Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (36) 

3) Mansidão e firmeza na defesa de nossa fé

 

Pedro, escrevendo às igrejas perseguidas, diz que a nossa resposta aos que nos caluniam e perseguem deve ser dada com firmeza e mansidão, apresentando a razão de nossa esperança em Cristo:

 

Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados; antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão (prau+/thj) e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo, porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal. (1Pe 3.14-17).

 

4) Mansidão no ensino e no exercício da disciplina

 

Do mesmo modo, devemos corrigir os infratores com espírito de brandura: “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura (prau+/thj); e guarda-te para que não sejas também tentado” (Gl 6.1). Não pensemos que mansidão é sinônimo de acomodação ao erro. A mansidão se revela na correção que visa à restauração do irmão faltoso, com brandura e humildade.

 

Em outro lugar Calvino orienta-nos:

 

Não há nada pior no conselho fraternal do que um espírito azedo e arrogante, pois ele nos leva a desdenhar e a sentir enfado por aqueles que se acham em erro, e nos leva a ameaçá-los com o ridículo em vez de corrigi-los. A aspereza também, seja em palavras, seja em expressão, priva nosso conselho de seus efeitos. Ainda quando excedamos em espírito humanitário e em cortesia, jamais seremos as pessoas certas para ministrar conselhos, a não ser que cultivemos muita sabedoria e adquiramos muita experiência.[1]

 

À    rebelde igreja de Corinto, Paulo pergunta de forma severa: “Que preferis? Irei a vós outros com vara ou com amor e espírito de mansidão (prau+/thj)?” (1Co 4.21).

 

De forma análoga, a orientação àqueles que pensam diferentemente deve ser feita com brandura e oração, a fim de que Deus possa, por meio da Palavra, dar-lhes discernimento – conhecendo a verdade – livrando-os do cativeiro intelectual e espiritual de satanás que tem os seus próprios planos destrutivos e alienantes de Deus:

 

Disciplinando (paideu/w[2] = “ensinando”, “instruindo”) com mansidão (prau+/thj) os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços (pagi/j)[3]do diabo, tendo sido feitos cativos (zwgre/w)[4] por ele, para cumprirem a sua vontade (qe/lhma).[5] (2Tm 2.25-26).[6]

 

Esta instrução (disciplina) não deve ser caracterizada pela polêmica – que por si só não é edificante[7] – mas pelo desejo de conduzi-los à verdade.

 

Calvino nos instrui:

 

Os mestres precisam aprender que esse gênero de moderação deve ser sempre usado nos atos de reprovação, para que não se firam os brios dos homens no uso de excessiva austeridade. (…) Mas, acima de tudo, devem tomar cuidado para não parecer que escarnecem daqueles a quem estão a reprovar, nem sentir-se prazerosos com seu infortúnio.[8] Não! Ao contrário, devem esforçar-se para que fique evidente que a sua intenção não é outra senão a promoção de seu bem-estar. (…) Portanto, se desejamos fazer algo de positivo, ao corrigirmos as falhas das pessoas, é saudável esclarecer-lhes que as nossas críticas são oriundas de um coração amigo”.[9]

O alvo de um bom mestre deve ser sempre converter os homens do mundo para que voltem seus olhos para o céu.[10]

 

 

São Paulo, 30 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1]João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Edições Parakletos, 2001, (Rm 15.14), p. 506.

[2]O substantivo paidei/a e o verbo paideu/w (de onde vem a nossa “pedagogia”), significam “educação das crianças”, e têm o sentido de treinamento, instrução, disciplina, ensino, exercício, castigo. (Para maiores detalhes, consultar: Hermisten M. P. Costa, O Pai Nosso, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 270ss.).

[3]Pagi/j significa “armadilha”, “rede”, “laço” (* Lc 21.34 (ARA) na ACR e BJ, no verso 35; Rm 11.9; 1Tm 3.7; 6.9; 2Tm 2.26).

[4]Zwgre/w, “capturar”, “feito prisioneiro”, “prender com vida” (* Lc 5.10; 2Tm 2.26).

