A Pessoa e Obra do Espírito Santo (237)

a) Conhecimento genuíno, intenso e prático (Continuação)

                                    Um dos grandes propósitos de Satanás é manter-nos na ignorância, conduzindo-nos de forma desviante ao desejo por experiências distantes da Palavra ou, à semelhança dos gregos, a querermos uma sabedoria estéril ou, a seguir o modelo judeu, desejando ver sinais. Todos estes atalhos nos afastam da verdadeira santificação que passa pelo conhecimento de Deus. Creio estar correto Graig ao escrever: “O empobrecimento intelectual em relação à fé pode levar ao empobrecimento espiritual”.[1]

          Paulo falando da luz gloriosa do Evangelho em apontar para Cristo, refere-se também ao estratagema e propósito de satanás:

Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus. (2Co 4.3-4).

          Deus não é conivente com o erro e a mentira. Todo o seu método está de acordo com a oração de Cristo: A santificação é pela Palavra de Deus que é a verdade (Jo 17.17).

          Deus vocacionou seus diversos servos para que ensinando à Igreja, ela amadureça no pleno conhecimento de Cristo por meio da verdade. Paulo ora a esse respeito, ensina, exorta, estimula, corrige e consola.

          Nesta linha, o apóstolo instrui os efésios:

11 E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, 12 com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, 13 até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, 14 para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha (*kubei/a = ‘trapaça”, “embuste”)[2] dos homens, pela astúcia (panourgi/a[3] = “ardil”, “truque”, “maquinação”, “trapaça”, “sutileza”, “manha”), com que induzem (meqodei/a = “esquema”, “engano”, “ciladas”, “manobra”)[4] ao erro (planh/ = “vaguear”, “desilusão”, “desviar”, “sedução”).[5] 15 Mas, seguindo a verdade (a)lhqeu/w) em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. (Ef 4.11-15).

          Paulo, como mencionamos, assume então o seu ministério com este propósito: “Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) da verdade segundo a piedade” (Tt 1.1).

Ainda que não possamos esgotar, exaurir completamente a verdade, o desejo de Deus é que pessoas de todas as classes e povos cheguem ao pleno conhecimento da verdade, ou seja, que tenhamos um conhecimento verdadeiro, genuíno da verdade: “O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) da verdade” (1Tm 2.4).[6]

          O Espírito age em consonância com este propósito, iluminando-nos para que possamos conhecer a Palavra de Deus.

          Calvino resumiu este ponto de forma precisa:

Enquanto o Senhor não os abrir, os olhos de nosso coração são cegos. Enquanto não formos instruídos pelo Espírito, nosso bendito Mestre, tudo o que conhecemos não passa de futilidade e ignorância. Enquanto o Espírito de Deus não descortinar diante de nós por meio de uma revelação secreta, o conhecimento de nossa divina vocação não poderá ir além da compreensão de nossas mentes naturais.[7]

            É neste sentido que Paulo ora com certa frequência à respeito das igrejas.

            Aos efésios, declara:

16 não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações, 17 para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria (sofi/a) e de revelação (a)poka/luyij) no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) dele, 18 iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos 19 e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder. (Ef 1.16-19).

          Temos aqui uma oração pelo crescimento espiritual dos efésios. Ele ora pelo fortalecimento espiritual daqueles irmãos. Somente pelo maior conhecimento de Deus poderemos, de fato, amadurecer e nos fortalecer em nossa fé. “Para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior” (Ef 3.16).[8]

          Este tipo de oração não era estranho a Paulo. Ele também ora para que os Colossenses conhecessem a vontade de Deus em sabedoria: “Por esta razão, também nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) da sua vontade, em toda a sabedoria (sofi/a) e entendimento (su/nesij) espiritual” (Cl 1.9).

          Aqui temos em essência o desejo de Paulo para a igreja: Que ela tivesse uma genuína espiritualidade, fundamentada no conhecimento de Deus, controlada pela Escritura, se manifestando em santidade e amor em todas as facetas da vida, tendo a Cristo como Senhor de todos os aspectos de sua existência.[9]

          Portanto, este conhecimento, pelo qual o apóstolo ora, tem sempre como ingrediente essencial a sua prática. Conhecer a Deus tem implicações concretas que se refletem em nossa comunhão com Ele, em nossa relação conosco e com o nosso próximo. Observem a sequência da oração de Paulo: “A fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) de Deus”(Cl 1.10).

Maringá, 13 de julho de 2021.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] William L. Craig, A Verdade da Fé Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 14. “Pessoas que simplesmente andam na montanha russa da experiência emocional estão roubando de si mesmas uma fé cristã mais rica e profunda ao negligenciar o lado intelectual dessa fé” (William L. Craig, A Verdade da Fé Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 14).

[2] kubei/a (só ocorre aqui em todo o Novo Testamento), palavra que vem de ku/boj, astúcia, dolo, que, passando pelo latim, cubus, chegou à nossa língua como cubos, dados. Significa a habilidade para manipular os dados, usando de truques para iludir e persuadir. Paulo emprega a palavra figuradamente para se referir ao homem que usa de todos os seus truques para enganar, dar pistas erradas e driblar; revelando aqui a habilidade de um jogador profissional sem escrúpulos, que obviamente quer levar vantagem a qualquer preço.

            Calvino, enfatiza que “Deus nos deu sua Palavra na qual, quando fincamos bem as raízes, permanecemos inamovíveis; os homens, porém, fazendo uso de suas invenções, nos extraviam em todas as direções” (João Calvino, Efésios,(Ef 4.14), p. 128-129).

[3]A palavra em sua origem estava associada à capacidade do homem em realizar qualquer trabalho, habilidade, sendo empregada de forma negativa e positiva. Há, contudo, uma pressuposição negativa que entende que aquele que conhece o caminho para a conquista terminará por usá-lo de forma inescrupulosa. No Novo Testamento, sempre ocorre de forma negativa: Lc 20.23; 1Co 3.19; 2Co 4.2; 11.3; Ef 4.14. Panourgo/j *2Co12.16. (Vejam-se: O. Bauernfeind, Panourgi/a: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament,Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 5, p. 722-727; D.A. Carson, Astúcia: In: Colin Brown, ed. ger., O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 248-249).

[4] *Ef 4.14; 6.11.

[5]Vejam-se: H. Braun, Plana/w: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament,Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 6, p. 228-253; W. Günther, Enganar: In: Colin Brown, ed. ger., O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 38-42.

[6] Veja-se: João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 2.4), p. 59-61.

[7]João Calvino, Efésios,São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.16), p. 41.

[8]Veja-se: William Hendriksen, Efésios,São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 1.17), p. 123-125.

[9] Vejam-se: Joel R. Beeke, Espiritualidade Reformada, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2014,p. 18; Francis A. Schaeffer, Um Manifesto Cristão.In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo:Cultura Cristã, 2010, p. 166; Francis A. Schaeffer, O Grande Desastre Evangélico.In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo:Cultura Cristã, 2010, p. 288; Francis A. Schaeffer, A Arte e a Bíblia, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 17.

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