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Entre a História e a “Conserva”: O Cristianismo Evangélico e Seu Impacto no Mundo (2)

1. A cosmovisão cristã

O homem fabrica essas concepções. E é inevitável que deva fazê-lo, pois do contrário não seria capaz de qualquer orientação e decisão práticas. É difícil ver como proibir isso; agir assim é inerente à própria vida do homem. Toda pessoa traz alguma concepção ao menos de sua própria vida e das pessoas que lhe são próximas; um retrato da sua própria vida-trabalho ou da de outrem, tal como esta até então se desenvolveu e seguirá, ou deveria ou não seguir, conforme sua percepção, compreensão e julgamento. Sua noção particular dessas diferentes determinações dos seres criados, de bem e mal, de certo e errado, de felicidade e angústia, naturalmente desempenhará um papel importante nesse processo. − Karl Barth.[1]

            O espaço social em que nos inserimos condiciona nossa percepção: aquilo que nos favorece também nos limita. A proximidade de um objeto nos permite captar suas particularidades, mas nos priva da amplitude do quadro. A distância, por sua vez, oferece visão mais abrangente, mas torna certas minúcias menos perceptíveis.

Somente uma visão integrada − que considere perspectivas diversas de pessoas, lugares e épocas − pode enriquecer nossa compreensão.[2] Ainda assim, permanece o fato: não somos oniscientes. Conhecemos por mediações que ampliam nossa visão e reduzem erros, mas continuam limitadas. Apenas Deus conhece a realidade de forma imediata, pois tudo lhe é derivado; nada subsiste sem a sua manutenção.

Crença e identidade

O que cremos molda nossa identidade, tanto cultural quanto individual. Cada época é marcada por crenças que configuram sua visão de mundo.[3] Ser humano é ter uma cosmovisão.[4]

Na declaração de Cristo − “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6) − encontramos três dimensões da verdade:

  • Epistemológica: Ele é o Caminho, fundamento do conhecimento.
  • Ontológica: Ele é a Verdade em essência.
  • Existencial: Ele é a Vida, sentido último da existência.

Em Cristo, temos o padrão absoluto da realidade e da interpretação. O apelo da fé cristã não repousa na razão ou na experiência, mas na autorrevelação de Deus no Filho encarnado.[5]

O Cristianismo não é  um mero conjunto fragmentado de doutrinas isoladas, destinadas apenas ao debate ou à crença individual. Ele é um sistema conceitual orgânico: uma visão abrangente do mundo e da vida, capaz de oferecer unidade interpretativa e sentido último à existência.[6]

A cosmovisão cristã afirma que Deus é Criador e Sustentador de todas as coisas. Essa convicção molda nossa compreensão da dignidade humana, da história e da cultura. O Evangelho não é apenas mensagem espiritual, mas lente interpretativa da realidade.[7] Ele fundamenta compromisso com a verdade, a justiça e a transformação social.

  As Escrituras tratam de um mundo real, não de utopias. Reconhecem o homem como criado à imagem de Deus, mas também denunciam o pecado como realidade que nos governa. Contudo, proclamam o amor redentor que transforma corações e reconduz à comunhão com o Pai, por meio de Cristo, o único caminho.

O Evangelho constitui o critério supremo pelo qual avaliamos os fenômenos e acontecimentos da história; é a medida absoluta que confere sentido e valor à vida presente; é o guia seguro que nos orienta no intrincado labirinto do mundo; e, ao mesmo tempo, eleva-nos acima das contingências do tempo, ensinando-nos a contemplar todas as coisas sob a perspectiva da eternidade.[8]

2. Consciência cristã: pecadores redimidos

A fé cristã parte de uma afirmação fundamental: todos os seres humanos são pecadores e carecem da graça de Deus (Rm 3.23). Essa convicção não deve ser entendida como mera constatação antropológica, tampouco como licença para justificar previamente nossas faltas; antes, constitui uma chave hermenêutica para interpretar a condição humana diante do Criador.

O pecado, compreendido como ruptura da comunhão com Deus e desordem moral, expõe a fragilidade da humanidade e revela sua incapacidade de alcançar a perfeição por si mesma.

Ele não é apenas um desvio ético ou uma imperfeição circunstancial, mas uma realidade ontológica que permeia todas as dimensões da existência.

Assim, a consciência do pecado não conduz ao fatalismo, mas à percepção da necessidade absoluta da graça. É nesse horizonte que a fé cristã se ergue: reconhecendo a miséria humana, mas anunciando a redenção em Cristo, que restaura a comunhão perdida e reordena a vida segundo a vontade de Deus.

Essa consciência gera humildade, pois o cristão reconhece sua total dependência da graça divina. Ao mesmo tempo, implica responsabilidade ética, uma vez que a fé não se reduz a mero assentimento intelectual, mas se traduz em compromisso prático com uma vida moldada e transformada pelo Evangelho (Tg 2.17).