[5]Qe/lhma (derivado do verbo Qe/lw), que significa “vontade”, “desejo”, “intenção”. Apesar do verbo ser amplamente empregado na literatura clássica, o substantivo Qe/lhma aparece raramente. No Novo Testamento ele ocorre 61 vezes (o verbo 207 vezes). A palavra enfatiza mais o elemento volitivo do que o deliberativo, ou seja, a sua ênfase recai sobre o propósito almejado.

[6]“Satanás visa impedir a nossa visão clara da realidade, confundindo os nossos sentidos e, assim, paralisando a nossa vontade, tornando-nos presas fáceis para a execução de seus propósitos. Não é à toa que no Apocalipse Satanás é denominado de ‘o sedutor de todo o mundo’ (Ap 12.9)” (Hermisten M. P. Costa, O Pai Nosso, p. 89).

[7]Segundo Calvino, na polêmica pela polêmica, há algo de ardiloso por parte do maligno. De modo especial, Calvino chama a atenção dos pastores: “Essa é a trama de Satanás, ou seja: que, mediante perversa loquacidade de tais homens, ele enreda os bons e fiéis pastores com o fim de distraí-los de sua preocupação pela doutrina. Daí a necessidade de nos precavermos e não permitirmos qualquer envolvimento em argumentos polêmicos; porque, do contrário, jamais nos veremos livres para direcionar nosso labor em prol do rebanho do Senhor, nem os homens amantes de polêmicas nos deixarão de perturbar” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 3.10), p. 357). Por outro lado: “Um bom pastor deve estar sempre alerta para que seu silêncio não propicie a invasão de doutrinas ímpias e danosas, e ainda propicie aos perversos uma irrefreada oportunidade de difundi-las” (João Calvino, As Pastorais, (Tt 1.11), p. 316).

[8] “…os crentes são açoitados, não para com isso satisfazerem à ira de Deus, nem para pagarem o que é devido ao juízo que ele lhes impõe, mas a fim de aproveitarem a oportunidade para arrependimento e para retorno ao bom caminho” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, (II.5). v. 2. p. 177).

[9]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 4.14), p. 142.

[10] J. Calvino, As Pastorais, (Tt 1.2), p. 301.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (35)  

10.1.2.Mansidão (Ef 4.2)

1) Significado da palavra mansidão

 

O Novo Testamento dispõe de duas palavras que são empregadas indistintamente: Prau/+thj (que é usada neste texto) e prao/thj,[1] que significam: gentileza, humildade, cortesia, consideração, amabilidade, meiguice, brandura. Elas indicavam uma “amizade suave e gentil”.

 

Barclay (1907-1978) traz uma palavra esclarecedora:

 

No grego clássico, esta é uma palavra encantadora. A respeito dos objetos significa “suave”. É usada, por exemplo, a respeito de uma brisa ou uma voz suave. A respeito das pessoas significa “brando” ou “gracioso”. Há um fragmento de Menandro que diz: “Quão doce é um pai que é meigo e jovem de coração”. Seria verdade dizer que no grego clássico é uma palavra carinhosa. Na realidade, Xenofonte usou o plural neutro do adjetivo no sentido de “carinhos”. É caracteristicamente uma palavra de bondade e graciosidade.[2]

 

Aristóteles (384-322 a.C.), seguindo a sua metodologia de encontrar o meio termo virtuoso entre os extremos, a colocou como o ponto central entre a ira excessiva (o)rgilo/thj)[3] e a total passividade (a)orghsi/a)[4].[5] Sócrates (469-399 a.C.) dizia que o amor incute em nós a “brandura”, excluindo a rudeza.[6] Esta virtude, apreciada de modo especial nas mulheres, era uma característica comum atribuída às deusas gregas.[7]

 

Portanto, podemos dizer que “Praus é a palavra em que força e suavidade estão perfeitamente combinadas”.[8]

 

2) Mansidão x fraqueza

 

Mansidão não é sinônimo de fraqueza, indolência ou indiferença. Facilmente podemos confundir tais comportamentos. A mansidão não é apenas uma atitude externa, antes, é uma atitude interior, um controle interno dos impulsos vingativos e reivindicatórios que inesperadamente nos assaltam.

