A Pessoa e Obra do Espírito Santo (152)

6.3.2.2. O privilégio e a responsabilidade dos que pregam

A Palavra de Deus, exclusivamente, deve ser pregada, em sua perfeição e consistência intrínseca. A Escritura é objeto exclusivo de pregação, o único campo onde o pregador deve laborar. – William Perkins (1558-1602).[1]

A preparação da pregação deve ser o dever primordial do pastor. – Karl Barth (1886-1968).[2]

         O declínio da vida e da atividade espiritual nas igrejas é geralmente acompanhada por um tipo de pregação formal, sem vida e infrutífera, e isso parcialmente como causa e parcialmente como efeito. Por outro lado, os grandes reavivamentos da história cristã usualmente remontam à obra do púlpito, e, no decurso do seu progresso, têm desenvolvido e tornado possível um alto nível de pregação. – Edwin C. Dargan (1873-1922). [3]

O segredo essencial não é dominar certas técnicas, mas ser dominados por determinadas convicções. A teologia é mais importante do que a metodologia. – John Stott (1921-2011).[4]

Tenho por hábito, em geral sem me dar conta durante o processo, de me entusiasmar com ideias de familiares, editores, amigos, colegas e alunos. Ao pedirem minha opinião sobre determinada pesquisa ou alguma sugestão bibliográfica fico tão empolgado que quando percebo já estou me vendo planejando, executando e apresentando sugestões.

Dependendo do que me foi solicitado, só avalio o grau de envolvimento na hora de pagar o cartão com “compras no exterior” de livros ou quando percebo quanto tempo disponibilizei para o tal projeto.

          Não raras vezes, fico mais entusiasmado com as ideias do que os proponentes que, talvez tenham apenas pensado alto comigo e eu, como se diz, “viajei”.

Não vou nem falar de orientandos ou mesmo alunos que pedem ajuda para o incipiente trabalho de Monografia, mesmo Dissertação e até Tese, mas, que, na próxima semana já estão com outro tema, por vezes, bastante distinto do primeiro.

Mas, não me arrependo disso. A paixão pelo pesquisar, saber e o descortinar de novas ignorâncias dentro desse equilíbrio dinâmico de saber-ignorância-saber, é fascinante. Além disso, poder ajudar em algo que julgo ter alguma condição, oferece um colorido especial à pesquisa.

Lembro-me de que quando tinha 11 anos trabalhava no balcão de uma padaria num subúrbio do antigo Estado do Rio de Janeiro que divisava com o então Estado da Guanabara. Gostava de atender e servir às pessoas. Descobri que apreciava mais ainda aprender a fazer pão. No entanto, as coisas não eram tão simples e, também a máquina de cilindrar a massa era muito perigosa.

 Tudo para mim era um fascínio, um mundo encantado. Mas, o que mais me encantava, era quando o entregador de pão para os pequenos bares e “vendinhas” faltava. Minutos antes de esgotar o tempo de o entregador chegar, já me candidatava para o serviço, torcendo para que ele não viesse. Afinal, poder levar sacos de farinha de trigo cheios de pão (O cesto oval [de vime?]  cheio de pães, eu não tinha condições de levar no guidão da bicicleta), por aqueles morros, formando um alforge no guidão era incomensuravelmente melhor do que estudar matemática com Ary Quintella (1906-1968) e português com Paschoal Segalla (1920-2013). Contudo, apreciava ler no Tesouro da Juventude as Fábulas do Esopo. O prazeroso era depois de empurrar a bicicleta, aro 28 morro acima, poder descer tendo cumprido a missão. Andar de bicicleta, mesmo sem conseguir alcançar adequadamente o pedal e com freio danificado, era maravilhoso.

O dono da padaria era um jovem português, trabalhador e empreendedor. Um dia minha irmã conversou com ele (eram noivos) a respeito de me pagar uma certa quantia pelo meu trabalho de meio expediente, já que estava no ginásio e estudava à tarde.

Fiquei extasiado com o meu primeiro “pagamento”. Mas, não entendi muito bem. Poder fazer aquilo tudo e ainda receber dinheiro? Isso era demais.

Já não bastava a Fanta laranja que de quando em quando levava de graça para casa? (o que me alegrava muito na época, quando não sabia de sua origem alemã com trabalho escravo e difundindo o nazismo…)

O meu pagamento era o prazer dessas aventuras… Vá entender os adultos.

          Alonguei-me demais. Viajei. Voltemos ao nosso tema.

Agora, imagine poder participar ativamente no grande projeto de Deus estabelecido na eternidade?