A Igreja, nesse horizonte, não é uma comunidade de impecáveis, mas de pecadores redimidos que caminham em direção à santidade. Essa peregrinação, contudo, não se dá sem tropeços: os fiéis experimentam quedas e fragilidades, mas, pela bondade de Deus, são conduzidos ao arrependimento (1Jo 1.9) e, pela sua misericórdia, retomam a jornada.

A vida cristã, portanto, é marcada pela tensão entre fragilidade humana e graça divina, em que o arrependimento contínuo se torna expressão da fé viva. É nesse movimento de queda e restauração que se manifesta a fidelidade de Deus, sustentando o crente e conduzindo-o, passo a passo, na jornada da santificação.

A Igreja é composta por homens e mulheres que sabem que não são perfeitos, mas que confiam na suficiência da cruz de Cristo.

Assim, a comunidade eclesiástica testemunha não a perfeição dos seus membros, mas a fidelidade de Deus que sustenta, corrige e restaura. Nesse processo, a Igreja encarna a realidade escatológica do “já e ainda não”: já redimida em Cristo, mas ainda em processo de santificação, aguardando a consumação plena da obra iniciada pelo Senhor (Fp 1.6).

Agostinho (354-430) identifica a igreja como o “mundo reconciliado”.[9] Tratando sobre o conhecimento de Deus de sua igreja, diz que sob à ótica da predestinação, Deus sabe “quantas ovelhas estão fora, quantos lobos estão dentro! e quantas ovelhas estão dentro, quantos lobos estão fora! Quantos estão agora vivendo na devassidão que ainda serão castos!”.[10]

A Igreja é composta por homens e mulheres que sabem que não são perfeitos, mas que confiam na suficiência da cruz de Cristo. Somos declarados justos, porém, a realidade do pecado ainda existe em nós, o justificado é simultaneamente justo e pecador (“Simul justus et peccator”) (“justo – aceito e tratado como uma pessoa reta por Deus – embora ainda um pecador”) conforme expressão de Lutero (1483-1546).[11] Fomos declarados justos por Deus. Aqui não é o ponto final, antes, o início. As evidências de seu novo nascimento vão, gradativamente, se tornando mais claras por meio de sua obediência a Deus em santificação.

A ética cristã reformada, portanto, não se constrói sobre a ilusão da perfeição humana, mas sobre a realidade da graça que capacita o crente a viver de modo digno do Evangelho (Fp 1.27). Essa perspectiva evita tanto o moralismo legalista quanto o relativismo permissivo, situando a vida cristã no espaço da responsabilidade diante de Deus e da sociedade. É nesse horizonte que se compreende a Igreja como sinal histórico da redenção: imperfeita em sua prática, mas testemunha da esperança escatológica de plenitude em Cristo.

  Amor e absolutos

O amor cristão  não é um sentimento genérico, mas pressupõe absolutos que envolvem misericórdia, bondade e justiça. Amar é comprometer-se com absolutos. O amor tem a sua pauta que envolve compromisso (primeiramente com Deus, conosco e com o nosso próximo), compreensão, perdão, justiça, disciplina, etc. 

Não podemos confundir amor com permissividade cultural. O amor bíblico é prático e cresce em conhecimento e discernimento (Fp 1.9).

A ética cristã é um desafio constante à sua aplicação às novas situações que o homem se encontra. É uma tentativa humana de entender e aplicar os princípios divinos à cotidianidade humana.

Não existe ética sem absolutos. Não existe ética sem antíteses. Não amamos a antítese pela antítese, apenas a apresentamos para buscar um conceito mais claro do fundamento de nossa compreensão. A ética cristã exigirá sempre de nós discernimento, amor, humildade e submissão a Deus.[12]

             Schaeffer (1912-1984), é contundente:

Nunca se pode ter moral verdadeira sem absolutos. Nós podemos chamá-la de moral, mas sempre termina com “eu gosto”, ou contrato social, nenhum dos quais é a moral. (…) E não tendo nenhum absoluto, o homem moderno não tem categorias. Não se podem ter respostas verdadeiras sem categorias, e estes homens não podem ter outras categorias, além das pragmáticas e tecnológicas.[13]

            “A dimensão ética começa quando entra em cena o outro”, interpreta Eco (1932-2016).[14] Contudo, a sua origem não é gerada simplesmente por valores de uma época ou pelo senso comum. “Ética cristã é a ciência da conduta humana determinada pela conduta divina”, sintetiza Brunner (1889-1966).[15]

            A ética cristã parte de princípios eternos que são determinantes em nossa relação com Deus, conosco e com o nosso próximo. Jesus Cristo é o nosso modelo. Ele é o cânon da cultura e de toda ética. A única cultura que permanecerá é aquela fundamentada nele tendo a sua ética como norma de pensar e agir.

            Ética cristã, portanto, é um imperativo à conformação de nossa prática àquilo que cremos conforme  é-nos ensinado na Palavra. “A ética cristã é baseada no amor, e amor implica relacionamentos. Embora seja mais fácil amar se nunca tenhamos que lidar de fato com uma pessoa, o amor bíblico é aquele tipo complicado que significa se envolver com pessoas reais”, comenta Veith.[16]

Maringá, 20 de fevereiro de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Karl Barth, Church Dogmatics, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2010, III/3, 11. 48, § 2, p. 20.

