Datas Comemorativas

Entre o Labor e o Repouso: A Vocação Humana Coram Deo

Do Éden às Férias, o Chamado ao Serviço e à Adoração

Introdução

            Com a mesma disposição de um cão que gira em torno da almofada antes de se deitar, encontro-me diante da tarefa anual de organizar meu escritório: limpar prateleiras, guardar livros, reposicionar objetos. A mente vacila entre o fazer e o escrever; antes de pôr a mão na massa, já me vejo rascunhando um artigo sobre o próprio assunto. Talvez eu negocie comigo mesmo: de dia, mexo nas estantes; à noite, escrevo. Veremos.

            Esse gesto, aparentemente simples, carrega um peso simbólico: cada papel recolhido, cada livro reencontrado, cada lembrança revisitada é também uma forma de percorrer novamente o próprio caminho.

            Arrumar o escritório não é apenas alinhar objetos, mas alinhar pensamentos. É rito de passagem e exercício espiritual: o trabalho, por vezes árduo e repetitivo, molda-nos com sua cadência; o descanso nos permite respirar fundo e reconhecer nossa fragilidade, nossos limites, e a necessidade de recreação (re-creare). O labor nos dá forma; o repouso nos dá fôlego. Ambos, quando vividos com gratidão, tornam-se atos de culto diante de Deus − fortalecendo-nos, alegrando-nos e orientando-nos no caminho da vocação.

            Assim, entre caixas e livros, percebo que cada esforço é também oração, e cada pausa é louvor. O cão se deita, finalmente, e eu encontro meu lugar: no equilíbrio entre o fazer e o repousar, entre o peso das tarefas e a leveza da contemplação.

            Preciso de uma escada. Há prateleiras a arrumar, a grama a cortar, a casa a dedetizar, o guarda-roupa a consertar. São muitas tarefas; é preciso dividi-las, como um cartesiano que enfrenta as dificuldades passo a passo, para não desanimar

            Desde o Éden, o homem foi chamado a cultivar e guardar o jardim (Gn 2.15). O trabalho, portanto, não é mero expediente econômico, mas parte da vocação dada por Deus. Ao lado dele, o descanso e o lazer não se opõem, mas se completam. Este ensaio busca refletir sobre a importância do labor e das férias, considerando que ambas as dimensões podem e devem ser vividas para a glória de Deus. (1Co 10.31).

Trabalho como Vocação

            A tradição reformada enfatiza que todo trabalho, quando realizado coram Deo (diante da face de Deus), é digno e honroso. João Calvino (1509-1564) lembra que não há labor insignificante aos olhos do Senhor, desde que seja feito em fidelidade ao chamado divino.[1] Martinho Lutero (1483-1546) sintetiza: “Trabalhe e deixe Deus dar os frutos”.[2] Abraham Kuyper (1837-1920) amplia essa visão ao afirmar que, em qualquer atividade − seja agricultura, comércio, arte ou ciência − o homem está constantemente diante de Deus.[3]

            O trabalho, portanto, não é apenas meio de subsistência, mas expressão de serviço e adoração. Ele integra fé e prática, tornando-se parte da espiritualidade cotidiana. Como observa Warfield (1851-1921), a religião não retira o homem de seu labor, mas o conduz a exercê-lo com devoção crescente.[4]

Férias: Trabalho em Outra Forma

            O lazer está associado a uma mudança de atividade, possuindo um aspecto objetivo e outro subjetivo. Objetivo, porque a mudança é concreta; subjetivo, porque depende da forma como encaramos a atividade. Um jogador profissional vê treinos e jogos como trabalho, enquanto um jardineiro comum pode reunir amigos para jogar futebol como recreação.

            Curiosamente, o atleta pode encontrar descanso cuidando de seu jardim, e o jardineiro, em férias, pode sentir prazer ao cultivar as flores da família. O lazer não se define pela ausência de esforço, mas pela perspectiva subjetiva. Posso sair mais cansado de uma recreação do que de meu trabalho cotidiano. A diferença está em como encaro cada atividade.

