O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (7)

4) Perseguição

 

A perseguição quer seja física, psíquica ou moral gera muita dor e sofrimento. Pedro estimula as igrejas a permanecerem firmes em seu testemunho: “Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações” (1Pe 1.6). “Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados” (1Pe 3.14).

Paulo, descrevendo parte de seus sofrimentos, diz: “Entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2Co 6.10).

Quando ele narra aos presbíteros de Éfeso o seu trabalho tão bem conhecido por eles, apresenta esta conotação como fruto das tentações da parte dos judeus: “Servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram” (At 20.19).

5) Solidariedade

Sensibilizamo-nos com o sofrimento de nossos irmãos, compartilhando com ele de sua alegria e dor. Paulo diz que devemos desenvolver esta sensibilidade: “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm 12.15).

6) Patriotismo

Quando Jerusalém foi destruída (586 a.C.), o povo de Judá foi levado cativo. Jeremias, um cidadão patriota, revela a sua tristeza:

Como jaz solitária a cidade outrora populosa! Tornou-se como viúva a que foi grande entre as nações; princesa entre as províncias, ficou sujeita a trabalhos forçados! 2 Chora e chora de noite, e as suas lágrimas lhe correm pelas faces; não tem quem a console entre todos os que a amavam; todos os seus amigos procederam perfidamente contra ela, tornaram-se seus inimigos. 3 Judá foi levado ao exílio, afligido e sob grande servidão; habita entre as nações, não acha descanso; todos os seus perseguidores o apanharam nas suas angústias. (Lm 1.1-3).

 

7) Preocupação com a Igreja

Paulo, um pastor cuidadoso, procurava instruir, interceder e alertar a igreja quanto a perigos iminentes. Ele passou boa parte de seu ministério pregando o Evangelho em diversas cidades e, alguns anos preso, o seu pastorado era, o que não poderia deixar de ser, à distância. As suas cartas se constituem em verdadeiras pastorais onde ele instrui, exorta, consola e adverte. Quanto à amada igreja de Filipos, revela a sua angústia em relação aos falsos mestres, talvez de diversos matizes que circundavam-na: “Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo” (Fp 3.18).

Do mesmo modo, ele diz aos presbíteros de Éfeso que pessoalmente os ensinou durante três anos com persistência em meio a lágrimas: “Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um” (At 20.31).

8) Por uma promessa precipitada

 

Herodes, comemorando o seu aniversário, prometeu publicamente à filha da esposa de seu irmão, Herodias, com quem adulterava, conceder-lhe o que ela quisesse. Ela, instigada por sua mãe, pediu-lhe a cabeça de João Batista, aquele que denunciava o pecado de Herodes com a sua cunhada. Relata o texto: “Entristeceu-se o rei, mas, por causa do juramento e dos que estavam com ele à mesa, determinou que lha dessem” (Mt 14.9/Mc 6.26).

9) Senso de valores equivocado

 

1) Esaú preferiu trocar o direito de primogenitura por um prato de lentilhas, desdenhando da herança da família, a terra (Gn 12.7) e a bênção da aliança (Gn 25.27-34). Mais tarde, quando não pôde obter a bênção de seu pai Isaque, chorou amargamente: “Disse Esaú a seu pai: Acaso, tens uma única bênção, meu pai? Abençoa-me, também a mim, meu pai. E, levantando Esaú a voz, chorou” (Gn 27.38/Hb 12.16-17).

 

2) O jovem rico, diante de um conflito de valores, não soube buscar socorro na misericórdia de Deus, antes, apenas ficou contrariado e se entristeceu, optando por ficar com a sua riqueza em detrimento do Reino de Deus. Eis a narrativa:

 

17 E, pondo-se Jesus a caminho, correu um homem ao seu encontro e, ajoelhando-se, perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 18 Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. 19 Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e tua mãe. 20 Então, ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude. 21 E Jesus, fitando-o, o amou e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. 22 Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades. (Mc 10.17-22).