 

Lloyd-Jones comenta:

 

A mansidão é compatível com grande força de caráter. A mansidão é compatível com grande autoridade e poder. (…) O homem manso é aquele que acredita em defender com tal empenho a verdade que se dispõe até a morrer por ela, se for necessário. Os mártires foram pessoas mansas, mas jamais foram débeis. Foram homens fortes, e, contudo, mansos.[9]

 

Nas páginas do Novo Testamento, encontramos Tiago contrastando a mansidão com a ira:

 

Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar (o)rgh/).[10] Porque a ira (o)rgh/) do homem não produz a justiça de Deus. Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade (kaki/a),[11] acolhei (de/xomai),[12] com mansidão (prau=+thj), a palavra em vós implantada (e)/mfutoj[13]= “semeada”), que é poderosa para salvar a vossa alma. (Tg 1.19-21).

 

Dentro de outra perspectiva, podemos observar que muitas vezes enfrentamos alguns problemas, não pelo que dissemos, mas pelo modo como dissemos. Fomos ásperos e agressivos. Devemos enfatizar que amabilidade, gentileza e doçura não se contrapõem necessariamente à firmeza. Devemos ser firmes nas coisas que envolvem a Palavra de Deus e a sua causa, no entanto, não devemos ser grosseiros. Muitas vezes, somos levados a pensar que a convicção de estarmos certos elimina a necessidade de sermos cordatos e amáveis em nossa posição. A verdade não necessita ser grosseira e iracunda.

 

Hendriksen (1900-1982) comenta:

 

Mansidão não é sinônimo de fraqueza. A mansidão não consiste em falta de firmeza de caráter, uma característica da pessoa que está pronta a curvar-se ao sabor de toda brisa. Mansidão é submissão ante qualquer provação, a disposição de sofrer dano ao invés de causá-lo. A pessoa mansa deixa tudo nas mãos daquele que ama e que se importa.[14]

 

Do mesmo modo, Lloyd-Jones (1899-1981): “’Mansidão’ significa realmente prontidão para sofrer o mal, confiando tudo a Deus”.[15]

 

 

São Paulo, 30 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

*Leia esta série completa aqui.

 


 

[1]Temos também prau/+j, praei=a e prau+/ que significam “manso”, “humilde” (* Mt 5.5; 11.29; 21.5; 1Pe 3.4).

[2]William Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988 (reimpressão), p. 172.

[3]Esta palavra, que não ocorre no Novo Testamento, é derivada de o)rgh/ (“ira’, “indignação”, “furor”) (Mt 3.7; Mc 3.5; Rm 1.18; 2.5,8, etc.).

[4] Esta palavra também não é empregada no Novo Testamento. Ela é formada por duas outras: a) (“não”) e o)rga/w (“estar cheio de seiva”, “arder em desejos de luxúria”). O)rga/w é derivada de o)rgh/. Somente esta aparece no Novo Testamento.

[5] “No tocante à cólera também há um excesso, uma falta e um meio-termo. Embora praticamente não tenham nomes, uma vez que chamamos calmo ao homem intermediário, seja o meio-termo também a calma; e dos que se encontram nos extremos, chamemos irascível ao que excede a irascibilidade ao seu vício; e ao que fica aquém da justa medida chamemos pacato, e pacatez à sua deficiência” (Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 4), 1973, II.7. 1108a 6, p. 275).

[6] Platão, O Banquete, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 3), 1972, 197d., p. 35.

[7] Cf. F. Hauck; S. Schulz, Prau=j: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 6, p. 646.

[8]William Barclay, As Obras da Carne e o Fruto do Espírito, São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 107.

[9]David M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: Editora Fiel, 1984, p. 61.