            Oliver Barclay (1919-2013) destaca que o cristão precisa de equilíbrio entre trabalho e recreação, evitando tanto o ativismo quanto a ociosidade.[5] O descanso, portanto, é também uma forma de trabalho, mas exercido de maneira distinta, voltada à renovação e ao cultivo da vida comunitária.

Trabalho, Lazer e Glória de Deus

            A reflexão cristã aponta que tanto o trabalho quanto o lazer devem ser vividos para a glória de Deus. William Tyndale (1494?-1536) lembra que “há uma diferença entre lavar louças e pregar a palavra de Deus; mas no tocante a agradar a Deus, nenhuma em absoluto”.[6] Nancy Pearcey observa que a existência ideal não é lazer eterno, mas esforço criativo para a glória de Deus e benefício do próximo.[7] Vern Poythress reforça que todas as formas lícitas de trabalho são honrosas quando feitas para servir a Cristo.[8]

            Assim, tanto o labor quanto o descanso tornam-se momentos de culto, expressando gratidão e dependência da providência divina. O cristão é chamado a viver cada instante coram Deo, consciente de que sua vida se desenrola na presença, sob a autoridade e para a glória de Deus.

Implicações Éticas e Espirituais

            A consciência de que toda atividade é realizada diante de Deus gera implicações éticas:

  • O trabalho não pode ser feito de forma descuidada ou descompromissada.
  • O lazer não deve se transformar em idolatria ou fuga irresponsável.
  • O equilíbrio entre ambos promove saúde espiritual e testemunho cristão no mundo.

            Calvino ressalta que a vida cristã implica não buscar apenas o que é nosso, mas aquilo que é da vontade do Senhor e que redunda em sua glória. Assim, tanto o trabalho quanto o lazer devem ser vividos com responsabilidade, dedicação e gratidão.[9]

Considerações finais

            O trabalho dignifica o homem e o lazer o renova. Ambos, quando vividos coram Deo, tornam-se expressão de adoração. Nas férias, não deixamos de trabalhar; apenas mudamos a forma de exercer nossas atividades. O chamado cristão é viver cada instante − seja no esforço diário ou no descanso que, por vezes, também nos exige energia − para a glória de Deus.

            Assim, trabalho e lazer não se opõem, mas se entrelaçam na vocação humana de servir ao Criador com alegria e fidelidade. O labor nos molda; o repouso nos restaura. Juntos, compõem a cadência da vida que se transforma em louvor.

            Hoje organizei seis estantes; restam ainda muitas outras (umas vinte). Amanhã, se o Senhor permitir, retomo meu descanso ativo, dividindo as tarefas passo a passo. Finalmente encontro meu lugar na cadeira do descanso, onde o labor se transforma em louvor e o repouso em gratidão.

Abraço fraterno a todos.

Maringá, 08 de janeiro de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 77.

[2]Martin Luther, Psalm 147: In: Jaroslav Pelican, ed., Luther’s Works, St. Louis: Concordia Publishing House, 1958, v. 14, p. 114.

[3] Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 63.

[4] B.B. Warfield,  A Vida Religiosa dos Estudantes de Teologia, São Paulo: Editora os Puritanos, 1999, p. 11.

[5] Oliver Barclay, Mente Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 89. 

[6] Apud Leland Ryken, Santos no Mundo, São José dos Campos, SP.: FIEL, 1992, p. 40. Citado também em:  Leland Ryken, Redeeming the Time: A Christian Approach to Work and Leisure, Grand Rapids, MI.: Baker Academic, 1995, p. 104.

[7]Nancy Pearcey, Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural, Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 53.

[8] Vern S. Poythress, O Senhorio de Cristo: servindo o nosso Senhor o tempo todo, em toda a vida e de todo o nosso coração, Brasília: Monergismo, 2019, p. 80.

[9] João Calvino, As Institutas, III.7.2.

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