 

10) Diante de um desafio que se parece grande por demais

 

Quando o povo de Judá voltou do exílio e deu início à reconstrução do templo (c. 536 a.C.), houve um misto de alegria e tristeza. Os jovens se alegraram pela libertação e possibilidade de realizarem aquela obra, sendo que a maioria nem conhecera o antigo templo. Há júbilo e gratidão. Contudo, os anciãos que conheceram a beleza do antigo templo, provavelmente percebendo a carência de recursos disponíveis, choram:

 

Cantavam alternadamente, louvando e rendendo graças ao Senhor, com estas palavras: Ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre sobre Israel. E todo o povo jubilou com altas vozes, louvando ao Senhor por se terem lançado os alicerces da sua casa. 12 Porém muitos dos sacerdotes, e levitas, e cabeças de famílias, já idosos, que viram a primeira casa, choraram em alta voz quando à sua vista foram lançados os alicerces desta casa; muitos, no entanto, levantaram as vozes com gritos de alegria. (Ed 3.11-12/Ag 2.1-5).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (6)

 

9) Uma mulher pecadora, talvez prostituta, arrependida de seus pecados, valendo-se de um misto de coragem e humildade, vai a um jantar para o qual não fora convidada, não para se alimentar, antes, para ungir os pés de Jesus sob forte emoção:

36 Convidou-o um dos fariseus para que fosse jantar com ele. Jesus, entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa. 37 E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; 38 e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o unguento. 39 Ao ver isto, o fariseu que o convidara disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora. 40 Dirigiu-se Jesus ao fariseu e lhe disse: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele respondeu: Dize-a, Mestre. 41 Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta. 42 Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? 43 Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem. 44 E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. 45 Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. 46 Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés. 47 Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. 48 Então, disse à mulher: Perdoados são os teus pecados. (Lc 7.36-48).

  3) Saudade

1) José, movido por vários sentimentos, inclusive saudade, quando reencontra seu irmão, Benjamin, se emociona e chora:

29Levantando José os olhos, viu a Benjamim, seu irmão, filho de sua mãe, e disse: É este o vosso irmão mais novo, de quem me falastes? E acrescentou: Deus te conceda graça, meu filho. 30 José se apressou e procurou onde chorar, porque se movera no seu íntimo, para com seu irmão; entrou na câmara e chorou ali. 31 Depois, lavou o rosto e saiu; conteve-se e disse: Servi a refeição. (Gn 43.29-31).

 

Em outra ocasião, diante do temor de seus irmãos de que se vingasse da maldade que lhe fizeram, José chora novamente:

 

15 Vendo os irmãos de José que seu pai já era morto, disseram: É o caso de José nos perseguir e nos retribuir certamente o mal todo que lhe fizemos. 16 Portanto, mandaram dizer a José: Teu pai ordenou, antes da sua morte, dizendo: 17 Assim direis a José: Perdoa, pois, a transgressão de teus irmãos e o seu pecado, porque te fizeram mal; agora, pois, te rogamos que perdoes a transgressão dos servos do Deus de teu pai. José chorou enquanto lhe falavam. (Gn 50.15-17).

 

 2) Jesus Cristo, no processo de despedida de seus discípulos, anunciou-lhes momentos de perseguição e dor. Ele mesmo se angustia ao falar do traidor: Ditas estas coisas, angustiou-se Jesus em espírito e afirmou: Em verdade, em verdade vos digo que um dentre vós me trairá” (Jo 13.21/Jo 11.33). Todas essas coisas, sem compreender bem o significado,[1] se junta na mente dos discípulos fazendo-os entristecer:

 

Tenho-vos dito estas coisas para que não vos escandalizeis. 2 Eles vos expulsarão das sinagogas; mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus. 3 Isto farão porque não conhecem o Pai, nem a mim. 4 Ora, estas coisas vos tenho dito para que, quando a hora chegar, vos recordeis de que eu vo-las disse. Não vo-las disse desde o princípio, porque eu estava convosco. 5 Mas, agora, vou para junto daquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: Para onde vais? 6 Pelo contrário, porque vos tenho dito estas coisas, a tristeza encheu o vosso coração. (Jo 16.1-6).

 

A partida de Cristo é motivo de alegria para o mundo e tristeza para a igreja. No entanto, os discípulos devem saber que eles nunca estarão sozinhos e que, quando ele retornar em glória, a alegria de toda a igreja será completa:

 

Em verdade, em verdade eu vos digo que chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. 21 A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. 22 Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar. (Jo 16.20-22).

 

Neste contexto, talvez algumas horas depois, quando Jesus ora no Getsêmani, lemos:

 

40 Chegando ao lugar escolhido, Jesus lhes disse: Orai, para que não entreis em tentação. 41 Ele, por sua vez, se afastou, cerca de um tiro de pedra, e, de joelhos, orava, 42 dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua. 43 Então, lhe apareceu um anjo do céu que o confortava. 44 E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra. 45 Levantando-se da oração, foi ter com os discípulos, e os achou dormindo de tristeza, 46 e disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação. (Lc 22.40-46).

