Privilégios e Responsabilidades nas Carreiras: entre a Idealização e a Realidade
Introdução
Ao longo da vida, percebi que frequentemente somos seduzidos pelos privilégios que certas carreiras parecem oferecer — status, estabilidade, reconhecimento social, poder — sem considerar, com igual rigor, as responsabilidades que elas exigem. Essa dissociação entre expectativa e realidade pode gerar frustração pessoal e, em casos de liderança política ou militar, consequências sociais de grande impacto.
Minha Experiência Militar
Quando jovem, ingressei na vida militar, movido pela admiração que nutria pela farda e pelo que ela simbolizava: disciplina, honra e serviço. Entretanto, ao longo da experiência, percebi que determinadas atividades práticas − como instruções de ordem unida, acampamentos e treinamentos de sobrevivência na selva − não correspondiam às minhas expectativas nem se harmonizavam com minha vocação. Essa constatação, ainda que fruto de uma mente imatura e, em certo sentido, reducionista, acabou tornando-se decisiva, entre outros fatores, para que eu não seguisse carreira.
Apesar disso, não considero de forma alguma aquele período perdido. Pelo contrário, dele extraí um princípio que me acompanha até hoje: não basta admirar os símbolos ou usufruir dos privilégios de uma função; é imprescindível estar disposto a assumir, com seriedade e constância, as responsabilidades que ela impõe no cotidiano. A farda, por si só, não faz o soldado; é a disposição de viver diariamente os valores que ela representa que confere autenticidade à vocação.
O Paralelo com a Política
Na política, esse contraste se torna ainda mais evidente. O cargo público oferece visibilidade e influência, mas também impõe exigências que não podem ser ignoradas. Entre elas, destacam-se os sacrifícios pessoais e familiares, pois a exposição constante e o desgaste emocional fazem parte da rotina de quem assume funções de liderança.
Soma-se a isso o compromisso ético, que exige não apenas trabalhar com afinco e dedicação, mesmo contando com a estabilidade do cargo, mas também manter a consciência de que, conforme a posição ocupada, decisões tomadas podem impactar diretamente a vida de milhões de pessoas.
Assim, não basta usufruir da visibilidade ou dos privilégios que acompanham a função pública; é necessário assumir, com seriedade e constância, as responsabilidades que ela impõe. A verdadeira legitimidade de um cargo não reside apenas em sua autoridade formal, mas na disposição de servir com integridade, colocando o bem comum acima de interesses pessoais.
Para o político íntegro, o peso das responsabilidades pode ser um fardo difícil de suportar. Para o político que busca apenas os privilégios, sem compromisso com os deveres, o resultado é devastador: corrupção, má gestão e danos profundos ao país.
A Perspectiva Bíblica
Jesus nos ensina sobre o valor do planejamento e da responsabilidade antes de empreender qualquer tarefa:
Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir? Para não suceder que, tendo lançado os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem zombem dele, dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acaba. (Lc14.28-30).
Esse texto revela a seriedade do compromisso que antecede qualquer empreendimento. Não basta o entusiasmo inicial ou a aparência de grandeza; é necessário avaliar os custos, prever as dificuldades e assumir, de forma consciente as responsabilidades. Jesus mostra que a falta de preparo e de cálculo pode levar não apenas ao fracasso pessoal, mas também à perda de credibilidade diante dos outros.
Aplicando esse princípio:
- Na vida militar, não basta admirar a farda; é necessário estar disposto a enfrentar os exercícios e responsabilidades que ela impõe, calculando o custo de uma vocação que exige disciplina e entrega.
- Na política, não basta desejar os privilégios do cargo; é imprescindível avaliar o preço de servir ao povo com integridade e sacrifício. Os ministros servem à pólis e, para servir dignamente à sociedade, devem servir primariamente à Constituição com boa consciência, sem negociar princípios.
- Na vida pastoral, não basta assumir o púlpito; é fundamental compreender o peso espiritual e ético de cuidar de pessoas, lembrando que somos limitados e pecadores, e que o ministério exige preparo, humildade e fidelidade.
