A Pessoa e Obra do Espírito Santo (28)

6.1.5. O Espírito, a Reforma, a autoridade e a interpretação bíblica (continuação)

Rainha Maria: Interpretamos a Escritura de um modo, e eles a interpretam de outro. Em quem devo acreditar? E quem julgará?

John Knox: Devemos crer em Deus que falou claramente em sua Palavra; e, além do que a Palavra ensina, não devemos crer nem em um nem no outro. A Palavra de Deus é clara em si mesma e, se surgir alguma obscuridade em algum lugar, o Espírito Santo, que nunca é contrário a si mesmo, a explica mais claramente em outros lugares; de modo que não pode restar dúvida, mas alguns obstinadamente permanecem ignorantes. – Conversa entre John Knox e a Rainha Maria da Escócia em 1561.[1]

            A Reforma, por sua própria ênfase na autoridade, suficiência e eficácia das Escrituras, gerou grandes exegetas e, como não poderia deixar de ser,  estimulou a exegese bíblica com vistas à melhor compreensão do texto, no intuito de compreender o objetivo não simplesmente do autor humano, mas, do autor divino no registro e preservação do texto para a igreja. Aqui temos, sem dúvida, como não poderia deixar de ser, aspectos de continuidade e descontinuidade na exegese bíblica.[2]

            A convicção da autoridade suficiente das Escrituras que se materializa em traduções para as diversas línguas, a pregação e em seus estudos cada vez mais aprofundados, trouxe frutos magníficos para a igreja e a sociedade em geral. O resultado de sua exegese está diluído nos comentários, compêndios, cartas, sermões e tratados dos mais diversos, dos Reformadores das primeiras gerações.[3]

 Valor e limite da Tradição

            A Reforma revoltou-se quanto à suposta autoridade da tradição independente da Escritura e pretensamente nivelada com ela. Por outro lado, a Reforma não criou a partir de um vácuo, antes, valeu-se da tradição, das contribuições de diversos servos de Deus ao longo da história. “Os reformadores restauraram a Bíblia como tradição cristã autoritária”, conceitua Stanger (1914-1986).[4]

            Os Reformadores – valendo-me da figura em forma de epigrama atribuída por João de Salisbury (c. 1110-1180)[5] a Bernardo de Chartres (1070-1130)[6]  – equivalem a um anão sobre os ombros de gigantes, se valendo das contribuições de seus predecessores, a fim de poder enxergar um pouco além deles e, obviamente, com um referencial, que por vezes, diferia ou ia além, da suficiência das Escrituras.

            Deste modo, a autoridade dos Credos (Apostólico, Nicéia, Calcedônia) era indiscutivelmente considerada pelos reformadores – tendo inclusive Lutero (O Catecismo Maior (1529) e O Catecismo Menor (1529)) e Calvino (Catecismo de Genebra (1536/37 e1541/2) e Confissão Gaulesa (1559)) elaborado Catecismos para a Igreja –; contudo, somente as Escrituras são incondicionalmente autoritativas.[7]

Maringá, 25 de outubro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]John Knox, The History of the Reformation of Religion within the Realm Scotland, Edinburgh: The Banner of Truth Trust, ©1898, 2000 (Reprinted), p. 280.

[2] Veja-se: Richard A. Muller; John L. Thompson, eds., Biblical interpretation in the Era of the Reformation: Essays presented to David C. Steinmetz in honor of his sixtieth birthday,  Grand Rapids, MI.; Cambridge, U.K.: Eerdmans, 1996. Destaco o primeiro capítulo escrito por Richard A. Muller, Biblical Interpretation in the Era of the Reformation: The view from the Middle Ages, p. 3-22, onde o autor faz uma revisão bibliográfica e apresenta os demais textos da coletânea.

[3] “Os reformadores eram grandes exegetas das Escrituras Sagradas. Suas obras teológicas mais incisivas encontram-se em seus sermões e comentários bíblicos. Eles estavam convencidos de que a proclamação da igreja cristã não poderia originar-se da filosofia ou de qualquer cosmovisão auto- elaborada. Não poderia ser nada menos que uma interpretação das Escrituras.     Nenhuma outra proclamação possui direito ou esperança na igreja. Uma teologia que se baseia na doutrina reformada das Escrituras Sagradas não tem nada a temer com as descobertas precisas dos estudos bíblicos modernos” (Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1993, p. 313).

[4] Frank B. Stanger, Tradição: In: Carl Henry, org. Dicionário de Ética Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 583.

[5] Cf. N. Abbagnano; A. Visalberghi, Historia de la Pedagogía,p. 203. Parece que esta figura também foi empregada por outro teólogo medieval, “que morreu quase 300 anos antes de Lutero nascer….”, Pedro de Blois. (Cf. Timothy George,Teologia dos reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 23). Newton mais tarde (05/02/1676)(ou 1675?) em carta a Robert Hooke (1635-1703) – seu ferrenho adversário (Cf. Paolo Casini, Newton e a Consciência Européia, São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995, p. 26ss. Comparar com: Umberto Eco, Nos ombros dos gigantes: escritos para La Milanesiana, 2001-2015, Rio de Janeiro: Record, 2018, p. 22-23) -, supostamente referindo-se a Kepler (1571-1630), Galileu (1564-1643) e Descartes (1596-1650), entre outros, também faria uso desta analogia. (Vejam-se: N. Abbagnano; A. Visalberghi, Historia de la Pedagogía,p. 280; Stephen Hawking, Os Gênios da Ciência: Sobre os ombros do Gigante: as mais importantes ideias e descobertas da física e da astronomia, Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2005, p. XI, 441. Quanto à tentativa de estabelecer uma genealogia da figura, valendo-se dos trabalhos de Édouard Jeauneau (1924-2019) e Robert Merton (1910-2003) veja-se: Umberto Eco, Nos ombros dos gigantes: escritos para La Milanesiana, 2001-2015, Rio de Janeiro: Record, 2018, p. 11ss. Especialmente, p. 22ss.). Para um estudo mais detalhado, veja-se: Robert K. Merton, A hombros de gigantes: postdata Shandiana, Barcelona: Edicions 62, 1990). Essa edição espanhola, rara e caríssima, está disponível em: https://pdfslide.net/documents/merton-robert-k-a-hombros-de-gigantes.html?h=myslide.es   (Consulta feita em 25.10.2020).

[6]“Bernardo de Chartres dizia que somos como anões sobre os ombros de gigantes, de modo que podemos ver mais longe que eles, não em virtude de nossa estatura ou da acuidade de nossa visão, mas porque, estando sobre seus ombros, estamos acima deles” (Apud  Umberto Eco, Nos ombros dos gigantes: escritos para La Milanesiana, 2001-2015, Rio de Janeiro: Record, 2018, p. 22).

[7] Ver: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 109-110. Referindo-se aos primeiros séculos do Cristianismo, McGrath afirma: “A tradição era vista como um legado dos apóstolos, por meio da qual a igreja era guiada em direção a uma correta interpretação das Escrituras. Ela não era encarada como uma ‘fonte secreta de revelação’, em acréscimo às Escrituras, uma ideia que Irineu rejeitava e considerava ‘gnóstica’. Antes, a tradição era vista como um meio de assegurar que a igreja permanecia fiel aos ensinamentos apostólicos, em vez de adotar interpretações bíblicas que fossem idiossincráticas” (Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005,p. 50). (Igualmente: Alister E. McGrath, Teologia Histórica: uma introdução à história do Pensamento Cristão, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 44).

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