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Entre a História e a “Conserva”: O Cristianismo Evangélico e Seu Impacto no Mundo (3)

3. Hospitais e assistência social: Fé, Misericórdia e Serviço

Inspirados no ministério de Jesus, que curava os enfermos e acolhia os marginalizados, os cristãos compreenderam desde cedo que a misericórdia não poderia se restringir a gestos isolados, mas deveria se tornar uma prática organizada e duradoura.

Já nos primeiros séculos, surgiram casas de acolhimento e hospitais, como a célebre Basilíada fundada por Basílio de Cesareia no século IV, reunindo albergues, orfanatos e espaços de assistência aos pobres e doentes. Ali, a saúde era concebida como expressão da dignidade humana e da responsabilidade comunitária, e não apenas como ausência de enfermidade. Essa visão integral da pessoa, criada à imagem de Deus, tornou-se o alicerce de uma tradição que transformou compaixão em prática social e espiritualidade em serviço comunitário.

Séculos mais tarde, o protestantismo retomou e ampliou esse impulso, fazendo da fé, da misericórdia e do serviço uma tríade inseparável da missão da Igreja. A Reforma do século XVI não apenas renovou a teologia, mas também inspirou uma profunda transformação social: Lutero e Calvino incentivaram a criação de diaconias e casas de acolhimento, enquanto o metodismo de John Wesley destacou o cuidado com os marginalizados.

Essa visão se expandiu para além da Europa, alcançando os continentes por meio das missões protestantes. Nos Estados Unidos, igrejas fundaram hospitais de referência, como o New York Presbyterian Hospital, além de universidades médicas que integraram ensino e serviço social. Na África e na Ásia, missionários britânicos e norte-americanos estabeleceram instituições que se tornaram pilares da saúde pública, como o Mengo Hospital em Uganda − o mais antigo da África Oriental − e o Christian Medical College em Vellore, na Índia.

Na América Latina, hospitais evangélicos surgiram como expressão concreta da missão integral da Igreja. No Brasil, médicos e missionários presbiterianos e congregacionais, como Robert Reid Kalley — que já havia construído um hospital na Ilha da Madeira — estiveram envolvidos na criação de escolas, hospitais e clínicas, unindo evangelização e serviço social. Essas iniciativas buscavam atender populações marginalizadas, oferecendo não apenas instrução, mas também cuidado médico e apoio comunitário.

Como observam Kennedy e Newcombe, sem o nascimento de Cristo dificilmente o mundo teria experimentado o mesmo impulso para a criação de hospitais e instituições médicas voltadas ao cuidado dos pobres e marginalizados.[1] A fé cristã, ao reconhecer a dignidade de cada ser humano como imagem de Deus, forneceu o horizonte ético que inspirou tais empreendimentos, deixando um legado global de cuidado integral e compaixão organizada.

            A. A ética cristã na medicina

                        Frame destaca que a prática médica cristã não pode ser reduzida a técnica ou ciência, mas deve ser permeada por princípios éticos derivados da fé. O exercício da medicina, nesse sentido, é vocação e ministério, em que o profissional é chamado a servir ao próximo com misericórdia e justiça.[2]

Hall e Padgett, ao discutir Calvino e a cultura, lembram que a tradição reformada via o cuidado com os enfermos como parte da responsabilidade social da Igreja e da comunidade cristã, reforçando que a saúde não é apenas questão individual, mas também comunitária e cultural.[3]

            B. A influência histórica dos cristãos na medicina

                        Estudos como os de Aitken[4] e Browne[5] mostram que cristãos foram pioneiros em iniciativas médicas ao longo da história, fundando hospitais, sanatórios e missões médicas em diferentes continentes. Essas instituições não apenas trataram doenças, mas também promoveram educação sanitária, prevenção e dignidade social.

Kennedy e Newcombe ressaltam que o Cristianismo foi decisivo para transformar a medicina em prática de compaixão e misericórdia, especialmente voltada para os pobres e marginalizados.[6]

            C. Evangelismo e ação social

                        Stott compreende que evangelismo e ação social não são concorrentes, mas complementares. A proclamação da fé deve caminhar junto com a demonstração prática do amor cristão.[7] DeYoung reforça que a justiça social e o cuidado com os necessitados fazem parte da missão integral da Igreja, ainda que subordinados à proclamação do Evangelho.[8]  Kaiser Jr. lembra que a ética cristã exige engajamento em questões concretas da vida, incluindo saúde, pobreza e dignidade humana.[9]

            D. Assistência social e combate à pobreza

                        Além dos hospitais, igrejas evangélicas se engajaram em ações sociais como orfanatos, escolas e programas de assistência, refletindo o ensino bíblico de amar ao próximo (Tg 1.27).

