A Queda dos Intocáveis: o Juízo de Deus sobre a Soberba
Muito estranharia que o guarda de um rebanho que fizesse seus bois diminuírem de número e emagrecerem, não se reconhecesse mau pastor. Mas que mais estranharia ainda se um homem colocado à testa de um Estado e cujos cidadãos tornasse menos numerosos e piores não se envergonhasse de seus atos e não conviesse ser mau magistrado. – Sócrates (469-399 a.C.).[1]
Introdução
Obadias, o mais breve dos profetas, anuncia uma verdade que atravessa séculos: “A soberba do teu coração te enganou” (Ob 3). Edom, apoiado em suas fortalezas e alianças, julgava-se invulnerável, mas Deus anunciou sua queda inevitável. Essa mensagem ecoa Jeremias 17.9: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto.”
A soberba humana, alimentada pelo coração enganoso, constrói sistemas de poder que parecem intocáveis, mas que inevitavelmente ruem diante da soberania divina. Essa verdade abre caminho para refletirmos sobre a soberania de Deus e suas implicações no poder humano, na vida da Igreja e na autoridade civil.
1. O contexto de Obadias
Edom, descendente de Esaú, aproveitou-se da queda de Jerusalém em 586 a.C. para atacar Judá. Sua confiança estava em sua geografia montanhosa e em alianças militares. Obadias denuncia essa ilusão: a soberba do coração enganoso levou Edom a crer que era indestrutível. Deus, porém, anuncia juízo e reafirma que o Senhor governa a história.
A mensagem central é clara: toda fortaleza humana é frágil diante da soberania divina, e aqueles que se julgam intocáveis estão sempre à beira da queda.
2. A Soberania de Deus como Fundamento da Fé
A soberania de Deus é o eixo central da fé cristã. Toda autoridade existente no universo é derivada da autoridade suprema do Senhor; não há poder autônomo fora Dele. Reconhecer a soberania é admitir que Deus, o Altíssimo, governa sobre todas as coisas: estabelece reinos, derruba impérios e ela também sustenta a Igreja.
Essa soberania não se limita ao campo teórico, mas se manifesta de forma concreta na história. É ela que garante que a criação não se move ao acaso, que a salvação não depende da vontade humana e que a missão da Igreja não está sujeita ao fracasso. A fé na soberania absoluta do Senhor dá confiança ao evangelista, sustenta o crente em meio às perseguições e assegura que os propósitos divinos não podem ser frustrados.
A história confirma essa realidade. O Egito, com sua riqueza e poder militar, foi humilhado diante da intervenção divina. A Babilônia, considerada eterna, caiu em uma única noite (539 a.C.), conforme a profecia de Daniel. A Roma imperial, senhora do mundo, desmoronou sob o peso de sua própria corrupção. Mais recentemente, os impérios coloniais europeus(Britânico, Francês e Português), que dominaram continentes inteiros, desmoronaram vertiginosamente. Todos esses exemplos ilustram que os considerados poderosos e intocáveis sempre têm sua queda iminente, porque todo poder humano é transitório diante do governo eterno de Deus.
Se a soberania de Deus derruba impérios, ela também sustenta a Igreja em meio às perseguições, dando sentido ao sofrimento dos fiéis. Advertência, porque nenhum coração humano deve confiar em suas próprias fortalezas. Consolo, porque o Senhor é refúgio seguro, ouvindo as orações e agindo no tempo certo.[2] A queda dos poderosos é inevitável, mas o reino de Deus permanece para sempre.
Barnes (1798-1870) comenta:
Deus é soberano. Seu trono é fixo e firme. Seu domínio não é vacilante nem mutável. Seu reinado não é como o reinado dos monarcas terrenos, que depende do capricho de uma vontade mutável, ou de paixão; não está sujeito a ser alterado pela morte, por revolução ou por nova dinastia. O trono de Deus é sempre o mesmo, e nada o pode abalar nem derrubar. […] Ele reina sobre todo o universo – os céus e a terra; por isso pode executar todos os seus propósitos.[3]
3. A perseguição da Igreja
A soberania de Deus não elimina a perseguição, mas dá sentido a ela. Calvino (1509-1564) compara os fiéis a ovelhas entre lobos, mas protegidas pelo Bom Pastor.[4] Lutero (1483-1546) reconhece que reformar a Igreja custará sangue.[5] Bavinck (1854-1921) lembra que Cristo preparou Seus discípulos para a opressão.[6] Stott (1921-2011) define a perseguição como o conflito entre sistemas de valores irreconciliáveis.[7] Bonhoeffer (1906-1945) afirma que a cruz está sempre à vista da Igreja.[8] Por sua vez, Veith observa que a Igreja está em seu melhor quando enfrenta oposição.[9]
A perseguição revela o contraste entre o coração enganoso do mundo e a fidelidade da Igreja, mas também manifesta o poder do Espírito que sustenta os fiéis.