[10]O)rgh/ ocorre no mínimo 35 vezes no Novo Testamento e, qumo/j é usado no mínimo 18 vezes. Na Bíblia, ambos os termos aparecem algumas vezes relacionados: No Antigo Testamento: Dt 9.19; Sl 2.5; 78.49; Is 5.25; 7.4; 9.19; 34.2; Dn 3.13; Ez 22.31; Os 13.11; Mq 5.15. No Novo Testamento: Rm 2.8; Ef 4.31; Cl 3.8; Ap 19.15. Segundo Trench, o mesmo acontece no grego secular (Veja-se: Richard C. Trench, Synonyms of The New Testament, 7. ed. rev. and enlarg. London: Macmillan and Co., 1871, § XXXVII, p. 123).

Apesar de ambas as palavras serem quase sinônimas, parece-me que a distinção entre elas está na duração da irritabilidade; enquanto qumo/j descreve uma ira repentina que logo se apaga, como um “fogo de palha”, conforme diziam os gregos, o(rgh/ retrata uma ira que persiste ardendo lentamente, recusando-se a ser pacificada, tendo assim, grande propensão a se transformar em “amargura”. Contudo, essa distinção gramatical não deve ser aplicada a Deus visto que ele Se comunica conosco usando de termos humanos para descrever os seus “sentimentos” (Vejam-se: William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1973, (Mateo I), v. 1, p. 149-150; v. 11, p. 163; G. Hendriksen, El Evangelio Segun San Juan, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1981, p. 162-163; F. Foulkes, Efésios: introdução e comentário, São Paulo: Mundo Cristão; Vida Nova, (1979), p. 113 e, especialmente: H. Schönweiss; H.C. Hahn, Ira: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 441-449; Richard C. Trench, Synonyms of The New Testament, § XXXVII, p. 123-127; Hermann M. Kleinknecht, et. al., O)rgh/: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 5, p. 382-447.

[11]“Mal”, “malícia”, “maldade”, “impiedade”, “depravação”, “vício”, “malignidade”. A palavra em alguns textos significa uma depravação mental de onde decorrem todos os outros vícios. Ela tem de modo especial um sentido ético. * Mt 6.34; At 8.22; Rm 1.29; 1Co 5.8; 14.20; Ef 4.31; Cl 3.8; Tt 3.3; Tg 1.21; 1Pe 2.1,16. Na literatura clássica a palavra tinha o sentido de “vício” e “injustiça” (Vejam-se: Platão, A República, 444e; Platão, Fedro, 248b; Aristóteles, Arte Retórica, II.12; Aristóteles, Ética à Nicômaco, VII.1.15; Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, II.1.21). Calvino comentando o uso da palavra em Ef 4.31, diz: “Por esse termo ele quer dizer que a depravação da mente, a qual é oposta ao espírito humano e à probidade, e a qual é usualmente chamada malignidade” (J. Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.31), p. 149).

[12]Tem também o sentido de “receber”, “aceitar”, “aprovar”. Estevão sendo apedrejado ora: “… Senhor Jesus, recebe (de/xomai) o meu espírito!” (At 7.59).

[13] Esta palavra só ocorre neste texto em todo o Novo Testamento.

[14] William Hendriksen, Mateus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, v. 1, (Mt 5.5), p. 379.

[15]D.M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 38.

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (17)

7.1.2. O Amado e o amor incompreensível

O Seu sacrifício foi voluntário e eficaz. Não haveria outro preço que pudesse ser estipulado para que por meio de seu pagamento fôssemos libertos da escravidão. Cristo, no entanto, o fez definitivamente (Gl 1.4; Gl 2.20; 1Pe 1.18-20).[1] Porque ele não encontrou nenhum outro pagamento que não o derramamento de seu sangue, de modo que se tornasse nosso fiador tanto no corpo quanto na alma, respondendo por nós diante do juízo divino para nos ganhar absolvição”, interpreta Calvino.[2]

 

Aqui nos deparamos com algo incompreensível a nós, excedendo em muito ao nosso entendimento (Ef 3.19):[3] Deus paga um altíssimo preço para nos libertar.[4] Paulo diz que fomos comprados por preço (1Co 6.20); portanto, devemos glorificar a Deus em nosso corpo. No entanto, Aquele que foi oferecido por nós, inimigos de Deus, foi o Seu próprio Filho, que é descrito por Paulo como o “Amado” (Ef 1.6). De fato, antes da criação de todas as coisas, antes da existência dos anjos ou de qualquer outra criatura, Jesus Cristo era e sempre será o “Amado”.

