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Jeorão: quando o poder perde o temor de Deus

Da obediência aos superiores devemos sempre esperar uma coisa: ela não nos afasta da obediência a Ele, a cujos editos os comandos de todos os reis devem ceder. O Senhor é o Rei dos reis e, tendo aberto sua boca sagrada, deve ser ouvido por todos e acima de todos. Só depois disto, somos sujeitos aos homens constituídos sobre nós, mas não o contrário. Se os homens nos ordenam fazer algo contra Deus, não devemos fazer coisa alguma, nem justificar. Pelo contrário, devemos pôr em prática esta sentença: “É necessário obedecer a Deus em vez de aos homens” (At 4.19). – João Calvino (1509-1564).[1]

            Há personagens bíblicos cuja vida parece pedir uma longa descrição. Jeorão, rei de Judá, talvez possa ser resumido por uma única frase: “E se foi sem deixar de si saudades” (2Cr 21.20). O cronista acrescenta que, embora tenha sido sepultado na Cidade de Davi, não o colocaram nos sepulcros dos reis. Não se trata apenas de uma observação sobre seus funerais. É o retrato final de um homem que recebeu uma posição de grande responsabilidade, mas não deixou atrás de si uma memória de bem, de justiça ou de temor do Senhor. Seu governo foi marcado pela violência, pela apostasia, pelo enfraquecimento do reino e pelo juízo de Deus.

            Jeorão nos mostra como alguém pode ocupar legitimamente uma posição de autoridade e, ainda assim, exercê-la de maneira profundamente destrutiva. Sua história revela o que acontece quando a autoridade, em vez de ser compreendida como responsabilidade recebida de Deus, passa a ser utilizada para preservar o próprio poder

Uma herança recebida, mas uma autoridade não submetida

            Jeorão era filho de Josafá, rei de Judá. Segundo a cronologia mais utilizada, exerceu a corregência com seu pai nos últimos anos de seu governo e, depois da morte de Josafá, reinou sozinho por aproximadamente oito anos, entre 848 e 841 a.C.

Josafá havia providenciado a sucessão. Jeorão era o primogênito e, por isso, recebeu o reino. Seus irmãos, por sua vez, receberam de seu pai riquezas, presentes e cidades fortificadas em Judá (2Cr 21.2-3). Isso torna ainda mais grave o que aconteceria depois: Jeorão não precisou eliminar seus irmãos para conquistar o trono. O trono já lhe havia sido destinado.

            A Escritura não afirma que Josafá tenha formado Jeorão de maneira negligente, nem atribui diretamente ao pai a responsabilidade pelo caráter que o filho posteriormente revelou. Ao contrário, o próprio Josafá é apresentado, apesar de suas limitações, como alguém que buscou andar nos caminhos do Senhor. A narrativa, portanto, não autoriza uma explicação simplista segundo a qual o fracasso de Jeorão seria simplesmente resultado da formação que recebeu de seu pai.

            O contraste entre os dois, contudo, é significativo. Jeorão recebeu uma herança, uma posição e uma responsabilidade. Mas receber uma posição de autoridade não significa necessariamente possuir a maturidade necessária para exercê-la.

            Uma pessoa pode herdar um cargo sem possuir a sabedoria para governar. Pode receber autoridade sem ter aprendido a submeter-se àquele de quem toda autoridade procede. Pode ocupar uma posição elevada sem compreender que, diante de Deus, toda autoridade humana é derivada, limitada e responsável.

            A questão, portanto, não estava simplesmente na posição que Jeorão recebeu, mas na maneira como passou a compreendê-la. Ele recebeu o reino como responsabilidade, mas passou a tratá-lo como propriedade. E quando a autoridade deixa de ser entendida como mordomia e passa a ser percebida como posse, o poder começa a trabalhar para a preservação do próprio governante.

O poder que começa protegendo a si mesmo

            O cronista registra que, “havendo-se Jeorão fortalecido” (2Cr 21.4), ele matou todos os seus irmãos e também alguns dos príncipes.

