A Pessoa e Obra do Espírito Santo (238)

a) Conhecimento genuíno, intenso e prático (Continuação)

Todos somos incapazes de entender os “mistérios de Deus” até que Ele mesmo por sua graça nos ilumine.[1] “A Palavra de Deus é uma espécie de sabedoria oculta, a cuja profundidade a frágil mente humana não pode alcançar. Assim, a luz brilha nas trevas, até que o Espírito abra os olhos ao cego”, resume Calvino.[2]

          A voz de Deus é única, no sentido de que, não há contradição. Originalmente, Deus se revelou na Criação. Criação é sinônimo de revelação: no Éden só havia um livro – o livro da Natureza. Todavia, com o pecado, a Natureza também sofreu as consequências. Ficou obscurecida. Perdeu parte da sua eloquência primeva em apontar para o seu Criador (Gn 3.17-19).[3] E como parte do castigo pelo pecado, o homem perdeu o discernimento espiritual para ver a glória de Deus manifesta na Criação (Sl 19.1; Rm 1.18-23).

          A Revelação Geral que fora adequada para as necessidades do homem no Éden – embora saibamos que ali também se deu a Revelação Especial (Gn 2.15-17,19,22; 3.8ss.) – tornou-se, agora, incompleta e ineficiente para conduzi-lo a um relacionamento pessoal e consciente com Deus.

          No entanto, em sua revelação (Geral e Especial) haverá sempre uma multiforme e harmoniosa mensagem a respeito de glória de Deus e da necessidade de nosso retorno à comunhão com o nosso Criador. Conforme já tratamos, nesses dois livros, a Natureza e a Escritura, por serem sobrenaturalmente produzidos por Deus, comunicam a mesma mensagem.[4]  Portanto, para o crente, toda a revelação é sobrenatural porque provém de Deus. Toda ela testemunha e aponta para o seu Criador.

          Se Deus pelo Espírito não iluminar a nossa mente, desobstruindo os nossos olhos, jamais a entenderemos salvadoramente.[5] Portanto, quando o Espírito aplica a Palavra ao nosso coração, Ele produz a sua boa obra em nós, gerando a fé salvadora que se direciona para Cristo e para os feitos de sua redenção.[6] Paulo, portanto, está correto em pedir a Deus que conceda aos efésios Espírito de sabedoria e de revelação.

           Aos filipenses, enquanto escreve, interrompe com esta oração: “E também faço esta oração: que o vosso amor aumente (perisseu/w)[7] mais e mais em pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) e toda a percepção”(Fp 1.9).

          No mesmo sentido ora o apóstolo Pedro:

Graça e paz vos sejam multiplicadas, no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) de Deus e de Jesus, nosso Senhor. Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo (e)pi/gnwsij) daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude. (2Pe 1.2-3).

          Por mais sábios espiritualmente que sejamos, esta é uma Escola da qual jamais poderemos nos afastar. É preciso continuar aprendendo sempre. Os efésios conheciam a Palavra, porém, estavam começando; estavam apenas no início da vida cristã. Como é natural, na escola da fé, ninguém nasce maduro. É preciso, continuar, seguir em frente. Deus propicia os meios para isso.

          Paulo, ensinou, pregou, escreveu e ora pelos efésios. Pedro fala que este conhecimento de Deus aliado às diversas virtudes cristãs, não se torna inativo, antes frutuoso:      “Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Pe 1.8).

          Isto implica reafirmar que a nossa santidade passa necessariamente pelo conhecimento de Deus e, que a santificação tem não simplesmente um sentido subjetivo, mas, também, objetivo, em nossas relações externas.[8]

          Portanto, a santidade cristã, tendo como modelo a santidade perfeita de Deus,[9] evidencia-se em todas as nossas relações:

Segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento (a)nastrofh/), porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo. Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as obras de cada um, portai-vos (a)nastre/fw)[10] com temor durante o tempo da vossa peregrinação. (1Pe 1.15-17).

          Por isso, “a santificação pode ser chamada de coroa de realização do caráter humano”, conclui Schultz (1927-2003).[11]

Maringá, 14 de julho de 2021.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Cf. João Calvino, As Institutas,II.2.21.

[2] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.11), p. 89.

[3]Veja-se: Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1995, p. 63.

[4]Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 44.

[5]Vejam-se: João Calvino, As Institutas, III.2.33; Juan Calvino, Autoridad y Reverencia que Debemos a la Palabra de Dios: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 17), p. 208; John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, (Calvin’s Commentaries), 1996, v. 8/4, (Is 59.21), p. 271.

[6]Cf. William Hendriksen, O Evangelho de João,São Paulo: Cultura Cristã, 2004, (Jo 17.20), p. 772.

[7] perisseu/w = crescer, abundar, exceder, encher, transbordar, progredir. (Vejam-se: Mt 5.20; At 16.5; Rm 5.15; 15.13; 1Co 15.58; 2Co 1.5; 8.2,7; 9.8; Ef 1.8; Fp 1.26; 4.12, 18; 1Ts 3.12; 4.1,10).

[8] Ver: Joseph R. Schultz, Santificação: In: Carl F.H. Henry, org. Dicionário de Ética Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 537.

[9] “O início mesmo da santificação é a doutrina da Pessoa e do Ser de Deus” (D.M. Lloyd-Jones, Santificados Mediante a Verdade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (Certeza Espiritual, v. 3), 2006, p. 99).

[10]Tanto o substantivo “procedimento” (a)nastrofh/) como o verbo (a)nastre/fw) têm o sentido literal de: “volta para trás”, “entornar”, “derrubar”. O sentido figurado, conforme emprega Pedro, é de “comportamento”, “condução”, “modo de vida”, “estilo de vida”, “conversação”, “conduta”, etc. Como o verbo e o substantivo são neutros, o adjetivo é que vai qualificar o procedimento.

[11]Joseph R. Schultz, Santificação: In: Carl F.H. Henry, org. Dicionário de Ética Cristã, p. 538.

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