 

3) Paulo, quando se despede de diversos irmãos, declarando, ou deixando a entender pelo que podia deduzir, que eles nunca mais o veriam, gerava sempre tristeza pela saudade antecipada de um mestre e amigo.       Quando se despede dos presbíteros de Éfeso em Mileto, narra Lucas:

 

36 Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles. 37Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, 38entristecidos especialmente pela palavra que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até ao navio. (At 20.36-38).

 

Em Cesareia, o profeta Ágabo profetiza que Paulo seria preso em Jerusalém. Os irmãos alarmados tentam dissuadi-lo. O clima de tristeza e súplica para que Paulo não fosse à Jerusalém foi duro para ele. No entanto, manteve-se firme dentro do propósito que cria ser a vontade de Deus:

 

12 Quando ouvimos estas palavras, tanto nós como os daquele lugar, rogamos a Paulo que não subisse a Jerusalém. 13 Então, ele respondeu: Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus. 14Como, porém, não o persuadimos, conformados, dissemos: Faça-se a vontade do Senhor! (At 21.12-14).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


[1]E eles, muitíssimo contristados, começaram um por um a perguntar-lhe: Porventura, sou eu, Senhor?” (Mt 26.22).

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (5)

4) O profeta Jonas, ao perceber a misericórdia de Deus para com o povo de Nínive, se entristece e ainda tenta justificar diante de Deus a sua desobediência. A sua indignação é tão grande que pede a Deus que o mate. Ao que parece, para Jonas, era melhor morrer do que vê a misericórdia perdoadora de Deus sobre aquele povo tão ímpio:

 

Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado. 2 E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. 3 Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver. (Jn 4.1-3).

 

5) Pedro, após negar o Senhor três vezes, lembrou-se das palavras que ele lhe dissera. Envergonhado e arrependido, chorou de forma intensa e sofrida:

 

Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente. (Mt 26.75).

E logo cantou o galo pela segunda vez. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes. E, caindo em si, desatou a chorar. (Mc 14.72).

 

Posteriormente, quando o Senhor ressurreto lhe pergunta três vezes a respeito de seu amor, é possível que a sua negação recente lhe viesse à mente, daí a sua tristeza:

 

Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas. (Jo 21.17).

 

6) Pelos pecados de uma cidade impenitente e pela sua futura destruição. Jesus chora diante de Jerusalém: 41 Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou 42 e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos” (Lc 19.41-42).

 

7) Paulo também se entristece pela incredulidade dos judeus, revelando de forma intensa o seu amor e dor:

 

Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência: 2 tenho grande tristeza e incessante dor no coração; 3 porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne. (Rm 9.1-3).

 

8) Pela insensibilidade da Igreja em não perceber a gravidade do pecado de um irmão, tocando a vida como se nada tivesse acontecido:

 

Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. 2 E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? (1Co 5.1-2).

 

Possivelmente, outro irmão havia pecado, inclusive, ofendendo a Paulo: Ora, se alguém causou tristeza, não o fez apenas a mim, mas, para que eu não seja demasiadamente áspero, digo que em parte a todos vós” (2Co 2.5).

 

À frente, Paulo falando sobre a disciplina divina, diz que ela produz tristeza; no entanto, esta tristeza é frutuosa. Portanto, valera a pena ter escrito a Carta Severa admoestando à Igreja, ainda que causando tristeza:

 

8 Porquanto, ainda que vos tenha contristado com a carta, não me arrependo; embora já me tenha arrependido (vejo que aquela carta vos contristou por breve tempo), 9 agora, me alegro não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis. 10 Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte. 11Porque quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! Que defesa, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vindita! Em tudo destes prova de estardes inocentes neste assunto. (2Co 7.8-11).

 

Paulo se entristecia e chorava pelos pecados cometidos por seus irmãos e a falta de arrependimento: “Receio que, indo outra vez, o meu Deus me humilhe no meio de vós, e eu venha a chorar por muitos que, outrora, pecaram e não se arrependeram da impureza, prostituição e lascívia que cometeram” (2Co 12.21).

 

Do mesmo modo, o escritor de Hebreus instrui sobre os frutos da disciplina: Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça” (Hb 12.11).

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (4)

2) Pecado, disciplina e arrependimento

 

1) Saul, quando percebe a injustiça que cometia contra Davi o perseguindo para matá-lo, chorou de remorso, ainda que isso não tenha mudado a situação permanentemente: “

 

13 Dos perversos procede a perversidade, diz o provérbio dos antigos; porém a minha mão não está contra ti. 14 Após quem saiu o rei de Israel? A quem persegue? A um cão morto? A uma pulga? 15 Seja o Senhor o meu juiz, e julgue entre mim e ti, e veja, e pleiteie a minha causa, e me faça justiça, e me livre da tua mão. 16 Tendo Davi acabado de falar a Saul todas estas palavras, disse Saul: É isto a tua voz, meu filho Davi? E chorou Saul em voz alta. (1Sm 24.13-16).      