Deus de que e quem nada precisa, nos envolve alegremente nos constituindo em seu povo e, como tal, nos envia a anunciar o Evangelho, que também nos alcançou, a outras pessoas, porque foi assim que Ele determinou constituir a sua Igreja. Isso é incomensurável.

Paulo fala aos efésios: A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8). Que maravilhosa graça Deus nos concede. O que poderíamos desejar mais do que sermos envolvidos nesse plano glorioso e majestoso de Deus?

          Mesmo Deus sendo soberano no uso de seus meios para atingir o coração do homem, o chamando eficazmente, Ele opera ordinariamente por intermédio da pregação da Palavra, se valendo de pessoas pecadoras como nós.

          Portanto, seguindo Bannerman (1807-1868), “não há dúvida de que as Escrituras apresentam a glória de Deus como o grande objetivo do estabelecimento de uma igreja no mundo, na salvação dos pecadores, por meio da proclamação do Evangelho”.[5]

          Calvino resume bem esse ponto: “A pregação externa dos homens é o instrumento pelo qual Deus nos atrai à fé. Segue-se que Deus é, estritamente falando, o Autor da fé e os homens são os ministros por meio de quem cremos, como nos preceitua Paulo [1Co 3.5]”.[6]

Como pecadores que foram alcançados por esta graça, somos instrumentos externos por meio dos quais Deus age, tornando pelo Espírito, a Palavra anunciada em algo penetrante e transformador do coração humano.[7]

A semente que plantamos só terá vida e crescimento por meio da graça operante de Deus.[8] É isso que Paulo demonstra aos imaturos coríntios que conferiam um valor idólatra e, ao mesmo tempo, discriminatório, aos seus pastores:

5 Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um. 6 Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. 7 De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. (1Co 3.5-7).

          É fato que Deus utiliza-se de seus servos, mas, o segredo da vida da Igreja está em Deus.[9] A nossa vocação é para o serviço de Deus entre os homens, contudo, o senhor da vocação é o senhor da vida, o senhor de sua igreja:

Deus pode utilizar instrumentos humanos para levar aos homens sua mensagem de verdade e amor; porém somente Ele é o que desperta os corações dos homens para uma nova vida. Como somente Ele criou o coração, somente Ele pode recriá-lo.[10]

          No livro de Atos, constatamos que, enquanto o povo de Deus pregava a Palavra e vivia o Evangelho, o Senhor fortalecia a sua Igreja e chamava eficazmente os Seus:

Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos. (At 2.46-47).
E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor. (At 5.14).
Crescia (au)ca/nw) a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé. (At 6.7).
A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número. (At 9.31).

          Tiago fora martirizado e Pedro miraculosamente liberto. A Igreja continuava perseguida… “Entretanto, a palavra do Senhor crescia (au)ca/nw) e se multiplicava” (At 12.24). “Assim, a palavra do Senhor crescia (au)ca/nw) e prevalecia poderosamente” (At 19.20).

          O livro de Atos, indicando o crescimento da Igreja de Deus, termina falando da prisão e pregação de Paulo em Roma:

Por dois anos, permaneceu Paulo na sua própria casa, que alugara, onde recebia todos que o procuravam, pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo. (At 28.30-31).

Maringá, 06 de abril de 2021.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] William Perkins, The Art of Prophesying, Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1996, p. 9.

[2]Karl Barth, A Proclamacion del Evangelio, Salamanca: Ediciones Sigueme, 1969, p. 83.

[3]Edwin C. Dargan, A History of Preaching, Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 1954, v. 1, p. 13.

[4]John Stott, Eu Creio na Pregação, São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 97.

[5]James Bannerman, A Igreja de Cristo – Um tratado sobre a natureza, poderes, ordenanças, disciplina e governo da Igreja Cristã, Recife, PE.: Editora os Puritanos, 2014, p. 77.

[6]João Calvino, Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2015, v. 2, (Jo 17.20), p. 199.

[7]Como diz Bavinck, “independente do real poder e mérito dessa vocação externa, ela não é suficiente para mudar o coração do homem e efetivamente movê-lo à aceitação do Evangelho” (Hermann Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 458).

[8]Veja-se: Joel R. Beeke, Vivendo para a Glória de Deus: Uma introdução à Fé Reformada, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2012 (reimpressão), p. 130.

[9]“Portanto, mesmo que o cuidado do agricultor não seja ineficiente, e a semente que ele semeia não seja improdutiva, contudo, é tão somente pela bênção de Deus que se torna produtiva” (J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.6), p. 103).

[10] William Barclay, 1 y 2 Corintios, Buenos Aires: La Aurora, 1973, p. 43.

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