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Trabalho, Riqueza e Solidariedade: A Atualidade da Ética Calvinista

Como a visão de João Calvino sobre providência, vocação e justiça econômica ilumina os dilemas do século XXI

    

Ao organizar uma estante de livros, revisitamos ideias que moldaram séculos de reflexão cristã. A teologia reformada representada por João Calvino (1509-1564) não se limita à especulação doutrinária: ela se traduz em implicações sociais, econômicas e éticas que orientam a vida comunitária e pessoal.

     A doutrina da providência, central em sua teologia, fundamenta uma prática cristã que envolve trabalho, uso da riqueza, solidariedade e justiça. Para Calvino, a fé verdadeira deve gerar piedade prática: comportamentos concretos que refletem confiança em Deus e amor ao próximo

1. Trabalho como vocação

     O trabalho é vocação divina, expressão de obediência e serviço ao Criador. O cristão não trabalha apenas para si, mas como parte de sua missão de glorificar a Deus e servir ao próximo.

     Calvino observa que, mesmo em meio às fadigas, os fiéis podem viver com serenidade, pois seu labor está inserido no plano providencial: “Os fiéis […] embora vivam uma vida laboriosa, seguem sua vocação com mentes serenas e tranquilas. Assim, as mãos dos fiéis não são ociosas, mas a sua mente descansa na quietude da fé, como se estivessem dormindo.”[1]

     Assim, o trabalho é dignificado como participação no governo de Deus, afastando tanto a ociosidade quanto a ansiedade.

2. Poupança e frugalidade

     A frugalidade ocupa lugar central na ética reformada. Calvino adverte contra o luxo e a dissipação, defendendo o uso moderado dos recursos como sinal de gratidão e responsabilidade diante de Deus.[2]

     A poupança não é acumulação egoísta, mas prudência que garante estabilidade e permite socorrer os necessitados.

            Não podemos confiar nas riquezas mas, em Deus que, se lhe aprouver, nos concede tais bens. A administração sábia dos bens é vista como mordomia: tudo pertence a Deus, e o cristão é chamado a gerir seus recursos com sobriedade e generosidade.

Quando não percebemos isso, cometemos tremendo equívoco, atribuindo aos bens passageiros, o que pertence apenas a Deus:

É unicamente Deus quem provê todas as coisas para os propósitos necessários de nossa vida, e quando depositamos nossa confiança nas riquezas, na verdade estamos transferindo para elas as prerrogativas que pertencem exclusivamente a Deus. Note-se o contraste implícito ao dizer que Deus distribui literalmente com todos. O significado é o seguinte: mesmo que possuamos plena e rica abundância de todas as coisas, na verdade tudo quanto possuímos procede da mercê divina. É tão-somente sua generosidade que nos supre de tudo quanto carecemos. Segue-se que é um terrível equívoco confiar nas riquezas e não depender completamente da mercê divina, na qual há para nós suficiência, alimento e tudo mais. Portanto, concluímos que somos proibidos de confiar nas riquezas, não apenas com base no fato de que pertençam só a esta vida mortal, mas também porque não passam de fumaça. Nossa nutrição não procede apenas do pão [material], mas de toda a munificência divina [Dt 8.3].[3]

            A frugalidade protege contra excessos e mantém o coração livre para a generosidade.   O acúmulo não é fim em si mesmo, mas meio para servir e socorrer.

3. Solidariedade e ajuda aos pobres

            A providência divina se manifesta também por meio da solidariedade cristã. O socorro aos necessitados é parte integrante da vida de fé. Calvino incentivava a criação de instituições de apoio, como hospitais e escolas, e defendia que o trabalho e a geração de emprego eram meios concretos de aliviar a pobreza.