Assim, em Lucas 14.28-30 somos lembrados de que toda vocação exige preparo, consciência e fidelidade. O verdadeiro líder não transige em seus princípios nem relativiza suas convicções; tampouco se deixa conduzir apenas pelos privilégios que o cargo lhe confere. Pelo contrário, ele assume, com seriedade e constância, as responsabilidades que Deus lhe confiou, consciente de que sua legitimidade não está apenas na posição que ocupa, mas na disposição de viver diariamente os valores que a vocação requer.
A Vocação como Serviço Alegre
Em meus estudos sobre a vocação, destaquei que o trabalho não deve ser visto apenas como obrigação ou meio de sustento, mas como exercício criativo e alegre da vocação de Deus[1]. Escrevi ali que o trabalho é parte da ordem criacional e, quando exercido com consciência da presença de Deus, transforma-se em expressão de gratidão e serviço.
Essa perspectiva reformada nos recorda que toda função − seja militar, política, civil ou pastoral − deve ser entendida como oportunidade de servir ao próximo e glorificar a Deus. A verdadeira alegria não reside nos privilégios que o cargo possa oferecer, mas na fidelidade com que assumimos e cumprimos as responsabilidades que dele decorrem.
Acompanho Warfield (1851-1921) em sua compreensão de que “O melhor serviço que podemos oferecer a Deus é justamente cumprirmos nossos deveres – nosso modesto, caseiro dever, qualquer que seja ele.”[2]
A Importância de Não Negociar Princípios
Um dos maiores perigos na vida pública e ministerial é a tentação de negociar princípios em troca de vantagens imediatas. A Escritura nos adverte: “Melhor é o pouco, havendo justiça, do que grandes rendimentos com injustiça.” (Pv 16.8).
A integridade e a justiça são mais valiosas do que qualquer ganho material obtido de forma corrupta ou injusta. O verdadeiro valor não está na quantidade de bens ou privilégios acumulados, mas na fidelidade à justiça diante de Deus e dos homens.
Abrir mão de valores essenciais pode parecer, num primeiro momento, uma solução pragmática; na realidade, porém, mina a integridade e destrói a confiança. Como já afirmei em outros escritos, o caráter não se improvisa; ele é forjado no lar, consolidado na vida comunitária e revelado no exercício da liderança. Quando princípios são relativizados, o líder perde sua autoridade moral e compromete o bem do povo que deveria servir.
Calvino (1509-1564) também nos lembra que a vocação é inseparável da fidelidade:
De melhor grado o magistrado desempenhará suas funções, um chefe de família se restringirá ao dever, cada um em seu gênero de vida suportará e tolerará as desvantagens, as preocupações, os aborrecimentos, as angústias, quando forem persuadidos de que a cada um foi um imposto por Deus o seu fardo. Daqui também brotará ilustre consolação, ou seja, desde que obedeças à tua vocação, nenhuma obra será tão desprezível e vil que diante de Deus não resplandeça e seja considerada extremamente valiosa.[3]
Isso significa que o exercício da função é inseparável da integridade dos princípios que a sustentam. O ofício não cria o ladrão; apenas revela o seu caráter.
Aplicação Pastoral
Daqui decorrerem algumas aplicações à vida da Igreja e da sociedade.
- Na Igreja, os ministros devem lembrar que seu chamado não é para benefício próprio, mas para edificação do povo de Deus.
- Na sociedade, os governantes devem lembrar que sua autoridade é delegada e deve ser exercida em favor do povo, não em proveito pessoal.
- Em ambos os casos, é imperativo não transigir em princípios, pois é deles que nasce a credibilidade e a confiança necessárias para liderar.
Integridade e Oração: O Caminho da Fidelidade
Se a oração é uma prática fundamentada na graça de Deus, não devemos renunciar à responsabilidade de buscar continuamente a integridade de coração, de desejo e de comportamento. Quando nossas orações são orientadas pela Palavra e brotam de um coração puro, elas se harmonizam com o propósito divino. Nesse contexto, nossa confiança diante do trono da graça cresce, pois sentimos maior liberdade em pleitear uma causa que, em última análise, é a própria causa de Deus.