4. Autoridade civil e governo
Calvino e outros pensadores lembram que o governo é ordenado por Deus para preservar a paz e a justiça. Os magistrados são designados para proteger a religião, a paz e a decência públicas. Jeremias exorta: “Orai pela paz da cidade” (Jr 29.7). Aristóteles (384-322 a.C.) observa que na tirania não há amizade nem justiça.[10] Sócrates e Sófocles destacam que o bom governo começa no cuidado da casa e do povo.[11] Veith interpreta a submissão bíblica como disciplina espiritual radical, reconhecendo a soberania de Deus por trás das autoridades humanas.[12]
Assim, a soberania divina relativiza todo poder humano: reis, magistrados e governantes são apenas instrumentos temporários da providência, jamais substitutos da autoridade suprema do Senhor. Assim, mesmo os que se julgam intocáveis prestarão contas diante de Deus, pois todo poder é transitório e concedido apenas para cumprir Seus propósitos. Aquele que estabelece e remove reinos é também o Juiz que exige responsabilidade de cada autoridade humana.
Considerações finais
Obadias nos lembra que o coração enganoso leva à ruína, mas a soberania de Deus garante justiça e consolo. A doutrina da soberania divina, longe de ser teórica, é fundamento para a vida cristã, sustento para a evangelização e esperança para a Igreja perseguida.
Hoje, a soberba não se manifesta apenas em fortalezas militares ou em impérios coloniais, mas também em sistemas políticos, jurídicos, econômicos e tecnológicos que se julgam inabaláveis em seus conchavos e intimidação. Governos que concentram poder, corporações que buscam monopólios e líderes que se alimentam de autoelogio pela mídia repetem a mesma ilusão de Edom: acreditar que são intocáveis. Contudo, a história e a Palavra de Deus nos lembram que todos prestarão contas diante do Senhor.
Nenhum poder humano, por mais sofisticado ou global que seja, pode resistir ao juízo divino. A soberania de Deus continua sendo advertência contra a arrogância e consolo para os fiéis: os reinos deste mundo passam, mas o Reino de Cristo permanece para sempre. Oremos por nossa nação e pela nossa Igreja.
Maringá, 09 de Março de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Cosa
[1]Sócrates, em Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 2), 1972, I.2.32, p. 46.
[2] Como bem expressou Charnock (1628-1680): “Assim como a onipotência é um oceano que não pode ser penetrado, o conforto que dela provém também é torrentes que não podem ser exauridas. (…) Como é confortador saber que temos um Deus que pode fazer o que lhe agrada: nada é tão difícil que Ele não possa realizar; nada é tão forte que Ele não possa prevalecer sobre ele! Não precisamos temer os homens, visto que temos Alguém que os detenha, nem temer os demônios, uma vez que temos Alguém que os acorrente. Seu poder não foi gasto totalmente na Criação e nem é enfraquecido por Ele preservar todas as coisas”. (Stephen Charnock, The Existence and Attributes of God, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Two Volumes in one), 1996 (Reprinted), v. 2, p. 98,99).
[3]Albert Barnes, Notes on the Old Testament: Explanatory and Practical, 10 ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1973, v. 3, (Sl 103.19), p. 79.
[4]Cf. John Calvin, On Monday the 12th of August 1555 The 55th Sermon, which is the fifth upon the seventh Chapter: In: THE SERMONS of Master John Calvin upon the first book of Moses called Deuteronomy). (Disponível em: https://www.monergism.com/thethreshold/sdg/calvin/Sermons%20on%20Deuteronomy% 20-%20John%20Calvin.pdf).
[5] Cf. Martinho Lutero, Conversas à mesa, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, # 371, p. 214.
[6] Cf. Herman Bavinck, A Filosofia da Revelação, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 275.
[7] Cf. John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte, 3. ed. São Paulo: ABU, 1985, p. 43
[8] Cf. Dietrich Bonhoeffer, Discipulado, 2. ed. São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1984, p. 56-57.
[9] Cf. Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 93-94.
[10] Cf. Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 4), 1973, VIII.11, 1160 30. p. 391
[11] Cf. Sófocles, A Antígone, 2. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1968, 660, p. 26
[12]Cf. Gene Edward Veith, Jr. De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 30
