Pular para o conteúdo
Hermisten Maia

A Pessoa e Obra do Espírito Santo (166)

Rev. Hermisten Maia6 min de leitura

Regeneração, Justificação e Santificação

O Espírito é vida, sendo a fonte e o doador da vida: “**Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte”(Rm 8.2/Jo 6.63; 2Co 3.6; Gl 6.8). Por intermédio do Espírito fomos recriados para que possamos responder com fé à Palavra reivindicatória de Deus (Jo 3.5,6,8/Tt 3.5).

A regeneração antecede a fé: Antes, estávamos mortos, portanto, incapazes de atender as reivindicações de Cristo e de ver o glorioso Reino de Deus. É o Espírito Q

quem nos capacita a receber a graça,1 iniciando uma nova vida em nossos corações, na qual temos os nossos olhos abertos e os corações voltados para a Palavra de Deus.

Antes amávamos o pecado, agora, agrada-nos fazer a vontade de Deus (Sl 119.16,77,97-105/1Jo 5.1-5). O Espírito infunde em nós uma nova disposição que nos conduz em direção à vontade de Deus em uma santa e prazerosa obediência.

Os Cânones de Dort (1618-1619) declaram:

De acordo com o testemunho da Escritura, inspirada pelo próprio autor dessa obra, regeneração não é inferior em poder à criação ou à ressurreição dos mortos. Consequentemente todos aqueles em cujos corações Deus opera desta maneira maravilhosa são, certamente, infalível e efetivamente regenerados e de fato passam a crer. Portanto a vontade que é renovada não apenas é acionada e movida por Deus mas, sob a ação de Deus, torna-se ela mesma atuante.2

Assim também a graça divina da regeneração não age sobre os homens como se fossem máquinas ou robôs, e não destrói a vontade e as suas propriedades, ou a coage violentamente. Mas a graça a faz reviver espiritualmente, traz-lhe a cura, corrige-a e a dobra de forma agradável e ao mesmo tempo poderosa. Como resultado, onde dominava rebelião e resistência da carne, agora, pelo Espírito, começa a prevalecer uma pronta e sincera obediência. Esta é a verdadeira renovação espiritual e liberdade da vontade.3

A regeneração é um ato, que dá início a um processo; é, em outras palavras, “o começo de um caminho de vida”.4

O homem não regenerado pode até achar interessante o assunto e tentar mudar o seu comportamento, todavia, isto não resolve a questão: “a razão e a consciência podem levar um homem a mudar de conduta, mas não podem levá-lo a mudar de coração”, escreveu Hodge.5

Se a regeneração é o início da santificação, a justificação é o fundamento judicial da santificação.6 A justificação e a santificação não podem ser separadas, sem se perder de vista a verdadeira dimensão da vida cristã.7

Na justificação, por graça, fomos declarados livres da culpa, amparados na justiça de Cristo. Na santificação, a santidade de Cristo é-nos aplicada internamente pelo Espírito de Cristo, o Espírito de santidade.8

Na regeneração recebemos um coração novo, com uma santa disposição. Na justificação Deus nos declara justos, perdoando todos os nossos pecados, os quais foram pagos definitivamente por Cristo; por isso, já não há nenhuma condenação sobre nós; estamos em paz com Deus, amparados pela justiça de Cristo (Vejam-se: Rm 5.1; 8.1,31-33). Na justificação Deus declara que já não há mais culpa em nós; na santificação Ele nos purifica da corrupção. Na justificação temos uma mudança em nossa condição legal; a santificação envolve uma transformação moral.9

Enquanto não formos gerados por Deus, declarados justos, por intermédio da justificação, não há santificação. “Aqueles que são justificados, também são sempre santificados; aqueles que são santificados sempre foram justificados”, resume Ryle (1816-1900).10

A nossa justificação é pela graça mediante a fé (Gl 3.11; Fp 3.9; Tt 3.4-7).11 “….A fé é o instrumento pelo qual o pecador recebe e aplica a si tanto Cristo como sua justiça”.12

O veredicto de Deus sobre o pecador o considera justo porque ele, pela fé, aceitou a justiça de Cristo. Esta justiça nada tem a ver com obras humanas, antes, é a “justiça de fé”. Se assim não fosse, a fé seria por si mesma meritória, sendo a obra sacrificial de Cristo descartada por sua total inutilidade.13

A nossa argumentação até aqui visa nos dar conta de como o Espírito é o agente ativo de nossas orações. Como Ele nos criou para isso. Fomos criados para nos relacionar com Deus. Caídos, distantes, alienados de Deus, fomos regenerados e reconciliados para que possamos voltar a ter, por graça, uma relação piedosa com o nosso Senhor.

Maringá, 22 de abril de 2021.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


Footnotes

  1. *Confissão de Westminster,*X.2. ↩

  2. *Os Cânones de Dort,*São Paulo: Editora Cultura Cristã, [s.d.], III-IV.12, p. 37-38. ↩

  3. *Os Cânones de Dort,*III-IV.16, p. 39. ↩

  4. Hendrikus Berkhof, *La Doctrina del Espíritu Santo,*Buenos Aires: Junta de Publicaciones de las Iglesias Reformadas; Editorial La Aurora, 1969, p. 78. ↩

  5. Charles Hodge, O Caminho da Vida,p. 280. “O homem pode gabar-se de um grande melhoramento moral, e, todavia, não ter nenhuma experiência da santificação”(Louis Berkhof, Teologia Sistemática,** Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 536). Veja-se: R.C. Sproul, *O Ministério do Espírito Santo,*São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 93ss. ↩

  6. Veja-se: L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 540. ↩

  7. Veja-se: D. M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 100. ↩

  8. Veja-se: Herman Bavinck, *Our Reasonable Faith,*4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 474. ↩

  9. Veja-se: Francisco L. Patton, Compendio de Doutrina e a Egreja, Lisboa: Typ. A Vapor de Eduardo Rosa, 1909, p. 96. ↩

  10. J.C. Ryle, Santificação, São José dos Campos, SP.: FIEL, 1987,p. 53. (Veja-se: também, p. 74). ↩

  11. “E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé” (Gl 3.11). “8Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo 9 e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Fp 3.8-9). *“*4 Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, 5 não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, 6 que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, 7 a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna” (Tt 3.4-7). ↩

  12. Catecismo Maior de Westminster,Pergunta 73. Bavinck, ainda que não de modo convincente, argumenta de forma restritiva quanto à expressão “causa instrumental” atribuída à fé (Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 224-225). ↩

  13. Cf. Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 214. ↩