Em contraste, a má consciência desvia-nos da senda do dever, tornando-se mãe de heresias e minando a autenticidade da vida cristã. Como lembra Calvino, ainda que alguém desempenhe seus deveres com habilidade, se o coração não está neles, falta-lhe muito para alcançar a verdadeira meta.[4] Por isso, mesmo que o mundo inteiro se levante contra o povo de Deus, quem nutre o senso de sua integridade não precisa temer desafiar reis, conselheiros ou multidões, pois sua força repousa na fidelidade a Deus e na retidão de consciência.
Calvino também nos recorda que Deus requer de nós uma vida íntegra, livre de violência, roubo, crueldade, malícia e fraude. Ele nos ordena sobriedade, disciplina e moderação, em contraste com aqueles que, carentes de autocontrole, vivem conspurcados e sem temor de Deus. Assim, “o que faz um cristão é a integridade aos olhos de Deus e a retidão diante dos homens”.[5]
Essa integridade não é mero exibicionismo acadêmico ou demarcação ideológica. Nossa cosmovisão deve estar comprometida com a coerência perceptiva e existencial, de modo que aquilo que cremos, falamos e fazemos não se esfacele em contradições. A fé, longe de ser autorreferente, aplica-se à totalidade da vida e parte sempre da Palavra de Deus, nela encontrando direção e sentido.
MacArthur (1939-2025) reforça: “O melhor caminho para manter essa integridade e evitar outros comprometimentos é manter os olhos fixos em Cristo”.[6] Somente à medida que edificamos nosso relacionamento com Ele e experimentamos seu poder é que obtemos vitória sobre o pecado e construímos uma vida íntegra.
Portanto, oração e integridade caminham inseparavelmente: a oração nos coloca diante da graça de Deus, enquanto a integridade nos dá liberdade e confiança na presença do Senhor. Uma consciência pura fortalece nossa fé, sustenta nossa coragem e nos habilita a viver, por graça, com dignidade diante de Deus e dos homens. Essa mesma lógica se aplica às vocações humanas, sejam militares, políticas ou pastorais.
Conclusão
Toda carreira é, em essência, um equilíbrio delicado entre privilégios e responsabilidades. O verdadeiro valor de quem a exerce não se mede apenas pela posição que ocupa ou pelos benefícios que dela usufrui, mas pela disposição de assumir, com constância e seriedade, ambos os lados dessa balança. Minha própria experiência na vida militar ensinou-me que não basta admirar os símbolos; é preciso estar disposto a carregar os deveres que eles representam.
Na política, essa consciência torna-se ainda mais vital. Líderes que buscam apenas privilégios, sem caráter e preparo, comprometem não apenas a própria integridade, mas também o futuro da nação. A Escritura, o pensamento de Calvino e minhas reflexões sobre a vocação convergem para um ponto comum: preparo e caráter antecedem o cargo. Sem princípios sólidos, toda liderança se torna frágil e oportunista, incapaz de sustentar o bem comum e, por isso, perigosa.
E, sobretudo, é essencial não diluir fundamentos éticos. Pois, quando os valores são relativizados ou negociados, qualquer liderança perde sua legitimidade, tornando-se vulnerável às pressões externas e aos interesses pessoais.
A verdadeira autoridade não reside apenas na função formal. Ela se fundamenta na integridade de quem a exerce, colocando o bem comum acima de conveniências particulares.
Maringá, 16 de fevereiro de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
[1]Hermisten M.P. da Costa, O Trabalho como exercício criativo e alegre da vocação de Deus – fundamentos e implicações: Uma aproximação Reformada (Primeira parte). In: Ciências da Religião. História e Sociedade. São Paulo: Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, (2014, XII/1): 168-202. (http://editorarevistas.mackenzie.br/ index.php/cr/article/view/6588/4810) e Hermisten M.P. da Costa, O Trabalho como exercício criativo e alegre da vocação de Deus – fundamentos e implicações: Uma aproximação Reformada (Segunda parte). In: Ciências da Religião. História e Sociedade. São Paulo: Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, (2014, XII/2): 172-196. (http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/cr/article/view/7481/5221).
[2] B.B. Warfield, A Vida Religiosa dos Estudantes de Teologia,São Paulo: Editora os Puritanos, 1999, p. 12.
[3]João Calvino, As Institutas, (2022), III.10.6.
[4] Cf. João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 39.
[5]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.47), p. 83).
[6]John MacArthur, Jr., O Poder da Integridade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 27.