            A expressão é reveladora. O fortalecimento do rei não produziu maior segurança para o reino. Produziu violência dentro da própria casa. O homem que deveria proteger a família real tornou-se seu destruidor.

            Jeorão já havia recebido o reino. Ainda assim, depois de estabelecer-se no poder, eliminou aqueles que poderiam representar uma ameaça à sua posição. O que poderia parecer, aos olhos de um governante inseguro, uma maneira de consolidar o trono tornou-se, na realidade, uma das primeiras manifestações da decadência de seu governo.

            O poder, quando não está submetido ao temor de Deus, deixa de ser instrumento de serviço e transforma-se facilmente em mecanismo de autopreservação. O governante passa a perguntar menos: “O que é bom para o reino?” e mais: “O que é necessário para preservar o meu lugar?”

            Essa mudança de perspectiva é decisiva. Pessoas deixam de ser vistas segundo sua dignidade, seus dons e sua responsabilidade comum e passam a ser classificadas segundo sua utilidade ou segundo a ameaça que representam.

            Jeorão fortaleceu-se no reino, mas seu fortalecimento começou pela destruição daqueles que estavam mais próximos dele. O trono tornou-se mais seguro aos seus próprios olhos; o reino, porém, tornou-se mais frágil.

O rei que eliminou homens melhores do que ele

            É nesse ponto que encontramos uma das afirmações mais penetrantes de todo o relato. Ao denunciar os pecados de Jeorão, o profeta Elias afirma que ele havia matado seus irmãos, “[homens] melhores do que tu” (2Cr 21.13).

            A frase é particularmente severa. O cronista não especifica em quais dimensões aqueles homens eram melhores do que Jeorão. Não devemos acrescentar ao texto aquilo que ele não afirma. A comparação, contudo, é inequívoca: aqueles que Jeorão eliminou possuíam uma estatura que, segundo a palavra profética, era superior à do próprio rei.

            Isso revela uma forma deformada de compreender a liderança. A excelência do outro, que poderia ser um patrimônio do reino, passa a ser percebida como ameaça ao ocupante do trono.

            Em vez de reunir capacidades diferentes e colocá-las a serviço do bem comum, o poder se fecha sobre si mesmo e procura neutralizar aquilo que não consegue controlar.

            Aqui encontramos uma advertência que ultrapassa a história de Jeorão. Há uma forma de liderança que não consegue alegrar-se com a excelência alheia. O líder passa a medir as pessoas não pelo que podem acrescentar à obra, mas pelo risco que representam para sua própria importância.

            O líder maduro olha para alguém mais capaz e pergunta: “Como posso colocar seus dons a serviço do bem comum?” A liderança deformada pergunta: “Até onde essa pessoa poderá chegar?”

            Uma reconhece a competência alheia como dádiva; a outra a percebe como ameaça.

            O resultado é paradoxal. Ao proteger o trono, Jeorão enfraqueceu o reino. Ao eliminar homens melhores do que ele, Jeorão removeu aqueles que, segundo a palavra profética, possuíam uma estatura superior à sua e, ao fazê-lo, privou o reino de homens que poderiam contribuir para seu fortalecimento.

            A eliminação da excelência alheia pode preservar, por algum tempo, a posição do líder, mas empobrece a instituição que ele deveria servir. O governante pode tornar-se mais incontestado enquanto o reino se torna mais vulnerável.

            A Escritura não afirma que todos os homens que permaneceram próximos de Jeorão eram interesseiros, nem que buscavam simplesmente preservar o status quo. Não devemos atribuir ao texto aquilo que ele não diz. Mas o fato de o rei ter eliminado seus próprios irmãos e alguns dos príncipes revela que a estrutura de liderança ao seu redor foi profundamente empobrecida.

            Quando aqueles que poderiam oferecer conselho, contraponto e correção são eliminados ou afastados, o poder perde recursos importantes para sua própria correção.