[2]Sire, em Prefácio à Edição Brasileira, à obra de Nash, disse o seguinte:

            “Se realmente conhecermos a nossa própria cosmovisão, se soubermos como ela pode ser comparada a outras cosmovisões e por que confiamos que a nossa é verdadeira, estaremos preparados para nos mover com mais profundidade não só no conhecimento e na compreensão de Deus, mas também no conhecimento das coisas  mais importantes da realidade como um todo” (James Sire em Prefácio à Edição Brasileira da obra de  Ronald H.  Nash, Cosmovisões em Conflito: escolhendo o Cristianismo em um mundo de ideias,  Brasília, DF.: Monergismo, 2012, p. 11).

            Do mesmo modo, escreve Packer: “Não se pode ver claramente qualquer aspecto de uma época, por mais que se examine, até que se esteja fora desse período e se possa medi-lo por padrões não limitados a ele. O conhecimento da tradição cristã através dos séculos e das culturas dá essa capacidade com relação a todas as questões que preocupam o cristão dos dias atuais. Embora nunca consigamos ser absolutamente objetivos, podemos ser ajudados no exame de nossas pressuposições contemporâneas pelos exames feitos em outras épocas” (J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, ed. Religião de Poder,São Paulo; Cultura Cristã, 1998, p. 237).

[3]Cf. Alister E. McGrath, Fundamentos do Diálogo entre Ciência e Religião, São Paulo: Loyola, 2005, p. 20.

[4] Cf. Andrew W. Hoffecker, Prefácio: In: Andrew W. Hoffecker, org. Cosmovisões em Revolução, São Paulo: Cultura Cristã, 2024, [p. 13-19], p. 16.

[5]Cf. Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 24.

[6]Cf. Ronald H. Nash, Cosmovisões em Conflito: escolhendo o Cristianismo em um mundo de ideias, Brasília, DF: Monergismo, 2012, p. 29)

[7]Veja-se: P. Andrew Sandlin, Deus decide o que é normal, Brasília, DF.: Editora Monergismo, 2021, p. 14.  (Edição do Kindle).

[8] Cf. Herman Bavinck, A Filosofia da Revelação,  Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 275. 

[9] Cf. S. Augustini, Sermones   de Scripturis, Sermo  XCVI.7.9. In: J.P. Migne, Patrologiae Latinae Cursus Completus, Paris, 1844-1864, v. 38, Col. 588.

[10]S. Augustini,  In Joannis Evangelium Tractatus cxxiv, Tractatus XLV.10.12. In: J.P. Migne, Patrologiae Latinae Cursus Completus, Paris, 1844-1864, v. 35, Col. 1725. Vejam-se também: Agostinho,  On The Gospel of St. John,  Tratacte XLV.12. In: P. Schaff ed. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, 2. ed. (First Series), Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1995, v. 7, p. 254a.; St. Augustine, On Baptism, 5.27: In: Fathers, Church. The Complete Ante-Nicene, Nicene and Post-Nicene Collection of Early Church Fathers: Cross-Linked to the Bible. Amazon.com. Edição do Kindle. (Posição 107447 de 580607).

[11]“Somos em parte pecadores e em parte justos” (M. Lutero, A Epístola aos Romanos: In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Sinodal; Concórdia, 2003, v. 8,  (Rm 12.2), p. 322. Vejam-se também: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.4), p 103; G.C. Berkouwer, Faith and Sanctification, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1952, p. 71ss.; R.C. Sproul, A natureza forense da justificação: In: John F. MacArthur, Jr., et. al., A Marca da Vitalidade Espiritual a Igreja: Justificação pela Fé Somente, São Paulo: Editora Cultura Cristã, (2000), p. 34; Thomas R. Schreiner; M. Barret, Somente pela fé: a doutrina da justificação. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 46-48; J.I. Packer, A Redescoberta da santidade,  2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 83-84; R.C. Sproul, O Mistério do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p.123.

[12]“Seja em virtude da ignorância das Escrituras, seja em virtude de uma distorção das Escrituras para que estas se adaptem aos nossos desejos, perdemos nossas convicções antitéticas acerca do mundo ímpio ao nosso redor”  (Joel Beeke; Mark Jones, Teologia Puritana: Doutrina para a vida, São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1196).

[13]Francis A. Schaeffer, Poluição e a Morte do Homem, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 24.

[14]Umberto Eco, In: Umberto Eco; Carlo Maria Martini, Em que creem os que não creem?, Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 83.

[15]Emil Brunner, The Divine Imperative: A study in Christian ethics, 6. imp. London: Lutterworth Press, 1958, p. 86.

[16] Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 95.

Um comentário sobre “Entre a História e a “Conserva”: O Cristianismo Evangélico e Seu Impacto no Mundo (2)

  • Excelente. Dei uma lida rápida. Depois vou relê-lo.

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