 

Jesus Cristo não faz parte de um estágio revelacional, antes, é o próprio Deus que traz a Sua palavra final: “o Verbo se fez carne” (Jo 1.14). Cessaram as antigas formas de revelação as quais apontavam para Jesus Cristo, a Palavra final de Deus (Hb 1.1-4).

 

A nossa eleição eterna concretiza-se em Cristo, o Amado. De fato, o amor de Deus não encontra paralelo ou analogias às quais possamos recorrer; ele transcende a todo tipo de raciocínio ou de sentimento nosso. Ele é suprarracional e suprassensorial. O amor de Deus é a matriz e a possibilidade de nosso amor.[5] O seu amor antecede ao nosso e nos capacita a amar. Há um nexo essencialmente causal entre o amor de Deus e o nosso: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19). O Amado nos ama com o amor próprio de Deus do qual Ele é o beneficiário. O Seu amor é uma expressão do amor eterno do Deus Pai, sendo o Filho o alvo primeiro e especial. O desafio para nós, como objetos de amor do Amado é aprender a amar como Ele nos ama. No exercício do amor revelamos o amor do Amado em nós.

 

O amor é medido a partir do que ele se dispõe a dar. Deus não conhece limites em Seu santo amor (Rm 8.32).[6] O Seu único Filho eterno em Quem Se agrada, sendo Ele o Seu prazer (Mt 3.17;[7] 12.18; 17.5; 2Pe 1.17), o Pai o envia para entregar a Sua vida pelos seus inimigos para que estes fossem reconciliados consigo mesmo (Ef 2.4).[8] Este amor foge, escapa totalmente à nossa compreensão. De fato “o amor de Deus é poderoso para vencer todo tipo de dificuldade e infidelidade. O amor eleitor é, ao mesmo tempo, amor compassivo e amor perdoador”, comentam Günther e Link. [9]

 

Como entender, ainda que parcialmente, este amor sacrificial de Deus, capaz de dar o “Amado” pelos inimigos amados?

 

Entregar amados menores pelo Amado, conseguimos entender. Afinal, quem já não se desfez de algo importante, porém, de menor valor para adquirir algo mais importante para nós? Contudo, dar o Amado pelos Seus inimigos, sim, amados, porém inimigos, isto não faz sentido em nossa lógica.

 

De fato, não temos categorias que nos permitam compreender este mistério. O nosso consolo e alegria consistem em saber que Deus é amor e que Ele nos ama em Cristo Jesus, o Amado. Jesus Cristo é a prova mais evidente de que Deus nos ama. “Porque Deus amou (a)gapa/w) o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou (a)poste/llw) o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3.16-17).[10]

 

Deus deu o Seu Filho não para uma profissão ou carreira militar, mas para perecer pelos seus inimigos a fim de que estes não pereçam.[11] Daí a sólida confiança de Paulo, extraindo uma lição bastante prática: “Aquele que não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou….” (Rm 8.32).

 

Ainda que não tenhamos a pretensão de compreender exaustivamente este assunto, no próximo post analisaremos alguns aspectos que poderão ampliar, ainda que modestamente, a nossa compreensão.

 

São Paulo, 11 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Leia esta série completa aqui.

 


 

[1]O qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai” (Gl 1.4). “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20). Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, 19 mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, 20 conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1Pe 1.18-20).

[2] João Calvino, Sermões em Efésios, p. 88.

[3]“E conhecer o amor (a)ga/ph) de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.19).