     Turretini (1623-1687) resume:

Da confiança na providência provém a mais profunda consolação e incrível tranquilidade mental para os santos. Ela os leva a repousar serenamente no seio de Deus e a encomendar-se inteiramente ao seu paternal cuidado, esperando sempre dele o bem no futuro, não duvidando de que Ele sempre cumprirá o ofício de um Pai para com eles, conferindo o bem e afastando os males; exemplos disso temos em Davi (1Sm 17.37; Sl 23.1,4,6) e em Paulo (2Tm 4.17,18). Sentem eles que sob a proteção de Deus (o qual tem todas as criaturas em seu poder), não negligenciando indolentemente os meios, nem preocupadamente pondo neles a confiança, usando-os, porém,  prudentemente segundo o seu mandamento, lançam todos os seus cuidados sobre o Senhor (1Pe 5.7) e, em todas as suas perplexidades, sempre exclamam com o pai dos fiéis: ‘O Senhor proverá’.”[4]

     Assim, a certeza do cuidado de Deus não nos deve conduzir à letargia, antes a nos tornar agentes deste cuidado. Devemos ter em vista que o cuidado de Deus envolve pessoas das quais ele cuida e, ao mesmo tempo, pessoas por meio das quais ele assiste. Desse modo, somos agentes ordinários de Deus − ainda que não tenhamos o discernimento constante deste fato em nossas ações − no seu socorro. Muitas vezes, em nossas ações ordinárias estamos sendo agentes de Deus em resposta a orações dos fiéis.

            Essa confiança se traduz em ação: o cristão é chamado a ser canal da providência para os aflitos, promovendo dignidade por meio da caridade e da geração de oportunidades.

4. Preço justo e uso da riqueza

     Calvino rejeita a exploração econômica e insiste na justiça nas relações comerciais. O preço justo deve equilibrar lucro e equidade, evitando abusos contra os mais frágeis.

     Ainda que o empréstimo a juros fosse permitido[5] ‒ prática tão comum na Europa há muitos séculos antes de Calvino[6] ‒  o trabalho honesto, fruto do nosso labor é que deve ser a fonte de recursos para a manutenção de nossa família. Também, a piedade não pode ser esquecida em todas as nossas transações. Portanto, não devemos nos aproveitar das necessidades alheias, vivendo, simplesmente, de transações financeiras. Um princípio justo é que em todas as negociações, haja benefícios para ambas as partes.

     A riqueza legítima é fruto do labor e da boa administração, mas sempre subordinada ao serviço e à piedade.

            Aqui se vê a ética reformada como crítica ao acúmulo egoísta e como incentivo ao uso responsável dos bens.

5. Riqueza e pobreza diante de Deus

            O cristão é chamado a viver com contentamento, seja na abundância ou na escassez. Na riqueza, gratidão e generosidade; na pobreza, confiança e perseverança. Em ambos os casos, a vida testemunha a suficiência divina: “Nada é mais seguro do que tomar a Deus como guardião e defensor de nossas vidas.”[7]

     A fé não elimina as dificuldades, mas sustenta paciência e gratidão, lembrando que Deus governa todas as coisas.

     Portanto, o comportamento cristão na riqueza e na pobreza é moldado pela fé. O rico deve viver com humildade, reconhecendo que tudo provém da providência. O pobre deve descansar na certeza de que Deus não abandona seus filhos.[8]

6. Dons e serviço como expressão da providência

     Os dons são talentos concedidos por Deus para a edificação da comunidade. A verdadeira espiritualidade não se limita ao culto, mas se expressa em ações de justiça e misericórdia. Ao socorrer nossos irmãos, tornamo-nos canais da graça divina, por meio da qual Deus age na história. Assim, a providência não é apenas contemplada, mas vivida na prática da solidariedade.

            A doutrina da providência não isenta o cristão da responsabilidade; ao contrário, o convoca a ser instrumento do cuidado divino. Como ensina Calvino: “Sempre que o Senhor nos mantém em suspenso e retarda seu socorro, não significa que Ele esteja inativo, mas, ao contrário, que regula suas operações de tal modo que só age no tempo determinado.”[9]

Considerações finais

     A ética social de João Calvino permanece atual como um chamado à responsabilidade e ao serviço. O trabalho como vocação, a frugalidade como resistência ao consumismo, a solidariedade como resposta às desigualdades e a justiça econômica como expressão da fé revelam que a providência divina não é apenas contemplada, mas vivida no cotidiano.

