Cotidiano

O Altar Não se Curva ao Campo: A Fidelidade da Igreja em Tempos de Copa

A cada quatro anos, a Copa do Mundo paralisa o Brasil e coloca a sociedade em ritmo de feriado, independentemente da inflação, do déficit público, da pobreza, do assistencialismo eleitoreiro, do estímulo irresponsável às apostas, dos escândalos nos mais diversos setores e das crises institucionais.

Para a igreja de Cristo, porém, esse período traz à tona um teste de prioridades: o que fazer quando os jogos da Seleção coincidem com o horário do culto? Embora a pressão cultural e os apelos pela conveniência sejam fortes, ceder a essa mudança é um equívoco teológico e pastoral. O altar de Deus não deve se curvar ao calendário dos homens, pois a Escritura nos adverte: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12.2).

1. A Mensagem Teológica do Altar Inabalável

A liturgia e a regularidade do culto comunitário não são meras formalidades burocráticas; elas são uma declaração pública de prioridades espirituais. Quando a liderança decide manter o horário do culto, apesar do clamor das ruas, ela comunica verdades teológicas fundamentais:

  • A Primazia de Deus sobre a Cultura: O Reino de Deus não se curva ao calendário do entretenimento humano.
  • O Culto como Contracultura: Em uma sociedade que paralisa tudo por uma partida, a igreja que mantém suas portas abertas atua como farol de estabilidade eterna.
  • Educação dos Afetos: O coração humano é uma fábrica de ídolos. Ao não ceder à pressão, o Conselho ajuda a treinar os afetos do povo, mostrando que devoção exige renúncia de prazeres temporários.

2. Segurança e Fé: O Cuidado sem Covardia

É papel do pastor zelar pelas ovelhas, mas o zelo não pode se transformar em recuo espiritual. Declarar que as portas da casa de Deus fecharão porque o país está focado em um esporte envia a mensagem de que nossa segurança depende do cenário social, e não da soberania divina. “Uns confiam em carros, e outros, em cavalos, mas nós, porém, faremos menção do nome do Senhor, nosso Deus” (Sl 20.7). A igreja deve marchar em confiança, sabendo que sua proteção vem do Alto.

3. O Barulho do Mundo e o Silêncio do Santuário

É inegável que fogos (mesmo proibidos) e gritos invadem os templos durante as partidas. Contudo, a adoração verdadeira nunca dependeu de isolamento acústico, mas de corações firmes. O contraste entre o clamor profano e o louvor sagrado é pedagógico: “O Senhor, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Hc 2.20). O barulho lá fora não pode calar a nossa liturgia aqui dentro.

4. Comodidade Não é Virtude Cristã

Alterar o horário do culto para que os membros não percam o jogo é alimentar a infantilidade espiritual. O verdadeiro discipulado exige renúncia e sacrifício. “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24). O problema não está no relógio, mas no coração. A igreja não deve moldar sua liturgia para acomodar a tibieza espiritual de quem coloca o entretenimento acima do Reino.

5. Tradição e Fidelidade: Princípios Inegociáveis

O dia e o horário do culto público representam um compromisso da comunidade com o Criador. Alterar esse compromisso por causa de um evento de lazer relativiza o sagrado. “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.25). Se não deixamos de nos reunir por perseguições ou crises, por que deixaríamos por noventa minutos de futebol? Lembremos dos cultos mantidos na Capela de Westminster durante o perigo iminente de ataques aéreos em Londres. Lloyd-Jones permaneceu firme, e sua igreja saiu fortalecida.

6. O Testemunho de Quem Sabe O Que É Mais Importante

Manter o horário inalterado comunica claramente os valores da igreja para o mundo e para as novas gerações. O futebol é legítimo entretenimento, mas nunca substituto da devoção. “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33). A igreja que mantém suas portas abertas no horário habitual atua como força contracultural, lembrando que, enquanto as paixões terrenas passam, a Palavra e o culto ao nosso Deus permanecem para sempre.

Considerações finais: A Firmeza que Edifica

Adaptar a igreja ao ritmo do mundo pode parecer estratégia inteligente de relevância cultural a curto prazo, mas cobra um preço alto na identidade espiritual da comunidade.

Lembrei-me do filme Carruagens de Fogo (1981), que retrata Eric Liddell, atleta escocês que se recusou a competir em um domingo por fidelidade à sua fé. Sua firmeza se tornou testemunho mundial. Assim como Liddell declarou, com sua vida, que a prioridade é eterna, também a igreja, ao manter o culto em tempos de Copa, afirma diante do rebanho e da sociedade que, venha o que vier, haja a festa que houver nas ruas, a prioridade máxima da Igreja de Cristo permanece inalterada: adorar ao Rei dos reis e proclamar o Seu Reino eterno.

Que Deus nos dê discernimento e nos livre do comodismo cultural — que reduz o culto a uma questão de conveniência — e também da religiosidade apenas externa, vazia e hipócrita — que mantém o culto apenas como fachada de piedade. Que o Senhor nos fortaleça para permanecermos firmes, mesmo quando o mundo inteiro se curva diante de seus ídolos passageiros. Amém.

Maringá, 30 de junho de 2026

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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