 

2) Quando Davi foge de Jerusalém porque seu filho queria matá-lo termina por chorar enquanto caminha: “Seguiu Davi pela encosta das Oliveiras, subindo e chorando; tinha a cabeça coberta e caminhava descalço; todo o povo que ia com ele, de cabeça coberta, subiu chorando” (2Sm 15.30).

 

3) Davi sofreu amargamente as consequências de seu adultério com Bate-Seba e o planejamento da morte de seu marido Urias. No salmo 32 escreve: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram (hl’B’) (balah)[1] os meus ossos pelos meus constantes gemidos (hg”a’v.) (sheagah)[2] todo o dia” (Sl 32.3).

 

Davi só encontrou alívio quando declarou diante de Deus o seu pecado; ele não mais tentou escondê-lo ou amenizá-lo. Não há eufemismos em nossa confissão sincera. Davi pinta com cores reais as suas faltas:

 

Confessei-te ([d;y”) (yada) o meu pecado (hf)f+Ah) (hatã’â)[3] e a minha iniquidade (}oWf() (‘ãwõn)[4] não mais ocultei (כּסה) (kâsâh).[5] Disse: confessarei (hd’y)(yadah) ao SENHOR as minhas transgressões ((a$ep) (pesha’);[6] e tu perdoaste a iniquidade (}oWf() (‘ãwõn) do meu pecado (hf)f+Ah) (hatã’â). (Sl 32.5).

 

No salmo 51, no mesmo contexto, escreve: “Pois eu conheço ([d;y”) (yada) as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 51.3).

 

Da mesma forma no salmo 38:Confesso (נגד) (nâgad)[7] a minha iniquidade (}oWf() (‘ãwõn); suporto tristeza por causa do meu pecado” (Sl 38.18).

 

O caminho proposto por Deus é o arrependimento e a confissão. Deus perdoa a todos aqueles que, arrependidos, tristes com o seu pecado, sinceramente, o procuram. Deus mesmo declara: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões ((a$ep) (pesha’) por amor de mim” (Is 43.25). “Desfaço as tuas transgressões ((a$ep) (pesha’) como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi” (Is 44.22).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

 

[1] Aplica-se à roupa envelhecida (Dt 8.4; 29.5; Js 9.5; Sl 102.26), sandália gasta (Dt 29.5; Js 9.5,13).

[2] A palavra gemido se aplica também: a) ao rugido do leão feroz: “Cessa o bramido (hg”a’v.)(sheagah) do leão e a voz do leão feroz, e os dentes dos leõezinhos se quebram” (Jó 4.10). “O seu rugido (hg”a’v.)(sheagah) é como o do leão; rugem como filhos de leão, e, rosnando, arrebatam a presa, e a levam, e não há quem a livre” (Is 5.29); b) ao rugido dos leõzinhos: “Este, andando entre os leões, veio a ser um leãozinho, e aprendeu a apanhar a presa, e devorou homens. Aprendeu a fazer viúvas e a tornar desertas as cidades deles; ficaram estupefatos a terra e seus habitantes, ao ouvirem o seu rugido (hg”a’v.)(sheagah)(Ez 19.6-7). “Eis o uivo dos pastores, porque a sua glória é destruída! Eis o bramido (hg”a’v.) (sheagah) dos filhos de leões, porque foi destruída a soberba do Jordão!” (Zc 11.3); c) gemido humano, quando, por exemplo, Jó em desespero amaldiçoa o dia do seu nascimento: “Por que em vez do meu pão me vêm gemidos (hg”a’v.) (sheagah), e os meus lamentos se derramam como água?” (Jó 3.24); d) bramido do Messias“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras de meu bramido (hg”a’v.)(sheagah)?” (Sl 22.1).

[3](hf)f+Ah) (hatã’â). Pecado consiste no desvio daquilo que é agradável a Deus; errar o alvo, desviar-se da obediência devida a Deus. Esta é a principal palavra usada para descrever o sentido do pecado: errar o alvo ou o caminho. Um erro desqualificante. “A imagem é como saltar para alcançar uma barra e ser desqualificado ou fracassar em realizar isso” (Bruce K. Waltke; James M. Houston; Erika Moore, Os Salmos como adoração cristã: um comentário histórico, São Paulo: Shedd Publicações, 2015, p. 494).