     Num cenário marcado por transformações tecnológicas, excessos materiais e desigualdades persistentes, a visão reformada recorda que a verdadeira riqueza está em servir ao próximo e reconhecer que tudo provém da graça de Deus. Fé e prática se unem, e o cristão é convocado a ser instrumento da providência, testemunhando que a confiança em Deus gera justiça, dignidade e esperança.

     Ao dialogar com os dilemas contemporâneos, a reflexão de Calvino ilumina questões urgentes: o trabalho como dignidade em tempos de automação, a frugalidade como alternativa ao consumismo e a solidariedade como resposta às desigualdades sociais. Esses princípios, longe de serem apenas históricos, oferecem inspiração para uma vida marcada pela gratidão, pelo equilíbrio e pelo compromisso com o bem comum.

     Assim, a visão social de Calvino une fé e prática: o cristão é chamado a viver com humildade na abundância e perseverança na escassez, reconhecendo que tudo provém da providência divina. Ao servir ao próximo, participa do agir de Deus no mundo, tornando-se instrumento de sua graça e cuidado.

Maringá, 13 de janeiro de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] João Calvino, Salmos,  São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2009, v. 4,  (Sl 127.2), p. 378-379.

[2] Vejam-se: João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 8.15), p. 177;  João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, p. 45. É interessante notar que em 1513, N. Maquiavel (1469-1527), na sua obra O Príncipe, dedicada a dedicatória a Lorenzo II de Médici (1492-1519), diz: “…. um príncipe deve gastar pouco para não ser obrigado a roubar seus súditos; para poder defender-se; para não se empobrecer, tornando-se desprezível; para não ser forçado a tornar-se rapace; e pouco cuidado lhe dê a pecha de miserável; pois esse é um dos defeitos que lhe dão a possibilidade de bem reinar” (N. Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 9), 1973, p. 72). (destaques meus). É muito interessante a análise do sociólogo Rodney Stark (1934-2022), sobre as leis pró-frugalidade, existentes, inclusive, antes da Reforma, na Itália. Podemos observar que os princípios defendidos são em geral de ordem econômica e pessoal, não teológico-social. (Rodney Stark, A vitória da razão: como o cristianismo gerou a liberdade, os direitos do homem, o capitalismo e o milagre econômico do Ocidente, Lisboa: Tribuna da História, 2007, p. 170-172).

[3]João Calvino, As Pastorais,  São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 6.17), p. 182.

[4]François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 676). 

[5] “O lucro que obtém alguém que empresta seu dinheiro no interesse lícito, sem fazer injúria a quem quer que seja, não está incluído sob o epíteto de usura ilícita. (…) Em suma, uma vez que tenhamos gravada em nossos corações a regra de equidade que Cristo prescreve em Mateus: ‘Portanto, tudo quanto quereis que os homens vos façam, fazei-lhes também o mesmo’ (7.12), não será necessário entrar em longa controvérsia em torno da usura” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 15.5), p. 299). Calvino fazia uma distinção importante entre o “empréstimo de consumo ou de assistência” e o “empréstimo de produção ou de aplicação”. Aquele visava socorrer aos necessitados, sendo improdutivo para o devedor. Este, o devedor, com o seu trabalho poderia adquirir uma ampliação desses recursos. Os juros neste caso seriam legítimos (Veja-se, por exemplo: John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 12, (Ez 18.5-9), p. 225-228; v. 3/1 (Êx 22.25); p. 126-133; (Ez 28.1-9). Inspirado em Calvino, argumenta Turretini: “É justo que aquele que recebe benefício do dinheiro de outro o faça também participante dele, de cujo auxílio ele ganha este benefício, como uma compensação devida” (François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 2, p. 165). Do mesmo modo, escreveu de forma comparativa Marvin Olasky: “Ele entendia que os empréstimos que desenvolvessem um negócio são diferentes dos empréstimos feitos a um homem faminto – e que lucrar no primeiro caso é algo legítimo” (Marvin Olasky, O Roteiro Secular no Teatro de Deus: Calvino sobre o significado cristão da vida pública, In: John Piper; David Mathis, eds. Com Calvino no Teatro de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, [p. 79-91], p. 87). (Ver: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 588; Ronald S. Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 79-80). Alguns princípios de Calvino a respeito deste tema foram expostos em uma carta (07/11/1545), escrita em resposta às indagações de seu amigo Claude de Sachin. Biéler analisa esta carta e outras passagens nas quais Calvino se posiciona sobre o assunto (Ver: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 585ss). Em 1580, Beza, juntamente com outros pastores, opõem-se veementemente à criação de um Banco em Genebra, entendendo que as riquezas trazem consigo implicações indesejáveis, tais como o luxo, frivolidades, amor ao prazer, etc., todas incompatíveis com Genebra, que deseja preservar a já conhecida moderação dos costumes (Ver: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 239-240; 663 (nota 1636); André Biéler, O Humanismo Social de Calvino, São Paulo: Edições Oikoumene, 1970, p. 66-67; André Biéler, A Força Oculta dos Protestantes, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, especialmente, p. 132-134; R.H. Tawney, A Religião e o Surgimento do Capitalismo, São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 124). Quanto às lutas de Genebra lideradas por Beza quanto à prática de juros extorsivos, trapaça nos negócios (tecelão que vende o tecido com uma polegada mais estreita) e preços exorbitantes (alfaiates e dentistas que cobram preços muito elevados pelos seus serviços), vejam-se: Eugène Choisy, L’ État Chrétien Calviniste a Genève au Temps de Théodore de Bèze, Genève: Ch. Eggimann & Cie Éditeurs, [s.d.], especialmente, p. 436ss. Ainda que Choisy tenha muitas informações importantes, sendo elogiado por Tawney que confessa sua dívida para com ele (R.H. Tawney, A Religião e o Surgimento do Capitalismo, São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 122), Biéler, com razão, faz críticas recorrentes a algumas de suas interpretações (Ver: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, como por exemplo, na página 185).