            Jeorão talvez tenha conseguido tornar seu trono mais seguro aos seus próprios olhos; tornou, porém, o reino mais frágil.

A maturidade de conviver com quem é melhor

            Essa dimensão da história de Jeorão oferece uma reflexão particularmente importante sobre liderança. Um líder não precisa ser o homem mais inteligente, mais experiente ou mais habilidoso de seu círculo. Uma das marcas da maturidade é reconhecer que Deus distribui seus dons de maneira diversa e que a competência dos outros pode ser uma bênção para a missão recebida.

            A história de João Calvino oferece uma bela ilustração disso. Em 1550, Calvino (1509-1564) dedicou seu comentário sobre a Primeira Epístola aos Tessalonicenses a Maturinus Corderius (c. 1479-1564), seu antigo mestre de gramática e retórica. Humanista de grande erudição,[2]  Corderius teve papel importante na formação intelectual de Calvino. O reformador o descreveu como um homem de “eminente piedade e erudição”, reconhecendo publicamente sua dívida para com aquele que havia contribuído para sua formação. [3]

            Mais tarde, já convertido ao Protestantismo, Corderius foi convidado por Calvino a retornar a Genebra para lecionar na Academia. Ele aceitou o convite e, durante algum tempo, chegou a dirigir a instituição. Permaneceu em Genebra até sua morte, em 8 de setembro de 1564, apenas quatro meses depois de Calvino. Sua erudição, piedade e integridade enriqueceram a Academia de Genebra.[4]

            O exemplo é significativo. Calvino não precisou diminuir Corderius para afirmar sua própria autoridade. Ao contrário, reconheceu seus dons, valorizou sua contribuição e abriu espaço para que sua competência servisse à formação de outros. A grandeza de um líder não é diminuída pela excelência daqueles que ele ajuda a formar e servir.

            A liderança saudável não teme a excelência alheia. Procura reconhecê-la, cultivá-la e colocá-la a serviço daquilo que é maior do que o próprio líder.

            Quem ama verdadeiramente a obra não precisa ser maior do que todos; deseja que a obra seja maior do que ele. Não precisa ser indispensável; procura formar pessoas capazes de continuar o trabalho. Não precisa concentrar todas as decisões; sabe compartilhar responsabilidades. Não teme ser corrigido; compreende que a correção pode ser instrumento da graça de Deus. Não teme sucessores; trabalha para que outros possam servir depois dele.

            Por isso, uma pergunta importante para qualquer liderança não é apenas: “Como as pessoas me tratam quando estou no poder?”, mas também: “O que faço quando encontro alguém melhor do que eu?” A resposta revela muito do caráter de quem lidera.

            Aquele que entende a autoridade como mordomia diante de Deus não precisa diminuir os outros para aumentar a própria importância. Sua segurança não está em ser indispensável, mas em ser fiel. Pode alegrar-se quando outro possui dons que ele próprio não possui. Pode reconhecer quando alguém realiza melhor determinada tarefa. Pode formar pessoas que, em alguma área, o superem. E pode fazê-lo sem considerar que sua própria liderança foi diminuída.

            O contraste com João Batista é instrutivo. Quando seus discípulos perceberam que as multidões estavam seguindo Jesus, João não tratou o crescimento de outro como ameaça à sua própria relevância. Sua resposta foi: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).

            João compreendeu que sua missão não era a extensão de seu próprio nome. Sua alegria estava em ver o Noivo receber aquilo que lhe pertencia.

            A verdadeira liderança não transforma a própria importância em finalidade.

A raiz espiritual da decadência

            A violência de Jeorão, contudo, não pode ser explicada apenas em termos de personalidade ou administração do poder. O cronista vai à raiz do problema: “Andou nos caminhos dos reis de Israel, como também fizeram os da casa de Acabe” (2Cr 21.6).

            A questão fundamental era espiritual.

            Jeorão não começou perdendo o reino; começou abandonando o temor do Senhor. A deterioração política, moral e material que posteriormente atingiria Judá tinha uma raiz mais profunda: a ruptura da fidelidade ao Deus da aliança.