[4] (}oWf()(‘ãwõn). O sentido da palavra é de perverter, distorcer, envergar algo que é reto.    A principal ideia está associada ao ato consciente, frequente e intencional de fazer o que é errado. Quando se aplica à lei significa “cometer uma perversão”, “infringir”. Distorcer o caminho certo. Ao que parece, a culpa é a principal consequência subjetiva deste pecado. (Veja-se: Carl Schultz; Bruce K. Waltke, ‘ãwâ: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1087). Davi (na sequência apresentada no Salmo 32) que primeiramente quebrou a aliança, desviando-se cada vez mais do propósito de Deus, agora ele avança em infringir a Lei, pervertendo-a.

É muito natural o homem buscar justificativa para os seus atos iníquos. Há um processo de racionalização malévolo por meio do qual elaboramos teorias por vezes sofisticadas que pelo menos para nós justificam os nossos atos. Como isso nem sempre é suficiente, procuramos também persuadir os outros da integridade e necessidade de nossos atos pecaminosos que, neste caso, não são apresentados como tais, antes, como necessários, ousados e inteligentes. A aparente tranquilidade de Davi durante os doze meses que o separam de seus atos pecaminosos e a advertência do profeta Natã soa-me como algo estranho. De alguma forma ele conseguiu equacionar a culpa de seu pecado em sua mente e coração durante aquele período. Todavia, a Palavra de Deus é eficaz no seu propósito de mostrar a nossa infração e nos restaurar à comunhão com Deus. As nossas racionalizações complementadas por alguns comprimidos podem servir como paliativos durante algum tempo, contudo, não atingem o cerne do problema; elas não resolvem a questão do pecado e consequentemente da culpa. Aliás, o sentimento de culpa pode ser uma das bênçãos de Deus para que não nos entreguemos totalmente ao pecado. A culpa, nestes casos, é graça! Deus opera desta forma conduzindo-nos, pelo Espírito Santo, de volta a Ele mesmo. No texto que estamos analisando, o instrumento foi o profeta Natã que proferiu a Palavra de Deus, não as suas opiniões ou teorias. Somente a Palavra pode curar nossas feridas restaurando a nossa alma. E, não há restauração espiritual sem o retorno a Deus; à nossa restauração primeira à comunhão com Deus.

[5] (כּסה) (kâsâh) tem o sentido de “envolver”, “encobrir”, “ocultar”, “submergir” (Sl 78.53); morar (Pv 10.6,11); reter (Pv 10.18). Davi, portanto, expôs a Deus o seu pecado, não mais o abrigou dentro de si.

[6]((a$ep) (pesha’). Significa, transgressão, violação, revolta ou recusa a se submeter a uma legítima autoridade. “Afronta ostensiva dos homens à pessoa de Deus” (Alex Luc, Ps‘ In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 703). É como alguém que ergue o punho contra o padrão estabelecido por Deus. Significa revolta ou recusa a se submeter a uma legítima autoridade. Tem o sentido de rompimento de relacionamento, envolvendo a ideia de abandono de compromissos assumidos, uma quebra intencional de uma norma ou padrão, uma rebelião.

Ainda que esta expressão seja usada amplamente no campo familiar e jurídico, ela se concentra de forma mais intensa na rebelião contra Deus.

“O sentido predominante de pesha’ é o de rebelião contra a Lei e a Aliança de Deus, e, por conseguinte, o termo é um substantivo coletivo que denota a totalidade de iniquidades e um relacionamento fraturado” (G. Herbert Livingston, Pesha’: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1247).

[7] O sentido básico é de “declarar”, “publicar”, “anunciar”, “manifestar, “expor”.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (3)

Continuamos hoje falando sobrecircuntâncias que levam  seres humanos, a tristeza e lágrimas. No post de ontem falávamos sobre a morte de filhos.

 

3) Filho único de uma viúva da cidade de Naim:

 

11Em dia subsequente, dirigia-se Jesus a uma cidade chamada Naim, e iam com ele os seus discípulos e numerosa multidão. 12 Como se aproximasse da porta da cidade, eis que saía o enterro do filho único de uma viúva; e grande multidão da cidade ia com ela. 13 Vendo-a, o Senhor se compadeceu dela e lhe disse: Não chores! (Lc 7.11-13).