Durante a Reforma, Calvino não apenas reorganizou a vida religiosa de Genebra, mas também promoveu profundas transformações sociais. Sua teologia da diaconia levou à criação de estruturas de assistência aos pobres, órfãos e enfermos, mostrando que a Igreja deveria cuidar integralmente da comunidade.

A fundação da Academia de Genebra em 1559 reforçou esse compromisso, oferecendo educação e alfabetização como meios de dignificar o ser humano e fortalecer a fé.

Além disso, o Consistório exerceu papel disciplinador, buscando ordenar a vida social e moral da cidade, enquanto a ética do trabalho como vocação diante de Deus incentivava responsabilidade e solidariedade. Genebra tornou-se, assim, um modelo de cidade reformada, acolhendo refugiados e organizando a vida comunitária em torno da fé e do serviço.

Kuyper argumenta que a Igreja tem papel fundamental na luta contra a pobreza, não apenas por meio de caridade, mas pela promoção de justiça social e transformação cultural.[10] Essa visão dialoga com abordagens modernas, como a de Kotler e Lee, que mostram como iniciativas sociais podem ser estruturadas para gerar impacto duradouro.[11]

O impacto do Cristianismo na saúde e na assistência social é inegável. Desde os primeiros séculos, cristãos criaram estruturas de acolhimento e, no contexto evangélico, missionários ampliaram esse legado em hospitais, clínicas e programas de saúde em regiões carentes.

Mais do que técnica, o cuidado cristão com os enfermos tornou-se expressão de misericórdia e dignidade. Essa prática não apenas transformou a medicina, mas também moldou a cultura ocidental, estabelecendo a saúde como direito humano e responsabilidade comunitária. Ao unir evangelismo e ação social, a fé cristã mostrou que proclamar o Evangelho significa também curar, acolher e servir.

4. O Coliseu de Roma e a Ética Cristã da Dignidade Humana

 O Coliseu de Roma, inaugurado em 80 d.C., tornou-se o maior anfiteatro da Antiguidade, com capacidade para cerca de 60 mil espectadores. Ali se realizavam combates de gladiadores, execuções públicas e espetáculos sangrentos como a damnatio ad bestias (“condenação às feras”), em que prisioneiros eram lançados às feras.

Esses eventos não eram apenas entretenimento, mas instrumentos de poder político, reafirmando a autoridade imperial e a ordem social. A cultura romana naturalizava a violência como espetáculo, transformando a morte em diversão coletiva e reforçando valores de força e dominação.

Com a expansão do Cristianismo, uma nova ética fundamentada na dignidade humana começou a se afirmar. A convicção de que cada ser humano possui valor intrínseco por ser criado à imagem de Deus (Gn 1.27) contrastava radicalmente com a prática romana de tratar gladiadores, escravos e prisioneiros como objetos descartáveis. Ao rejeitar a violência como entretenimento, os cristãos proclamaram que a vida humana é sagrada e não pode ser instrumentalizada para diversão, questionando práticas profundamente enraizadas na cultura romana.

O crescimento da fé cristã, especialmente após a conversão de Constantino e a oficialização do Cristianismo, promoveu uma mudança gradual na percepção social da violência pública. Constantino, no século IV, proibiu a execução de prisioneiros em combates de gladiadores, e Teodósio I, no século V, reforçou essa proibição, culminando na abolição definitiva dos combates. Como observa Stark, essa mudança não se deveu apenas a decretos imperiais, mas à transformação cultural promovida pela ética cristã, que valorizava a vida e rejeitava a violência como espetáculo.[12]

Nesse sentido, o Cristianismo se destacou no mundo antigo por oferecer respostas concretas às necessidades sociais e existenciais: concedeu às mulheres maior dignidade e liberdade em comparação ao paganismo; durante as epidemias, cuidou dos enfermos e não os abandonou, aumentando sua taxa de sobrevivência e atraindo simpatia; e, em meio ao caos das cidades romanas, ofereceu sentido, pertencimento e uma rede de apoio que acolhia pobres, órfãos e marginalizados.

A rejeição cristã à violência pública não foi apenas uma mudança legal, mas cultural. O ideal romano de heroísmo, associado à força bruta, foi substituído pelo modelo cristão de santidade e martírio. A dignidade humana passou a ser reconhecida como princípio fundamental, moldando a tradição ocidental que passou a ver a vida como sagrada e a violência como prática a ser contida, não celebrada. Assim, o Coliseu de Roma, símbolo da naturalização da violência como espetáculo, tornou-se também símbolo da transformação ética promovida pelo Cristianismo.

