção à medida em que apontava para o evangelho de Cristo” (R. K. Harrison, Introduccion al Antiguo Testamento, Jennison, Michigan: T.E.L.L., 1990, v. 1, p.18).

[2] Martinho Lutero, WA, 2.618. Apud  John W. Montgomery, Lessons from Luther on the Inerrancy of Holy Writ: In: John W. Montgomery, ed., God’s Inerrant Word: An International Symposium on the Trustworthiness of Scripture,  Minneapolis: Bethany Fellowship, ©  1974, 2015, (p. 65-95), p. 86.

[3] Veja-se por exemplo: Martinho Lutero,  Conversas à Mesa,  Brasília, DF.: Monergismo, 2017, p. 25, 35.

[4]Cf. Mark D. Thompson, Sola Scriptura: In: Matthew Barrett, ed. Teologia da Reforma, Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017, [p. 129-164], p. 142-145. Vozes como essa já brotavam aqui e ali entre alguns líderes católicos. Vejam-se alguns exemplos: Timothy George, Lendo as Escrituras com os reformadores: como a Bíblia assumiu o papel central na Reforma religiosa do século XVI, São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 89.

[5]Wallace (1911–2006) acentua que Calvino “sempre insistiu que a tradição precisava ser constantemente corrigida pelo ensino das Sagradas Escrituras e ser subordinada a elas. Porém, ele sempre foi cuidadoso e criterioso em examinar minuciosamente dentro da tradição o que devia ser rejeitado e o que devia ser aceito. Ninguém foi mais obstinado em manter aquilo que ele tinha experimentado como algo bom, qualquer que fosse sua origem, contanto que sua retenção não atrapalhasse a total sujeição de sua mente e de sua vida à Palavra de Deus ou o desviasse de seguir a Cristo” (Ronald S. Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 11-12)

[6]Fórmula de Concórdia, Introdução: In: Livro de Concórdia,  7. ed. (revisada e atualizada), Canoas, RS.; São Leopoldo, RS.; Porto Alegre, RS.: Concórdia; Sinodal; Ulbra, 2016, p. 499-501.  

[7]Boettner  (1901-1990) resume bem a posição protestante: “Não rejeitamos todas as tradições, mas antes usamo-las judiciosamente até onde elas concordam com as Escrituras e se fundamentam na verdade. Podemos, por exemplo, tratar com respeito e estudar com cuidado as confissões e os pronunciamentos dos concílios de diversas igrejas, particularmente aquelas da antiga Igreja e as do tempo da Reforma. (…) Mas não concedemos a nenhuma igreja o direito de formular novas doutrinas ou tomar decisões contrárias aos ensinamentos das Escrituras. A história da igreja prova de maneira geral e muito claramente que os líderes da igreja e os concílios da igreja podem cometer erros e os cometem, alguns deles sérios” (Loraine Boettner, Catolicismo Romano, São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1985, p. 67).

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