     A história da igreja registra opiniões diferentes e divergentes a respeito do assunto, ainda que sustentando princípios semelhantes, como o do “justo preço” (Aquino [1225-1274], Escoto  [c. 1266-1308]  e Pedro de Olivi [c. 1248-1298]) e do socorro aos menos favorecidos, as posições variavam.

Tomás de Aquino (1225-1274), mesmo defendendo o direito de propriedade, admite a possibilidade do roubo em caso de penúria extrema. (“Ora, sendo muitos os que padecem necessidades, e não podendo uma mesma coisa socorrer a todos, ao arbítrio de cada um é cometido dispensar os bens próprios para assim obviar aos necessitados. Contudo, se a necessidade for de tal modo evidente e imperiosa que seja indubitável o dever de obviá-la com as coisas ao nosso alcance – por exemplo, quando corremos perigo iminente de morte e não é possível salvarmo-nos de outro modo – então podemos licitamente satisfazer à nossa necessidade com as coisas alheias, apoderando-nos delas manifesta ou ocultamente. Nem tal ato tem propriamente a natureza de furto ou rapina” (S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, IIa. 2.66, a.7) (Disponível: https://sumateologica.files.wordpress.com/2017/04/suma-teolc3b3gica.pdf) (Consulta feita em 13.01.2026).

[6]Essa posição nunca foi unânime. Mesmo a igreja romana condenando o lucro,  a sua prática   não se harmonizava com a sua teoria, sendo ela mesma, extremamente rica.

  “O empréstimo a juros (…) sempre foi proibido ao clero; a Igreja conseguiu, a partir do século IX, que se tornasse proibida também aos leigos, e reservou o castigo desse delito à jurisdição de seus tribunais” (H. Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, 6. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982, p. 19).

            Pirenne (1862-1935) continua:

            “É evidente que a teoria dista muito da prática: os próprios mosteiros, amiúde, infringiram os preceitos da Igreja. Não obstante, esta impregnou tão profundamente o mundo com seu espírito, que serão necessários vários séculos para que se admitam as novas práticas que o renascimento econômico do futuro exigirá, e para que se aceitem, sem reservas mentais, a legitimidade dos lucros comerciais, da valorização do capital e dos empréstimos com juros” (H. Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, p. 19-20). (Veja-se uma anedota bastante ilustrativa do conflito da Igreja, In: Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, p. 32-33). Aldo Janotti, comentando a respeito da superioridade intelectual e riqueza da Igreja romana na Idade Média, observa que:

     “A preponderância econômica se manifestava tanto por meio da riqueza agrária quanto da monetária: possuía a Igreja inúmeros domínios, superiores em extensão aos da aristocracia laica, como também em organização, pois só ela tinha homens habilitados para estabelecer polípticos, ter registros de contas, calcular entradas e saídas e, por consequência, poder equilibrá-las” (Aldo Janotti, Origens da Universidade: A Singularidade do Caso Português, 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992, p. 31).