Ao introduzir uma nova visão de dignidade humana, a fé cristã não apenas moldou indivíduos, mas reconfigurou estruturas sociais e culturais profundamente enraizadas, estabelecendo bases para uma civilização que valoriza a vida e rejeita a violência como entretenimento.

5. O abandono de crianças

Na sociedade greco-romana, o abandono de recém-nascidos era prática comum e socialmente aceita. Crianças indesejadas — muitas vezes por razões econômicas, deformidades físicas ou simplesmente por serem do sexo feminino — eram deixadas em locais públicos ou expostas à natureza (expositio). Muitas morriam de fome e frio, enquanto outras eram recolhidas para a escravidão ou prostituição.

O Cristianismo, porém, introduziu uma nova ética ao afirmar que toda vida humana possui dignidade por ser criada à imagem de Deus (Gn 1.27). Essa convicção se estendia às crianças, vistas não como propriedade dos pais, mas como dons divinos. Jesus, ao acolher e abençoar os pequenos (Mc 10.13-16), estabeleceu um paradigma radicalmente distinto da cultura dominante, inaugurando uma visão de cuidado e proteção que transformaria a sociedade.

Com o tempo, essa ética cristã levou ao surgimento de práticas e instituições voltadas ao acolhimento dos abandonados. A chamada “roda dos expostos”, criada na Idade Média e trazida ao Brasil no período colonial, permitia que mães deixassem anonimamente seus bebês em conventos, mosteiros e Santas Casas de Misericórdia. A criança, ao ser colocada na roda, ficava “exposta” ao cuidado da instituição, daí o nome. Embora marcada por altas taxas de mortalidade, essa prática representava uma tentativa de oferecer acolhimento em vez de abandono nas ruas.

Como assinala Stark,[13] a disposição dos cristãos em adotar e cuidar de crianças expostas foi decisiva para o crescimento da comunidade cristã e para a transformação da sociedade romana. A resposta cristã não se limitou a ações individuais, mas deu origem a orfanatos, casas de acolhimento e escolas paroquiais, expressando a fé em forma de serviço. Assim, a Igreja primitiva, ao assumir a responsabilidade por órfãos e viúvas (At 6), criou uma rede de solidariedade que se tornaria modelo para instituições sociais posteriores. Essa mudança foi decisiva para a valorização da infância e para a formação de práticas que perduram até hoje, como orfanatos, escolas e políticas de proteção à criança.

 Maringá, 21 de fevereiro de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Cf. D. James Kennedy; J. Newcombe, E se Jesus não tivesse nascido? São Paulo: Vida, 2003.

[2]Cf. John M. Frame, Medical Ethics: Principles, Persons, and Problems, Phillipsburg, NJ.:  Presbyterian and Reformed Publishing, 1988.

[3]David W. Hall; Marvin Padgett (Org.). Calvino e a cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 2017.

[4] J.T.  Aitken, et al. (eds.). The Influence of Christians in Medicine. London: Christian Medical Fellowship, 1984.

[5]Stanley G.  Browne, et. al. eds. Heralds of Health: The Saga of Christian Medical Initiatives, London: Christian Medical Fellowship, 1985.  

[6] D. James Kennedy; J. Newcombe, E se Jesus não tivesse nascido? São Paulo: Vida, 2003.

[7]John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, Viçosa: Ultimato, 2010.

[8]Kevin Deyoung, Qual é a Missão da Igreja? São José dos Campos: Fiel, 2012.

[9]Walter C. Kaiser Jr., O Cristão e as questões éticas da atualidade, São Paulo: Vida Nova, 2015.

[10] Abraham Kuyper, O Problema da pobreza: a questão social e a religião cristã,  Rio de Janeiro: Thomas Nelson do Brasil, 2020.

[11] Philip Kotler e Nancy R. Lee,   defendem que o combate à pobreza não pode se limitar a programas assistencialistas, mas exige mudança cultural e engajamento comunitário. O marketing social, segundo os autores, fornece ferramentas para estruturar iniciativas eficazes e sustentáveis, mobilizando pessoas e instituições em torno da dignidade e inclusão. Essa perspectiva dialoga com a tradição cristã, que desde os primeiros séculos compreendeu a assistência aos pobres e marginalizados não apenas como caridade pontual, mas como prática transformadora da cultura e expressão integral da fé. (Veja-se: P. Kotler; N.R. Lee, Marketing contra a pobreza,  Porto Alegre: Bookman, 2010).

[12] Rodney Stark, O crescimento do cristianismo: um sociólogo considera a história, São Paulo: Paulus, 2006.

[13] Rodney Stark, O crescimento do cristianismo: um sociólogo considera a história, São Paulo: Paulus, 2006.

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