 

4) Quando Herodes manda matar as crianças no desejo insano de assassinar o Messias, Mateus registra o crime e cita a profecia de Jeremias, ilustrando a tristeza de Raquel como representante das mães de Belém:

 

16 Vendo-se iludido pelos magos, enfureceu-se Herodes grandemente e mandou matar todos os meninos de Belém e de todos os seus arredores, de dois anos para baixo, conforme o tempo do qual com precisão se informara dos magos. 17 Então, se cumpriu o que fora dito por intermédio do profeta Jeremias: 18 Ouviu-se um clamor em Ramá, pranto, choro e grande lamento; era Raquel chorando por seus filhos e inconsolável porque não mais existem. (Mt 2.16-18).

 

B) A Morte de um Irmão

 

Maria estava triste com a morte de seu irmão Lázaro. O próprio Senhor Jesus diante daquele quadro de tristeza, marcado pela sujeição do homem à morte ‒ como consequência do pecado ‒ compadecidamente se emociona e chora:

 

31 Os judeus que estavam com Maria em casa e a consolavam, vendo-a levantar-se depressa e sair, seguiram-na, supondo que ela ia ao túmulo para chorar. 32 Quando Maria chegou ao lugar onde estava Jesus, ao vê-lo, lançou-se-lhe aos pés, dizendo: Senhor, se estiveras aqui, meu irmão não teria morrido. 33 Jesus, vendo-a chorar, e bem assim os judeus que a acompanhavam, agitou-se no espírito e comoveu-se. 34 E perguntou: Onde o sepultastes? Eles lhe responderam: Senhor, vem e vê! 35 Jesus chorou. (Jo 11.31-35).

C) A morte de um amigo

 

1) A morte de Jônatas, leal amigo de Davi, foi extremamente dolorosa para ele. No verso que compôs expressa isso:

 

17Pranteou Davi a Saul e a Jônatas, seu filho, com esta lamentação (…) 26 Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; tu eras amabilíssimo para comigo! Excepcional era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres. 27 Como caíram os valentes, e pereceram as armas de guerra! (2Sm 1.17,26-27).

 

2) Na cidade portuária de Jope havia uma mulher cristã, muito estimada pelos seus atos de generosidade. Quando ela morreu, houve grande tristeza. Sabendo que Pedro estava em uma cidade próxima, irmãos piedosos foram buscá-lo: Pedro atendeu e foi com eles. Tendo chegado, conduziram-no para o cenáculo; e todas as viúvas o cercaram, chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que Dorcas fizera enquanto estava com elas” (At 9.39). Pedro orou por ela e o Senhor a ressuscitou (At 9.40-41).

 

3) Quando a filha adolescente de Jairo morre, há intensa tristeza entre, certamente, alguns de seus amigos. Jesus foi chamado: 38 Chegando à casa do chefe da sinagoga, viu Jesus o alvoroço, os que choravam e os que pranteavam muito. 39 Ao entrar, lhes disse: Por que estais em alvoroço e chorais? A criança não está morta, mas dorme” (Mc 5.38-39).

 

D) Sofrimento pela morte do Senhor Jesus

 

Os discípulos se entristeceram pelo anúncio antecipado do que lhe ocorreria nas mãos dos judeus: “E estes o matarão; mas, ao terceiro dia, ressuscitará. Então, os discípulos se entristeceram grandemente” (Mt 17.23).

 

Os preparativos para a crucificação do Senhor, além de humilhantes, foram extremamente dolorosos, sensibilizando a muitos: “27 Seguia-o numerosa multidão de povo, e também mulheres que batiam no peito e o lamentavam. 28 Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos!” (Lc 23.27-28).

 

Após a crucificação do Senhor, Maria Madalena permanecia junto ao túmulo chorando:

 

11 Maria, entretanto, permanecia junto à entrada do túmulo, chorando. Enquanto chorava, abaixou-se, e olhou para dentro do túmulo, 12 e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira e outro aos pés. 13 Então, eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Ela lhes respondeu: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. 14 Tendo dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não reconheceu que era Jesus. 15 Perguntou-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela, supondo ser ele o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. (Jo 20.11-15).

 

Os demais discípulos também estavam profundamente abatidos: “9 Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena de quem expelira sete demônios. 10 E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes e choravam” (Mc 16.9-10).

 

 

Maringá, 28 de janeiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 

 

 

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (2)

2. Razões para a tristeza

 

A Bíblia não é um livro de autoajuda. Ela de fato não simplesmente nos ajuda, mas nos mostra o caminho definitivo para a sua concretização eterna, a salvação em Cristo Jesus que envolve o tempo e a eternidade. Portanto, ela não trata de segredinhos para enganar, disfarçar ou esconder nossas rugas, manchas, “estrias” ou mazelas espirituais. Ela nos ensina que antes da alegria vem o choro; antes da felicidade vem a tristeza.