            Seu casamento com Atalia, filha de Acabe, aproximou ainda mais as casas reais de Judá e Israel. A aliança dinástica não era apenas uma questão política. No relato do cronista, ela está associada à adoção dos caminhos da casa de Acabe e, portanto, à infidelidade ao Senhor.

            A liderança começa a desmoronar quando o líder deixa de perguntar “o que Deus requer?” e passa a perguntar apenas “o que preserva minha posição?”

            Quando a autoridade perde sua referência transcendente, ela tende a transformar-se em instrumento de autopreservação.

            O rei havia recebido autoridade debaixo da autoridade de Deus, mas passou a agir como se o trono lhe pertencesse de maneira absoluta.

            É aqui que a história de Jeorão toca uma verdade fundamental: a crise da liderança começa antes de aparecer nas estruturas; começa no coração daquele que lidera.

Da crise espiritual à crise moral

            A apostasia de Jeorão não permaneceu confinada ao âmbito religioso. Seu pecado alcançou suas relações familiares, suas decisões políticas e sua responsabilidade pública.

            Jeorão matou seus próprios irmãos. Não estamos diante de uma simples falha administrativa, mas de uma ruptura moral profunda. Aquele que deveria proteger sua casa tornou-se seu destruidor. A autoridade que deveria promover justiça passou a ser utilizada para eliminar aqueles que poderiam ameaçar sua posição.

            A crise moral, portanto, não consistia apenas em práticas religiosas equivocadas. Envolvia a própria compreensão da autoridade e da responsabilidade.

            Quando o governante passa a enxergar pessoas como obstáculos para a manutenção de seu poder, o próximo deixa de ser tratado como próximo e passa a ser tratado como instrumento ou ameaça.

            A violência dentro da casa real era, assim, sintoma de uma enfermidade mais profunda: o poder havia perdido seu caráter de serviço.

Da crise moral à crise institucional

            É aqui que a história de Jeorão permite perceber também uma dimensão institucional da crise.

            Instituições saudáveis precisam de mecanismos de correção. Precisam de pessoas capazes de discordar. Precisam de conselhos que não sejam meros espaços de confirmação. Precisam de homens que tenham liberdade suficiente para dizer ao governante aquilo que ele talvez não queira ouvir.

            Quando um líder elimina aqueles que poderiam oferecer contraponto, conselho ou correção, a perda não é apenas individual. A estrutura de governo é empobrecida.

            A capacidade de uma instituição não depende somente de seu líder, mas também da qualidade daqueles que podem aconselhá-lo, questioná-lo, auxiliá-lo e, quando necessário, confrontá-lo.

            Uma liderança forte não é aquela que consegue silenciar todas as outras vozes, mas aquela que consegue conviver com vozes diferentes sem perder sua autoridade.

            Jeorão seguiu outro caminho. Ao fortalecer-se no reino, eliminou seus próprios irmãos e alguns dos príncipes. O resultado foi maior concentração de poder, mas não maior capacidade de discernimento. A autoridade tornou-se mais centralizada justamente quando o reino precisava de maior sabedoria para governar.

            Essa é uma advertência permanente: quando a lealdade pessoal substitui a verdade, a competência e a coragem, a instituição começa a perder sua capacidade de se corrigir.

Quando a crise alcança o reino

            A deterioração espiritual e moral não permaneceu sem consequências políticas e materiais.

            O cronista registra que, como parte do castigo de Deus, Edom se rebelou contra Judá e estabeleceu seu próprio rei. Libna também se rebelou. Mais tarde, o Senhor suscitou contra Jeorão os filisteus e os árabes que estavam próximos dos cuxitas. Eles invadiram Judá, penetraram no território, saquearam os bens encontrados no palácio e levaram suas mulheres e seus filhos, restando-lhe apenas Jeoacaz, o mais novo de seus filhos (2Cr 21.8-17).