Curiosamente, os maiores defensores dos mercadores – associados no imaginário eclesiástico à usura (Vejam-se: Jacques Le Goff, A Bolsa e a Vida: A Usura na Idade Média, 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 17ss.; Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, São Paulo: Martins Fontes, 1991, p. 73ss.) –, foram as Ordens Mendicantes (franciscanos e dominicanos), constituindo-se no século XIII, “nos instrumentos de justificação ideológica e religiosa do mercador” (Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, p. 98). Notemos que os membros dessas Ordens – tão defensoras dos interesses papais –, em geral eram provenientes de famílias abastadas, muitos, de famílias de mercadores. (Cf. Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, p. 98).

     Para a questão da prática dos juros na Idade Média, especialmente estimulada entre os judeus, vejam-se: Jerry Z. Muller, Os Judeus e o Capitalismo Mundial: o que explica o sucesso judaico nas sociedades capitalistas? São Paulo: Editora Saraiva, 2011; Jacques Attali, Os Judeus, o Dinheiro e o Mundo. 5. ed.São Paulo: Futura, 2005; Jacques Le Goff, A Bolsa e a Vida: A Usura na Idade Média, 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989; Léon Poliakon, De Cristo aos Judeus da Corte, São Paulo: Editora Perspectiva, 1979, especialmente, p. 61ss. Para uma história mais panorâmica incluindo as relações da Igreja com os usurários e as suas incoerências, bem como a situação e valores dos mercadores envolvendo a sua religião e seus fantasmas ‒ como escreve Le Goff: “Eis o grande combate do usurário entre a riqueza e o Paraíso, o dinheiro e o Inferno” (Jacques Le Goff, A Bolsa e a Vida: A Usura na Idade Média, 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 15), vejam-se: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 237ss.; Jack Mclver Weatherford, A História do Dinheiro: do arenito ao cyberspace, São Paulo: Negócio Editora, 2000; Jacques Le Goff, A Bolsa e a Vida: A Usura na Idade Média, 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989; Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, São Paulo: Martins Fontes, 1991; Jacques Le Goff, Para um Novo Conceito de Idade Média, Lisboa: Editorial Estampa, 1980, p. 43-73; Philippe Wolff, Outono da Idade Média ou Primavera dos Tempos Modernos?, Lisboa: Edições 70 (1988); Aron J. Gurevic, O Mercador: In: Jacques Le Goff, dir. O Homem Medieval, Lisboa: Editorial Presença, 1989, p. 165-189; H. Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, 6. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982; Georges Duby, Economia Rural e Vida no Campo no Ocidente Medieval, Lisboa: Edições 70, (1987-1988), 2 Vols.; Pierre Monnet, Mercadores: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru,SP/São Paulo: Editora da Universidade Sagrado Coração/Imprensa Oficial do Estado, 2002, v. 2, p. 183-196; R.H. Tawney, A Religião e o Surgimento do Capitalismo, São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 31-77. Quanto à acusação apaixonada de Pascal contra a igreja católica, especialmente na França, de praticar a usura valendo-se de subterfúgios, veja-se: Blaise Pascal, Las Cartas Provinciales, Buenos Aires: Librería “El Ateneo” Editorial, (1948), especialmente a Carta 8, p. 589ss. Para uma visão da concepção e prática em Portugal, ver: José Calvet de Magalhães, História do Pensamento Econômico em Portugal: da Idade-Média ao Mercantilismo, Coimbra: Coimbra Editora, 1967, 537p.

[7]João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6,São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn  3.21-23), p. 215.

[8]Vejam-se de forma ilustrativa: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 8.4), p. 165-166; João Calvino, Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2010, (Cl 1.3), p. 493; João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000,73-74

[9]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 2.4),  p. 91.

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