 

A Escritura descreve diversos momentos de angústia e tristeza entre os seres humanos, quer por motivos nobres, quer não; de homens e mulheres piedosos, ou não. Este sentimento acompanhado pelas lágrimas é comum ao ser humano. De forma ilustrativa, indiquemos algumas circunstâncias de tristeza e lágrimas:

1) Morte

A consciência da morte[1] que, por causa do pecado, pode ser tão grave, intensa e esmagadora para o homem,[2] soando como algo anormal,[3] pode e deve ser olhada como o caminho para a glória, como escreveu Calvino:

 

Somente os crentes genuínos conhecem a diferença entre este estado transitório e a bem-aventurada eternidade, para a qual foram criados; eles sabem qual deve ser a meta de sua vida. Ninguém, pois, pode regular sua vida com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da vocação celestial.[4]

 

Não é de se estranhar que a morte seja um dos aspectos mais indicados nas Escrituras como sendo causador de tristeza, dor e lágrimas.

 

A) A Morte de filhos

 

 1) Jacó, quando pensou que José, seu filho preferido, havia morrido, chorou intensamente, se negando, inclusive, a ser consolado pelos familiares: 34 Então, Jacó rasgou as suas vestes, e se cingiu de pano de saco, e lamentou o filho por muitos dias. 35 Levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém, recusou ser consolado e disse: Chorando, descerei a meu filho até à sepultura. E de fato o chorou seu pai” (Gn 37.34-35).

 

2) Davi chora intensamente a morte de seus filhos. Amnom, morto por ordem de Absalão, e, posteriormente, pela morte deste:

 

Absalão, porém, fugiu e se foi a Talmai, filho de Amiúde, rei de Gesur. E Davi pranteava a seu filho [Amnon] todos os dias. (2Sm 13.37).[5]

Então, o rei, profundamente comovido, subiu à sala que estava por cima da porta e chorou; e, andando, dizia: Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho! (2Sm 18.33).

 

Com esta lamentação intensa e contínua pela morte de Absalão, algo constrangedor aconteceu, como nos chama atenção MacArthur: “O pranto de Davi por Absalão foi tão intenso que seus soldados ficaram envergonhados da vitória”.[6]

 

Joabe foi fundamental para admoestar a Davi mostrando-lhe o quanto estava sendo nefasto o seu comportamento:

 

Disseram a Joabe: Eis que o rei anda chorando e lastima-se por Absalão. 2 Então, a vitória se tornou, naquele mesmo dia, em luto para todo o povo; porque, naquele dia, o povo ouvira dizer: O rei está de luto por causa de seu filho. 3 Naquele mesmo dia, entrou o povo às furtadelas na cidade, como o faz quando foge envergonhado da batalha. 4 Tendo o rei coberto o rosto, exclamava em alta voz: Meu filho Absalão, Absalão, meu filho, meu filho! 5 Então, Joabe entrou na casa do rei e lhe disse: Hoje, envergonhaste a face de todos os teus servos, que livraram, hoje, a tua vida, e a vida de teus filhos, e de tuas filhas, e a vida de tuas mulheres, e de tuas concubinas, 6 amando tu os que te aborrecem e aborrecendo aos que te amam; porque, hoje, dás a entender que nada valem para contigo príncipes e servos; porque entendo, agora, que, se Absalão vivesse e todos nós, hoje, fôssemos mortos, então, estarias contente. (2Sm 19.1-6).

 

As Escrituras narram que Davi reagiu positivamente a esta sincera e necessária repreensão (2Sm 19.8-15).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


 

[1] “O que distingue os humanos de todas as outras criaturas é a autoconsciência. Sabemos que estamos vivos e que morreremos, e não conseguimos deixar de questionar por que a vida é assim e qual é o seu significado” (Charles Colson; Harold Fickett, Uma boa vida, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 20).

[2] “Durante toda a minha vida, meu pensamento esteve ocupado pelo problema com o qual todos se defrontam: o sentido da vida e da morte. É, no fundo, a única questão contra a qual se choca desde a origem o animal pensante, o único que enterra seus mortos, o único que pensa na morte, que pensa sua morte. Para iluminar seu caminho nas trevas, para adaptar-se à morte, esse animal tão bem adaptado à vida só tem duas luzes: uma se chama religião, a outra se chama ciência” (Jean Guitton, in: Jean Guitton; Grichka Bogdanov; Igor Bogdanov, Deus e a Ciência, em direção ao metarrealismo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992, p. 14). Veja-se: William Edgar, Razões do Coração, Brasília, DF.: Refúgio, 2000, p. 79ss.