            O relato apresenta, portanto, perdas territoriais, enfraquecimento da autoridade real, invasões, saque do patrimônio e profunda desestruturação da casa do rei.

            O que começou na infidelidade do governante alcançou a vida do reino. No relato do cronista, a crise espiritual, a crise moral e o enfraquecimento do reino aparecem relacionadas sob o juízo de Deus.

            É preciso, contudo, evitar uma fórmula mecânica segundo a qual toda dificuldade econômica ou política seria diretamente causada por determinado pecado individual.

            O ponto do cronista é mais específico: a infidelidade de Jeorão trouxe sobre ele e sobre seu reino o juízo anunciado por Deus (2Cr 21.12–15).

            A crise material, portanto, não deve ser isolada da dimensão espiritual que estrutura o relato, mas também não deve ser transformada em uma fórmula simplista para interpretar toda e qualquer adversidade.

A Palavra de Deus entra no palácio

            É significativo que, em meio a essa deterioração, Deus não permaneça em silêncio. Elias envia uma mensagem escrita a Jeorão (2Cr 21.12-15).

            O profeta não fala simplesmente sobre eficiência administrativa. Ele denuncia a infidelidade de Jeorão ao Deus de seus pais, sua idolatria e sua violência contra seus irmãos. E anuncia que o próprio Senhor traria juízo sobre sua casa, seu povo e seus bens.

            Isso revela algo fundamental sobre a autoridade profética: nenhum trono está acima da Palavra de Deus.

            O rei podia fortalecer-se no reino. Podia eliminar seus irmãos. Podia exercer o poder segundo seus próprios interesses. Podia cercar-se daqueles que lhe fossem favoráveis. Mas não podia colocar-se acima do Senhor.

            A Palavra entra no palácio para lembrar ao governante aquilo que o poder frequentemente faz esquecer: a autoridade humana é derivada, limitada e responsável diante de Deus.

            Essa verdade é particularmente importante para toda liderança cristã. Nenhum cargo, título, eleição, tradição, posição ou reconhecimento confere autonomia diante da Palavra. O líder cristão não é senhor daquilo que recebeu. É mordomo.

O líder que preserva a si mesmo pode perder aquilo que deveria proteger

            A história de Jeorão apresenta um paradoxo terrível. Ele fez aquilo que muitos líderes fazem quando entendem a autoridade de maneira equivocada: tentou proteger sua posição e acabou destruindo as condições que tornavam seu governo sustentável.

            Eliminou homens melhores do que ele e empobreceu sua própria liderança. Concentrou o poder e enfraqueceu os mecanismos de correção. Abandonou o temor do Senhor e perdeu a direção moral. Corrompeu sua casa e trouxe sofrimento para sua própria família. Enfraqueceu o reino e experimentou perdas territoriais e patrimoniais.

            Pensou estar fortalecendo o trono quando, na realidade, estava enfraquecendo o reino.

            Essa é uma das grandes ironias do poder sem temor de Deus: o homem começa procurando preservar aquilo que considera seu e termina perdendo aquilo que recebeu para administrar.

            A autoridade que deveria servir à vida passa a servir à autopreservação. O líder que deveria fortalecer outros começa a eliminá-los. O governante que deveria proteger o reino começa a protegê-lo apenas enquanto isso coincide com a proteção de seu próprio lugar.

            No fim, aquilo que parecia força revela-se fragilidade. Um rei que não deixou saudades

            No fim, o cronista volta ao ponto de partida: “E se foi sem deixar de si saudades” (2Cr 21.20).

            Poucas frases são tão severas como essa. Jeorão tinha um nome, um trono, riquezas, autoridade e uma linhagem real. Mas não deixou uma memória de bênção proporcional aos privilégios que recebeu.

            O problema de Jeorão não foi simplesmente ter governado mal. Foi ter recebido uma posição destinada ao serviço e tê-la transformado em instrumento de autopreservação.