[4] “Tão espantoso e tão infinitamente rico é o amor de Deus por nós que jamais seremos capazes de medi-lo. Por toda a eternidade, os mistérios desse amor, infinitos em número, continuarão a ser-nos revelados” (W. Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 3.31), p. 184).

[5] “O amor que Deus nutre por nós é sem paralelo” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 90.16), p. 442).

[6] “A medida do amor, humano e divino, é o quanto ele dá. Por este padrão, o amor de Deus é imensurável, porque tanto a grandeza da dádiva quanto o seu custo estão além da nossa compreensão. Todos os paralelos humanos são insuficientes; todas as comparações, inadequadas” (J.I. Packer, O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005, p. 137).

[7]Eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado (a)gaphto/j), em quem me comprazo” (Mt 3.17).

[8]“Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, 2 nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; 3 entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. 4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor (polu/j a)ga/ph) com que nos amou (a)gapa/w), 5 e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, 6 e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; 7 para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus” (Ef 2.1-7).

[9]W. Günther; H.-G. Link, Amor: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 199.

[10] “Jo 3.16 fez a espantosa, incompreensível, impenetrável, profunda e quase incrível declaração de que o santo Deus ama soberanamente pecadores que merecem o inferno, e que os ama tanto que quis que o Seu Filho unigênito, a quem Ele ama com todo o amor do Seu coração infinito, sofresse no inferno em lugar deles!” (R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, p. 18).

[11]C.H. Spurgeon, Amor Imensurável, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (s.d.), p. 7-8. “O custo do sacrifício nos persuade a respeito da grandeza do amor de Deus e garante a doação de todas as demais dádivas de forma gratuita” (Rm 8.32) (John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p.19).

Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (8)

4. O Autor da eleição

 O decreto da eleição é uma obra da Trindade, todavia, a Bíblia atribui mais especificamente ao Pai este ato soberano (Jo 6.37,39,44,45,64,65; 17.6,9; Ef 1.3,4).[1]

Podemos dizer que a Eleição é um ato eterno da Santíssima Trindade, sendo efetivado mais especificamente pelo Pai, como representante do Conselho Trinitário (Ef 1.11). No entanto, jamais devemos perder de vista o fato de que a Trindade está comprometida com a salvação de todos os eleitos (Jo 17.9-26/Jo 14.16-17,26; 15.26; 16.13-15).

O Deus Triúno é o Autor e o executor da nossa salvação. Do princípio ao fim, a salvação é obra de Deus (Fp 1.6).[2]

 

A Obra do Espírito torna efetivo em nós aquilo que Cristo realizou definitivamente por nós. Podemos afirmar, que sem as operações do Espírito, o Ministério Sacrificial de Cristo não teria valor objetivo para os homens, visto que os méritos redentores e salvadores de Cristo não seriam comunicados aos pecadores.

 

Calvino (1509-1564) afirmou corretamente, que é necessário que Cristo habite em nós para que compartilhe conosco o que recebeu do Pai. Ele conclui dizendo que: “O Espírito Santo é o elo pelo qual Cristo nos vincula efetivamente a Si”.[3] Em outro lugar, declara: “Sabemos que nosso bem, nossa alegria e repouso é estar unido ao Filho de Deus”.[4] “Em primeiro lugar devemo-nos lembrar que a obra da redenção de Cristo de nada nos aproveita enquanto não estivermos unidos a Ele, enquanto Ele não estiver em nós”.[5]

 

Cristo cumpriu perfeitamente as demandas da Lei e adquiriu todas as bênçãos que envolvem a salvação. A Obra do Espírito consiste em aplicar os merecimentos de Cristo aos pecadores, capacitando-os a receberem a Graça da salvação. Somente através do Espírito “recebemos todos os bens e dons que nos são dados em Jesus Cristo”.[6]

 