[3] J. I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 185.

[4]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 90.12), p. 440. Vejam-se: João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 61,66; João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.24-25), p. 218-219.

[5] É possível que isto tenha acontecido devido ao fato de Davi não ter punido corretamente a Amnon pelo ato de violentar a sua meia-irmã Tamar. (Veja-se: Francis A. Schaeffer, Não há gente sem importância, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 109).

[6] John MacArthur, O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 67.

O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (1)

A tristeza que domina a mente facilmente segue sua rota rumo aos olhos, e seguindo essa via concretamente se revela. ‒ João Calvino.[1]

 

Ninguém chega ao reino de Deus sem se entristecer com o seu próprio pecado. ‒ John MacArthur.[2]

 

 

Introdução

 Jesus Cristo, nesta segunda bem-aventurança, surpreende ainda mais aos seus ouvintes. Ele diz que são bem-aventurados os que choram. Temos aqui uma bem-aventurança paradoxal. Contudo, antes que eles pudessem ser induzidos a uma perspectiva equivocada a respeito do choro, Jesus diz que os que choram serão consolados. Deste modo, podemos observar que o Senhor não atribuiu nenhum valor especial e intrínseco ao choro como tal, mas, certamente, nos diz que determinado tipo de choro é bem-aventurado por causa do que ele reflete. Neste choro, seremos consolados.

 

1. Diversos termos

O Novo Testamento emprega diversas expressões que retratam a dor, angústia e choro humano.

 

  • brugmo/j e bru/xw: Ainda que no grego clássico as palavras sejam também usadas, por exemplo, para o “ato de comer de modo barulhento”,[3] no Novo Testamento tem o sentido de rilhar, ranger os dentes, denotando raiva intensa (bru/xw) (*At 7.54) e, mais precisamente, intenso sofrimento, sendo usado especificamente por Jesus Cristo para falar do destino dos incrédulos (brugmo/j) (*Mt 8.12; 13.42,50; 22.13; 24.51; 25.30; Lc 13.28).
  • Da/kru, da/kruon e dakru/w (Jo 11.33): Lágrimas, choro (Lc 7.38,44; At 20.19,31; 2Co 2.4).
  • qrhne/w: Prantear, lamentar, cantar um lamento (*Mt 11.17; Lc 7.32; 23.27; Jo 16.20).
  • Klai/w: Chorar, gritar (Mt 2.18; 26.75; Mc 16.10; Lc 19.41; At 21.13,15).
  • Klauqmo/j: Pranto, choro (Mt 2.18; At 20.37).
  • Ko/ptw e kopeto/j (*At 8.2): Prantear, lamentar. “Ressalta o aspecto do luto público, que se pode manifestar em vários costumes tais como: bater no peito, fazer cortes em si mesmo, lamentar ou cantar endechas fúnebres já existentes”.[4] (*Mt 11.17; 21.8; 24.30; Mc 11.8; Lc 8.52; 23.27; Ap 1.7; 18.9).
  • Lupe/w: Entristecer-se, contristar-se. Envolve a dor física e íntima, estar magoado (Mt 17.23; 18.31; 26.37; 2Co 2.2,4,5; 1Pe 1.6).
  • Lu/ph: Tristeza, dor (Lc 22.45; Jo 16.6,20,21,22).
  • Penqe/w: Chorar, lamentar, prantear, estar triste (*Mt 5.4; 9.15; Mc 16.10; Lc 6.25; 1Co 5.2; 2Co 12.21; Tg 4.9; Ap 18.11,15,19).
  • Pe/nqoj: Pranto, luto (*Tg 4.9; Ap 18.7 (2 vezes),8; 21.4).
  • Stena/zw: Gemer, queixar-se, suspirar (*Mc 7.34; Rm 8.23; 2Co 5.2,4; Hb 13.17; Tg 5.9).
  • Tara/ssw: Na forma figurada e passiva, significa angustiar-se, ficar agitado, alarmado (Lc 24.38; Jo 11.33; 12.27; 13.21; 14.1,27; 1Pe 3.14).

 

No próximo post começaremos a analisar biblicamente algumas razões para a tristeza.

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 6.7), p. 132-133.

[2] John MacArthur, O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 71.

[3] T. McComiskey, Lamentar: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 28.

[4] H. Haarbeck, Lamentar: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 23.