            Seu epitáfio nos ensina que uma liderança não deve ser medida apenas pela extensão do poder que conseguiu acumular, nem pelo tempo durante o qual ocupou determinada posição. Deve também ser considerada pelo que deixa depois de exercê-la.

            Há homens que terminam sua responsabilidade deixando estruturas mais fortes, pessoas mais preparadas, instituições mais saudáveis e uma memória de gratidão. Outros deixam medo, dependência, ressentimento e fragilidade.

            Jeorão tinha poder, mas não deixou saudades.

O verdadeiro Rei

            A história de Jeorão encontra seu contraste definitivo quando olhamos para Cristo.

Jeorão utilizou o poder para preservar a si mesmo. Cristo, sendo o verdadeiro Rei, entregou a si mesmo por seu povo.

            Jeorão eliminou aqueles que poderiam ameaçar sua posição. Cristo chamou homens frágeis, formou-os e enviou-os para proclamar o seu reino.

            Jeorão concentrou a autoridade para proteger sua própria vida. Cristo, em perfeita submissão ao Pai, “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo” (Fp 2.7).

            Jeorão temia homens melhores do que ele. Cristo não precisa diminuir seus servos para manifestar sua grandeza. Sua glória é tão incomparável que ele pode conceder dons aos seus discípulos, capacitá-los e utilizá-los em sua obra sem que isso represente qualquer diminuição de sua majestade.

            João Batista expressou essa disposição de maneira admirável quando, diante do crescimento do ministério de Jesus, declarou: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).

            Jeorão eliminou homens melhores do que ele para preservar sua grandeza. João Batista aceitou diminuir para que Cristo fosse exaltado.

            Aqui está a diferença entre duas concepções de liderança. Uma utiliza a autoridade para preservar o próprio nome. A outra entende a autoridade como serviço à glória de Deus.

            Por isso, a história de Jeorão não é apenas uma advertência contra reis maus. É uma advertência contra todo exercício de autoridade que tenha perdido o temor do Senhor.

            Quem lidera como mordomo de Deus não precisa proteger o próprio nome, porque sabe que a obra pertence ao Senhor. Por isso, não teme a excelência alheia, não rejeita a correção e não precisa tornar-se indispensável. Sua alegria está em servir fielmente e preparar outros para servir depois dele.

            No fim, a pergunta não é apenas se teremos autoridade, mas o que faremos com a autoridade que Deus nos confiar. Não é apenas se seremos lembrados, mas que tipo de legado deixaremos. Não é apenas se conseguiremos preservar nosso nome, mas se teremos servido ao nome que está acima de todo nome.

            Jeorão recebeu um reino e o enfraqueceu. Eliminou homens melhores do que ele e terminou “sem deixar de si saudades”.

            Cristo, o verdadeiro Rei, fez o contrário: entregou-se por seu povo, chamou e formou seus servos e edifica a sua Igreja, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão (Mt 16.18).

            Jeorão passou sem deixar saudades; Cristo reina para sempre.

São Paulo, 30 de Setembro de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO.: Editora Logos, 2003, Cap. 33, p. 84-85.

[2] Veja-se a nota bastante significativa de Tokashiki ao artigo de  E.A. Betant, Notice sur le College de Rive: In:  Ewerton B. Tokashiki,  A Reforma da Educação na Genebra de Calvino: Textos selecionados sobre educação (Portuguese Edition). Credo Reformado. Edição do Kindle. Nota 18.

[3] Na Dedicatória de 1ª Tessalonicenses, disse: “Eu me reconheço endividado para você pelo progresso que foi feito desde então. E isto eu estava desejoso de testemunhar à posteridade que, se qualquer vantagem provirá a eles de meus escritos, eles saberão que tem em algum grau originado com você” (John  Calvin,  Calvin’s  Commentaries,  Grand  Rapids, Michigan:  Baker Book House Company, 1981, v. 21,  (Prefácio do seu comentário de 1ª Tessalonicenses) p. 234). 

[4] Cf. Nicholas Hans,  Educação Comparada,  2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971, p. 192-193.

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