É Ele Quem derrama sobre nós, as bênçãos da graça, obtidas pela obra eficaz de Cristo. Desta forma, podemos dizer que o Ministério soteriológico do Espírito se baseia nos feitos de Cristo e, que o Ministério Sacrificial de Cristo reclama a ação do Espírito (Jo 7.39/Jo 14.26; 16.13-14). “A obra do Espírito na aplicação da redenção de Cristo é descrita como tão essencial como a própria redenção”.[7] “A condição prévia indispensável para a outorga do Espírito é a obra de Cristo”, conclui corretamente Bruner.[8]

 

A Palavra nos ensina que o Espírito Santo é o Espírito de Cristo (Gl 4.6; Fp 1.19); por isso, a presença do Espírito em nós, é a presença do Filho (Rm 8.9). Quando evangelizamos, o fazemos, confiantes de que Deus, pelo Espírito, aplicará os méritos de Cristo no coração do Seu povo. Portanto, aí está a nossa responsabilidade e o nosso conforto, conforme bem observou Billy Graham (1918-2018):

 

O Espírito Santo é o grande comunicador do Evangelho, usando como instrumento pessoas comuns como nós. Mas é dele a obra. Assim, quando o Evangelho é fielmente proclamado, o Espírito Santo é quem o envia como dardo flamejante aos corações dos que foram preparados.[9]

 

Ninguém está fora do alcance do Evangelho. A salvação é para todos os que creem em Cristo Jesus. À nós compete cumprir a nossa missão essencial de proclamar as virtudes de Deus a todos os homens. A efetivação da salvação é com Deus, Aquele que elege e converte o Seu povo.

 

 

Recife, 2 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Parece ser esta também a perspectiva de Calvino. Veja-se: As Institutas, III.22.7.

[2] “Em sua inteireza a nossa salvação procede do Senhor. É sua realização. Ele mesmo apresenta Sua noiva a Si mesmo por que ninguém mais pode fazê-lo, ninguém mais é competente para fazê-lo. Somente Ele pode fazê-lo. Ele fez tudo por nós, do princípio ao fim, e concluirá a obra apresentando-nos a Si mesmo com toda esta glória aqui descrita” (D.M. Lloyd-Jones, Vida No Espírito: No Casamento, no Lar e no Trabalho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, (Ef 5.27), p. 137). Do mesmo modo acentua Murray: “A salvação é do Senhor, tanto em sua aplicação como em sua concepção e realização” (John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 98).

[3]João Calvino, As Institutas, III.1.1.

[4]J. Calvino, Sermones Sobre La Obra Salvadora De Cristo, Jenison, Michigan: T.E.L.L. 1988, “Sermon nº 2”, p. 23.

[5]J. Calvino, As Institutas da Religião Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1984, III.1. p. 205. (Edição abreviada por J.P. Wiles).

[6]Catecismo de Genebra, (1541), Pergunta 91.

[7]Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 390.

[8]Frederick D. Bruner, Teologia do Espírito Santo, p. 179.

[9] Billy Graham, Por que Lausanne?: In: A Missão da Igreja no Mundo de Hoje, São Paulo; Belo Horizonte, MG.: ABU; Visão Mundial, 1982, p. 30. A consciência de que os “resultados” da Evangelização dependem do Deus soberano, traz como implicação a nossa ousada confiança em Deus, não em nossos métodos. Packer analisou bem este ponto, fazendo aplicações complementares: “Se esquecermos que a prerrogativa de Deus é produzir resultados quando o evangelho é pregado, acabaremos pensando que é nossa responsabilidade assegurá-los. E, se nos esquecermos de que somente Deus pode infundir fé, acabaremos pensando que a conversão, em última análise, depende não de Deus, mas de nós, e que o fator decisivo é a maneira como evangelizamos. E essa linha de pensamento, coerentemente seguida, nos fará desviar em muito” (J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 22). “(A) fé fervorosa na soberania absoluta de Deus (…) não somente fortalece a evangelização, como sustenta o evangelista, criando uma esperança de êxito que, de outro modo, não poderia ser realidade; e igualmente nos ensina a ligar a pregação à oração, tornando-nos ousados e confiantes perante os homens, ao mesmo tempo em que nos torna humildes e persistentes perante Deus” (J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, p. 84-85).